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Cartel responsável: Sônia Vicente (Mais-Um), Paulo Gabrielli, Célia Salles, Ethel Poll e Virgínia Dazzani

 

1.1 O inconsciente é a política

Este tópico se propõe a explorar as consequências da célebre formulação de Jacques Lacan, apresentada no Seminário 14 e retomada por Jacques-Alain Miller em Intuições Milanesas: “o inconsciente é a política”. Mais do que situar a política como objeto da psicanálise, trata-se de interrogar como o sujeito do inconsciente é constituído pelos discursos, pelos laços sociais e pelas formas históricas do Outro.

Ao afirmar, em 1953, que o analista deve alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época, Lacan indicava a inseparabilidade entre a experiência analítica e os discursos que estruturam o laço social. Essa orientação encontra um desenvolvimento decisivo em 1967, quando formula que “o inconsciente é a política”. Consiste em duas proposições que convergem na mesma direção: a de que a psicanálise não pode se isentar de explorar as consequências clínicas dos desafios do seu tempo.

Assim, o enunciado “inconsciente é a política” remete ao que se produz a partir do laço social. Sendo o inconsciente aquilo com que um analista precisa operar, o analista e a psicanálise têm a ver com o laço social, com aquilo que faz laço com o Outro e que o coloca frente a frente com a cidade e com a subjetividade da época.

Esta formulação é seguida de um esclarecimento que nos dá a chave para compreender a dimensão dada à sua argumentação, ou seja: “o que liga os homens entre eles, o que os opõe, deve ser motivado pela lógica que tentamos articular” — lógica que, naquele momento de seu ensino, era pensada a partir da fantasia. O inconsciente, portanto, não se reduz à interioridade do sujeito, mas provém do laço social, isto é, das relações que articulam e tensionam os sujeitos entre si.

Essa concepção será posteriormente formalizada por Lacan na teoria dos discursos. O inconsciente se produz na relação do sujeito com o Outro e, mais precisamente, na relação com o Outro sexo. É nesse percurso que Lacan encontra a inexistência da relação sexual e a interposição do objeto a. O inconsciente provém do laço social justamente porque não existe complementaridade natural capaz de organizar plenamente as relações humanas.

A definição do inconsciente pela política possui raízes profundas no ensino de Lacan e radicaliza a proposição anterior de que “o inconsciente é o discurso do Outro”. Desde o início de seu ensino, Lacan insiste que o inconsciente é estruturado pela relação com o Outro, mas um Outro que é dividido, inconsistente, que não existe como Um.

Nessa perspectiva, a fórmula “o inconsciente é a política” amplia a noção freudiana do Witz — o chiste — como processo social cuja satisfação depende do reconhecimento do Outro. A análise freudiana do chiste justifica a concepção do inconsciente como transindividual. Assim, é possível passar da ideia de que “o inconsciente é transindividual” para a de que “o inconsciente é político”, desde que se compreenda que esse Outro é atravessado pela divisão e pela falta.

Por isso, “o inconsciente é a política” não pode ser confundido com “a política é o inconsciente”. Esta última formulação implicaria uma redução, ao passo que a primeira constitui uma ampliação, pois implica retirar o inconsciente de uma esfera autocentrada para inscrevê-lo na cidade, na história e na discórdia própria dos discursos que organizam cada época.

Em uma contemporaneidade marcada pela globalização, pela fragmentação das referências simbólicas e pela multiplicação dos modos de gozo, a clínica psicanalítica é convocada a repensar suas ferramentas conceituais. As transformações do laço social — da sociedade disciplinar à era do gozo — incidem diretamente sobre a prática analítica e sobre as formas atuais do sofrimento psíquico.

Muitos sintomas contemporâneos apresentam-se menos como formações a serem interpretadas e mais como tentativas de tratamento de um gozo deslocalizado. Cabe, então, recolocar em jogo a função poética da língua, permitindo ao falasser construir arranjos singulares capazes de produzir uma nova relação com seu modo de gozar.

Como afirma Jacques-Alain Miller, a fórmula “o inconsciente é a política” funciona “como uma pedra n’água”, propagando ondas tanto na prática quanto na teoria psicanalítica. Suas consequências continuam a reverberar, convocando a psicanálise a sustentar uma leitura do sujeito inseparável dos discursos, da história e das formas contemporâneas do laço social.

 

1.2 Inconsciente Transferencial e Inconsciente Real

O Inconsciente Transferencial se constitui como um saber sobre a verdade, sustentado pela transferência e articulado à dimensão simbólico-imaginária. Ele permite ao sujeito localizar algo de sua hystoeria, de suas identificações e do gozo. O primeiro ensino de Lacan privilegia essa vertente, concebendo o inconsciente como estruturado como uma linguagem e acessível através de suas formações: sonhos, atos falhos, sintomas e lapso, indicando, então, que a interpretação é do Inconsciente. Sendo assim, qual o fazer do analista frente ao inconsciente intérprete?

