{"id":57874,"date":"2025-11-18T09:09:30","date_gmt":"2025-11-18T12:09:30","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/?p=57874"},"modified":"2025-11-18T09:09:30","modified_gmt":"2025-11-18T12:09:30","slug":"fundamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/fundamento\/","title":{"rendered":"Fundamento"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Cartel I &#8211; No in\u00edcio \u00e9 o verbo<\/strong><\/span><\/h3>\n<h5><em>Milena Nadier<\/em><\/h5>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O trabalho de cartel do qual resultou a montagem dessa plen\u00e1ria de hoje n\u00e3o come\u00e7ou por a\u00ed, pelos fundamentos. As discuss\u00f5es iniciais circulavam entre os termos: <em>entrevistas preliminares, transfer\u00eancia, interpreta\u00e7\u00e3o <\/em>e <em>ato anal\u00edtico<\/em>. Por\u00e9m, \u00e0 medida que cada um apresentava sua produ\u00e7\u00e3o, certa tend\u00eancia, quase un\u00e2nime, se fazia notar: a ado\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo comparativo de investiga\u00e7\u00e3o. Algo como: \u201cem Freud era assim\u2026, em Lacan passou a ser assim\u2026\u201d. \u00c0 primeira vista, parecia um esfor\u00e7o leg\u00edtimo. Mas, aos poucos, fomos percebendo que essa abordagem trazia em si alguns problemas.<\/p>\n<p>Durante as preparat\u00f3rias desta Jornada, eles come\u00e7aram a se revelar. Aqui e ali, \u00edamos escutando a pr\u00e1xis freudiana ser descrita como algo que j\u00e1 \u201ccaiu\u201d em desuso. Adjetiva\u00e7\u00e3o dura, depreciativa, aparentemente leviana, mas n\u00e3o completamente injustificada. Ela se apoiava, de modo claudicante, na compara\u00e7\u00e3o e reconhecimento de dois tempos da interpreta\u00e7\u00e3o e da transfer\u00eancia, que respondiam a ao menos dois objetos distintos: o inconsciente freudiano e os inconscientes lacanianos.<\/p>\n<p>O primeiro tempo correspondia \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o freudiana de um inconsciente que abriga o conte\u00fado recalcado e \u00e9 pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o pela via do sentido. A transfer\u00eancia surgia ali como repeti\u00e7\u00e3o. O sujeito repetia em an\u00e1lise algo de suas rela\u00e7\u00f5es primordiais, reeditando-as na figura do analista. Algo que por um lado oportunizava o tratamento e por outro oferecia \u00e0 ele resist\u00eancia. O segundo tempo: o de Lacan. Era o qual, j\u00e1 n\u00e3o se falava de um \u00fanico inconsciente, mas de distintos modos de conceb\u00ea-lo conforme os momentos de seu ensino: o inconsciente estruturado como uma linguagem (S1-S2), o inconsciente transferencial (manifestado na fala e no saber suposto ao analista), o inconsciente real (do n\u00e3o sentido, do furo, do imposs\u00edvel de dizer). Muta\u00e7\u00f5es que se verificam tamb\u00e9m na pr\u00e1tica anal\u00edtica. A interpreta\u00e7\u00e3o passava a se orientar n\u00e3o pela revela\u00e7\u00e3o do sentido recalcado, mas sim pelo gozo e dire\u00e7\u00e3o ao real, fazendo-se atrav\u00e9s do corte, efeito de surpresa e vacila\u00e7\u00e3o de sentido. E, a transfer\u00eancia, passou de um efeito adverso, ainda que necess\u00e1rio, verificado no curso de um tratamento, para uma condi\u00e7\u00e3o de seu in\u00edcio. Ora era lida como amor ao saber suposto e, mais adiante, um la\u00e7o com o objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>Colocando desta forma, em termos comparativos, era f\u00e1cil seduzir-se pela ideia de uma atualiza\u00e7\u00e3o ou ultrapassamento empreendido pelo \u00faltimo autor sobre o primeiro. Algo que precipitadamente poderia conduzir o praticante a crer na possibilidade de escolher \u201cuma cl\u00ednica ao inv\u00e9s da outra\u201d. Justo por esses riscos, vale recuar um pouco e lhes precisar o porqu\u00ea deste m\u00e9todo