{"id":57879,"date":"2025-11-18T09:12:25","date_gmt":"2025-11-18T12:12:25","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/?p=57879"},"modified":"2025-11-18T09:13:00","modified_gmt":"2025-11-18T12:13:00","slug":"o-parceiro-analista-nas-trincheiras-das-subjetividades-sem-causa1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/o-parceiro-analista-nas-trincheiras-das-subjetividades-sem-causa1\/","title":{"rendered":"O parceiro-analista nas trincheiras das \u201csubjetividades sem causa<sup>[1]<\/sup>&#8220;"},"content":{"rendered":"<h5>Virg\u00ednia Dazzani<\/h5>\n<p><strong>A cl\u00ednica contempor\u00e2nea e os impasses de entrada<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise<\/em>, Lacan (1998, p. 322) afirma que \u00e9 melhor que \u201crenuncie a isso [\u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica] (\u2026) quem n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca\u201d. Cada \u00e9poca produz novas modalidades de gozo frente ao mal-estar e, portanto, novas subjetividades e amarra\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os \u201cnovos sintomas\u201d, como as toxicomanias, bulimia, anorexia, compuls\u00f5es, adi\u00e7\u00f5es, entre outras, nos fazem interrogar sobre os impasses de entrada em an\u00e1lise e sobre os limites da nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica. Como sabemos, essa \u00e9 uma pr\u00e1tica que n\u00e3o prescinde da transfer\u00eancia e da sua \u00e9tica. Domenico Cosenza (2024) refere-se aos \u201cnovos sintomas\u201d naquilo que nomeia de \u201ccl\u00ednica do excesso\u201d e \u201cpatologias do excesso\u201d. S\u00e3o sintomas que n\u00e3o se organizam pela via da falta simb\u00f3lica, mas pela satura\u00e7\u00e3o de gozo. Eles se apresentam como uma cl\u00ednica do real. Enquanto o neur\u00f3tico \u00e9 estruturado pelo fantasma fundamental, os sujeitos das \u201cpatologias do excesso\u201d muitas vezes se apresentam com \u201cfantasmas congelados ou ausentes\u201d (Cosenza, 2024). Falta-lhes uma narrativa fantasm\u00e1tica que d\u00ea enquadre simb\u00f3lico ao gozo. Em vez disso, o gozo aparece cru, massivo, onde o funcionamento sintom\u00e1tico pode ocupar, em alguns casos, o lugar de supl\u00eancia. O tratamento anal\u00edtico, nesses casos, visa n\u00e3o a normaliza\u00e7\u00e3o, mas a inven\u00e7\u00e3o (ligado ao <em>sinthome<\/em>) a partir de um <em>saber-fazer<\/em> com o pr\u00f3prio excesso.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es, ent\u00e3o, colocam-se como incontorn\u00e1veis: Quais desafios se imp\u00f5em \u00e0 psican\u00e1lise e, portanto, ao parceiro-analista diante de uma \u00e9poca marcada por essas novas parcerias sintom\u00e1ticas, por um mal-estar que se apresenta sob o signo do ilimitado e da liberdade sem freios, mas que, ao mesmo tempo, traduz um assujeitamento radical que opera silenciosamente sob o disfarce da autonomia? Como lemos e formalizamos essas novas parcerias sintom\u00e1ticas que se apresentam na cl\u00ednica contempor\u00e2nea? De que modo operamos como analistas?<\/p>\n<p><strong>As \u201csubjetividades sem causa\u201d <\/strong><\/p>\n<p>O discurso capitalista, presente nas sociedades neoliberais, ao recha\u00e7ar a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e dissolver os ideais que antes organizavam o la\u00e7o social, nos oferece a promessa de que tudo \u00e9 poss\u00edvel sob a condi\u00e7\u00e3o de um direito ao gozo (Rubi\u00e3o, 2021). Substituiu-se a interdi\u00e7\u00e3o pela injun\u00e7\u00e3o a consumir, produzir e performar\u00a0\u00a0 e \u00e9 nessa passagem que se instala o novo mal-estar.\u00a0 Assim, a queda dos ideais e do semblante f\u00e1lico tem transformado a economia ps\u00edquica dos sujeitos.