{"id":57909,"date":"2025-11-23T08:17:08","date_gmt":"2025-11-23T11:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/?p=57909"},"modified":"2025-11-23T08:17:08","modified_gmt":"2025-11-23T11:17:08","slug":"abertura-das-plenarias-das-xxix-jornadas-da-ebp-ba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/abertura-das-plenarias-das-xxix-jornadas-da-ebp-ba\/","title":{"rendered":"Abertura das Plen\u00e1rias das XXIX Jornadas da EBP-Ba"},"content":{"rendered":"<h5>S\u00f4nia Vicente<\/h5>\n<p>Bom dia! Neste segundo dia das nossas Jornadas, daremos in\u00edcio a uma sequ\u00eancia de quatro Plen\u00e1rias que, penso, fornecer\u00e3o os fundamentos te\u00f3ricos dos trabalhos cl\u00ednicos apresentados ontem na Jornada Cl\u00ednica. Trata-se de uma articula\u00e7\u00e3o bem-vinda e certamente frut\u00edfera, que evidencia a import\u00e2ncia da teoria para a cl\u00ednica. Nesta manh\u00e3, vamos nos debru\u00e7ar na escuta de oito trabalhos de colegas que compartilhar\u00e3o conosco suas produ\u00e7\u00f5es, de modo a estabelecermos uma conversa\u00e7\u00e3o a partir delas.<\/p>\n<p>Os trabalhos est\u00e3o agrupados de dois em dois, orientados pelos quatro eixos tem\u00e1ticos instigantes que estudamos ao longo do ano de 2025. Os participantes dessa louv\u00e1vel e \u00e1rdua empreitada ser\u00e3o nomeados no momento da apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir desse vislumbre do que ocorrer\u00e1 hoje, acrescento algumas pontua\u00e7\u00f5es breves sobre o nosso tema, que, penso, poder\u00e3o contribuir para nossas reflex\u00f5es e articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2><strong>I. Lacan e o enigma da entrada em an\u00e1lise<\/strong><\/h2>\n<p>Come\u00e7o lembrando que, na sequ\u00eancia de seu ensino, nos anos 1970, no Semin\u00e1rio 19, Lacan nos apresenta uma afirma\u00e7\u00e3o, no m\u00ednimo, instigante para o estudo que ocupou a Se\u00e7\u00e3o Bahia ao longo deste ano: <strong>a entrada em an\u00e1lise e as entrevistas preliminares<\/strong>.<\/p>\n<p>Cito\u00a0\u00a0 Lacan:<br \/>\n<strong>\u201c&#8230;o primeiro passo da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 introduzir nela o Um, como o analista que se \u00e9&#8230; n\u00f3s o fazemos (o analisando) dar o passo de entrada&#8230;\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Diante do enigma que essa express\u00e3o produz, emergem perguntas fundamentais:<\/p>\n<ul>\n<li>O que \u00e9 um analista?<\/li>\n<li>O que \u00e9 introduzir o Um?<\/li>\n<li>O que faz com que uma experi\u00eancia anal\u00edtica seja considerada lacaniana?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Responder a essas indaga\u00e7\u00f5es, que se imbricam, exige retornar aos princ\u00edpios que fundamentam nosso estilo e \u00e0s regras que orientam nossa a\u00e7\u00e3o, para que nosso fazer se mantenha conforme a orienta\u00e7\u00e3o ao real.<\/p>\n<h2><strong>II. O analista e a dire\u00e7\u00e3o do tratamento<\/strong><\/h2>\n<p>Recordo, aqui, como Lacan abre o texto <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>:<\/p>\n<p><strong>\u201cO psicanalista \u00e9 aquele que seguramente dirige o tratamento.