Julia Solano
Começo citando essa frase de Lacan no seminário 11. “À análise não cabe encontrar …porque sua filha é muda-, pois, o de que se trata é fazê-la falar.” (Lacan, 1964, p.18)
Penso que ilustra bem o que se passa no cotidiano da clínica contemporânea marcado por encontros com falasseres sofrendo em virtude dos impasses sintomáticos gerados por um corpo que se satisfaz em si mesmo, sem Outro. Sintomas que nada querem dizer, não fazem enigma. O que se apresenta de início é muito mais da ordem do silêncio da pulsão de morte do que da palavra. Se não há uma pergunta em jogo, como fazê-los falar?
A clínica psicanalítica clássica nos dá as coordenadas sobre o início de um tratamento analítico. Diante de um abalo fantasmático contingencial, o sintoma emerge perturbando o sujeito, que busca uma análise. O sintoma apresenta-se aí com suas duas faces. A face de satisfação articulada ao gozo e a face articulada ao sentido, enquanto mensagem a ser decifrada.
O percurso analítico, nesta perspectiva, iria na direção de esvaziar o sentido, abalando identificações que orientavam a vida do sujeito nesta travessia do fantasma fundamental, que tem como efeito um encontro com a falta do Outro. Nessa direção, o trabalho se construiria a partir do inconsciente transferencial e avançaria rumo ao que Lacan chama de inconsciente real. Ou seja, um trabalho que visa fazer desconsistir o Outro, esvaziando-o de sentido, em direção ao núcleo real sintomático, ao Um.
A problemática atual, engendrada pela ascensão do discurso capitalista, passa pela evaporação do pai e suas consequências: rechaço à castração e às coisas do amor; e queda de ideais que norteavam a vida dos sujeitos. Neste contexto, o estatuto do Outro torna-se prejudicado, fato que gera consequências diretas para a prática clínica. Nos deparamos com pacientes que gozam autisticamente de seus sintomas e nada querem saber sobre os mesmos. Muitas vezes vêm ao consultório trazidos por alguém, ou quando vêm por vontade própria manifestam um sofrimento que não faz enigma. Não há uma demanda de saber dirigida ao analista.
Por isso, Cosenza destaca: “Estamos em um momento da história em que lidamos com sintomas que não têm mais significado para quem os vivencia, mas com a encarnação de um gozo que lhe é imposto. É a era do inconsciente real a que Lacan aludiu em meados de 1970, em seu prefácio a edição inglesa do seminário 11.” (Cosenza, 2024, p.61)
Os sintomas contemporâneos na medida em que perdem sua capacidade metafórica, apresentam-se na sua dimensão de sem sentido, literais, muito mais próximos do inconsciente real do que do que inconsciente transferencial.
Se a clínica clássica caminharia do inconsciente transferencial para o inconsciente real, como já mencionado anteriormente, a clínica atual nos coloca frente a frente, desde o princípio, com esse gozo indizível que concerne ao Um. Tal fato nos permite perceber que é impossível abordar estes casos sem contar com os ensinamentos elaborados por Lacan no seu ultimíssimo ensino.
Este último momento do ensino lacaniano introduz uma virada importante, reorientando o manejo analítico não mais pelo Outro, e sim pelo gozo. Conceitos como Um, lalíngua, letra assumem o protagonismo e mudam a condução do tratamento. Como destaca Bernardino Horne, a transferência que na clínica do Outro centrava-se na estrutura do saber inconsciente, agora centra-se também na posição de gozo do falasser. “A transferência é ao real e se abre quando o analista – no início da análise, e com cada analisando em seu devido tempo – se alinha, se orienta, se deixa atrair por um ponto de real,… um puro real opaco a todo sentido, que se inscreve como sinthoma, no exato instante do acontecimento de corpo.” (Horne, 2022, p.64)
É justo o que destaca Lacan quando afirma que. “O primeiro passo da experiência analítica é introduzir nela o Um, como o analista que se é”. (Lacan, 2012, p.123)
A orientação pelo real passa a ser o fio condutor da clínica analítica a partir dessa virada de Lacan, seja nos casos de neuroses clássicas ou nos casos de sintomas contemporâneos. O que ocorre, porém, é que os últimos parecem estar mais próximos do Um do que os primeiros na medida em que se constroem sem o Outro.
