{"id":5083,"date":"2026-05-16T09:55:22","date_gmt":"2026-05-16T12:55:22","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2026\/?page_id=5083"},"modified":"2026-06-03T12:24:23","modified_gmt":"2026-06-03T15:24:23","slug":"argumento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2026\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p style=\"text-align: justify;\">[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<strong>XXX JORNADAS DA EBP-BAHIA &#8211; Argumento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>O INCONSCIENTE E A TRANSFER\u00caNCIA, HOJE<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud descobre o inconsciente n\u00e3o como uma simples regi\u00e3o obscura da mente, mas como uma inst\u00e2ncia ativa, que produz efeitos na fala, nos sonhos, nos sintomas, nos lapsos e nos atos do sujeito. O sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irma aparece como o ponto inaugural dessa descoberta. O inconsciente se revela como uma \u201coutra cena\u201d, que opera para al\u00e9m da inten\u00e7\u00e3o consciente do sujeito<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensino de Lacan testemunha uma passagem fundamental: do inconsciente estruturado como linguagem \u2212 interpret\u00e1vel, transferencial \u2212 ao inconsciente real, articulado ao corpo falante, <em>\u00e0 lal\u00edngua<\/em> e ao gozo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Nesta perspectiva, pensar o inconsciente hoje implica reconhecer que j\u00e1 n\u00e3o estamos apenas diante de um sujeito interpret\u00e1vel pelo sentido, mas diante de manifesta\u00e7\u00f5es do gozo que escapam \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica. O foco desloca-se, ent\u00e3o, da decifra\u00e7\u00e3o dos significantes para as marcas de gozo inscritas por <em>lal\u00edngua<\/em>, evidenciando uma dimens\u00e3o do inconsciente que n\u00e3o se reduz \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, no primeiro ensino de Lacan, o inconsciente aparecia como discurso do Outro, organizado pela l\u00f3gica significante, pela met\u00e1fora, pelo desejo e pela transfer\u00eancia, no \u00faltimo ensino ele passa a ser pensado como aquilo que insiste como real: um saber sem sujeito pleno, um saber que se escreve no corpo e que frequentemente emerge sob a forma de fen\u00f4menos de repeti\u00e7\u00e3o, acontecimentos de corpo, fixa\u00e7\u00f5es de gozo, compuls\u00f5es, excessos ou rupturas do la\u00e7o simb\u00f3lico. Um marco decisivo encontramos no Semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<strong>,<\/strong><\/em> <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>onde Lacan fala de um saber singular que \u201cescapa ao falante\u201d e que seu car\u00e1ter \u00e9 real, imposs\u00edvel. E \u00e9 a\u00ed que aparece a no\u00e7\u00e3o de <em>falasser<\/em><strong>,<\/strong> deslocando o foco do sujeito do significante para o corpo afetado pelo gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar o inconsciente hoje exige ent\u00e3o considerar a transforma\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do la\u00e7o social. Estamos no campo do inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>! A \u00e9poca atual tende a enfraquecer os grandes referenciais simb\u00f3licos de autoridade, tradi\u00e7\u00e3o, Nome-do-Pai, produzindo sujeitos menos organizados pelo recalque e mais confrontados diretamente com modalidades de gozo. O sofrimento contempor\u00e2neo frequentemente n\u00e3o se apresenta mais como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente cl\u00e1ssica: sintoma neur\u00f3tico interpret\u00e1vel, sonho, lapso, mas como ang\u00fastias difusas, fen\u00f4menos corporais, excessos, adi\u00e7\u00f5es, passagens ao ato, err\u00e2ncias identit\u00e1rias, hiperconectividade, solid\u00e3o e experi\u00eancias de desenlace subjetivo que se manifestam como sintomas sem Outro<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, aut\u00e1rquicos<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, dessubjetivados e autoer\u00f3ticos<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, que nos permitem interrogar a pr\u00f3pria pr\u00e1xis anal\u00edtica hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, o inconsciente hoje pode ser pensado menos como mensagem a decifrar e mais como marca singular de <em>lal\u00edngua<\/em> sobre o corpo. O sintoma deixa de ser apenas portador de sentido recalcado para tornar-se modo de amarra\u00e7\u00e3o do gozo. \u00c9 exatamente o horizonte do <em>sinthoma<\/em> no \u00faltimo Lacan que, como uma inven\u00e7\u00e3o singular, permite ao sujeito sustentar alguma consist\u00eancia diante do real. O analista j\u00e1 n\u00e3o opera apenas pela interpreta\u00e7\u00e3o do sentido oculto, mas pela possibilidade de tocar a maneira singular pela qual cada <em>falasser<\/em> goza de <em>lal\u00edngua.