XXX JORNADAS DA EBP-BAHIA – Argumento
O INCONSCIENTE E A TRANSFERÊNCIA, HOJE
Freud descobre o inconsciente não como uma simples região obscura da mente, mas como uma instância ativa, que produz efeitos na fala, nos sonhos, nos sintomas, nos lapsos e nos atos do sujeito. O sonho da injeção de Irma aparece como o ponto inaugural dessa descoberta. O inconsciente se revela como uma “outra cena”, que opera para além da intenção consciente do sujeito[1].
O ensino de Lacan testemunha uma passagem fundamental: do inconsciente estruturado como linguagem − interpretável, transferencial − ao inconsciente real, articulado ao corpo falante, à lalíngua e ao gozo[2]. Nesta perspectiva, pensar o inconsciente hoje implica reconhecer que já não estamos apenas diante de um sujeito interpretável pelo sentido, mas diante de manifestações do gozo que escapam à interpretação clássica. O foco desloca-se, então, da decifração dos significantes para as marcas de gozo inscritas por lalíngua, evidenciando uma dimensão do inconsciente que não se reduz à produção de significações.
Se, no primeiro ensino de Lacan, o inconsciente aparecia como discurso do Outro, organizado pela lógica significante, pela metáfora, pelo desejo e pela transferência, no último ensino ele passa a ser pensado como aquilo que insiste como real: um saber sem sujeito pleno, um saber que se escreve no corpo e que frequentemente emerge sob a forma de fenômenos de repetição, acontecimentos de corpo, fixações de gozo, compulsões, excessos ou rupturas do laço simbólico. Um marco decisivo encontramos no Seminário Mais, ainda, [3]onde Lacan fala de um saber singular que “escapa ao falante” e que seu caráter é real, impossível. E é aí que aparece a noção de falasser, deslocando o foco do sujeito do significante para o corpo afetado pelo gozo.
Pensar o inconsciente hoje exige então considerar a transformação contemporânea do laço social. Estamos no campo do inconsciente é a política[4]! A época atual tende a enfraquecer os grandes referenciais simbólicos de autoridade, tradição, Nome-do-Pai, produzindo sujeitos menos organizados pelo recalque e mais confrontados diretamente com modalidades de gozo. O sofrimento contemporâneo frequentemente não se apresenta mais como formação do inconsciente clássica: sintoma neurótico interpretável, sonho, lapso, mas como angústias difusas, fenômenos corporais, excessos, adições, passagens ao ato, errâncias identitárias, hiperconectividade, solidão e experiências de desenlace subjetivo que se manifestam como sintomas sem Outro[5], autárquicos[6], dessubjetivados e autoeróticos[7], que nos permitem interrogar a própria práxis analítica hoje.
Nesse contexto, o inconsciente hoje pode ser pensado menos como mensagem a decifrar e mais como marca singular de lalíngua sobre o corpo. O sintoma deixa de ser apenas portador de sentido recalcado para tornar-se modo de amarração do gozo. É exatamente o horizonte do sinthoma no último Lacan que, como uma invenção singular, permite ao sujeito sustentar alguma consistência diante do real. O analista já não opera apenas pela interpretação do sentido oculto, mas pela possibilidade de tocar a maneira singular pela qual cada falasser goza de lalíngua.
As consequências clínicas na abordagem do inconsciente e da transferência hoje são de outra ordem: o sintoma é tomado como solução singular (e não apenas como mensagem); o corpo ganha centralidade clínica; o gozo aparece menos mediado pelo simbólico; o amor surge frequentemente como tentativa precária de suplência e a transferência não se reduz ao sujeito suposto saber, mas envolve a presença do analista enquanto operador sobre o real do gozo.
Desse modo, o “inconsciente hoje” talvez possa ser definido como o inconsciente de um tempo em que o sujeito está mais exposto ao real sem mediação suficiente do simbólico. Um inconsciente menos “freudiano” no sentido clássico da interpretação do recalcado, e mais “lacaniano” em seu último ensino: inconsciente-corpo, inconsciente-lalingua, inconsciente-gozo.
Mas, se antes a interpretação privilegiava os efeitos de significação, hoje ela se orienta cada vez mais pelo fora de sentido que habita lalíngua e marca o corpo do falasser. O fazer do analista consiste então em acompanhar o sujeito na construção de um saber-fazer com seu modo singular de gozar. O ato analítico não visa a restauração de uma norma ou de um ideal, mas a produção de uma diferença na relação do sujeito com o real que o determina. É nessa perspectiva que a clínica contemporânea exige do analista uma renovada atenção aos acontecimentos de corpo, aos fenômenos de gozo e às invenções sintomáticas que constituem, para cada um, uma resposta singular ao impossível de suportar.
É em torno dessas questões que nossas Jornadas se propõem a trabalhar. E, para tanto, convidamos a todos a participarem dessa conversação, apostando que a elaboração coletiva pode abrir novas perspectivas para pensar a clínica, a política do inconsciente e os desafios da psicanálise na atualidade.