{"id":57885,"date":"2025-11-18T09:24:52","date_gmt":"2025-11-18T12:24:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/?p=57885"},"modified":"2025-11-18T09:24:52","modified_gmt":"2025-11-18T12:24:52","slug":"os-dois-pontos-e-suas-torcoes-sintoma-gozo-e-fantasma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/os-dois-pontos-e-suas-torcoes-sintoma-gozo-e-fantasma\/","title":{"rendered":"Os dois-pontos e suas tor\u00e7\u00f5es: sintoma, gozo e fantasma"},"content":{"rendered":"<h5>Wilker Fran\u00e7a &#8211; Associado do IPB<\/h5>\n<p>Irei come\u00e7ar pelo t\u00edtulo de nossa jornada <em>\u201cEntrada em an\u00e1lise: entrevistas preliminares\u201d<\/em>. E sobre ele me ater aos dois pontos que se localizam entre a \u201centrada em an\u00e1lise\u201d e as \u201centrevistas preliminares\u201d, que acredito, inclusive, ter sido o ponto em torno do qual discutimos boa parte de nossas reuni\u00f5es de cartel.<\/p>\n<p>Na gram\u00e1tica, os dois pontos s\u00e3o um sinal de pontua\u00e7\u00e3o que exerce diversas fun\u00e7\u00f5es. Ele pode servir para explica\u00e7\u00e3o ou para indicar uma rela\u00e7\u00e3o de consequ\u00eancia, por exemplo: \u201cEle n\u00e3o veio: estava viajando\u201d. Sua fun\u00e7\u00e3o principal \u00e9 introduzir um enunciado que est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o de explica\u00e7\u00e3o, equival\u00eancia, esclarecimento, enumera\u00e7\u00e3o, conclus\u00e3o ou cita\u00e7\u00e3o com o que foi dito antes. Poder\u00edamos dizer que os dois-pontos funcionam como um operador de rela\u00e7\u00e3o e tor\u00e7\u00e3o, de corte e liga\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo, pois relaciona os dois enunciados ao mesmo tempo que marca uma diferen\u00e7a. Um sinal que suspende e anuncia.<\/p>\n<p>E \u00e9 dessa forma que podemos pensar o t\u00edtulo de nossa jornada. As entrevistas preliminares n\u00e3o s\u00e3o uma pr\u00e9-an\u00e1lise, pois \u00e9 dali mesmo que se produz a entrada. H\u00e1 um corte, pois o ato de entrada marca um antes e um depois, mas tamb\u00e9m uma liga\u00e7\u00e3o, certa continuidade. H\u00e1 muitas entradas e a cada entrada um novo que se apresenta no percurso de uma an\u00e1lise. Al\u00e9m de que, antes do poss\u00edvel futuro analisando bater a porta do analista, algo tamb\u00e9m j\u00e1 come\u00e7ou. Clarice Lispector (1998) se perguntou no in\u00edcio do seu livro <em>A hora da Estrela<\/em>: \u201cComo come\u00e7ar pelo in\u00edcio, se as coisas acontecem antes de acontecer?\u201d Algo j\u00e1 come\u00e7a antes de come\u00e7ar!<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9 (2018), em <em>A escrita do sil\u00eancio, <\/em>em que d\u00e1 testemunho de sua experi\u00eancia de an\u00e1lise, indica alguns ind\u00edcios que o levaram at\u00e9 a escolha do seu analista. Ele escutou seu futuro analista dizer \u201cessa n\u00e3o ter\u00e1 nunca condi\u00e7\u00f5es de um bom trabalho\u201d e aquela certeza cortante sobre algu\u00e9m o fisgou. Outra situa\u00e7\u00e3o importante: em uma briga entre dois amigos, o futuro analista n\u00e3o escolhe ficar entre os dois amigos, ele escolhe decididamente e publicamente se alienar a um deles. Marcus (2018) diz \u201cEssa submiss\u00e3o serena e segura me tocava\u201d (p. 141).<\/p>\n<p>Certamente esses \u00edndices n\u00e3o configuram uma entrada em an\u00e1lise. \u00c9 preciso algo mais. Contudo, eles indicam algo sobre a transfer\u00eancia e o sintoma. Uma esp\u00e9cie<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>de trilha, migalhas de p\u00e3o, que marca o caminho da travessia at\u00e9 a entrada, sublinhando assim, certa continuidade em uma anterioridade l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Pensando nessa l\u00f3gica dos dois-pontos como um operador de tor\u00e7\u00e3o que promove corte e continuidade, poder\u00edamos pensar: \u201csintoma: opacidade do gozo\u201d e \u201cfantasma: objeto a\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, proponho fazer um percurso a partir dessas perguntas: Como se orientar por essas migalhas de p\u00e3o nas entrevistas preliminares at\u00e9 a entrada em an\u00e1lise? O que se corta e o que se liga continuamente? E o sintoma e o fantasma, que papel jogam nesse deslocamento?