<\/p>\n<p>Em seu texto intitulado <em>Para una cl\u00ednica de las subjetividades sin causa<\/em>,\u00a0 Leonardo Gorostiza (2019) lan\u00e7a uma interroga\u00e7\u00e3o sobre qual seria o elemento comum nas novas parcerias sintom\u00e1ticas, nas novas subjetividades, que podem ser deduzidas como efeito da alian\u00e7a discursiva entre o capitalismo e a ci\u00eancia. Foi Jacques-Alain Miller, citado por Gorostiza, quem nomeou essa combina\u00e7\u00e3o como \u201c<em>capitalismo plus ci\u00eancia\u201d<\/em>, que respondem, de modo singular, \u00e0 desordem do real. De acordo com Gorostiza, essa alian\u00e7a tem gerado um efeito cl\u00ednico in\u00e9dito: o surgimento de <em>subjetividades sem causa<\/em>, isto \u00e9, modos de exist\u00eancia em que o sujeito rejeita a fun\u00e7\u00e3o da causa que, para a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, \u00e9 essencial, condi\u00e7\u00e3o mesma para a abertura do inconsciente e o tratamento do sintoma. Gorostiza retoma os quatro discursos formulados por Lacan (do amo, da hist\u00e9rica, universit\u00e1rio e do analista) e destaca que todos eles preservam a dimens\u00e3o da impossibilidade e a fun\u00e7\u00e3o do falo como operador da falta. Cada discurso organiza o la\u00e7o social de modo distinto, mas todos reconhecem um ponto de imposs\u00edvel que funda a causa e sustenta o desejo. O discurso capitalista e o discurso cient\u00edfico, ao contr\u00e1rio, eliminam essa impossibilidade estrutural. Ambos operam uma elis\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o da causa, aquilo que nos outros discursos \u00e9 atravessado pelo imposs\u00edvel. Essa <em>elis\u00e3o <\/em>tem consequ\u00eancias na cl\u00ednica transferencial criada por Freud, uma cl\u00ednica pr\u00f3pria da localiza\u00e7\u00e3o do objeto causa do desejo no campo do Outro.<\/p>\n<p>Gorostiza (2019) cita Lacan ao afirmar que o que distingue o discurso capitalista \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o, a <em>Verwerfung<\/em>, da castra\u00e7\u00e3o: \u201cToda ordem, todo discurso que se assemelha ao capitalismo deixa de lado o que chamaremos simplesmente de coisas do amor\u201d (Lacan, 1972). O capitalismo oferece objetos de consumo como <em>pseudo-objetos-causa<\/em>, que tamponam a falta e produzem as <em>subjetividades sem causa<\/em>: sujeitos que j\u00e1 n\u00e3o se organizam em torno da falta, mas de objetos que prometem um gozo sem limite.<\/p>\n<p>Nesses casos, o sujeito busca um parceiro que lhe permita regular o excesso de gozo. O sujeito cola-se ao objeto (t\u00f3xico, tecnol\u00f3gico ou de consumo) como tentativa de escapar da castra\u00e7\u00e3o; o objeto n\u00e3o causa o desejo, mas ocupa seu lugar e captura o sujeito. A droga, o corpo, o dinheiro, o outro digital ou o trabalho podem ocupar a fun\u00e7\u00e3o de parceiro-sintoma (Miller, 2008). De acordo com Gorostiza (2019), um dos desafios da psican\u00e1lise contempor\u00e2nea \u00e9 reintroduzir o imposs\u00edvel, reinstalar a fun\u00e7\u00e3o da causa e, com ela, a responsabilidade subjetiva. A cl\u00ednica deve localizar o que resta, o <em>sinthoma<\/em>, como forma singular de cada sujeito lidar com o imposs\u00edvel, resistindo \u00e0 l\u00f3gica capitalista do \u201ctudo funciona\u201d. O analista deve jogar a sua partida preservando o que n\u00e3o fecha, o que falha, pois \u00e9 justamente nesse resto que se encontra a dignidade do sujeito. Em uma \u00e9poca marcada pelo \u201ctodos iguais\u201d, Gorostiza (2019) salienta que cabe ao analista sustentar o que diferencia: o relevo do <em>sinthoma<\/em>, essa marca que n\u00e3o se reduz ao consumo nem ao imperativo de que se deve gozar ilimitadamente de tudo.