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“À primeira vista, parece ser uma imensa desvantagem, para a psicanálise como método, que aquilo que alhures constitui o fator mais forte no sentido do sucesso nela se transforme no mais poderoso meio de resistência” (p. 135).

 

“As peculiaridades da transferência para o médico, graças às quais ela excede, em quantidade e natureza, tudo que se possa justificar em fundamentos sensatos ou racionais, tornam-se inteligíveis se tivermos em mente que essa transferência foi precisamente estabelecida não apenas pelas ideias antecipadas conscientes, mas também por aquelas que foram retidas ou que são inconscientes” (p. 112).

 

“A ambivalência nas tendências emocionais dos neuróticos é a melhor explicação para sua habilidade em colocar as transferências a serviço da resistência. Onde a capacidade de transferência tornou-se essencialmente limitada a uma transferência negativa, como é o caso dos paranoicos, deixa de haver qualquer possibilidade de influência ou cura” (p. 118).

 

“Nas instituições em que doentes dos nervos são tratados de modo não analítico, podemos observar que a transferência ocorre com a maior intensidade e sob as formas mais indignas, chegando a nada menos que servidão mental e, ademais, apresentando o mais claro colorido erótico” (p. 136).

“Todo principiante em psicanálise provavelmente se sente alarmado, de início, pelas dificuldades que lhe estão reservadas quando vier a interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimido. Quando chega a ocasião, contudo, logo aprende a encarar estas dificuldades como insignificantes e, ao invés, fica convencido de que as únicas dificuldades realmente sérias que tem de enfrentar residem no manejo da transferência” (p. 177).

 

“É, portanto, tão desastroso para a análise que o anseio da paciente por amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido. O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torná-lo desagradável para a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição” (p. 182).

“O neurótico realmente curado tornou-se outro homem, embora, no fundo, naturalmente permaneceu o mesmo; ou seja, tornou-se o que se teria tornado na melhor das hipóteses, sob as condições mais favoráveis. Isso, porém, já é muita coisa” (p.437).

 

“Por esse meio, a transferência que, amorosa ou hostil, parecia de qualquer modo constituir a maior ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento, com cujo auxílio os mais secretos compartimentos da vida mental podem ser abertos” (p.445).

“a transferência não resulta de nenhuma propriedade misteriosa da afetividade e, mesmo quando se trai sob uma aparência de emoção, esta só adquire sentido em função do momento dialético em que se produz” (p. 225)

 

“a transferência tem sempre o mesmo sentido, de indicar os momentos de errância e também de orientação do analista, o mesmo valor de nos convocar à ordem de nosso papel: um não-agir positivo, com vistas a ortodramatização da subjetividade do paciente” (p. 225).

“A presença do analista é ela própria uma manifestação do inconsciente” (p. 121).

 

“Este conceito é determinado pela função que tem numa práxis. Este conceito dirige o modo de tratar os pacientes” (p.120).

“que o candidato à psicanálise é capaz de fornecer o texto a ler, a interpretar, e mesmo de o ler de diversas maneiras. É isto que chamamos de ‘entregar-se à associação-livre’ que é uma cadeia, são cadeias de significantes que ele deve ser capaz de produzir sem recuar diante de sua incoerência, seu absurdo e até sua obscenidade ou sua falta de sentido, significantes que ele não controla, significantes sem mestre”.

 

“para circunscrever o modo de dizer próprio à psicanálise, não basta formular que se trata de produzir enunciados que não tomamos em nossa conta. É preciso ainda que esses enunciados sejam colocados na conta de meu inconsciente. Isto quer dizer que não me reconheço nisto, não estou aí, mas, de certo modo, ainda assim estou aí. É reconhecer que o modo de dizer próprio à análise é o que digo em análise, é uma leitura do inconsciente”.

 

“As análises começam pela demanda. A transferência é um efeito da demanda, e poderíamos até dizer: Uma vez que há demanda, há transferência. Isto é absolutamente defensável”.

“O real do laço social é a inexistência da relação sexual. O real do inconsciente é o corpo falante. Enquanto a ordem simbólica era concebida como um saber regulando o real e lhe impondo sua lei, a clínica era dominada pela oposição entre neurose e psicose. Agora, a ordem simbólica é reconhecida como um sistema de semblantes que não comanda o real, mas lhe é subordinada. Um sistema respondendo ao real da relação sexual que não existe”.

