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LANÇAMENTO DAS XXX JORNADAS DA EBP BAHIA

Tânia Abreu
AME/EBP/AMP

É com alegria e entusiasmo – afeto que Lacan na “Nota italiana” [1] classifica como uma condição ética e motriz fundamental para a conclusão de uma análise e para o próprio exercício da psicanálise que eu, Tânia Abreu, uma XX ao lado de outra XX, Carla Fernandes, anunciamos o lançamento das XXX Jornadas da EBP Bahia, que ocorrerá exclusivamente de modo presencial, nos dias 13 e 14 de novembro de 2026, no Hotel Wish, Hotel da Bahia.

Trata-se de uma jornada Balzaquiana que, como o adjetivo já diz, não economizará no charme e elegância, mas não sem a maturidade que uma balzaquiana deve ter. Passaremos dois dias conversando sobre o Inconsciente e a Transferência, hoje, tendo como interlocutor privilegiado a prática clínica e nosso convidado de luxo, Domenico Cosenza, AME da SLP/AMP.

Inconsciente e Transferência são conceitos fundamentais para a psicanálise, são a base, o alicerce de um edifício e no caso da psicanálise de seu edifício teórico. Brodsky, em Short Story,[2] nos diz que “são fundamentos porque sustentam o edifício conceitual e não são contingentes. A ideia é que não se pode retirá-los, não se pode quebra-los, sem que se comprometa todo o edifício.” São conceitos que nos diferenciam de toda e qualquer “psicoterapia”, que nos distancia de qualquer prática sustentada na análise de comportamentos ou na produção de diagnósticos e etiquetas.

Associado a tais conceitos fundamentais, acrescentamos o advérbio de tempo, HOJE, que abre um leque de perspectivas clínicas para o nosso debate, que não nos furtaremos em explorar: como pensar o Inconsciente em tempos de declínio das narrativas, das análises interpretativas pela via do sentido ou ainda em tempo das evidências, do império das imagens? Ou ainda como instalar a transferência pela via do SSS em tempos de deslocamento do Outro para IAs, formulários ou protocolos?

Mas há também outra dimensão deste significante hoje, que abordaremos pela via do manejo da experiência analítica: o lugar do tempo em um tratamento. Transferência é tempo, afirmou Miller nos Usos do Lapso[3].  Ali também nos dirá que somente pela via da contingência de uma interpretação, o mais do mesmo de uma repetição poderá se deter, introduzindo o novo e o tempo no inconsciente. Interpretação que encontra seus desafios hoje, em uma clínica habitada, sobretudo, por sintomas que se caracterizam muito mais por serem cifras de gozo que mensagens a serem decifradas. Neste cenário se inscreve o que nosso convidado chama de Clínica do Excesso, uma clínica contemporânea, aquela na qual o excesso, um dos nomes do real, se localiza no corpo. O manejo do tempo e a instalação da transferência são impasses princeps desta clínica, dominada pelo a, pela falta da falta. São casos em que o analista não pode se fazer de morto, pois passa por algumas provas de fogo que o impede de se instalar neste lugar. Uma vez que o parlêtre não passou pela falta, quando a transferência se instala é mais pela via da ética do que do Sss, nos ensina Cosenza. O analista precisa consentir em ser depositário da relação do sujeito com o excesso. Ao oferecer-se como objeto presente, o sujeito pode aceitar sua presença como confiável. Cabe ainda ressaltar que o imediatismo do “tudo, imediatamente”, leva ao encurtamento do tempo de compreender, com a consequente passagem do instante de ver para o momento de concluir. Este cenário exige do analista, mais do que nunca, fazer-se de objeto para instalar a transferência pela via do amor e a operar pelas trilhas de uma “interpretação que tome a forma de ato e enodamento, esvaziando o sentido e circunscrevendo o gozo. Circunscrição, nomeação, limite, borda – operações que entram em jogo para produzir um mínimo poro…” lembra-nos Cristiane Grillo no prefácio ao livro Clínica do Excesso.[4]

Ano passado nos dedicamos a tratar as entradas em análise e o que lhe é preliminar, este ano nos dedicaremos ao desafio que é fazer uma análise durar, – outra dimensão do tempo que abordaremos, em uma época onde os sujeitos são convocados a conjugarem o tempo do infinito frente ao gozo. Ou a viverem sobre a égide da pressa, onde não se tem “tempo a perder” com o que não seja útil ou produtivo, como uma prática que salva pelos dejetos. Se uma experiência analítica é uma experiência de separação, como conduzi-la em tempos nos quais o próprio Outro social induz os sujeitos a gozarem sem limites, evitando a separação?