comparativo e, por conseguinte, as conclus\u00f5es dele derivadas, n\u00e3o nos servirem ao empreender uma pesquisa em psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O gesto de comparar, de nivelar o fundador e seus p\u00f3steros, esquece que o primeiro n\u00e3o apenas inaugura uma teoria, mas abre um campo, um modo de dizer, escutar e pensar. Freud n\u00e3o se situa no interior da psican\u00e1lise: ele a funda, como quem introduz uma l\u00edngua no mundo. Compar\u00e1-lo a Lacan, por exemplo, sem levar em conta esse ato inaugural, seria o mesmo que comparar a raiz de uma palavra \u00e0s suas deriva\u00e7\u00f5es, ignorando que \u00e9 justamente essa raiz que lhes d\u00e1 forma e possibilidade.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud pareceu sens\u00edvel a essa dimens\u00e3o quando, em <em>\u201cA significa\u00e7\u00e3o antit\u00e9tica das palavras primitivas\u201d<\/em><sup>1<\/sup>, comentou fascinado<sup>2<\/sup> o trabalho do fil\u00f3logo Karl Abel. O que o encantava ali n\u00e3o era mera curiosidade lingu\u00edstica, mas o modo como a ambiguidade primordial das palavras revelava que a linguagem se funda sobre uma contradi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, anterior \u00e0 l\u00f3gica bin\u00e1ria, que hoje permite dizer atrav\u00e9s de compara\u00e7\u00f5es: 1 ou 0, isso ou aquilo. Algo afim ao inconsciente freudiano, seja naquilo que lhe \u00e9 patente e \u00e9 observado pelo vienense nesse texto, seja em seu car\u00e1ter de objeto que funda um campo.<\/p>\n<p>Da\u00ed que, comparar Freud com os p\u00f3s-freudianos sem levar em conta esse car\u00e1ter fundacional seria como comparar uma l\u00edngua \u00e0s suas varia\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sem reconhecer que a raiz, ao mesmo tempo que as antecede, permanece operando nelas como princ\u00edpio de forma\u00e7\u00e3o. O problema metodol\u00f3gico, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas cronol\u00f3gico, mas estrutural: o fundador n\u00e3o \u00e9 um termo a ser comparado, mas o solo de linguagem a partir do qual o pr\u00f3prio comparativo se torna poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Reconhecido este limite, uma sa\u00edda alternativa para a constru\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o de hoje parecia ser falar-lhes acerca do primeiro objeto desses nossos fracassados \u201cestudos comparativos\u201d: a cl\u00ednica freudiana e aquilo que ele nomeava por \u201censaio pr\u00e9vio\u201d<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p>Nesse tempo inicial, sua instru\u00e7\u00e3o era que se fosse \u201c[&#8230;] narrada toda a biografia do paciente e a hist\u00f3ria de sua doen\u00e7a\u201d<sup>4<\/sup>, de modo que o praticante, que nada saiba sobre aquele que vem se consultar, pudesse realizar uma \u201c[&#8230;] sondagem para conhecer o caso e [&#8230;] decidir se [era ou n\u00e3o] adequado \u00e0 Psican\u00e1lise\u201d<sup>5<\/sup>. De todo modo, ele parecia intuir que o trabalho nesse momento ia mais al\u00e9m da reuni\u00e3o de um conhecimento sobre o paciente. Em 1905, j\u00e1 dizia: durante essas primeiras sess\u00f5es \u201c[&#8230;] as informa\u00e7\u00f5es que recebo nunca bastam para me orientar. Esse primeiro relato se compara a um rio n\u00e3o naveg\u00e1vel cujo leito \u00e9 ora bloqueado por massas rochosas, ora dividido entre baixios e bancos de areia.