<\/p>\n<p><strong>As patologias do excesso e a recusa da cess\u00e3o do objeto<\/strong><\/p>\n<p>Cosenza (2024) afirma que os \u201cnovos sintomas\u201d ou, como prefere chamar, \u201cpatologias do excesso\u201d, constituem solu\u00e7\u00f5es alternativas ao impasse no processo de incorpora\u00e7\u00e3o da lei edipiana. A perda do objeto prim\u00e1rio de satisfa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a base da estrutura\u00e7\u00e3o da neurose, se mostra, nas \u201cnovas formas de sintoma\u201d, imposs\u00edvel ou prec\u00e1ria. A partir de Freud e Lacan, sabemos que a perda de um objeto parcial, para o neur\u00f3tico, \u00e9 o resultado da opera\u00e7\u00e3o de simboliza\u00e7\u00e3o do gozo prim\u00e1rio. Esse objeto parcial, chamado por Lacan de <em>objeto pequeno a<\/em>, constitui o res\u00edduo de gozo que escapa \u00e0 lei edipiana e que retorna na repeti\u00e7\u00e3o do sintoma neur\u00f3tico. O que acontece nos chamados \u201cnovos sintomas\u201d \u00e9 que, no plano estrutural, a a\u00e7\u00e3o reguladora do Outro n\u00e3o incide sobre o corpo do gozo Um, e o sujeito n\u00e3o experimenta a perda do objeto. N\u00e3o h\u00e1 cess\u00e3o do objeto, ou seja, o sujeito n\u00e3o cede parte de seu gozo ao Outro (Cosenza, 2024).<\/p>\n<p>Lacan (1962-1963\/2005), no <em>Semin\u00e1rio Livro <\/em>10<em>:<\/em> A<em> ang\u00fastia<\/em>, j\u00e1 havia indicado que a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito exige a cess\u00e3o do <em>objeto a<\/em> ao campo do Outro. Essa opera\u00e7\u00e3o abre um vazio simb\u00f3lico que regula o gozo, permitindo sua inscri\u00e7\u00e3o no discurso. No neur\u00f3tico, o excesso se inscreve de modo discursivo: um gozo parcial, que mant\u00e9m o sujeito no la\u00e7o social. Nas \u201cpatologias do excesso\u201d, h\u00e1 uma recusa da cess\u00e3o: o objeto n\u00e3o \u00e9 abandonado, o desmame n\u00e3o ocorre, e o sujeito fica colado a um objeto-gozo (Cosenza, 2024). Isso resulta em um excesso fora do discurso, \u201cem pr\u00e1ticas aut\u00e1rquicas\u201d, desconectadas do Outro. Cosenza (2024) assinala que essas pr\u00e1ticas se organizam em \u201ccircuitos repetitivos e fechados\u201d, nos quais o sujeito \u201cgoza em autossufici\u00eancia com o objeto\u201d (com as drogas, a comida, as restri\u00e7\u00f5es corporais, a tecnologia, os rituais autolesivos). O resultado \u00e9 um sujeito \u201cdesbussolado\u201d, prisioneiro da demanda de um Outro absoluto que tudo promete e tudo devora. Os \u201cnovos sintomas\u201d ou \u201cpatologias do excesso\u201d revelam o modo como o gozo, ao perder sua borda simb\u00f3lica, retorna no corpo. Em vez de dividido, o sujeito aparece identificado ao sintoma. Trata-se de tentativas de restabelecer um limite, de reinscrever no corpo o corte que o discurso contempor\u00e2neo tenta apagar.<\/p>\n<p>A promessa de um gozo pleno e aut\u00f4nomo mascara o fato de que, estruturalmente, toda experi\u00eancia de prazer comporta o encontro com o limite. A pr\u00f3pria estrutura pulsional comporta um ponto de impossibilidade: a satisfa\u00e7\u00e3o absoluta \u00e9 interditada. Como observa Freud (1912\/1996), \u201calgo na pr\u00f3pria natureza do instinto sexual \u00e9 desfavor\u00e1vel \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o completa\u201d (p. 171). Ao negar a castra\u00e7\u00e3o, o discurso capitalista neoliberal fabrica sujeitos supostamente sem falta, mas tamb\u00e9m sem desejo. O imposs\u00edvel, contudo, \u00e9 aquilo que esteve e estar\u00e1 sempre a\u00ed. Freud o formulou no \u00e2mbito da puls\u00e3o e Lacan o articulou na no\u00e7\u00e3o da <em>n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>, esse furo estrutural que nenhuma engenharia do corpo ou da t\u00e9cnica pode suturar. O gozo, longe de ser plenitude, \u00e9 sempre uma borda em torno de um vazio. Em <em>El partenaire-s\u00edntoma<\/em>, Miller (2008) afirma que o ser falante goza de modo sintom\u00e1tico: \u201cseu gozo nunca \u00e9 o que deveria ser; h\u00e1 sempre um erro, uma falha no modo de gozar\u201d(p. 28), ou seja, o gozo n\u00e3o conv\u00e9m ao significante. Esse erro estrutural define a condi\u00e7\u00e3o humana e a pr\u00f3pria impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual. O sintoma \u00e9, ent\u00e3o, a maneira singular de cada um lidar com essa falha estrutural do gozo. O encontro entre a l\u00edngua e o corpo j\u00e1 instaura um corte origin\u00e1rio, nos dir\u00e1 Lacan. Laurent (2017, p. 28) aponta essa falha estrutural ao dizer que \u201cn\u00e3o h\u00e1 gozo \u00faltimo que possa nos aliviar definitivamente da nossa ang\u00fastia\u201d.