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FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: FREUD, Sigmund. O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911-1913). Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 109-119.

 

“À primeira vista, parece ser uma imensa desvantagem, para a psicanálise como método, que aquilo que alhures constitui o fator mais forte no sentido do sucesso nela se transforme no mais poderoso meio de resistência” (p. 135).

 

“As peculiaridades da transferência para o médico, graças às quais ela excede, em quantidade e natureza, tudo que se possa justificar em fundamentos sensatos ou racionais, tornam-se inteligíveis se tivermos em mente que essa transferência foi precisamente estabelecida não apenas pelas ideias antecipadas conscientes, mas também por aquelas que foram retidas ou que são inconscientes” (p. 112).

 

“A ambivalência nas tendências emocionais dos neuróticos é a melhor explicação para sua habilidade em colocar as transferências a serviço da resistência. Onde a capacidade de transferência tornou-se essencialmente limitada a uma transferência negativa, como é o caso dos paranoicos, deixa de haver qualquer possibilidade de influência ou cura” (p. 118).

 

“Nas instituições em que doentes dos nervos são tratados de modo não analítico, podemos observar que a transferência ocorre com a maior intensidade e sob as formas mais indignas, chegando a nada menos que servidão mental e, ademais, apresentando o mais claro colorido erótico” (p. 136).

FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial (1915). In: FREUD, Sigmund. O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911-1913). Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 175-188.

 

“Todo principiante em psicanálise provavelmente se sente alarmado, de início, pelas dificuldades que lhe estão reservadas quando vier a interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimido. Quando chega a ocasião, contudo, logo aprende a encarar estas dificuldades como insignificantes e, ao invés, fica convencido de que as únicas dificuldades realmente sérias que tem de enfrentar residem no manejo da transferência” (p. 177).

 

“É, portanto, tão desastroso para a análise que o anseio da paciente por amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido. O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição” (p. 182).

FREUD, Sigmund. Conferência XXVII: transferência (1917). In: FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte III). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

“O neurótico realmente curado tornou-se outro homem, embora, no fundo, naturalmente permaneceu o mesmo; ou seja, tornou-se o que se teria tornado na melhor das hipóteses, sob as condições mais favoráveis. Isso, porém, já é muita coisa” (p.437).

 

“Por esse meio, a transferência que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxílio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos” (p.445).

FREUD, Sigmund. Compêndio de psicanálise e outros escritos inacabados (1940). Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

 

“O trabalho do sonho é, portanto, em essência, um caso de elaboração inconsciente de processos de pensamentos pré-conscientes.” (p. 111)

 

“Além disso, a relação de transferência traz consigo duas outras vantagens. Quando o paciente coloca o analista no lugar de seu pai (de sua mãe), concede-lhe também o poder que seu Supereu exerce sobre seu Eu, já que esses pais foram, afinal, a origem do Supereu.”

LACAN, Jacques. Intervenção sobre a transferência (1951). In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

 

“a transferência não resulta de nenhuma propriedade misteriosa da afetividade e, mesmo quando se trai sob uma aparência de emoção, esta só adquire sentido em função do momento dialético em que se produz” (p. 225)

 

“a transferência tem sempre o mesmo sentido, de indicar os momentos de errância e também de orientação do analista, o mesmo valor de nos convocar à ordem de nosso papel: um não-agir positivo, com vistas a ortodramatização da subjetividade do paciente” (p. 225).

LACAN, Jacques. O seminário: livro 5: as formações do inconsciente (1958). 1.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 435-450.

 

“Em que foi que a descoberta freudiana depositou a ênfase, em seu início? No desejo. O que Freud descobriu essencialmente, o que ele apreendeu nos sintomas, fossem estes quais fossem, quer se tratasse de sintomas patológicos, quer se tratasse do que ele interpretou no que até então se apresentava como mais ou menos redutível à vida normal, como o sonho, por exemplo, foi sempre um desejo” (p. 331).

 

“Substituímos por um alguém o ninguém a quem o sintoma é dirigido, na medida em que ele está no caminho do reconhecimento do desejo. Assim, sempre desconhecemos, até certo ponto, o desejo que quer fazer-se reconhecer, uma vez que lhe atribuímos seu objeto, quando, na verdade, não é de um objeto que se trata – o desejo é desejo daquela falta que, no Outro, designa um outro desejo” (p. 340).

LACAN, Jacques. O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 119-129.

 

“A presença do analista é ela própria uma manifestação do inconsciente” (p. 121).

 

“Este conceito é determinado pela função que tem numa práxis. Este conceito dirige o modo de tratar os pacientes” (p.120).

