{"id":57843,"date":"2025-09-17T15:36:28","date_gmt":"2025-09-17T18:36:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/?p=57843"},"modified":"2025-09-17T15:37:11","modified_gmt":"2025-09-17T18:37:11","slug":"bilhete-clinico-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2025\/bilhete-clinico-4\/","title":{"rendered":"Bilhete Cl\u00ednico 4"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h5>R\u00f4mulo Ferreira da Silva<\/h5>\n<h3><span style=\"color: #ff0000;\">&#8220;Sou bi&#8221;<\/span><\/h3>\n<p>F\u00e9lix, de 17 anos, se apresenta para o tratamento com Ligia Gorini<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> dizendo \u201cEu sou bi\u201d. Sempre esteve em relacionamento heterossexual e se orgulha de ser o preferido das mulheres, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es plat\u00f4nicas e de cumplicidade, em uma s\u00e9rie de imagens duplicadas de si mesmo.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio foi abalado quando um amigo sugeriu que ele era bissexual. Logo apaixona-se por um jovem homossexual muito depressivo, acreditando ser o \u00fanico capaz de lhe devolver o gosto pela vida, mas sucumbe a uma ang\u00fastia extrema.<\/p>\n<p>Associa a lembran\u00e7a de uma sala grande, \u00famida e escura, ao lugar onde os seus pais adotivos foram busc\u00e1-lo e o levaram de barco em um dia muito claro. Essa dicotomia claro\/escuro se atualiza no gosto pelos passeios \u00e0 luz do dia e sua liga\u00e7\u00e3o com as cavernas subterr\u00e2neas e escuras, nas quais se arriscava.<\/p>\n<p>Pergunta \u201cPor que sou assim?\u00bb, ao que a analista responde \u00ab\u00c9 o seu lado bi\u00bb, associando o \u00abbi\u00bb ao fato de que tudo se articulava em pares opostos no seu discurso. Esta interven\u00e7\u00e3o possibilita a utiliza\u00e7\u00e3o singular do prefixo \u00abbi\u00bb, o colocando em um duplo dilema: objeto ca\u00eddo\/posi\u00e7\u00e3o de salvador.<\/p>\n<p>Conseguiu realizar uma separa\u00e7\u00e3o, testemunhando um efeito revigorante sentido no corpo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix chegou a uma autodetermina\u00e7\u00e3o singular do \u00abEu sou bi\u00bb referida \u00e0 sua hist\u00f3ria. A s\u00edlaba \u00abbi\u00bb n\u00e3o se trata mais do mesmo signo. Um novo significante que testemunha um ponto de enigma encontrado no corpo que habita a linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ligia Gorini \u00e9 psiquiatra, psicanalista, AME da ECF e da AMP.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator color=&#8221;juicy_pink&#8221; border_width=&#8221;3&#8243; css=&#8221;&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h3><span style=\"color: #ff0000;\">&#8220;Sou bi&#8221;<a style=\"color: #ff0000;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/span><\/h3>\n<h5><em>Por Ligia Gorini<\/em><\/h5>\n<p>\u00c9 assim que F\u00e9lix se apresenta em nosso primeiro encontro. Aos dezessete anos, ele est\u00e1 passando por um momento dif\u00edcil, que atribui a &#8220;problemas de relacionamento&#8221;. Desde o jardim de inf\u00e2ncia, F\u00e9lix sempre esteve em um relacionamento heterossexual: ele descreve com orgulho a s\u00e9rie de garotinhas dispostas que se apegaram a ele desde crian\u00e7a. Bastante bonito, ele parece feliz sendo o queridinho das mulheres, a come\u00e7ar pela m\u00e3e, com quem parece ter uma grande conex\u00e3o. F\u00e9lix, no fundo, estabelece relacionamentos com garotas\/mulheres que se parecem com ele, constituindo uma s\u00e9rie de imagens em espelho de si mesmo. Seus relacionamentos permanecem plat\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio id\u00edlico foi abalado h\u00e1 algum tempo, quando um amigo do ensino m\u00e9dio sugeriu que ele era bissexual, por causa de sua apar\u00eancia esguia e de sua postura delicada e reservada. Isso o intrigou, mas ele acabou aceitando: &#8220;Sou bi&#8221;. Pouco depois, F\u00e9lix se apaixonou por um jovem gay, com quem desenvolveu uma rela\u00e7\u00e3o especial. Ele era &#8220;um rapaz com muitos problemas, muito deprimido e que n\u00e3o se sentia bem consigo mesmo&#8221;. F\u00e9lix acreditava <em>ser o \u00fanico<\/em> que poderia ajud\u00e1-lo a se reerguer e <em>retomar o gosto pela vida<\/em>. Ele levou essa miss\u00e3o a s\u00e9rio e acabou mergulhado em uma ansiedade extrema, o que o levou \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p>F\u00e9lix relembra uma lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia durante a sess\u00e3o. Ele tem tr\u00eas