Cartel responsável: Fátima Sarmento (Mais-Um), Camilla Costa, Luiz Mena, Milena Nadier e Laiz Cardozo
Logo no início de sua prática analítica, Freud foi surpreendido pela transferência amorosa, identificando a partir daí uma íntima conexão entre o amor e a palavra. Ao falar e acreditar no sintoma, o sujeito atribui um saber ao Outro e o amor passa a ser transferido ao analista. Assim, a crença transferencial é o amor, mas um amor que se dirige ao saber. É, a partir disso, que Miller[1] admite que só amando o inconsciente é possível fazer existir, não a relação sexual, mas a relação simbólica (S1-S2).
Verifica-se na clínica da neurose que, quando o Outro e o desejo estão preservados, há uma garantia para o estabelecimento da transferência. Isto é algo observável tanto com o sujeito na histeria que é sensível à palavra do Outro, quanto nos casos de neurose obsessiva nos quais o consentimento ao Outro envolve dificuldades e desconfiança. Já na psicose, a transferência passa pela atribuição de um Outro perseguidor passível de encarnar-se na pessoa do analista. E, de modo transestrutural, na clínica com crianças, ela é atravessada por uma tensão entre o analista e o Outro parental, por vezes, acometido de um familiarismo delirante[2]. Essas diferentes manifestações da transferência ensinam como suas variações ocorrem de acordo com a relação que o sujeito estabelece com o Outro.
Numa época marcada pela inconsistência do Outro, o inconsciente passa a ser abordado na dimensão do Um que dialoga sozinho. Nesse contexto, no qual o amor se sustenta numa suposição de um saber no real e não no Outro, o “verdadeiro ódio”[3], resultado de ausstossung, torna-se uma via privilegiada para a transferência negativa. É aqui, também, que os novos sintomas[4], aqueles que pressupõem um rechaço ao saber e ao amor, convocam o analista a repensar sua posição na parceria-sintomática.
Assim, apostar na transferência hoje é sustentar na posição do analista sua presença, fazer encarnar o resto de gozo não simbolizável para que a partir daí possa se fazer surgir a crença em um significante qualquer. É com o corpo próprio, enquanto presença, que o analista poderá vir a ser para o sujeito a testemunha de uma perda[5].
[1] MILLER. J-A. Uma fantasia. In: A fábrica de psicanalistas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2025.
[2] LAURENT, E. A análise da criança e a paixão familiar. In: A sociedade do sintoma: A psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
[3] MILLER, J.-A. et al. Transferencia negativa: seminario sobre politica de la transferência ELP. Buenos Aires: Tres Haches, 2000, p.65.
[4] MILLER, J-A. Patologia de ética. In: Lacan Elucidado: Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
[5] LACAN, J. Presença do analista. In: Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.