\u201d<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Estas e de outras sugest\u00f5es s\u00e3o, no geral, lidas em textos relativamente jovens. Aparecem de modo mais frequente nas primeiras elabora\u00e7\u00f5es acerca do m\u00e9todo anal\u00edtico, nas constru\u00e7\u00f5es de casos cl\u00ednicos e em textos um pouco mais maduros: os <em>Escritos T\u00e9cnicos <\/em>e as <em>Primeiras Confer\u00eancias Introdut\u00f3rias<\/em>. Ou seja, quase nada \u00e9 dito, de modo direto, ap\u00f3s a virada estabelecida com a formula\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte. Nessa fase, um dos poucos trabalhos que parece tangenciar esse tema \u00e9: <em>An\u00e1lise Finita e Infinita<\/em><sup>7<\/sup> de 1937. Nele, diferente dos demais, n\u00e3o h\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o sobre o \u201cconhecer\u201d. Aqui, ao falar desse in\u00edcio, Freud se dedica a descrever a experi\u00eancia de introduzir a urg\u00eancia a partir da antecipa\u00e7\u00e3o e precipita\u00e7\u00e3o do fim do tratamento, bem como os efeitos advindos desse ato. Nessas linhas, a fun\u00e7\u00e3o desse momento fica mais cernida \u00e0 ideia do ato incidindo sobre ou a partir do tempo.<\/p>\n<p>Sim, eu bem que poderia lhes detalhar essas notas e suas implica\u00e7\u00f5es. Ocorre que, tratam-se de apontamentos que, se tomados assim, adquirem um tom de an\u00e1lise documental efetuada sobre uma pr\u00e1xis de mais de 125 anos. Uma postura que parece ser negligente com a leitura do texto freudiano, uma vez que j\u00e1 estabelecemos aqui seu car\u00e1ter fundador.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o nome dessa plen\u00e1ria \u00e9: \u201cNo in\u00edcio \u2018\u00e9\u2019 o verbo\u201d e n\u00e3o \u201cNo in\u00edcio \u2018era\u2019 o verbo\u201d. \u00c9 no tempo presente que precisamos falar. E, para isso, n\u00e3o parece haver outra via que n\u00e3o a de tomar a inven\u00e7\u00e3o freudiana, n\u00e3o pelo valor de documento ou atrav\u00e9s de uma compara\u00e7\u00e3o, mas como algo vivo a operar como princ\u00edpio em nossa pr\u00e1tica nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Assim, vamos aos fundamentos.<\/p>\n<p>Ou o fundamento. N\u00e3o ironicamente o primeiro da s\u00e9rie tomada por Lacan em os<\/p>\n<p><em>Conceitos <strong>fundamentais <\/strong>da psican\u00e1lise<\/em><sup>8<\/sup>. Qual seja: o inconsciente.<\/p>\n<p>Nesse caso, proponho que sejamos ainda mais precisos e nos orientemos por aquilo que Freud define como o seu \u00e2mago. Em suas pr\u00f3prias palavras: \u201cO \u00e2mago do Ics consiste de representantes instintuais que querem descarregar seu investimento\u201d<sup>9<\/sup>. Para tanto est\u00e3o as forma\u00e7\u00f5es: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas, todos eles meios de descarga e express\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um dos argumentos para o pr\u00f3ximo Congresso da AMP, Ricardo Seldes nos lembra dessa tend\u00eancia presente no \u00e2mago do inconsciente freudiano. Ao defini-lo, na sequ\u00eancia pontua: \u201ctalvez sua maior utilidade seja que ele serve para fazer falar\u201d<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p>Ouso dizer que, desde Freud, insiste vivo o fato de que os tratamentos de ensaio, as entrevistas preliminares \u2014 ou, seja l\u00e1 qual for o nome que se escolha dar a esse momento inicial \u2014 servem para dar a ver e crer nessa fun\u00e7\u00e3o do inconsciente: servir para fazer falar.<\/p>\n<p>Fale o que lhe vier \u00e0 mente.<\/p>\n<p>\u201cDiga, sem qualquer reserva cr\u00edtica, tudo o que lhe vier \u00e0 cabe\u00e7a\u201d<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dito assim pode parecer simples, especialmente em um audit\u00f3rio repleto de analisantes e analistas. Mas, permitam-me lembr\u00e1-los o qu\u00e3o \u00e1rduo \u00e9 sustentar essa regra <strong>fundamental <\/strong>sem que haja uma cren\u00e7a no inconsciente e em suas produ\u00e7\u00f5es. Essa dif\u00edcil tarefa, no geral, s\u00f3 se alivia, e se cumpre, ao menos em parte, quando se consente com ela.