anos. Est\u00e1 sozinho em uma sala grande, como se tivesse sido esquecido. Tudo \u00e9 escuro e \u00famido, ele sente frio. F\u00e9lix se lembra deste lugar, onde seus pais adotivos o buscaram. Desde o dia de sua partida, ele se lembra das cores dos embrulhos de presente e da luz ofuscante que, atrav\u00e9s da vigia, iluminava a cabine do barco que os levaria para a Fran\u00e7a. Durante as sess\u00f5es, essa dicotomia entre <em>claro<\/em> e <em>escuro<\/em> se torna mais precisa: embora F\u00e9lix goste de &#8220;olhar para a claridade do c\u00e9u\u201d , como acontece durante as caminhadas \u00e0 luz do dia, ele tamb\u00e9m \u00e9 viciado em espeleologia e n\u00e3o resiste a explorar cavernas escuras e subterr\u00e2neas, \u00e0s vezes em aventuras arriscadas. Galerias escuras assombram seus sonhos, e a ang\u00fastia o desperta. &#8220;Por que eu sou assim?&#8221;, ele pergunta. &#8220;\u00c9 o seu lado bi&#8221;, eu disse a ele, associando o &#8220;bi&#8221; ao fato de que tudo em sua fala era articulado em dois. Essa interven\u00e7\u00e3o parece abrir a possibilidade de um uso singular do prefixo &#8220;bi&#8221;, al\u00e9m daquele do discurso ativista LGBT.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de sua identidade sexual, ocorreu uma remodela\u00e7\u00e3o de seu mundo, baseada em pares opostos: luz\/escurid\u00e3o, ar livre\/profundezas subterr\u00e2neas, vida\/morte, amor\/devasta\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Em sua conex\u00e3o com o &#8220;menino atormentado&#8221; \u2014 nome que deu ao amigo durante a sess\u00e3o \u2014 F\u00e9lix caiu em uma dupla armadilha: ou se identificava com ele, como um objeto ca\u00eddo, <em>a crian\u00e7a extra<\/em>; ou se colocava na posi\u00e7\u00e3o de um <em>facilitador\/passador <\/em>encarregado a todo custo de salvar o outro. Dois lados de si mesmo: em ambos os casos, ele disse que se sentia como &#8220;um bal\u00e3o murchando&#8221;, desvitalizado. As circunst\u00e2ncias de sua ado\u00e7\u00e3o se reiteravam incansavelmente: <em>uma crian\u00e7a pequena abandonada nas sombras precisa ser salva e trazida \u00e0 luz<\/em>.<\/p>\n<p>Durante o tratamento, F\u00e9lix conseguiu se desvencilhar de sua fixa\u00e7\u00e3o no &#8220;menino atormentado&#8221;, em todas as suas resson\u00e2ncias. Uma separa\u00e7\u00e3o parece ter de fato ocorrido. Ciente de que sempre ter\u00e1 que lidar com seu &#8220;<em>lado sombrio<\/em>&#8221; e com o risco de se ver em meio a confus\u00f5es, ele pode, no entanto, testemunhar o efeito revigorante sentido em seu corpo.<\/p>\n<p>Sua quest\u00e3o nunca esteve ligada \u00e0 sua escolha sexual, mas \u00e0 busca por sua identidade. Sob a transfer\u00eancia, F\u00e9lix chega a uma autodetermina\u00e7\u00e3o singular, uma vers\u00e3o de &#8220;<em>Eu sou bi<\/em>&#8221; remetida \u00e0 sua hist\u00f3ria; seu <em>bi<\/em> n\u00e3o corresponde ao que se chama de &#8220;bi&#8221; no discurso comum. A interven\u00e7\u00e3o da analista parece ter permitido essa mudan\u00e7a de registro: arrancado da dimens\u00e3o simples do diagn\u00f3stico extra\u00eddo da fala de um amigo, seu <em>bi<\/em> ganha dignidade. Mesmo que a s\u00edlaba &#8220;bi&#8221; permane\u00e7a materialmente a mesma, n\u00e3o se trata mais do mesmo signo. Sublimado, torna-se a palavra do Outro. Esse novo significante testemunha um ponto de enigma encontrado em &#8220;um corpo, cuja caracter\u00edstica seria habitar a linguagem&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Ligia Gorini \u00e9 psiquiatra, psicanalista, AME da ECF e da AMP.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Caso extra\u00eddo do texto de Ligia Gorini <em>Chacun \u00e0 sa fa\u00e7on<\/em>, publicado em \u00c9tudes Cliniques Lacanienne \u2013 Diagnostics sur mesure. Sous la direction de Jacques-Alain Miller. Presses Psychanalytique de Paris. 2025. p. (?).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan\u00a0J., Televis\u00e3o, <em>Outros escritos<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar 2003, p.\u00a0525.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] R\u00f4mulo Ferreira da Silva &#8220;Sou bi&#8221; F\u00e9lix, de 17 anos, se apresenta para o tratamento com Ligia Gorini[1] dizendo \u201cEu sou bi\u201d. Sempre esteve em relacionamento heterossexual e se orgulha de ser o preferido das mulheres, estabelecendo rela\u00e7\u00f5es plat\u00f4nicas e de cumplicidade, em uma s\u00e9rie de imagens duplicadas de si mesmo. 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