Inconsciente – que palavra esquisita!
Esta plenária propõe explorar uma curiosa provocação feita a Lacan, em Televisão: “Inconsciente – que palavra esquisita!”[1]. Por ser uma palavra negativa, o Inconsciente parece autorizar toda sorte de suposições. O Inconsciente fala, o que o faz depender da linguagem. Isso fala, isso goza, indicando a linguagem e seu além. Destarte, esta plenária, ao tomar o Inconsciente como tema de investigação, organizar-se-á em torno de dois eixos:
- O Inconsciente é a Política;
- Inconsciente Transferencial e Inconsciente Real.
O nosso percurso investigativo terá como bússola dois fragmentos clínicos que interrogam de que modo o Inconsciente intérprete[2] é constituído pelos discursos, pelos laços sociais e pelas formas históricas do Outro. E, do mesmo modo, indagam: se o inconsciente é intérprete, qual o fazer do analista ao escutar a fala do analisante? Como abordar os efeitos de gozo, as ressonâncias do furo fundamental?
Freud edificou em torno da palavra Inconsciente sua descoberta e sua teoria. Lacan a elevou à dignidade de conceito fundamental da psicanálise. As elaborações mais recentes da Orientação lacaniana permitem distinguir, com Miller, o Inconsciente Transferencial e o Inconsciente Real[3]. O primeiro se constitui como um saber sobre a verdade sustentado pela transferência e articulado à dimensão simbólico-imaginária, possibilitando, ao sujeito, localizar algo de sua hystoeria, de suas identificações e do gozo. O segundo, o Inconsciente Real, sustentado pela falta de significante no Outro, S(Ⱥ), confronta o falasser com a dimensão de estranheza radical e testemunha a incidência contingente de lalíngua sobre o corpo, aquilo que insiste para além do sentido. Diante do vazio existencial provocado pelo desamparo primordial, só resta ao falasser a invenção ou a catástrofe. Nessa via, realiza arranjos singulares ao lidar com o trauma (trou).
Seguindo a orientação de Lacan de que o analista deve alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época, não podemos nos furtar de investigar as consequências clínicas da psicanálise diante dos desafios contemporâneos, onde os sintomas apresentam-se menos como formações a serem interpretadas e mais como tentativas de tratamento de um gozo deslocalizado, o que atualiza sua formulação de 1967 de que o “Inconsciente é a Política”.
O analista é presença que testemunha uma perda originária. Ao jogar com o equívoco significante, equivocar entre som e sentido, está do lado do não sentido, fazendo repercutir o furo fundamental e, com isso, toca o gozo. O analista, através do ato, recoloca em jogo a função poética da língua, o que possibilita ao falasser um novo fazer com o seu modo de gozar.
Inconsciente, UM equívoco. Eis a aposta!
Referências:
Ansermet, F. (2026). Renascer para a linguagem: De um exílio a outro. Curinga, 61 (Dossiê Exílios), 20–25. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais.
Bassols, M. (2026). O duplo exílio da verdade. Curinga, 61 (Dossiê Exílios), 26–31. Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais.
Brousse, M.-H. (2018). O inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise.
Freud, S. (2010). O inconsciente. In Obras completas (Vol. 12, P. C. de Souza, Trad., pp. 99–150). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1915).
Freud, S. (1915/2010). Pulsões e suas vicissitudes. In Obras completas (Vol. 12). Companhia das Letras.
Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In Obras completas (Vol. 14, P. C. de Souza, Trad., pp. 161–239). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1920).
Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. In Obras completas (Vol. 18, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–122). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1930).
Freud, S. (2011). O eu e o isso. In Obras completas (Vol. 16, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–74). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1923).
Freud, S. (2011). Psicologia das massas e análise do eu. In Obras completas (Vol. 15, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–113). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1921).
Freud, S. (2012). Totem e tabu. In Obras completas (Vol. 11, P. C. de Souza, Trad., pp. 13–244). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1913).
Freud, S. (2019). A interpretação dos sonhos (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1900).
Lacan, J. (1993). Televisão (A. Quinet, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1966–1967). O seminário, livro 14: A lógica da fantasia [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1966 e 21 de junho de 1967.
Lacan, J. (1988). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (M. D. Magno, Trad.). Jorge Zahar. (Original publicado em 1973).
Lacan, J. (1985). O seminário, livro 20: Mais, ainda (M. D. Magno, Trad.). Jorge Zahar. (Seminário proferido em 1972-1973).
Lacan, J. (1976–1977). O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre [Seminário inédito]. Seminário proferido entre 16 de novembro de 1976 e 17 de maio de 1977.
Miller, J.-A. (2011). Intuições milanesas I (Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa). Opção Lacaniana Online, 5.
Miller, J.-A. (2011). Intuições milanesas II (Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa). Opção Lacaniana Online, 6.
Miller, J.-A. (2011). O ser e o Um: Seminário de orientação lacaniana III, 13. Curso ministrado de 19 de janeiro a 15 de junho de 2011.
Miller, J.-A. (1998). Silet: Os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan (Seminário de orientação lacaniana).
Naparstek, F., & Sotelo, I. (2025). Freud y Lacan: Una brújula para leer los síntomas contemporáneos. Olivos, Argentina: Grama Ediciones.
[1] Lacan, J. (1993). Televisão (A. Quinet, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.
[2] Miller, J.-A. (2011). O ser e o Um: Seminário de orientação lacaniana III, 13. [Seminário]. (Obra original apresentada em 2011). Nesse seminário, Miller caracteriza retrospectivamente o inconsciente freudiano e o primeiro ensino de Lacan como um inconsciente intérprete: um inconsciente que produz sentido, cifra uma verdade e se apresenta nas formações do inconsciente como algo a ser decifrado. O último ensino privilegia um inconsciente ligado à letra, ao acontecimento de corpo e à iteração de um modo de gozo.
[3] Miller, J.-A. (2011). O ser e o Um: Seminário de orientação lacaniana III, 13. [Seminário].