LACAN, Jacques. O engano do sujeito suposto saber (1967). In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

“Não é do discurso do inconsciente que colheremos a teoria que o explica.” (pag. 330)

 

“É impossível encontrar o inconsciente sem usar toda a borracha, já que é sua função apagar o sujeito. […] Isso lembra que o inconsciente não é perder a memória; é não lembrar do que se sabe.” (pag. 334)

 

“Tudo o que é inconsciente joga apenas com efeitos de linguagem. Trata-se de algo que se diz sem que o sujeito se represente nisso nem que nisso diga – nem tampouco saiba o que diz.” (pag. 335)

LACAN, Jacques. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11 (1976). In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

 

“Quando um esp de um laps – ou seja […], o espaço de um lapso – já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente.” (pag. 567)

 

“Não há verdade que ao passar pela atenção, não minta”. (pag. 567)

 

“A miragem da verdade, da qual só se pode esperar a mentira (é a isso que se chama resistência, em termos polidos), não tem outro limite senão a satisfação que marca o fim de análise.” (pag. 568)

MILLER, Jacques-Alain (1994). Come iniziano le analisi. Disponível em: https://enapol.com/xi/wp-content/uploads/2023/03/ENAPOL-Jacques-Alain-Miller-PT.pdf.

 

“que o candidato à psicanálise é capaz de fornecer o texto a ler, a interpretar, e mesmo de o ler de diversas maneiras. É isto que chamamos de ‘entregar-se à associação-livre’ que é uma cadeia, são cadeias de significantes que ele deve ser capaz de produzir sem recuar diante de sua incoerência, seu absurdo e até sua obscenidade ou sua falta de sentido, significantes que ele não controla, significantes sem mestre”.

 

“para circunscrever o modo de dizer próprio à psicanálise, não basta formular que se trata de produzir enunciados que não tomamos em nossa conta. É preciso ainda que esses enunciados sejam colocados na conta de meu inconsciente. Isto quer dizer que não me reconheço nisto, não estou aí, mas, de certo modo, ainda assim estou aí. É reconhecer que o modo de dizer próprio à análise é o que digo em análise, é uma leitura do inconsciente”.

 

“As análises começam pela demanda. A transferência é um efeito da demanda, e poderíamos até dizer: Uma vez que há demanda, há transferência. Isto é absolutamente defensável”.

MILLER, Jacques-Alain. O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet: O corpo falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: EBP, 2016. p. 29-30.

 

“O real do laço social é a inexistência da relação sexual. O real do inconsciente é o corpo falante. Enquanto a ordem simbólica era concebida como um saber regulando o real e lhe impondo sua lei, a clínica era dominada pela oposição entre neurose e psicose. Agora, a ordem simbólica é reconhecida como um sistema de semblantes que não comanda o real, mas lhe é subordinada. Um sistema respondendo ao real da relação sexual que não existe”.

MILLER, Jacques-Alain. “Uma psicanálise tem estrutura de ficção”. In: SANTIAGO, Ana Lydia (org.). Aposta no passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018. p. 91-102.

 

“Uma análise que se inicia é rica em acontecimentos. Isso muda, o que chamamos de transferência, palavra gloriosa para qualificar tal mudança. Transporta-se para outra pessoa o que se tem na cabeça, o que se dizia a si mesmo. É um fato de transmissão, de comunicação” (p. 92).

 

“O que se diz conscientemente aparece, na maioria das vezes, de maneira esboçada, permanecendo no conjunto, em termos estritos, amorfo, sem ter sido posto em forma” (p. 92).

 

“Uma análise que se inicia ocorre em uma atmosfera de revelação. (…) o sujeito se esforça em fazer passar o acontecimento de pensamento para a fala” (p. 95).

 

“Na análise que dura, há por certo revelações, mas o que na verdade mais se espera – tanto o analisante quanto o analista – é algo próximo da renúncia da libido de alguns elementos rastreáveis que foram desembaraçados na época da revelação” (p. 96).

 

“Na análise, a ficção é um fazer que repousa em um dizer. Mas o fictício se opõe ao real, e já que há tempos tomei como slogan a orientação para o real, isso obriga a extrair todas as consequências da estrutura de ficção da linguagem” (p. 97).

 

“Não estamos a ponto de proferir algo mais agudo, mais arriscado, de dizer que o inconsciente, em análise, tem estrutura de ficção? Ou que o inconsciente freudiano tem estrutura de ficção? O ultimíssimo ensino de Lacan me parece ilegível quando se descarta essa orientação. De que real seria então a ficção? Digamos, para ir direto ao ponto: do gozo, que não tem estrutura de ficção” (p. 98).

 

“Quando a análise dura, isso se conclui sabendo-se se seu eixo se desloca para a oposição entre saber e gozo, explicitada por Lacan em suas fórmulas dos quatro discursos” (p. 98).