No seu último ensino, Lacan introduz o Inconsciente Real, ligado ao acontecimento de corpo, às marcas de gozo e àquilo que insiste e itera para além do sentido. O que está em jogo não é apenas o que o Inconsciente quer dizer, mas aquilo que ele faz gozar. O Inconsciente Real, representado pela falta de significante no Outro, coloca o sujeito diante de sua radical estranheza iniciando o movimento de busca de uma significação. Diante do vazio existencial provocado pelo desamparo primordial só resta como saída a invenção ou a catástrofe.

O falasser é estruturalmente exilado de qualquer identidade plena consigo mesmo. A linguagem introduz uma separação irredutível entre o sujeito e seu ser, entre o corpo e o gozo, entre aquilo que se vive e aquilo que pode ser dito. O Inconsciente Real testemunha justamente esse ponto de estrangeiridade radical que habita todo falasser.

Diante desse exílio estrutural, cada falasser é convocado a inventar uma solução singular. O sintoma, a fantasia, os ideais e as identificações podem ser compreendidos como tentativas de dar uma forma ao impossível de dizer e de localizar um modo de satisfação. Nessa perspectiva, o sintoma não é apenas uma mensagem cifrada, demonstra também seu núcleo real, expressão do gozo.

Muitos dos sintomas atuais apresentam-se menos como formações do inconsciente a serem interpretadas e mais como modos de tratamento de um gozo deslocalizado. Fenômenos de corpo, urgências subjetivas, toxicomanias, passagens ao ato, transtornos alimentares, adições e diversas formas de sofrimento contemporâneo frequentemente evidenciam um enfraquecimento das referências simbólicas tradicionais. Desse modo, a experiência analítica orientada pelo real não consiste em produzir sentido, mas no fazer com Um-equivoco[1]Unbewusst. O analista, ao equivocar som e sentido, aposta na invenção singular, numa maneira do falasser habitar seu exílio e encontrar uma forma possível de laço com o Outro.

Perguntamo-nos, então: como opera a transferência quando o que se apresenta na  experiência não é um sujeito suposto saber, mas um gozo que insiste para além do sentido? De que modo o analista pode fazer parceria com o falasser diante daquilo que, do acontecimento de corpo e das marcas de lalíngua, escapa à interpretação? Em uma época marcada pelo enfraquecimento das referências simbólicas e pela incidência direta do real, quais são as condições para que uma análise possibilite a invenção de um fazer singular com o gozo? Se o Inconsciente Real não se revela prioritariamente pela via do sentido, mas pela repetição do gozo UM inscrito na letra de corpo, como pode operar a psicanálise? O que pode uma análise diante daquilo que insiste, itera e não cessa de não se escrever?

 

Referências:

Ansermet, F. (2026). Renascer para a linguagem: De um exílio a outro. Curinga, 61 (Dossiê Exílios), 20–25. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais.

Bassols, M. (2026). O duplo exílio da verdade. Curinga, 61 (Dossiê Exílios), 26–31. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais.

Brousse, M-H. O Inconsciente é a Política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2018.

Freud, S. (2010). O inconsciente. In Obras completas (Vol. 12, P. C. de Souza, Trad., pp. 99–150). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1915).

Freud, S. (1915/2010). Pulsões e suas vicissitudes. In Obras completas (Vol. 12). Companhia das Letras.

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In Obras completas (Vol. 14, P. C. de Souza, Trad., pp. 161–239). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1920).

Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. In Obras completas (Vol. 18, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–122). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1930).

Freud, S. (2011). O eu e o isso. In Obras completas (Vol. 16, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–74). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1923).

Freud, S. (2011). Psicologia das massas e análise do eu. In Obras completas (Vol. 15, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–113). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1921).

Freud, S. (2012). Totem e tabu. In Obras completas (Vol. 11, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–244). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1913).

Freud, S. (2019). A interpretação dos sonhos (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1900).

Lacan, J. (1993). Televisão (A. Quinet, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

Lacan, J. (1966–1967). O seminário, livro 14: A lógica da fantasia [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1966 e 21 de junho de 1967.

Lacan, J. (1988). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (M. D. Magno, Trad.). Jorge Zahar. (Original publicado em 1973).

Lacan, J. (1985). O seminário, livro 20: Mais, ainda (M. D. Magno, Trad.). Jorge Zahar. (Seminário proferido em 1972-1973).

Lacan, J. (1976–1977). O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1976 e 17 de maio de 1977.

Miller, J.-A. (2011). Intuições milanesas I (Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa). Opção Lacaniana Online, 5.

Miller, J.-A. (2011). Intuições milanesas II (Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa). Opção Lacaniana Online, 6.

Miller, J.-A. (2011). O ser e o Um: Seminário de orientação lacaniana III, 13. Curso ministrado de 19 de janeiro a 15 de junho de 2011.

Miller, J.-A. (2023). A teoria do parceiro. Pharmakon Digital, 4, 31–72. https://pharmakondigital.com/a-teoria-do-parceiro

Miller, J.-A. (1998). Silet: Os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan (Seminário de orientação lacaniana).

Naparstek, F., & Sotelo, I. (2025). Freud y Lacan: Una brújula para leer los síntomas contemporáneos. Olivos, Argentina: Grama Ediciones.

 


[1] Tradução livre da expressão “l´une-bévue” utilizada por Lacan no seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1976 e 17 de maio de 1977.

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