A elaboração de Cosenza se apóia na idéia de que a inoperância do Outro nos sintomas contemporâneos, impede que o gozo primordial seja barrado, prejudicando assim a cessão do objeto. “Sem essa cessão libidinal do objeto, o ser falante permanece numa relação de proximidade com das Ding que impede uma separação efetiva. O gozo, portanto, permanece restrito ao corpo, adquirindo um caráter auto-erótico excessivo.”(Cosenza, 2024, pg. )
Por isso, segundo ele, os sintomas contemporâneos precisam ser tomados enquanto formações que, na medida em que precedem a entrada do Outro simbólico, apresentam-se na sua literalidade, o que os deixaria mais próximos da sua função de letra de gozo.
Para compreender essa aproximação entre sintomas contemporâneos e letra de gozo, me pareceu importante dar algumas palavras sobre a última. Longe de tentar responder ou definir um conceito tão complexo, destaco aqui apenas um aspecto relacionado a ela, quanto a sua função.
Lacan, no seminário 22 traz algumas elaborações bastante precisas sobre função da letra de gozo:
“A função do sintoma, função como f da formulação matemática f(x). O que é esse x? É o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra. Do inconsciente todo Um, enquanto o que sustenta o significante no qual o inconsciente consiste, todo Um é susceptível de se escrever por uma letra… O importante aqui é a referência a escritura para situar a repetição do sintoma.”(Lacan, 1974/1975, p. 38)
Essas passagem nos permite destacar a letra enquanto esse S1 que contingencialmente alça vôo, recortando-se do enxame de lalíngua. Através desta letra o Um se escreve como sintoma, instaurando uma repetição destinada a não cessar de se escrever. O sintoma aí apresenta-se na sua vertente real, como resposta ao encontro com a não-relação sexual.
Parece fundamental essa precisão de Lacan sobre a função matemática da letra, pois nos faz perceber a sua função de cifrar o gozo. Ou seja, a letra, na medida em que escreve o gozo, produz um trabalho de ciframento que permite uma certa circunscrição do mesmo à repetição sintomática. O gozo difuso de lalíngua, a partir desta operação, passa a se apresentar de forma localizada, situando-se na compulsão a repetição do sintoma.
A letra faz furo no real, delimitando uma borda através da qual o Outro e seus objetos poderão se enganchar posteriormente. Como diz Alvarez, “a letra é o que esvazia, o que faz borda e deixa uma marca, mas não pode representar-se nem simbolicamente nem imaginariamente.” (Alvarez, 2020, pg. 88) Na medida em que faz furo, ela escreve um certo trilhamento de gozo que marcará a repetição sintomática.
É importante destacar que este processo é anterior ao Outro e que, apesar de ser denominado enquanto repetição por Lacan, é prévio ao significante. A letra, na medida que escreve, cifra o gozo opaco permitindo que ele seja lido. Ela é o que nos permite ler o que há do Um em cada falasser, enganchando dessa forma o gozo do Um ao gozo do discurso. A leitura, por sua vez, não é da ordem do sentido, ao contrário, como diz Bernardino Horne, o que tentamos ler na perspectiva do último Lacan é a metonímia, do mesmo modo que na primeira clínica, tratava-se de interpretar a metáfora. A leitura, portanto, aponta muito mais para o sem sentido que repete e remete ao indizível do gozo Um.
As indicações dadas por Lacan no que diz respeito à função da letra de gozo parecem ser cruciais no manejo da clínica contemporânea.
O que observo nesta clínica é que, exceto nos casos em que o sintoma promove uma estabilização, os pacientes em geral apresentam um gozo deslocalizado. Os sintomas, como já colocado, manifestam-se de maneira literal, na medida em que aparecem completamente dissociados da palavra. A consequência disso seria um certo desbussolamento acompanhado pela recorrência de passagens ao ato, por parte desses pacientes.