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ele nos situa, assim, na vertente t\u00e9cnica \u2014 a do que fazer \u2014 sempre orientada pela \u00e9tica do bem-dizer, pelo desejo e pelo manejo do gozo. Em seguida, afirma: <strong>\u201cNo come\u00e7o da psican\u00e1lise est\u00e1 a transfer\u00eancia\u201d<\/strong>, acrescentamos: <strong>a transfer\u00eancia real<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando se adentra o consult\u00f3rio de um analista, entra-se num <strong>artif\u00edcio simb\u00f3lico<\/strong>, espa\u00e7o onde se busca o obst\u00e1culo no qual se trope\u00e7a. Nesse tempo preliminar, o analista coloca em jogo hip\u00f3teses, convertendo a certeza com que o paciente chega em <strong>suposi\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Freud chamou esse tempo de <strong>an\u00e1lise de prova<\/strong>, o que designamos, com Lacan, como <strong>entrevistas preliminares<\/strong> \u2014 etapa preliminar \u00e0 entrada em an\u00e1lise, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 instalar no sujeito uma interroga\u00e7\u00e3o sobre a causa de seu sofrimento. Ele passa a buscar uma verdade que, por\u00e9m, ser\u00e1 logo suspensa pela interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia se instala, ent\u00e3o, pelo enigma: <strong>o que isso quer dizer?<\/strong>. Indica-se a\u00ed o encontro com a experi\u00eancia \u2014 mas ainda n\u00e3o com o analista. Nesse momento inicial, nos deparamos com a <strong>transfer\u00eancia \u00e0 psican\u00e1lise<\/strong>. Resta saber: <strong>como direcion\u00e1-la ao analista?<\/strong><\/p>\n<h2><strong>III. O sintoma endere\u00e7ado ao analista<\/strong><\/h2>\n<p>Lacan afirma que quem procura uma an\u00e1lise j\u00e1 faz uma escolha a favor do inconsciente, mesmo sem sab\u00ea-lo. Aqui encontramos a estrutura de linguagem, endere\u00e7o do sintoma. Para que o sujeito advenha, indica-se ao paciente: <strong>fale<\/strong>, conduzindo-o ao consentimento ao inconsciente.<\/p>\n<p>O analista opera algumas manobras at\u00e9, num momento decisivo, sancionar com um ato a entrada do sujeito em an\u00e1lise. O <strong>ato anal\u00edtico<\/strong> \u2014 ato criador da entrada em an\u00e1lise \u2014 cabe ao analista. Quando o paciente dirige seu sintoma ao analista, inclui-o no inconsciente; \u00e9 o que chamamos de <strong>sintoma anal\u00edtico<\/strong>.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica lacaniana tem uma l\u00f3gica pr\u00f3pria: um in\u00edcio claro e uma conclus\u00e3o que s\u00f3 pode situar-se na l\u00f3gica do <strong>ato<\/strong>. Quando se produz o ato \u2014 interessado apenas na consequ\u00eancia do trauma, o gozo \u2014 h\u00e1 um t\u00e9rmino e uma aposta: a de que, ao final, algu\u00e9m se prestar\u00e1 a ser <strong>objeto <\/strong><strong><em>a<\/em><\/strong><strong> para outro analisando<\/strong>.<\/p>\n<p>O ato, enquanto causa, preserva a identidade da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>IV. O imposs\u00edvel de dizer e o equ\u00edvoco significante<\/strong><\/h2>\n<p>Interpretar \u00e9 tocar o imposs\u00edvel de dizer por meio do <strong>equ\u00edvoco significante<\/strong>, ponto em que surge o <strong>Outro barrado<\/strong>, modificando a rela\u00e7\u00e3o com o saber e produzindo a surpresa de uma significa\u00e7\u00e3o inesperada. A impot\u00eancia em alcan\u00e7ar o saber alimenta o trabalho de transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do <strong>Sujeito Suposto Saber<\/strong> transforma-se em impossibilidade: onde o falasser busca encontrar o seu ser no Outro, h\u00e1 o vazio, o <strong>traumatismo (trou-matisme)<\/strong>, o furo bordeado pelo material significante. O analista convoca o uso da palavra e, no discurso corrente, opera conforme a <strong>letra de gozo<\/strong>, fazendo surgir a singularidade.