<\/p>\n<p>Proponho seguir a pista dada por Miller (2018) em que ele nos apresenta tr\u00eas matemas em jogo que se articulam logicamente em uma entrada em an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O primeiro matema se refere como o paciente busca um tratamento para seu sofrimento. O sujeito faz essa busca a partir do significante da transfer\u00eancia se dirigindo ao analista como um significante qualquer. E o sujeito dividido se encontra embaixo da barra, como verdade escondida. O que formaria ent\u00e3o, parte daquilo que formar\u00e1 o discurso do amo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S1 \u2192 Sq<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">_______<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">$\u0304<\/p>\n<p>O segundo matema, seria a histeriza\u00e7\u00e3o: $\u0304 \u2192 S1. Ap\u00f3s dirigir-se ao analista, o sujeito se faz representar pelo significante de seu sintoma. O que comp\u00f5e a parte superior do discurso da hist\u00e9rica, o sujeito marcado pela divis\u00e3o no lugar de agente que se dirige ao Outro em busca de um significante que possa dar conta de sua verdade. Aqui estar\u00edamos no momento em que o sujeito se apresenta, nas entrevistas preliminares, com sua queixa mas n\u00e3o se implicando nela e demandando do Outro um saber sobre o que lhe faz sofrer.<\/p>\n<p>E o terceiro matema consiste no discurso anal\u00edtico. \u201cO sujeito que emergiu da histeriza\u00e7\u00e3o deve se por a trabalho\u201d, no diz Miller (2018, p. 310). Essa opera\u00e7\u00e3o se d\u00e1 a partir do lugar que o analista ocupa, posi\u00e7\u00e3o singular para cada sujeito, funcionando como objeto, condensador de um gozo imposs\u00edvel de simbolizar. O objeto a no lugar do agente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">a\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u2192\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 $\u0304<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2500\u2500\u2500\u2500\u2500<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S2<\/p>\n<p>Se instala ent\u00e3o o discurso do analista:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-57886 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Imagem1-300x138.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"91\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Imagem1-300x138.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Imagem1-768x352.jpg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Imagem1.jpg 796w\" sizes=\"auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/><\/p>\n<p>O discurso do analista, formulado por Lacan, \u00e9 aquele em que o objeto a ocupa o lugar de agente e se dirige ao sujeito barrado, convocando-o a falar a partir de sua divis\u00e3o. Nesse discurso, o saber est\u00e1 no lugar da verdade, n\u00e3o como um saber exposto, mas como saber inconsciente que sustenta a experi\u00eancia anal\u00edtica. O analista n\u00e3o se apresenta a partir de um significante que comanda, mas \u00e9 colocado na posi\u00e7\u00e3o de semblante de objeto, oferecendo-se como suporte vazio que faz trabalhar o inconsciente. \u00c9 por isso que se diz que o discurso do analista opera uma invers\u00e3o: ele n\u00e3o transmite um saber, mas cria as condi\u00e7\u00f5es para que o sujeito produza o seu, orientado pelo