<\/p>\n<p>Se digo \u201ccren\u00e7a\u201d n\u00e3o \u00e9 por um mero efeito ret\u00f3rico. Esse termo nomeia uma no\u00e7\u00e3o central no campo da epistemologia observada desde Plat\u00e3o<sup>12<\/sup>. Trata-se do estado mental ou atitude na qual um sujeito assente a uma proposi\u00e7\u00e3o tomando-a como verdadeira, mesmo sem provas definitivas. A cren\u00e7a se distingue do conhecimento, precede-o. E, diferente dele, est\u00e1 no campo da possibilidade, no qual <em>n\u00e3o h\u00e1 <\/em>certeza absoluta. Sim, ela \u00e9 uma convic\u00e7\u00e3o, mas uma que n\u00e3o necessariamente \u00e9 justificada e que pode ou n\u00e3o corresponder \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Da\u00ed que, aqui, n\u00e3o se trata de conhecer o inconsciente, mas sim de, em cada caso, abrir as condi\u00e7\u00f5es para que nele se possa acreditar.<\/p>\n<p>Justo por isso, n\u00e3o nos serve o argumento de que, ap\u00f3s um s\u00e9culo de difus\u00e3o, o entranhamento dos conceitos psicanal\u00edticos na cultura facilitaria esse trabalho inicial. A psican\u00e1lise tem, para esses sujeitos \u201cinformados\u201d, o estatuto de conhecimento, n\u00e3o de cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, certamente, h\u00e1 os que chegam ao consult\u00f3rio ap\u00f3s uma primeira an\u00e1lise. J\u00e1 transferidos com a inven\u00e7\u00e3o freudiana. \u201cCrentes\u201d do inconsciente, por assim dizer. Nesses casos, (como bem disse S\u00f4nia Vicente, em um dos Semin\u00e1rios que precedeu essa Jornada), \u201c[&#8230;] falamos primeiro de transfer\u00eancia \u00e0 psican\u00e1lise [e ent\u00e3o a quest\u00e3o se converte em:] Como direcion\u00e1-la ao analista?\u201d<sup>13<\/sup><\/p>\n<p>Mas, aqui havemos de convir: essa \u00e9 certamente a minoria da maioria da cl\u00ednica dos presentes. Em meu cotidiano, ao menos, o que h\u00e1 \u00e9 o trabalho di\u00e1rio de, nesses momentos iniciais, sustentar a aposta e atuar para que aquela cren\u00e7a fundamental possa se fazer existir.<\/p>\n<p>E, como se faz isso?<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o como \u201ctestemunhas do inconsciente\u201d a \u201cpregar a boa nova\u201d. N\u00e3o a partir da nossa pr\u00f3pria fala, e daquilo que supostamente ter\u00edamos a dizer enquanto \u201cconhecedores\u201d do assunto. Mas sim, abrindo espa\u00e7o para, o que, a cada um, serve para fazer falar. \u00c9 como responde Freud a seu \u201cinterlocutor imparcial\u201d em <em>A quest\u00e3o da an\u00e1lise leiga<\/em>,<\/p>\n<blockquote><p>Evidentemente, ele [o paciente] necessitar\u00e1 de uma prepara\u00e7\u00e3o, e isso [diz Freud] pode ser feito de um modo f\u00e1cil. Pedimos a ele que seja muito sincero com seu analista, que n\u00e3o omita propositalmente nada que lhe venha \u00e0 mente, e depois que ignore todos os impedimentos que querem excluir alguns pensamentos ou lembran\u00e7as da comunica\u00e7\u00e3o. Toda pessoa sabe que h\u00e1 coisas que ela contaria aos outros apenas a contragosto, ou cuja comunica\u00e7\u00e3o ela julga impratic\u00e1vel. S\u00e3o suas \u201cintimidades\u201d. Ele tamb\u00e9m intui aquilo que significa um grande progresso no autoconhecimento psicol\u00f3gico, que h\u00e1 outras coisas que n\u00e3o se quer confessar a si mesmo, que se quer esconder de si mesmo e que por isso se interrompe e se afugenta de seus pensamentos quando elas surgem. Talvez ele pr\u00f3prio perceba o ind\u00edcio de um problema psicol\u00f3gico muito curioso na situa\u00e7\u00e3o em que um pensamento deva ser escondido de si mesmo. \u00c9 como se o si-mesmo [Selbst] n\u00e3o fosse mais aquela unidade que se julgava ser, como se ainda houvesse outra coisa dentro dele que se contrapusesse a esse si-mesmo. Algo como uma oposi\u00e7\u00e3o entre o si-mesmo e uma vida an\u00edmica em sentido amplo pode ser vislumbrado por ele ainda em contornos obscuros. Quando, ent\u00e3o, ele aceita a exig\u00eancia da an\u00e1lise de dizer tudo, ele facilmente se torna acess\u00edvel \u00e0 expectativa de que um tr\u00e2nsito e uma troca de ideias sob circunst\u00e2ncias t\u00e3o incomuns tamb\u00e9m possa levar a efeitos curiosos.