“A interpretação semântica dos sintomas que aponta para o seu significado inconsciente, forma clássica de interpretação analítica, não é operativa nesta área da clínica, Isso se deve ao simples fato de os pacientes apresentarem um fechamento, senão uma rejeição real do inconsciente, e não serem sensíveis à dimensão metafórica da palavra e de seus sintomas”. (p. 76)

 

“As chamadas novas formas do sintoma, que proponho aqui renomear como patologias do excesso, apresentam, por sua vez, uma rejeição radical do Outro e sua ação reguladora sobre o gozo do corpo.” (p. 42)

 

“A clínica do excesso se apresenta, portanto, como um campo no qual encontramos um impasse essencial do processo de cessão estruturante do objeto a, condição de entrada no campo do discurso e do seu funcionamento simbólico. A cessão do objeto permite uma regulação parcial do gozo e uma experiência do excesso dentro das leis do laço social, como o mais-de-gozar (plus-de-jouir)”. (p. 65)

 

“As patologias do excesso não respondem ao esquema discursivo da verdade como estrutura ficcional e do sintoma como metáfora do sujeito do inconsciente. Em vez disso, elas respondem ao regime fundamentalista e fora do discurso da verdade como um imperativo de gozo absoluto.” (p. 90)

 

“ … a verdade torna-se fundamentalista: sem separação entre significante e significado, ela faz Um com o imperativo do gozo. A verdade torna-se o irresistível do gozo, que assume diferentes formas de acordo com as diferentes soluções sintomáticas do sujeito.” (p. 95)

“Entretanto, o sujeito suposto saber não é a última palavra de Lacan sobre a transferência. Quanto mais avança em seu ensino, mais nos mostra que este se apoia sobre um fundamento real que não é sem relação com o laço que existe entre o desejo do analista — que é o que opera em uma análise — e o desejo do analisante.” (p. 106)

 

“Lá, não é da transferência como sujeito suposto saber de que o analista pode servir-se como motor que impulsiona o encontro com esses sujeitos. Antes bem, é motorizando a função de objeto que ele encarna e colocando em prática, não os recursos da interpretação do sentido, mas os atos que aponta ao não sentido do sintoma, a fronteira entre o significante e o gozo.” (p. 109-110)

 

“Os efeitos desta orientação na direção da cura e da política da transferência se distanciam da deriva empática puramente especular, para, em troca, colocar em jogo o ato analítico primeiramente, sob a forma do corte, apontando ao descolamento do parlêtre do gozo em que se continua preso.” (p. 111)

 

“É a condição de produzir uma perda de gozo no primeiro tempo do tratamento, que o sujeito poderá, eventualmente, em um segundo tempo, abrir a porta do inconsciente transferencial e instalar o sujeito suposto saber, que o levará a dirigir-se para seu próprio real residual.” (p. 110-111)

“…Miller nos convida a repensar a experiência contemporânea da análise a partir, não da relação do analisante com a elucubração do saber inconsciente que o distingue, a cadeia significante S1-S2, mas da relação do analisante com o Um do gozo que o distingue, com seu significante amo: seu S1 sozinho, desprendido do S2.” (p. 124)

“Sintomas que finalmente não são sintomas, mas sim sistemas de gozo, nos quais o sujeito se aliena em eco à cultura dentro da qual se encontre imerso, submerso.” (p. 1)

 

“A hiperatividade anula o tempo, no projeto de conservar tudo: não somente que nada se perca, mas de tornar possível uma recuperação do que tenha sido perdido; recuperação de um gozo perdido através da colocação em função do gadget como objeto mais de gozar.” (p. 2)

 

“Essa é a aposta da análise: além do fator imediato, que o hiperativo se impõe em ressonância com a época e o mercado no fora do tempo, reintroduzir a escansão do tempo do sujeito, reintroduzir a escansão do tempo, a de um tempo lógico, mais do que a de um tempo que é feito apenas de um instante que gira, acelerado sobre si mesmo.” (p. 3)

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