Fazemos Jornadas para enfrentarmos nossos pontos cegos, nossos impasses e para avançarmos na formação analítica. Isto não se faz com Um só. Necessitamos de um trabalho de Escola, cada um na sua solidão, mas trabalhando com os outros. Para isto fazemos comissões, mobilizamos libido e desejo na construção deste trabalho.

Convidamos cada um de vocês a nos seguir neste programa de trabalho.

Sejam bem-vindos!


[1] LACAN, J. Nota Italiana. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003 p.313

[2] BRODSKY, G. Nunca visto nem ouvido. In: SHORT STORY : os princípios do ato analítico. Rio de Janeiro; Contra Capa Livraria, 2004, p.9

[3] MILLER, J-A. La sesión analítica, entre repetición y sorpresa. In: Los usos del lapso.Buenos Aires : Paidós, 2004.

[4] GRILLO, C. Prefácio. In: Clínica do Excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024, p.9.

Lançamento das XXX Jornadas da EBP-BA

Carla Fernandes
EBP/AMP

Boa noite a todos, é com a alegria que estou aqui com vocês nesta abertura do lançamento das Jornadas da EBP-BA, de um trabalho feito por muitos e que já começou com muita garra, envolvendo os colegas da Seção e que, lançando as Jornadas enquanto causa, já vem produzindo um trabalho de Escola.

O que temos no horizonte? Em uma conversa com o nosso convidado, Domenico Cosenza, pudemos cernir o tema destas Jornadas. E é importante destacar que neste múltiplo que são as Seções da Escola Brasileira de Psicanálise, há o Uno da Escola, voltado para questões cruciais da psicanálise, a psicanálise em intensão e a formação do analista. Ou seja, enquanto o Instituto se ocupa do Ensino e da psicanálise em extensão, a Escola visa a psicanálise em intensão e a transmissão da psicanálise a partir de uma orientação que se decanta nas Escolas da Associação Mundial de Psicanálise. Há o múltiplo e há o Um da Escola, uma Escola fundada por Lacan a partir dos princípios da Psicanálise desde Freud e de uma reorientação que Lacan propõe, que se sustenta por uma orientação com Miller. Nessa direção, temos como bússola: “o inconsciente e a transferência, hoje”.

A mim coube a tarefa de trazer algo sobre o inconsciente, designado por Freud[1] como Unbewusst. Com Lacan[2] temos a homofonia L’une bévue, um equívoco. Quem sabe consigo causá-los através de algumas inquietações. Partindo das Jornadas do ano passado, que trabalharam o tema das entrevistas preliminares e entradas em análise, estamos com o desafio de investigar as análises que duram. Esse osso duro de roer até que se lapide o que podemos dizer, com Miller[3], o que se trata do osso de uma análise.

Freud, ao inaugurar o inconsciente como uma instância psíquica, que tem uma lógica de funcionamento, produz um traumatismo na humanidade. Não somos donos da razão, há razões que são irracionais e contraditórias, pois o “Eu não é o senhor em sua própria casa”[4]. Está montado em um cavalo indomável que acredita domar, mas que lhe escapam as rédeas. O tratamento a partir da fala pode permitir que se produza algo diferente com isso que escapa e leva cada um a caminhos com os quais padece. Que se produza alguma dignidade naquilo que parecia estar marcado como destino.

Em uma psicanálise, desde Freud, a regra é convidar o paciente a dizer tudo o que lhe vem à cabeça, a liberar “o acontecimento de pensamento”[5], como diz Miller. O acontecimento de pensamento é o material que se tem acesso em uma análise e “o que se obtém do paciente surge em decorrência de dizer o acontecimento de pensamento”[6]. Trata-se de localizar como o acontecimento de pensamento se relaciona com o acontecimento de corpo, um corpo afetado pela linguagem.

A regra analítica da associação livre propõe ao analisante dizer o que lhe ocorre sem que isso seja uma imposição de dizer a verdade, toda a verdade, nada mais além da verdade. Não se trata de um imperativo, mas da aposta na instauração de um dispositivo que opera através da fala.