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As consequ\u00eancias cl\u00ednicas na abordagem do inconsciente e da transfer\u00eancia hoje s\u00e3o de outra ordem: o sintoma \u00e9 tomado como solu\u00e7\u00e3o singular (e n\u00e3o apenas como mensagem); o corpo ganha centralidade cl\u00ednica; o gozo aparece menos mediado pelo simb\u00f3lico; o amor surge frequentemente como tentativa prec\u00e1ria de supl\u00eancia e a transfer\u00eancia n\u00e3o se reduz ao sujeito suposto saber, mas envolve a presen\u00e7a do analista enquanto operador sobre o real do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, o \u201cinconsciente hoje\u201d talvez possa ser definido como o inconsciente de um tempo em que o sujeito est\u00e1 mais exposto ao real sem media\u00e7\u00e3o suficiente do simb\u00f3lico. Um inconsciente menos \u201cfreudiano\u201d no sentido cl\u00e1ssico da interpreta\u00e7\u00e3o do recalcado, e mais \u201clacaniano\u201d em seu \u00faltimo ensino: inconsciente-corpo, inconsciente-<em>lalingua<\/em>, inconsciente-gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, se antes a interpreta\u00e7\u00e3o privilegiava os efeitos de significa\u00e7\u00e3o, hoje ela se orienta cada vez mais pelo fora de sentido que habita <em>lal\u00edngua<\/em> e marca o corpo do <em>falasser.<\/em> O fazer do analista consiste ent\u00e3o em acompanhar o sujeito na constru\u00e7\u00e3o de um saber-fazer com seu modo singular de gozar. O ato anal\u00edtico n\u00e3o visa a restaura\u00e7\u00e3o de uma norma ou de um ideal, mas a produ\u00e7\u00e3o de uma diferen\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o real que o determina. \u00c9 nessa perspectiva que a cl\u00ednica contempor\u00e2nea exige do analista uma renovada aten\u00e7\u00e3o aos acontecimentos de corpo, aos fen\u00f4menos de gozo e \u00e0s inven\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas que constituem, para cada um, uma resposta singular ao imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 em torno dessas quest\u00f5es que nossas <em>Jornadas<\/em> se prop\u00f5em a trabalhar. E, para tanto, convidamos a todos a participarem dessa conversa\u00e7\u00e3o, apostando que a elabora\u00e7\u00e3o coletiva pode abrir novas perspectivas para pensar a cl\u00ednica, a pol\u00edtica do inconsciente e os desafios da psican\u00e1lise na atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Comiss\u00e3o Epist\u00eamica<br \/>\nIordan Gurgel (Coord.), F\u00e1tima Sarmento, Julia Solano, Marcela Antelo, Rog\u00e9rio Barros e S\u00f4nia Vicente.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a> FREUD<em>, S. <\/em><em><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos <\/strong><\/em><strong><em>(1900)<\/em><\/strong><em>, <\/em>cap. VII. <em>\u201cTodo o processo que entra em atividade no inconsciente parece pertencer a uma outra cena (<\/em><em>ein anderer Schauplatz<\/em><em>), separada da vida ps\u00edquica consciente\u201d. <\/em>Tamb\u00e9m retomado por \u00a0\u00a0<strong>LACAN, J.<\/strong> \u00a0no Semin\u00e1rio<em>, <strong>\u201cAs forma\u00e7\u00f5es do inconsciente\u201d<\/strong>,<\/em> RJ: J.Z.E. 1999, p. 112<em>.<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Este \u00e9 um percurso que vai de <strong>\u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d (<\/strong>LACAN, J. <strong>Escritos<\/strong>, RJ:J.Z.E. 1998), ao \u00faltimo ensino de Lacan onde aparecem os conceitos de <em>lal\u00edngua<\/em>, corpo falante, gozo e inconsciente real [especialmente nos <strong>Semin\u00e1rios 20<\/strong> (LACAN, J. <strong>Mais ainda.<\/strong>, RJ: J.Z.E. 1982), e <strong>23<\/strong> (LACAN, J. <strong>o sinthoma, <\/strong>RJ, J.Z.E. 2007)].<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio: livro 20: mais ainda. <\/strong>2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1985.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J.\u00a0 <strong>O Semin\u00e1rio, livro 14: A l\u00f3gica do fantasma. <\/strong>1\u00aa ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2024, p. 267<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J-A et LAURENT, E. <strong>O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica<\/strong> (1996-1997). Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> COSENZA, Domenico. <strong>Cl\u00ednica do excesso: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Versos, 2024.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, J.-A. <strong>Para uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o gozo autoer\u00f3tico<\/strong> [1989]. Pharmakon Digital: Revista da Rede TyA do Campo Freudiano, 2016. Dispon\u00edvel em: pharmakondigital.com. Acesso em: 25 maio 2026.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/h6>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]XXX JORNADAS DA EBP-BAHIA &#8211; Argumento O INCONSCIENTE E A TRANSFER\u00caNCIA, HOJE Freud descobre o inconsciente n\u00e3o como uma simples regi\u00e3o obscura da mente, mas como uma inst\u00e2ncia ativa, que produz efeitos na fala, nos sonhos, nos sintomas, nos lapsos e nos atos do sujeito. 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