<sup>14<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 algo de extraordin\u00e1rio nessa indica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somente no que escreve Freud, mas especialmente naquilo que n\u00e3o escreve. Algo que resta n\u00e3o dito entre a descri\u00e7\u00e3o acerca das elucubra\u00e7\u00f5es do sujeito e o momento \u201cquando ent\u00e3o, ele aceita\u201d, consente com a no\u00e7\u00e3o de inconsciente. N\u00e3o dito, pois n\u00e3o \u00e9 calcul\u00e1vel. \u00c9 da ordem do acontecimento e do ato.<\/p>\n<p>Em se tratando desse tempo inicial, haveria-se ent\u00e3o de abrir espa\u00e7o para que isso se ponha a falar, e com ele criar lugar para a manifesta\u00e7\u00e3o e constata\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o subjetiva que \u00e9 consoante ao que aqui chamei de cren\u00e7a no inconsciente. Para tanto, cabe ao praticante fazer o convite, deixar que se caminhe e permitir-se a surpresa.<\/p>\n<p>Falando assim soa realmente f\u00e1cil. Mas isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. Exige uma disposi\u00e7\u00e3o deste praticante em suspender aquilo que supunha conhecer de modo a se fazer meio para o ato. Deixar-se surpreender pelo dito do analisante para ent\u00e3o recolher o que ca\u00ed de cada sess\u00e3o, em cada caso e, surpreendentemente, reconstruir com cada um, sua pr\u00e1xis. Da\u00ed que, desde o in\u00edcio, como disse Serge Cottet em <em>Dois modos de interpreta\u00e7\u00e3o, <\/em>a surpresa est\u00e1 tanto do lado do analisante, quanto do analista.<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] o melhor que uma an\u00e1lise pode operar sobre o sujeito \u00e9 surpreend\u00ea-lo a ponto deste poder acreditar no inconsciente. [E] O analista faz bem em surpreender os princ\u00edpios da doutrina para dar lugar \u00e0 \u00abci\u00eancia inclusa no inconsciente\u00bb.<sup>15<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Enquanto praticante, implica atuar advertido de que: \u201cter superado o horror ligado ao fato de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, [pode] ter consequ\u00eancias, at\u00e9 mesmo aquela de tornar o amor mais digno do que a tagarelice\u201d<sup>16<\/sup>; mas isso \u00e9 para depois. Para ap\u00f3s se ter superado o horror. O analista, em sua posi\u00e7\u00e3o, pode prescindir de tagarelar, mas n\u00e3o de escut\u00e1-la, e assim dirigir o tratamento at\u00e9 que se conclua a tal travessia.<\/p>\n<p>Agora que estou me aproximando de um encerramento, permitam-me comentar um argumento que poderia ser utilizado para desmontar toda a constru\u00e7\u00e3o que fizemos at\u00e9 aqui. Ele \u00e9 formulado em uma aula do curso do Jacques Alain Miller: <em>Os usos do lapso<\/em>.<\/p>\n<p>Nela, Miller nos diz que, ainda que o inconsciente possa estar associado \u00e0 \u201c[&#8230;] algo que parece t\u00e3o duvidoso quanto uma suposi\u00e7\u00e3o\u201d Freud o concebia como \u201calguma coisa de real\u201d.<\/p>\n<p>No geral, reconhece Miller, \u201csomos for\u00e7ados a constatar que, regularmente, Freud apresenta a exist\u00eancia [&#8230;] do inconsciente como uma hip\u00f3tese. [Ele] mant\u00e9m as duas pontas, a saber: a um s\u00f3 tempo o estatuto hipot\u00e9tico do inconsciente e seu estatuto real, no sentido da ci\u00eancia\u201d<sup>17<\/sup>. No entanto, especifica, Miller:<\/p>\n<blockquote><p>Todo o problema est\u00e1 reunido nesta frase de Freud: &#8216;a possibilidade, diz ele, de dar um sentido ao sintoma neur\u00f3tico por meio da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 <strong>uma prova inabal\u00e1vel <\/strong>da exist\u00eancia [&#8230;] de processos ps\u00edquicos inconscientes\u201d [&#8230;]. Encontramos aqui, em redu\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a de modalidade l\u00f3gica, a passagem da possibilidade \u00e0 necessidade, o que lhe permite atribuir o car\u00e1ter \u201creal\u201d ao inconsciente.