ponto de real que o objeto <em>a <\/em>encarna. Isso aponta justamente para a tor\u00e7\u00e3o realizada da queixa para a implica\u00e7\u00e3o subjetiva que marca o sintoma anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Os elementos que comp\u00f5em a parte superior do discurso do analista est\u00e3o invertidos no matema do fantasma. O analista n\u00e3o encena o fantasma do sujeito, mas sustenta um ponto de opacidade que permite que o fantasma se revele em sua estrutura.Em seu matema, os dois termos heterog\u00eaneos ($\u0304 e a) est\u00e3o ligados pelo losango, <em>puns\u00e3o<\/em>, que indica rela\u00e7\u00e3o e propor\u00e7\u00e3o \u2014 um operador l\u00f3gico que marca as poss\u00edveis articula\u00e7\u00f5es entre elementos heterog\u00eaneos. Essa rela\u00e7\u00e3o confere consist\u00eancia \u00e0quilo que, sem ela, seria um furo no simb\u00f3lico. Marcus Andr\u00e9 (2018) observa que o fantasma opera como uma grade que articula as marcas deixadas pelo Outro, sustentando a ilus\u00e3o de que haveria um sentido onde, em si, h\u00e1 apenas desarticula\u00e7\u00e3o e conting\u00eancia.<\/p>\n<p>O fantasma n\u00e3o se vincula ao Outro enquanto lugar do significante; ele se articula ao Outro barrado, n\u00e3o ao saber suposto, e sim \u00e0 sua destitui\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio, est\u00e1 referido ao desejo do Outro. Assim, mant\u00e9m-se \u00e0 margem das transforma\u00e7\u00f5es operadas pela interpreta\u00e7\u00e3o significante. Ele n\u00e3o se modifica, ele \u00e9 atravessado, a partir de suas trilhas, das marcas pulsionais do objeto.<\/p>\n<p>Apresentarei agora uma vinheta cl\u00ednica do testemunho de passe de Bernard Seynhaeve (2010) para avan\u00e7armos na discuss\u00e3o das trilhas do fantasma na entrada em an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua an\u00e1lise se desenvolveu entre duas interven\u00e7\u00f5es-chave que adquirem valor de ato, sendo a primeira delas a que precipita o in\u00edcio da an\u00e1lise. O analista, olhando diretamente em seus olhos, questiona sobre uma cicatriz em sua bochecha e afirma: \u201cvoc\u00ea deveria ter me falado disso\u201d. O sujeito \u00e9 atingido por essa interven\u00e7\u00e3o como por uma bofetada, que o faz experimentar uma ang\u00fastia intensa. A partir desse epis\u00f3dio, ou mais especificamente do olhar contido nele, iniciou-se o trabalho sobre as marcas pulsionais do objeto olhar. Durante anos, a an\u00e1lise se organiza em torno dessa tentativa de cifra\u00e7\u00e3o e decifra\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>Na outra interpreta\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo do final de sua an\u00e1lise, o analista disse-lhe: \u201cvoc\u00ea ama demais suas fantasias\u201d. Essa interven\u00e7\u00e3o trouxe uma interrup\u00e7\u00e3o na associa\u00e7\u00e3o significante, um corte radical entre S1 e S2, criando um espa\u00e7o de vazio e sil\u00eancio. O efeito dessa interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de sentido, mas o seu esvaziamento.<\/p>\n<p>Ambas interven\u00e7\u00f5es, uma que precipita a entrada em an\u00e1lise e a outra que precipita seu final, t\u00eam o mesmo estatuto em rela\u00e7\u00e3o ao real. Entretanto, produzem efeitos distintos. Uma p\u00f5e em marcha a rela\u00e7\u00e3o entre significantes, a partir do inconsciente transferencial e a outra produz um corte entre significantes e torna poss\u00edvel o advento do inconsciente real. Miller (2012) elaborando sobre essa diferen\u00e7a dos efeitos diz para Bernard:<\/p>\n<blockquote><p>Portanto, de certo modo, \u00e9 voc\u00ea quem cria isso, o que lhe confere um valor. Da mesma forma que Lacan podia dizer que o analista faz parte do conceito de inconsciente, \u00e9 preciso dizer:<\/p><\/blockquote>\n<p>o analisando faz parte do conceito de interpreta\u00e7\u00e3o (2012, p. 170).