<\/p>\n<p>Por isso, a fun\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 uma <strong>fun\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica<\/strong>. O sintoma, tomado como meio de gozo que afeta o corpo, \u00e9 aquilo que faz supl\u00eancia \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o pulsional.<\/p>\n<h2><strong>V. O ultim\u00edssimo ensino: o Um traum\u00e1tico e a tor\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica<\/strong><\/h2>\n<p>No ultim\u00edssimo ensino, ao elaborar sobre <strong>al\u00edngua<\/strong> e o <strong>H\u00e1 Um<\/strong> \u2014 um corpo que se goza \u2014 Lacan introduz uma tor\u00e7\u00e3o importante: o <strong>trope\u00e7o (l\u2019une b\u00e9vue)<\/strong> antecede o inconsciente. Ele distingue o Outro-corpo, subst\u00e2ncia gozante, e o <strong>Um traum\u00e1tico<\/strong>.<\/p>\n<p>Essa tor\u00e7\u00e3o desmonta a selva dos semblantes e explicita o inconsciente como <strong>inapreens\u00edvel<\/strong>.<\/p>\n<p>Aponta-se a\u00ed um outro modo de operar a transfer\u00eancia e a interpreta\u00e7\u00e3o, ao privilegiar a <strong>palavra solit\u00e1ria<\/strong>, realizando a virada do inconsciente-saber para o <strong>inconsciente-furo<\/strong>, e afirmando que <strong>h\u00e1 apenas conting\u00eancia<\/strong>. O analista, pelo corte, faz soar algo que n\u00e3o \u00e9 sentido; faz ressoar uma significa\u00e7\u00e3o vazia, pura resson\u00e2ncia do furo. Predominam a\u00ed a surpresa e o equ\u00edvoco.<\/p>\n<h2><strong>VI. Introduzir o Um e orientar o falasser diante do gozo<\/strong><\/h2>\n<p>Retomando Lacan \u2014 <strong>\u201co primeiro passo no encontro com o analista \u00e9 introduzir o Um, frente ao analista que se \u00e9\u201d<\/strong> \u2014 podemos afirmar que uma an\u00e1lise se orienta pela rela\u00e7\u00e3o do falasser com o gozo, diante do axioma <strong>\u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Introduzir o Um \u00e9 apostar que o sujeito possa <strong>desembrulhar-se de seu sintoma<\/strong>, produzir um fazer com seu modo de gozar.<\/p>\n<p>Para isso, <strong>\u00e9 o desejo do analista o que, em \u00faltimo termo, opera na psican\u00e1lise<\/strong>: ao visar o n\u00e3o sentido, permitir a produ\u00e7\u00e3o do S1 e n\u00e3o recuar diante dos impasses. Implicar o sujeito num novo la\u00e7o com o Outro, oferecer-lhe um <strong>Outro-parceiro<\/strong>, \u00e9 o que deve aparecer nas entrevistas preliminares.<\/p>\n<p>O analista, enquanto <strong>parceiro-sinthoma<\/strong>, empresta seu corpo \u00e0s resson\u00e2ncias, aos restos sintom\u00e1ticos do paciente, acolhendo o contingente \u2014 aquilo que conduz ao incur\u00e1vel do real. Surge da\u00ed a letra de uma fala: <strong>\u201cEu sou o que sou.\u201d \u201cEu sou como gozo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se, enfim, de uma <strong>cl\u00ednica da inven\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Passamos agora \u00e0 primeira Plen\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f4nia Vicente Bom dia! Neste segundo dia das nossas Jornadas, daremos in\u00edcio a uma sequ\u00eancia de quatro Plen\u00e1rias que, penso, fornecer\u00e3o os fundamentos te\u00f3ricos dos trabalhos cl\u00ednicos apresentados ontem na Jornada Cl\u00ednica. Trata-se de uma articula\u00e7\u00e3o bem-vinda e certamente frut\u00edfera, que evidencia a import\u00e2ncia da teoria para a cl\u00ednica. 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