<\/p>\n<p><strong>O parceiro-analista, a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e a \u00e9tica do <em>falasser<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Se, por um lado, o sintoma neur\u00f3tico freudiano sempre se apresenta como uma representa\u00e7\u00e3o, ainda que metaf\u00f3rica, do encontro com o objeto de gozo perdido, por outro, a mesma opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece com os chamados \u201cnovos sintomas\u201d.\u00a0 Nas entrevistas preliminares da cl\u00ednica \u201ccl\u00e1ssica\u201d, a avalia\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, realizada atrav\u00e9s do discurso daquele que procura um analista, indica saber da estrutura do sujeito (diagn\u00f3stico diferencial do sujeito) enquanto avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e tratamento da demanda que contempla a retifica\u00e7\u00e3o subjetiva e a histeriza\u00e7\u00e3o do discurso. Na cl\u00ednica \u201ccl\u00e1ssica\u201d, a inten\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o e a localiza\u00e7\u00e3o do significante da transfer\u00eancia permitem a abertura de um caminho para uma an\u00e1lise. Hoje, vemos, nas \u201cnovas parcerias sintom\u00e1ticas\u201d, sujeitos que, frequentemente, n\u00e3o formalizam uma demanda nem se interrogam sobre a causa de seu sintoma. S\u00e3o sujeitos que se apresentam com uma descren\u00e7a no Sujeito Suposto Saber e com uma ruptura da ancoragem na suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, cabe a n\u00f3s, praticantes da psicanalise, localizar o que podemos extrair e ler dessas novas parcerias sintom\u00e1ticas, circunscrever algo do excesso pulsional para que possa ser colocado a um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o analisante. Ent\u00e3o, como operar e jogar a partida, desde a entrada, na aposta de que o sofrimento se formalize e emerja o efeito sujeito como resposta ao real?<\/p>\n<p>Em seu texto \u201cAbonados e desabonados\u201d, Tudanca (2023) defende a hip\u00f3tese de que o \u201cdesabonado do inconsciente n\u00e3o \u00e9 desabonado do <em>sinthome\u201d<\/em>. Partindo dessa hip\u00f3tese, ent\u00e3o,\u00a0 Arga\u00f1a e cols. (2023) prop\u00f5em um trabalho de an\u00e1lise atrav\u00e9s do qual a opera\u00e7\u00e3o do analista se d\u00ea na dire\u00e7\u00e3o de \u201cabalar a posi\u00e7\u00e3o inicial de gozo e produzir, por meio de um for\u00e7amento, o \u2018abonamento\u2019 do inconsciente, ou ainda a leitura do sintoma\u201d. De acordo com eles, isso s\u00f3 poss\u00edvel, a partir da leitura da \u201cirrup\u00e7\u00e3o de algum trope\u00e7o, de alguma emerg\u00eancia de gozo, sobre a qual se pode verificar o consentimento do sujeito ao ato anal\u00edtico\u201d. Contudo, eles destacam que o fato de haver consentimento n\u00e3o implica que haja entrada em an\u00e1lise: a \u201cdimens\u00e3o do amor pode estar ausente, assim como a do saber, ainda que n\u00e3o a do gozo\u201d.\u00a0 Nesse caso, o parceiro-analista joga a partida <em>fazendo par<\/em> com aquilo que n\u00e3o faz parceria: o gozo do Um. Isso implica \u201cno deslizamento da urg\u00eancia como dimens\u00e3o do sofrimento na sess\u00e3o, para \u00b4o que urge\u00b4 como aquilo que empurra, que preside como satisfa\u00e7\u00e3o uma an\u00e1lise. Uma urg\u00eancia relacionada com o real\u201d.