<\/p>\n<p>Ou seja, no in\u00edcio de uma an\u00e1lise as interven\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o ao real assumem efeitos distintos das do seu final, obviamente. No <em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23<\/em>, Miller (2009) nos aponta, a partir do \u00faltimo ensino de Lacan, uma desconex\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre significantes.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Aqui, a ruptura da continuidade \u00e0 qual, sob o ponto de vista da psican\u00e1lise absoluta, atribu\u00edmos uma fun\u00e7\u00e3o crucial, uma vez que ela mostra o discurso anal\u00edtico articulado em torno de um corte, articulado em torno de uma desconex\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do significante ao significante (&#8230;) H\u00e1 sempre algo interrompido na rela\u00e7\u00e3o do significante ao significante\u201d (2009, p. 160).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A partir dessa desconex\u00e3o, como poder\u00edamos pensar as entrevistas preliminares e o in\u00edcio de uma an\u00e1lise, incluindo evidentemente, a regra fundamental da associa\u00e7\u00e3o livre? Miller marca ent\u00e3o uma antinomia entre pr\u00e1tica e perspectiva. A pr\u00e1tica estaria nessa rela\u00e7\u00e3o entre S1 e S2 da associa\u00e7\u00e3o livre e na perspectiva estaria a disjun\u00e7\u00e3o radical entre eles. Dois-pontos:Liga\u00e7\u00e3o e corte!<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o e corte, que iniciei falando meu trabalho, nos ajuda a pensar tamb\u00e9m o sintoma. Diferente de outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, o sintoma insiste no tempo, apresenta-se como uma perman\u00eancia que permite aproxim\u00e1-lo do real, fora da cadeia significante, portanto longe do sentido. Poderiamos ent\u00e3o pensar, com Miller (2010) em <em>Ler um sintoma<\/em>, que o sintoma comporta duas faces: uma decifr\u00e1vel, que se dirige ao saber do Outro, articulando S1 e S2 e a segunda que faz obst\u00e1culo ao sentido, o S1 disjunto.<\/p>\n<p>Se nos primeiros tempos o sintoma foi pensado como portador de um sentido a ser decifrado, em continuidade com o desejo e suas significa\u00e7\u00f5es inconscientes, com \u201c<em>Joyce, o sinthoma\u201d <\/em>a \u00eanfase desloca-se para o <em>acontecimento de corpo<\/em>. Essa virada introduz uma nova dimens\u00e3o do sintoma que se d\u00e1 como uma amarra\u00e7\u00e3o contingente do <em>falasser <\/em>diante do imposs\u00edvel de simbolizar.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, nas entrevistas preliminares, o analista se orienta menos pelo conte\u00fado da queixa e mais pelo que nela insiste como ponto de imposs\u00edvel. E \u00e9 esse fundo de imposs\u00edvel que garante ao sintoma sua parte opaca. Miller (2016) indica que a opacidade do sintoma \u00e9 a chave para a f\u00f3rmula \u201ctodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d: justamente porque o sintoma cont\u00e9m um gozo opaco, todo sentido constru\u00eddo em torno dele \u00e9, de algum modo, um del\u00edrio. Mas como poder\u00edamos avan\u00e7ar no entendimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 opacidade do gozo do sintoma? Patricio Alvarez (2023) fez essa pergunta e destacou tr\u00eas modalidades de opacidade: do corpo Real, do feminino e da letra como S1.<\/p>\n<p>Ao desenvolver essa quest\u00e3o, \u00c1lvarez (2023) aprofunda-se em duas dimens\u00f5es de opacidade do sintoma enquanto acontecimento de corpo. A primeira, situada entre o simb\u00f3lico e o real, refere-se \u00e0 letra, o S1, significante mestre: a partir de um acontecimento contingente, inscreve-se uma letra sem significa\u00e7\u00e3o que retorna, iterando-se. A segunda concerne ao pr\u00f3prio corpo, tomado como uma opacidade em si, situado entre o imagin\u00e1rio e o real. O sintoma, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas letra, mas tamb\u00e9m corpo.