A transferência na clínica do Um sozinho
A suposição está no coração da operação analítica. Ou seja, é preciso que haja uma crença para que o inconsciente possa advir.
Sob essa perspectiva, Lacan desenvolve e problematiza o conceito de transferência ao longo de seu ensino. Ao conceber o Sujeito suposto Saber como pivô da transferência, ele privilegia seu eixo epistêmico. Contudo, é possível ler em seu último ensino uma possível inversão, onde a transferência suporta o SsS, indicando no sintoma seu núcleo de real, não mais o decifrável freudiano, e sim o sem sentido, aquilo que escapa ao tratamento pela linguagem.
Nessa direção, Lacan1 faz da interpretação um novo uso: a palavra que ressoa no corpo. Ler o sintoma, como orienta Miller2, indica o saber ler de outro modo, incluindo aí a escritura de gozo.
Diante desse horizonte, a Psicanálise é convocada a saber ler sua época, uma época dominada pelo mestre capitalista, que tenta, cinicamente, dissuadir a divisão subjetiva com sua oferta infinita.
Os novos sintomas3 apontam para um além do pai, um rechaço ao saber e ao amor. Assim, aquilo que se instala no corpo não busca um deciframento, mas uma parceria que possibilite incidir uma falha, uma inconsistência ao S1 fixado para que possa abrir um furo possibilitando uma suposição, uma crença.
Na época do Outro que não existe, as urgências4, os excessos5, o um-dividualismo6, fazem da transferência um impasse na clínica da Psicanálise?
1 LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma (1975/76). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
2 MILLER, Jacques-Alain. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 70, p. 13-22, jun. 2015.
3 MILLER, J-A. Patologia de ética. In: Lacan Elucidado: Palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
4 SELDES, R. La urgencia dicha. Buenos Aires: Colección Diva, 2019.
5 COSENZA, D. Clinica do Excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.
6 DUPONT, L. Un-dividualismo: las nuevas respuestas del sujeto. Córdoba: Babel Editorial, 2025.
Outros textos recomendados para este eixo:
LACAN, J. Proposição de 9 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
ALVAREZ, Patricio. Latusas, aletósfera. In: Scilicet: um real para o século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2014. p. 443.
ANA NEGRO, M.; GERARDO, B. (Org.) Incidencias clínicas de la carencia paterna: ¿como se analisa hoy? Buenos Aires: Grama Ediciones, 2019.
BARROS, Rogério. O tratamento do gozo nos novos sintomas. Lapsus, [s. l.], ed. 25, 20 dez. 2023.
BRODSKY, Graciela. Las enfermedades del sujeto supuesto saber. Escuela de la Orientación Lacaniana (EOL), Buenos Aires, 2000. Disponible en: http://www.eol.org.ar/template.asp?Sec=publicaciones&SubSec=impresas&File=impresas/col/jornadas/sujeto/brodsky.html. Acceso en: 6 jun. 2026.
COSENZA, Domenico. A transferência analítica hoje. In: Entre o cair e o despertar. Belo Horizonte: Scriptum, 2026.
ESQUÉ, Xavier. La transferencia y lo uno solo. In: APARIN, Rosa; CARBONE, Verónica (org.). Entre el amor y la locura: el traumatismo de la lengua. Buenos Aires: Grama, 2023.
LAURENT, Éric. Cognição ou transferência na psicanálise do hoje? In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
SOUTO, Simone. Como conceber a transferência na clínica do Um que dialoga sozinho? Boletim Intemporais, Salvador, 2019. Boletim da 24ª Jornada da EBP-BA: Tempo de interpretar. Disponível em: https://www.ebpbahia.com.br/jornadas/2019/2019/06/21/como-conceber-a-transferencia-na-clinica-do-um-que-dialoga-sozinho/. Acesso em: 6 jun. 2026.
Transferência Negativa
A transferência negativa corresponde àquilo que não funciona, ao que não é amável ou alinhado aos ideais. Por vezes, manifestando-se em desconfiança, ódio, desvalorização, ressentimento ou desinteresse. Todavia, ela é o nó inaugural de uma análise, disse Lacan certa vez1. Nela, a agressividade e a hostilidade se fazem elementos estruturais, ao invés de meros obstáculos à experiência clínica. Diferente e mais além do amor, ela aponta a algo do real. Trata-se de uma paixão lúcida2 através da qual, em alguns casos, a desconfiança e o confronto com o Sujeito suposto Saber transformam o que seria resistência em uma via fecunda para a produção de um saber inédito sobre o inconsciente.
Mas isso não se faz sem dificuldades. A cada tempo, são reeditadas as questões levantadas desde o início da clínica psicanalítica nos idos de 1900. Como manejar a transferência negativa nos dias atuais de modo a fazê-la operar para além da resistência? Em uma “clínica da suspeita” na qual o analista é posicionado sob vigilância e avaliação, como sustentar esta função sem ceder ao abuso do exercício da mestria, sobretudo, em momentos nos quais este não é afim à direção do tratamento? Como sustentar a ética do analista frente a sujeitos que, em vez da falta-a-ser, encarnam o ódio cego como recusa a qualquer laço com o Outro?
1 LACAN, J. A agressividade em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
2 MILLER, J.-A. et al. Transferencia negativa: seminario sobre politica de la transferência ELP. Buenos Aires: Tres Haches, 2000.