O sintoma da hiperatividade, por exemplo, tão comum nos dias atuais, parece ilustrar bem essa problemática. Trata-se de aí de corpos que não se detêm, passando rapidamente de uma atividade para outra de uma maneira totalmente descoordenada. O gozo, nestes casos, mostra-se completamente deslocalizado, e a repetição sintomática não é localizada facilmente.
Como fazer falar estes sintomas? Mais ainda: como lê-los? Lacan é bastante preciso quando afirma que a escritura situa a repetição do sintoma. Essa precisão nos orienta no sentido de buscar o que há da função da letra naquilo que se repete na fala do paciente e que consiste na cifragem de um gozo que, a partir da escrita, passa a se localizar na repetição sintomática.
Nohemí Brown, em um dos seminários ao longo do ano, defendeu a importância de buscarmos os S1s que se repetem na fala destes pacientes contemporâneos, visando dessa forma tornar o gozo legível. Essa interessante indicação clínica não caminharia nesta direção em que estamos trabalhando, posto que, destacar esses S1s consistiria justamente em escavar uma trilha de gozo passível de ser lida?
Destaco um fragmento clínico extraído do livro de Cosenza para ilustrar isso. Rodolfo procura o analista no auge da pandemia em um quadro grave de anorexia que havia se instalado em poucas semanas. A gravidade do estado de saúde resulta em uma internação que se estendeu por meses. Com discurso empobrecido, ele se limita a explicar a sua situação associando-a ao início da pandemia. Ele que sempre tinha sido um menino muito solitário tinha, por fim, conseguido entrar para o time de basquete da escola e estava feliz com isso, mas tudo havia sido interrompido por conta da pandemia. Não havia nenhum questionamento sobre a anorexia e, segundo o analista, ele não diz muito mais do que isso por muitas sessões. “Porém a certa altura algo pôde se apertar em torno de um nó fundamental, que diz respeito à dimensão traumática do desaparecimento.” Rodolfo menciona a morte da sua avó materna que morava no exterior, morte esta que foi tomada por ele como um desaparecimento, pois os pais decidem não lhe contar nada a respeito. Sem saber o que havia acontecido, ele estranha o desaparecimento da avó ao mesmo tempo que presencia o retraimento depressivo da mãe. Semanas depois, uma prima lhe conta sobre a morte da avó, acontecimento traumático que Rodolfo não consegue elaborar. O analista destaca que o súbito desaparecimento do Outro, encarnado pela avó morta, e a ausência de nominação por parte dos pais, resultaram na anorexização aguda e sem limites de Rodolfo. A anorexia se apresenta aí como uma solução diante do abismo do desaparecimento do Outro, solução não metafórica mas literal, em que o sujeito não encontra outra maneira de se separar do que desaparecer no real. Frente ao encontro com a castração ligada à perda de objeto, Rodolfo encarna no real o seu próprio desaparecimento através da anorexia.
O caso ilustra bem como, a partir do trabalho analítico, o desaparecimento se destaca da fala do paciente, funcionando como um S1 que passa a operar escrevendo o gozo maciço encarnado no real do corpo através do sintoma anoréxico, circunscrevendo-o em um trabalho de luto; Essa operação marca um deslocamento que vai do desaparecimento do próprio falasser ao desaparecimento da avó. A anorexia, portanto, que nada queria dizer, pode, na medida em que se engancha com o S1, desaparecimento, ser lida. Destaco novamente que a leitura não se relaciona à metáfora, mas à metonímia, conduzindo-nos através da trilha da repetição sintomática a cernir algo do gozo indizível e abrindo a possibilidade para a entrada de um Outro, o analista.
Laurent nos lembra que a letra é perturbação no discurso. Ela se relaciona não com a transcrição da fala, mas com o que se diz nas entrelinhas, o que se recusa ao dito explícito.
Ler o sintoma, portanto, aponta a deixar-nos orientar por aquilo que se repete na fala do paciente cernindo um impossível de dizer, algo que está para além do que se escuta,
algo que se escreve.