<sup>18<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>No campo da necessidade, a cren\u00e7a elementar \u00e9 imposs\u00edvel. As coisas simplesmente s\u00e3o. \u00c9 justo essa mudan\u00e7a de modalidade l\u00f3gica que promove uma fenda que aparta a elabora\u00e7\u00e3o lacaniana de uma dimens\u00e3o \u00e9tica do inconsciente (diga-se de passagem afim ao que tamb\u00e9m formulamos aqui seguindo o pr\u00f3prio Freud), da constru\u00e7\u00e3o quase ontol\u00f3gica observada nessa acep\u00e7\u00e3o de um inconsciente freudiano real para a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m, \u00e9 precisamente a\u00ed onde Miller dizia ver um problema, que eu, humildemente, vejo a causa e os efeitos do ato de funda\u00e7\u00e3o de um campo. Ousaria dizer que a atitude de \u201cn\u00e3o soltar\u201d as duas pontas e, por outro lado, pender para a assun\u00e7\u00e3o de um inconsciente real em termos cient\u00edficos, talvez tenha sido justo o <em>necess\u00e1rio <\/em>para o estabelecimento deste solo sobre o qual agora se pode derivar para uma ou outra dire\u00e7\u00e3o. Seria essa uma atitude condescendente com o fundador? Talvez\u2026<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que n\u00e3o operamos mais sobre um mesmo inconsciente, e isto implica um modo diferente de abord\u00e1-lo. Como disse o pr\u00f3prio Miller, cerca de 30 anos atr\u00e1s,<\/p>\n<blockquote><p>Nossa perspectiva de hoje [leia-se, j\u00e1 naquele tempo] \u00e9 a de uma pr\u00e1tica da psican\u00e1lise que n\u00e3o \u00e9 mais a pr\u00e1tica do tempo de Freud e que talvez comece a n\u00e3o ser a do tempo de Lacan. Sem d\u00favida, a psican\u00e1lise propriamente dita \u00e9 freudiana em seus fundamentos. Ao mesmo tempo, perto de um s\u00e9culo de pr\u00e1tica modificou as condi\u00e7\u00f5es de seu exerc\u00edcio, de um modo que repercute muito longe nos pr\u00f3prios fundamentos.<sup>19<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda assim, por tudo dito, penso ser poss\u00edvel sustentar que h\u00e1 algo de fundamental &#8211; nisso que serve para falar &#8211; que se coloca desde os in\u00edcios. Algo que situou e, ainda, situa essa pr\u00e1xis como uma \u201c<em>cura pela fala<\/em>\u201d, com todas as implica\u00e7\u00f5es e complica\u00e7\u00f5es que enunciar isso, nos dias de hoje, pode comportar.<\/p>\n<p>E, aqui, <em>creio <\/em>que tomar Freud na radicalidade de seu ato fundador, \u00e9 entender que apesar da dist\u00e2ncia, o momento da inven\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a no inconsciente est\u00e1 vivo, a cada vez, em cada tempo inicial de um tratamento. E \u00e9 justo isso que permite que \u201ccada analista, com cada analisante, invente e reinvente a psican\u00e1lise.\u201d<sup>20<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><\/p>\n<h6><sup>1<\/sup> FREUD, S. A significa\u00e7\u00e3o antit\u00e9tica das palavras primitivas (1910). <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud: <\/em>Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos (1910), vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6><sup>2<\/sup> O texto \u00e9 praticamente constitu\u00eddo por uma colagem de refer\u00eancias diretas aos trabalhos do fil\u00f3logo.<\/h6>\n<h6><sup>3<\/sup> FREUD, S. Sobre o in\u00edcio do tratamento (1913). <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 92.<\/h6>\n<h6><sup>4<\/sup> FREUD, S. Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria (1905[1901]). <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud: <\/em>Um Caso de Histeria, Tr\u00eas Ensaios sobre a Sexualidade e outros Trabalhos (1901-1905); volume VII. Rio de Janeiro: Imago, 1990. p. 27.<\/h6>\n<h6><sup>5<\/sup> FREUD, S. Sobre o in\u00edcio do tratamento (1913). <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. <em>op cit. <\/em>p.92.<\/h6>\n<h6><sup>6<\/sup> FREUD, S. Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria (1905[1901]). <em>op cit. <\/em>p. 27.<\/h6>\n<h6><sup>7<\/sup> FREUD, S. An\u00e1lise finita e infinita. <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. <em>op cit.<\/em><\/h6>\n<h6><sup>8<\/sup> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6><sup>9<\/sup> FREUD, S. O inconsciente. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos <\/em>(1914-1916): Sigmund Freud, obras completas, volume 12. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010, p.93.<\/h6>\n<h6><sup>10<\/sup> SELDES, Ricardo. <em>Do mist\u00e9rio ao segredo do sexual<\/em>. Argumento para o XV Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise 2026: N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/congresamp.com\/pt\/blog\/do-\">https:\/\/congresamp.com\/pt\/blog\/do-<\/a>misterio-ao-segredo-do-sexual\/<\/h6>\n<h6><sup>11<\/sup> FREUD, S. A psican\u00e1lise e a determina\u00e7\u00e3o dos fatos nos processos jur\u00eddicos. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>: \u201cGradiva\u201d de Jensen e outros trabalhos (1906-1908); vol IX. Rio de Janeiro: Imago, 1994. p. 99.<\/h6>\n<h6><sup>12<\/sup> PLAT\u00c3O. <em>Di\u00e1logos<\/em>: Teeteto Cr\u00e1tilo. Tradu\u00e7\u00e3o direta do grego de Carlos Alberto Nunes. Coordena\u00e7\u00e3o de Benedito Nunes. 3\u00aa ed. Revisada. Editora universit\u00e1ria UFPA. Bel\u00e9m, 2001.<\/h6>\n<h6><sup>13<\/sup> VICENTE, S\u00f4nia. <em>Fuga de sentido: o que \u00e9 um analista?<\/em>. Texto apresentado em 8 de outubro de 2025, no Semin\u00e1rio de Forma\u00e7\u00e3o Permanente da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Se\u00e7\u00e3o Bahia. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><sup>14<\/sup> FREUD, S. A quest\u00e3o da an\u00e1lise leiga: conversas com uma pessoa imparcial (1926). <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017. p. 162.<\/h6>\n<h6><sup>15<\/sup> COTTE, Serge. Dois modos de interpreta\u00e7\u00e3o. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 10. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, abril\/junho, 1994, pp.61 \u2013 65, p. 61.<\/h6>\n<h6><sup>16<\/sup> NAVEAU, L. N\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. In: <em>Scilicet: Semblantes e sinthoma. <\/em>Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2009, p. 230.<\/h6>\n<h6><sup>17<\/sup> MILLER, J. A. O inconsciente a advir. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>. n. 79, julho 2018. pp. 11-22, p. 19.<\/h6>\n<h6><sup>18<\/sup> <em>Idem, p. 20.<\/em><\/h6>\n<h6><sup>19<\/sup> MILLER, J. A. <em>Come iniziano le analisi<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/come-iniziano-le-analisi\/\">https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/come-iniziano-le-analisi\/<\/a><\/h6>\n<h6><sup>20<\/sup> SOLANO-SU\u00c1REZ, Esthela. <em>Tr\u00eas segundos com Lacan<\/em>. Salvador: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o Bahia, 2025. p. 47.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartel I &#8211; No in\u00edcio \u00e9 o verbo Milena Nadier \u00a0 O trabalho de cartel do qual resultou a montagem dessa plen\u00e1ria de hoje n\u00e3o come\u00e7ou por a\u00ed, pelos fundamentos. As discuss\u00f5es iniciais circulavam entre os termos: entrevistas preliminares, transfer\u00eancia, interpreta\u00e7\u00e3o e ato anal\u00edtico. 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