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o das entrevistas preliminares, nesse cen\u00e1rio, talvez deva ser pensada como aquela de sustentar a aposta no discurso, mesmo quando o la\u00e7o simb\u00f3lico parece ruir.\u00a0 Marie H\u00e8l\u00e8ne Brousse (citada por Rubi\u00e3o, 2021) assinala que, diante do decl\u00ednio dos ideais e da preval\u00eancia do gozo como imperativo contempor\u00e2neo, a psican\u00e1lise sustenta uma \u00e9tica pr\u00f3pria \u2014 a \u00e9tica do corpo falante, ou seja, a \u00e9tica do <em>falasser<\/em>. Essa \u00e9tica n\u00e3o promete cura nem felicidade, mas convida o sujeito a encontrar uma maneira pr\u00f3pria de lidar com o real do gozo, isto \u00e9, a um <em>fazer<\/em> com o seu sintoma. Frente aos discursos que prometem a supera\u00e7\u00e3o da falta, o parceiro-analista sustenta a presen\u00e7a do imposs\u00edvel \u2014 n\u00e3o como falha a corrigir, mas como condi\u00e7\u00e3o da subjetividade.<\/p>\n<p>Nohemi Brown, na sua transmiss\u00e3o \u00e0 EBP-Ba, em Outubro deste ano, destacou, nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, que o desafio atual do analista consiste em criar condi\u00e7\u00f5es para que algo do gozo n\u00e3o endere\u00e7ado ao Outro, um \u201cgozo ileg\u00edvel\u201d, possa se \u201ctornar leg\u00edvel\u201d, restituindo \u00e0 palavra sua fun\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o. Isso significa, ainda, criar as condi\u00e7\u00f5es de localiza\u00e7\u00e3o dos significantes, os S<sub>1<\/sub> que &#8220;ajudam a tornar o gozo leg\u00edvel\u201d. Para ela, essa a\u00e7\u00e3o cl\u00ednica implica, tamb\u00e9m, no reconhecimento da exist\u00eancia de um gozo ileg\u00edvel que deve ser respeitado enquanto tal, funcionando como uma \u201cletra velada\u201d que o analista n\u00e3o deve obliterar.\u00a0 No que se refere \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica, retoma a import\u00e2ncia das entrevistas preliminares, conforme o Semin\u00e1rio 19 (<em>O Semin\u00e1rio, livro<\/em> 19: \u2026 <em>ou pior<\/em>) de Lacan (1971-1972\/2012), destacando que elas t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o essencial n\u00e3o apenas para o analisante, mas tamb\u00e9m para o analista, e\u00a0 que nelas deve localizar\u00a0 essa \u201ceconomia do gozo de cada um\u201d e a fun\u00e7\u00e3o do analista em cada caso. A an\u00e1lise exige distinguir a demanda do Outro da demanda do sujeito, o que sup\u00f5e uma escuta capaz de extrair \u201cfiapos de sentido\u201d do discurso, em vez de impor uma leitura pr\u00e9via. Exige a escuta do efeito de significante que habita o <em>falasser<\/em>, e que lhe escapa (Brousse, 2011). Em <em>El partenaire-s\u00edntoma<\/em>, Miller (2008, p. 60) diz que \u201co sujeito-suposto-saber \u00e9 o \u201csintoma-suposto-palavra\u201d. Assim, a pr\u00e1tica anal\u00edtica consiste em \u201cverificar a palavra do sintoma\u201d e\u00a0 \u201cintroduzir a cren\u00e7a no sintoma \u00e9 um postulado pr\u00e1tico. \u00c9 introduzir sentido no sofrimento, transformar o sintoma que se sofre em uma entidade que fala\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ARGA\u00d1A, Ezequiel; SOLER, Ana Luc\u00eda Soler et al. \u201cFazer par com a urg\u00eancia\u201d. Texto apresentado no XI Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. Outubro de 2023. Acessado em: 31\/10\/25.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie H\u00e8l\u00e8ne. Solitude des corps. <em>Lacan Quotidien., <\/em>n. 883, Abril de 2020. Dipon\u00edvel em : <a href=\"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/LQ-883.pdf\">https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/LQ-883.pdf<\/a>.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie H\u00e8l\u00e8ne. Por que \u00e9 que ele vem?. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana <\/em>(online), Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, Eolia, n. 4, p.1-7, mar\u00e7o 2011. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_4\/porque_que_ele_vem.pdf\">https:\/\/opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_4\/porque_que_ele_vem.pdf<\/a>.<\/h6>\n<h6>COSENZA, Domenico. <em>Cl\u00ednica do excesso: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. (1912).\u00a0<em>Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor<\/em>\u00a0(contribui\u00e7\u00f5es para psicologia do amor II). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (ESB, 11).<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Ang\u00fastia e instintos. (1933). In: FREUD, S. <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise e outros textos.<\/em>(1930-1936). Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo; Companhia das Letras, 2010. p. 224-262. (Obras completas, 18).<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia. (1926). In: FREUD, S.\u00a0 <em>Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia. O futuro de uma ilus\u00e3o e outros textos<\/em> (1926-1929). Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo; Companhia das Letras, 2010. p. 13-123. (Obras completas, 18).<\/h6>\n<h6>GOROSTIZA, Leonardo. \u201cPara una cl\u00ednica de las subjetividades sin causa\u201d. In <em>Pilquen<\/em>. Bariloche. N\u00ba 6 \u2013 Septiembre 2019. p. 37-43.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O Discurso Capitalista: Discurso na Universidade de Mil\u00e3o em 12 de maio de 1972. Publicado na Revista: Lacan na It\u00e1lia. Paris,1978.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Do \u201cTrieb\u201d de Freud e do desejo do analista. (1964). In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio, livro <\/em>10; <em>A ang\u00fastia<\/em>. (1962-1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio, livro <\/em>19:\u2026 <em>ou pior<\/em>) (1971-1972). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d. In:\u00a0 LACAN, J. <em>Escritos.<\/em> Trad. Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.. 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cDel discurso psicoanal\u00edtico\u201d, conferencia en Mil\u00e1n el 12 de mayo<\/h6>\n<h6>de 1972, publicada en Lacan in Italia, La Salamandra, editor M.G. Contri,<\/h6>\n<h6>Italia, 1976, p\u00e1gs. 40, 48 y 49.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. <em>El partenaire-s\u00edntoma<\/em> &#8211; la ed. &#8211; Buenos Aires : Paid\u00f3s, 2008.<\/h6>\n<h6>\u00a0(Los Cursos Psicoanal\u00edticos de J.-A. Miller)<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. \u201cA teoria do parceiro\u201d. In: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (Org.). <em>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2000.<\/h6>\n<h6>RUBI\u00c3O, Laura. A \u00e9tica do corpo falante na era do direito ao gozo. <em>Curinga, <\/em>Belo Horizonte, EBP-MG, n. 51,\u00a0 p. 10-14, 2021.<\/h6>\n<h6>TUDANCA, L., \u201cAbonados e desabonados\u201d. Texto apresentado no XI Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. Outubro de 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/portfolio-items\/abonados-e-desabonados. Acessado em: 25\/10\/25.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> GOROSTIZA, Leonardo. \u201cPara una cl\u00ednica de las subjetividades sin causa\u201d. In: <em>Pilquen<\/em>. Bariloche. N\u00ba 6 \u2013 Septiembre 2019. p. 37-43.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Virg\u00ednia Dazzani A cl\u00ednica contempor\u00e2nea e os impasses de entrada Em Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise, Lacan (1998, p. 322) afirma que \u00e9 melhor que \u201crenuncie a isso [\u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica] (\u2026) quem n\u00e3o conseguir alcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca\u201d. 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