Nessa perspectiva do convite à fala é possível que haja uma entrada em análise. Muitas vezes se produzem efeitos de alívio, terapêuticos[7], que se apresentam através de instantes de revelação provocados pela pergunta: o que isso quer dizer? Entretanto, se no início surgem revelações de verdades, que depois se transmutam, em uma análise que dura trata-se de outra lógica: a da repetição, que “demanda atravessar a estagnação, suportá-la, ou seja, explorar limites”[8].

O sintoma inclusive pode se agravar nesse momento, pois está em jogo a insistência da pulsão. Há aí, como indica Miller[9], uma oposição entre saber e gozo. Aos praticantes desavisados, não adianta acreditar demasiado nas intervenções e subestimar a insistência da pulsão. É preciso acompanhar, sustentar, a partir da própria análise, se deixar fazer suporte de semblante de objeto para suportar a dura demanda de atravessar a estagnação. A metáfora que me ocorre é a do analista como um companheiro de caminhada na travessia do deserto. Que pode lembrar, de vez em quando, que é possível beber água para seguir a caminhada e despertar, de vez em quando, que não há oásis no final. Assim, “ficar pelejando com a análise enquanto ela dura é outra história”[10], diferente da lógica da revelação.

A verdade, substância inicial da experiência analítica, tem estrutura de ficção. Lacan[11] cria o neologismo varité para indicar que a verdade na análise é variável, pois não há uma verdade última sobre o real. Há um paradoxo na oposição entre saber e gozo em uma análise que dura, mas é preciso uma aposta em tirar consequencias dessa estrutura de ficção através do discurso analítico.

Lacan, em o Aturdito, indica que o dizer “provém do fato de que o inconsciente, por ser estruturado como uma linguagem, isto é, como a lalíngua que ele habita, está sujeito à equivocidade pela qual cada uma delas se distingue. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela”[12]. E prossegue: “a linguagem portanto, na medida em que essa forma tem aí lugar, não surte ali outro efeito senão o da estrutura que motiva essa incidência do real”[13]. Ou seja, o real incide sobre a linguagem produzindo efeitos.

Nessa hiância entre o que está escrito como modo de gozo e a fala, podem surgir o ato falho, o lapso, o chiste o sonho. Aqui introduzo uma questão para ter na visada de nossas Jornadas: como operar frente às produções do inconsciente, em especial os sonhos em uma análise, na medida em que se trata do inconsciente como intérprete, maquinaria de ficção?

Também é fundamental considerar o lapso, o ato falho, o chiste e o sonho como formações do inconsciente como equívoco (L’une bevue) – “equívocos pelos quais se inscreve o lateral de uma enunciação” e se concentram “em três pontos nodais”[14], conforme indica Lacan:

  1. A homofonia ex: dois (deux) por deles (d’eux) // pareser (parêtre);
  2. A interpretação, que dá forma ao amorfo;
  3.  “A lógica, sem a qual a interpretação seria imbecil”[15]. É preciso se servir dela, inclusive com relação à contradição do inconsciente;

Na análise que dura há então uma tentativa de produzir um saber sobre o gozo e, paradoxalmente, uma oposição entre saber e gozo. O discurso analítico implica em não recuar diante da repetição do sintoma e da estrutura de ficção em jogo no inconsciente transferencial. Há o desafio de operar frente ao impossível – o impossível de suportar. Ficam aqui algumas provocações como ponto de partida para avançarmos até as nossas Jornadas como produto dessa investigação.

 


[1] Freud, S. O inconsciente (1915). In:___. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[2] LACAN, J. (1976–1977). O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1976 e 17 de maio de 1977.

[3] Miller, J-A. O osso de uma análise. Zahar, 2015.

[4] Freud, S. Uma dificuldade da psicanálise. In:__. História de uma neurose infantil, além do princípio do prazer e outros textos. Obras Completas, Volume 14. São Paulo: Cia das Letras, 2010. p. 187.

[5] Miller, J-A. perspectivas dos escritos e outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 102.

[6] idem

[7] Miller, J-A. perspectivas dos escritos e outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 104.

[8] Idem

[9] Idem

[10] Miller, J-A. perspectivas dos escritos e outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 105.

[11] Lacan, J. O aturdito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

[12]Lacan, J. O aturdito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.p. 492.

[13] Idem.

[14] Lacan, J. O aturdito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.p. 493.

[15] Idem, p. 494.

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