<\/p>\n<p>O percurso anal\u00edtico consiste em formalizar o sintoma, reconhecer sua repeti\u00e7\u00e3o, distinguir o S1 sem sentido dos S2 produtores de sentido, e, finalmente, esvaziar o S1 de seu valor fantasm\u00e1tico, o que permite passar da repeti\u00e7\u00e3o \u00e0 itera\u00e7\u00e3o. Desse modo, ao longo da an\u00e1lise, o S1 se destaca como letra sem sentido, o ponto inelimin\u00e1vel do sintoma. Esse ponto fixo de gozo conduz \u00e0 possibilidade de um <em>arranjar-se a\u00ed <\/em>com o sintoma. Contudo, o que me parece importante perceber \u00e9 que desde o in\u00edcio de uma an\u00e1lise algo dessa opacidade j\u00e1 se deixa entrever.<\/p>\n<p>No testemunho de Bernard Seynhaeve (2010), ele destaca a letra L como S1, o significante-mestre que presidir\u00e1 seu destino e que, no in\u00edcio de sua an\u00e1lise, se apresenta revestido de seu valor fantasm\u00e1tico. Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o do analista: <em>\u201cvoc\u00ea deveria ter me falado disso\u201d<\/em>, ele faz um sonho que inaugura sua an\u00e1lise: um corredor em forma de L, ligado \u00e0 maternidade, \u00e0 origem, e uma necessidade imperiosa de urinar at\u00e9 o transbordamento e ele acorda urinado. Esse sonho precipita uma fobia ao se deitar, acompanhado pelo temor de que a crise de enurese se repetisse. Mesmo quando conseguia adormecer, era tomado por sonhos de castra\u00e7\u00e3o que o faziam despertar sobressaltado, atormentando-o por v\u00e1rios anos.<\/p>\n<p>O sonho toca no excesso pulsional e revela que o que Bernard deveria falar n\u00e3o se tratava do cisto na bochecha, mas de outra coisa, a marca de gozo, que excede o corpo. Esse excesso pulsional se faz presente, inclusive no sonho que precipita o final de sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p>E a letra L, como S1, o significante-mestre (S1), entra na associa\u00e7\u00e3o livre, em uma opera\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o entre S1 e S2, seguindo em sua an\u00e1lise as trilhas do fantasma. Seu tio que vivia um romance com sua m\u00e3e, ferido na guerra, envia uma carta ao irm\u00e3o, futuro pai de Bernard, dizendo: <em>\u201cSe eu morrer, ocupe-se dela\u201d<\/em>. Essa injun\u00e7\u00e3o, proferida \u00e0 beira da morte, sela a uni\u00e3o de seus pais e marca o sujeito por uma palavra que o precede. Bernard encarna o \u201cL\u201d de <em>elle<\/em>, o feminino, fazendo dessa letra, o ponto em que o corpo e o significante se enla\u00e7am para definir um modo de gozo e uma posi\u00e7\u00e3o sexuada. O \u201cL\u201d \u00e9, desde o in\u00edcio, a letra em torno da qual o sujeito tenta se representar, uma marca real que funda sua hist\u00f3ria sob o signo de um gozo que itera.<\/p>\n<p>A segunda interven\u00e7\u00e3o do analista: \u201c<em>Voc\u00ea gosta demais de suas fantasias\u201d<\/em>, marca um corte na rela\u00e7\u00e3o entre S1 e S2, suspendendo o movimento de significa\u00e7\u00e3o. Esse corte deixa o sujeito abandonado ao significante-mestre isolado, ao S1 tomado em sua dimens\u00e3o de letra, puro tra\u00e7o de gozo sem media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. O \u201cL\u201d tomado agora como letra real, marca de um corpo que goza ao falar d<em>isso<\/em>.<\/p>\n<p>Enquanto a letra pode ser trabalhada como efeito de discurso, o corpo real exige outro tipo de abordagem. Lacan introduz aqui o conceito de \u201cefeito de afeto\u201d: o corpo n\u00e3o se trata pela repeti\u00e7\u00e3o nem pela letra, mas pelos efeitos de afeto, pela resson\u00e2ncia. O corpo pode ser tocado, feito ressoar, mas n\u00e3o interpretado. Ao distinguir essas duas opacidades \u2014 a da letra e a do corpo real \u2014, compreende-se que o gozo opaco do sintoma decorre do enlace entre ambas: o acontecimento que se escreve como letra opaca e sem sentido, e o corpo real, igualmente opaco.