Outros textos recomendados para este eixo:
FREUD, S. (1937). A análise finita e a infinita. In: Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
LACAN, J. (1963-1964). Aula XX: em Ti algo mais que Tu. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
MILLER, J.-A. Interpretar en términos de resistencia. In: Todo mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2020.
BRODSKY, Graciela. La transferencia negativa. In: ______. Pasiones lacanianas. Buenos Aires: Grama, 2019.
ZACK, Oscar. La transferencia: un concepto que perdura. Virtualia: revista digital de la Escuela de la Orientación Lacaniana, Buenos Aires, n. 36, 2019. Disponível em: https://revistavirtualia.com/articulos/821/disrupcion-del-goce-en-las-locuras-bajo-transferencia-disciplina-del-comentario/la-transferencia-un-concepto-que-perdura. Acesso em: 6 jun. 2026.
A transferência na clínica das psicoses
A transferência é um fenômeno humano geral, que ocorre em todas as relações em que haja uma dissimetria com relação ao saber e ao poder. Porém, Lacan acentua a intrincada relação entre o amor e o saber, formando um par: “Aquele a quem eu suponho o saber, eu o amo.”1 Além disso, ela é distinta na neurose e na psicose, tanto do ponto de vista fenomenológico, quanto do ponto de vista estrutural, já que, na psicose, o sujeito não busca ninguém que lhe aporte um saber sobre si mesmo. Ao contrário, ele se sente dono e senhor do saber. E o que sabe? Que o Outro malvado o toma como objeto de gozo.
A transferência é o pilar essencial do tratamento da loucura, ainda que não se apresente como um leito de amor nem desejo de saber, como na neurose. Ao contrário, o desejo e o amor vacilam ao ponto de se transformarem rapidamente em erotomania, enquanto o saber se inflama até a cegueira da verdade absoluta. Assim, o risco que se coloca no manejo da transferência na psicose revela a posição de objeto em que o psicótico se coloca diante do Outro, podendo ser transferida para a figura do analista, que será tomado pelo psicótico como um sujeito animado por uma vontade de gozo.
Isso nos permite considerar que há, na psicose, um delicado manejo da transferência a ser considerado. Nesse terreno, cabe indagar: se a erotomania na psicose é uma estratégia através da qual o sujeito se oferece ao gozo do Outro, através do amor, como deve o analista proceder? Como se opor a esse gozo deslocalizado na transferência, possibilitando que o laço transferencial distensione as relações do sujeito com o Outro?
1 LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p.91.
Outros textos recomendados para este eixo:
LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
______. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
Aulas IV, V, XVI
______. (1975-1976) O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
Aulas V, VIII, IX.
MILLER, J.-A. Estratégias da transferência. In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.
______. L´Amour dans les psychoses. Paris: Éditions du Seuil, 2004.
ÁLVAREZ, José María. O poder da transferência. In: Princípios de uma psicoterapia de la psicosis. Barcelona: Xoroi Ediciones, 2020.
A Transferência na clínica com criança, hoje
A psicanálise é uma só, tem uma só direção, tanto na clínica com crianças, quanto na clínica com adultos: em ambas, o que é visado é o gozo que está contido no sintoma. No entanto, os localizadores do mal-estar da prática com criança evidenciam especificidades nessa clínica, que devem ser observadas.
Em face do sintagma “infância difícil”, as crianças muito pequenas estão sendo trazidas cotidianamente ao tratamento. É o paradigma da solução química que se impõe – elas já chegam nomeadas, rotuladas, diagnosticadas – e medicadas. Em algumas situações a própria criança consegue identificar seu sofrimento seja no nível do pensamento ou na relação com o saber, embora muitas vezes a cegueira dos pais mostre que eles também estão atravessados pelo não saber, acompanhados pelo temor de descortinar algo.
Se o sintoma é sempre acompanhado de um não saber, na clínica com criança o analista deve tentar um forçamento – abrir um espaço para que a transferência se produza, para que a crença em um saber possa ser endereçada ao analista. É importante que o analista coloque o seu corpo desde as entrevistas com os pais, para retirar desses encontros uma preciosidade – identificar o lugar que a criança está ocupando para o Outro parental. Ao transformar a queixa (dos pais) em uma demanda (da própria criança) o analista pode fazer o sujeito se anunciar.
Nesse cenário, cabe questionar: Como manejar a transferência com crianças, a partir de seu desdobramento com os pais, quando estas surgem como objeto de gozo, tentativa contemporânea de suturar o furo estrutural?
Outros textos recomendados para este eixo:
LACAN, J. Alocução sobre as psicoses da criança. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
LAURENT, Éric. As novas inscrições do sofrimento das crianças. In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
ONS, Silvia. Rostros ambiguos de la niñez. Escola Lacaniana de Psicanálise (ELP), Seção Virtual, 2 fev. 2012. Disponível em: https://elp.org.es/rostros-ambiguos-de-la-ninez/. Acesso em: 6 jun. 2026.
TARRAB, Mauricio. As crianças de Skinner e as soluções químicas. Asephallus, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, maio/out. 2006. Disponível em: isepol.com. Acesso em: 6 jun. 2026.
TENDLARZ, Silvia Elena. La atención que falta y la actividad que sobra. In: STIGLITZ, Gustavo (comp.). DDA, ADD, ADH como ustedes quieran. Buenos Aires: Grama, 2006.