 

“Primeira leitura: o psíquico, para Lacan, é uma ficção e o real, a lógica. Mas tudo indica – em particular, a indicação de que ele se refere a um inconsciente real – que a segunda leitura a ser feita é uma psicanálise tem estrutura de ficção. Se o real é o gozo, o inconsciente é uma defesa contra o gozo” (p. 99).

COSENZA, Domenico. Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.

 

“A interpretação semântica dos sintomas que aponta para o seu significado inconsciente, forma clássica de interpretação analítica, não é operativa nesta área da clínica, Isso se deve ao simples fato de os pacientes apresentarem um fechamento, senão uma rejeição real do inconsciente, e não serem sensíveis à dimensão metafórica da palavra e de seus sintomas”. (p. 76)

 

“As chamadas novas formas do sintoma, que proponho aqui renomear como patologias do excesso, apresentam, por sua vez, uma rejeição radical do Outro e sua ação reguladora sobre o gozo do corpo.” (p. 42)

 

“A clínica do excesso se apresenta, portanto, como um campo no qual encontramos um impasse essencial do processo de cessão estruturante do objeto a, condição de entrada no campo do discurso e do seu funcionamento simbólico. A cessão do objeto permite uma regulação parcial do gozo e uma experiência do excesso dentro das leis do laço social, como o mais-de-gozar (plus-de-jouir)”. (p. 65)

 

“As patologias do excesso não respondem ao esquema discursivo da verdade como estrutura ficcional e do sintoma como metáfora do sujeito do inconsciente. Em vez disso, elas respondem ao regime fundamentalista e fora do discurso da verdade como um imperativo de gozo absoluto.” (p. 90)

 

“ … a verdade torna-se fundamentalista: sem separação entre significante e significado, ela faz Um com o imperativo do gozo. A verdade torna-se o irresistível do gozo, que assume diferentes formas de acordo com as diferentes soluções sintomáticas do sujeito.” (p. 95)

COSENZA, Domenico. Entre o cair e o despertar: um fim de análise. Belo Horizonte: Scriptum, 2026.

 

“Entretanto, o sujeito suposto saber não é a última palavra de Lacan sobre a transferência. Quanto mais avança em seu ensino, mais nos mostra que este se apoia sobre um fundamento real que não é sem relação com o laço que existe entre o desejo do analista — que é o que opera em uma análise — e o desejo do analisante.” (p. 106)

 

“Lá, não é da transferência como sujeito suposto saber de que o analista pode servir-se como motor que impulsiona o encontro com esses sujeitos. Antes bem, é motorizando a função de objeto que ele encarna e colocando em prática, não os recursos da interpretação do sentido, mas os atos que aponta ao não sentido do sintoma, a fronteira entre o significante e o gozo.” (p. 109-110)

 

“Os efeitos desta orientação na direção da cura e da política da transferência se distanciam da deriva empática puramente especular, para, em troca, colocar em jogo o ato analítico primeiramente, sob a forma do corte, apontando ao descolamento do parlêtre do gozo em que se continua preso.” (p. 111)

 

“É a condição de produzir uma perda de gozo no primeiro tempo do tratamento, que o sujeito poderá, eventualmente, em um segundo tempo, abrir a porta do inconsciente transferencial e instalar o sujeito suposto saber, que o levará a dirigir-se para seu próprio real residual.” (p. 110-111)

COSENZA, Domenico. Entre o cair e o despertar: um fim de análise. Belo Horizonte: Scriptum, 2026.

 

“…Miller nos convida a repensar a experiência contemporânea da análise a partir, não da relação do analisante com a elucubração do saber inconsciente que o distingue, a cadeia significante S1-S2, mas da relação do analisante com o Um do gozo que o distingue, com seu significante amo: seu S1 sozinho, desprendido do S2.” (p. 124)

ANSERMET, F. Tudo, imediatamente. Revista Agente, n. 7, ano 1.

 

“Sintomas que finalmente não são sintomas, mas sim sistemas de gozo, nos quais o sujeito se aliena em eco à cultura dentro da qual se encontre imerso, submerso.” (p. 1)

 

“A hiperatividade anula o tempo, no projeto de conservar tudo: não somente que nada se perca, mas de tornar possível uma recuperação do que tenha sido perdido; recuperação de um gozo perdido através da colocação em função do gadget como objeto mais de gozar.” (p. 2)

 

“Essa é a aposta da análise: além do fator imediato, que o hiperativo se impõe em ressonância com a época e o mercado no fora do tempo, reintroduzir a escansão do tempo do sujeito, reintroduzir a escansão do tempo, a de um tempo lógico, mais do que a de um tempo que é feito apenas de um instante que gira, acelerado sobre si mesmo.” (p. 3)

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