<\/p>\n<p>O significante \u00e9 causa do sujeito no discurso e, tamb\u00e9m, causa de gozo no corpo. Sobre o gozo obscuro do sintoma, a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica deve, como indica Lacan (2007) \u201c[&#8230;] realizar uma sutura e uma emenda\u201d (p. 71). Uma opera\u00e7\u00e3o que localiza, delimita, circunscreve as marcas de gozo inscritas no corpo.<\/p>\n<p>A partir do fragmento de passe, podemos localizar modalidades de interpreta\u00e7\u00e3o, evidenciando, em cada uma, a dire\u00e7\u00e3o que busca o arranjo do gozo, transformando-o de algum modo e que, para isso, o analista \u201c[&#8230;] mobiliza algo do corpo (&#8230;) por exemplo, que ele coloque o tom, a voz, o sotaque, at\u00e9 o gesto e o olhar\u201d (MILLER, 2011 p. 136).<\/p>\n<p>Assim, desde as entrevistas preliminares, \u00e9 o real que est\u00e1 em perspectiva. Na perspectiva de um instante. O analista, situado como \u201cUm que se \u00e9\u201d, aposta nessa opacidade, nessa falha de sentido que indica o real do sintoma e vai destacando as marcas do objeto, trilhando o caminho do fantasma. O dois-pontos, ent\u00e3o, deixa de ser apenas um sinal gr\u00e1fico: torna-se a pr\u00f3pria escrita de uma passagem, o ponto de tor\u00e7\u00e3o entre o corte e a continuidade, entre o falar e o corpo, entre o sentido e o n\u00e3o sentido, enfim, real!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>Alvarez, P. <em>Primera noche: Tres opacidades del s\u00edntoma<\/em>. Virtualia, n\u00b0 XVII, 2023. Lacan, J., O semin\u00e1rio, livro 23, O sinthoma, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2007<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. <em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan: O sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009. 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. <em>Ler um sintoma<\/em>. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n\u00ba 70, S\u00e3o Paulo: EBP, 2010.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A., <em>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/em>, Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2011 Miller, J.-A. <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>. Buenos Aires: Ediciones La Causa Freudiana, 2016. Miller, J.-A.<strong>. <\/strong><em>Del s\u00edntoma al fantasma. Y retorno<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2018.<\/h6>\n<h6>Vieira, M. A. <em>A Escrita do Sil\u00eancio (voz e letra em uma an\u00e1lise)<\/em>. Rio de Janeiro: Subversos, Seynhaeve, B. A fala freada. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie. n\u00b0 2, Julho 2010.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilker Fran\u00e7a &#8211; Associado do IPB Irei come\u00e7ar pelo t\u00edtulo de nossa jornada \u201cEntrada em an\u00e1lise: entrevistas preliminares\u201d. E sobre ele me ater aos dois pontos que se localizam entre a \u201centrada em an\u00e1lise\u201d e as \u201centrevistas preliminares\u201d, que acredito, inclusive, ter sido o ponto em torno do qual discutimos boa parte de nossas reuni\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[520],"tags":[],"class_list":["post-57885","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-plenarias","category-520","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57885"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57887,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57885\/revisions\/57887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}