Cartel I – No início é o verbo
Milena Nadier
O trabalho de cartel do qual resultou a montagem dessa plenária de hoje não começou por aí, pelos fundamentos. As discussões iniciais circulavam entre os termos: entrevistas preliminares, transferência, interpretação e ato analítico. Porém, à medida que cada um apresentava sua produção, certa tendência, quase unânime, se fazia notar: a adoção de um método comparativo de investigação. Algo como: “em Freud era assim…, em Lacan passou a ser assim…”. À primeira vista, parecia um esforço legítimo. Mas, aos poucos, fomos percebendo que essa abordagem trazia em si alguns problemas.
Durante as preparatórias desta Jornada, eles começaram a se revelar. Aqui e ali, íamos escutando a práxis freudiana ser descrita como algo que já “caiu” em desuso. Adjetivação dura, depreciativa, aparentemente leviana, mas não completamente injustificada. Ela se apoiava, de modo claudicante, na comparação e reconhecimento de dois tempos da interpretação e da transferência, que respondiam a ao menos dois objetos distintos: o inconsciente freudiano e os inconscientes lacanianos.
O primeiro tempo correspondia à elaboração freudiana de um inconsciente que abriga o conteúdo recalcado e é passível de interpretação pela via do sentido. A transferência surgia ali como repetição. O sujeito repetia em análise algo de suas relações primordiais, reeditando-as na figura do analista. Algo que por um lado oportunizava o tratamento e por outro oferecia à ele resistência. O segundo tempo: o de Lacan. Era o qual, já não se falava de um único inconsciente, mas de distintos modos de concebê-lo conforme os momentos de seu ensino: o inconsciente estruturado como uma linguagem (S1-S2), o inconsciente transferencial (manifestado na fala e no saber suposto ao analista), o inconsciente real (do não sentido, do furo, do impossível de dizer). Mutações que se verificam também na prática analítica. A interpretação passava a se orientar não pela revelação do sentido recalcado, mas sim pelo gozo e direção ao real, fazendo-se através do corte, efeito de surpresa e vacilação de sentido. E, a transferência, passou de um efeito adverso, ainda que necessário, verificado no curso de um tratamento, para uma condição de seu início. Ora era lida como amor ao saber suposto e, mais adiante, um laço com o objeto a.
Colocando desta forma, em termos comparativos, era fácil seduzir-se pela ideia de uma atualização ou ultrapassamento empreendido pelo último autor sobre o primeiro. Algo que precipitadamente poderia conduzir o praticante a crer na possibilidade de escolher “uma clínica ao invés da outra”. Justo por esses riscos, vale recuar um pouco e lhes precisar o porquê deste método comparativo e, por conseguinte, as conclusões dele derivadas, não nos servirem ao empreender uma pesquisa em psicanálise.
O gesto de comparar, de nivelar o fundador e seus pósteros, esquece que o primeiro não apenas inaugura uma teoria, mas abre um campo, um modo de dizer, escutar e pensar. Freud não se situa no interior da psicanálise: ele a funda, como quem introduz uma língua no mundo. Compará-lo a Lacan, por exemplo, sem levar em conta esse ato inaugural, seria o mesmo que comparar a raiz de uma palavra às suas derivações, ignorando que é justamente essa raiz que lhes dá forma e possibilidade.
O próprio Freud pareceu sensível a essa dimensão quando, em “A significação antitética das palavras primitivas”1, comentou fascinado2 o trabalho do filólogo Karl Abel. O que o encantava ali não era mera curiosidade linguística, mas o modo como a ambiguidade primordial das palavras revelava que a linguagem se funda sobre uma contradição originária, anterior à lógica binária, que hoje permite dizer através de comparações: 1 ou 0, isso ou aquilo. Algo afim ao inconsciente freudiano, seja naquilo que lhe é patente e é observado pelo vienense nesse texto, seja em seu caráter de objeto que funda um campo.
Daí que, comparar Freud com os pós-freudianos sem levar em conta esse caráter fundacional seria como comparar uma língua às suas variações históricas sem reconhecer que a raiz, ao mesmo tempo que as antecede, permanece operando nelas como princípio de formação. O problema metodológico, portanto, não é apenas cronológico, mas estrutural: o fundador não é um termo a ser comparado, mas o solo de linguagem a partir do qual o próprio comparativo se torna possível.
Reconhecido este limite, uma saída alternativa para a construção da intervenção de hoje parecia ser falar-lhes acerca do primeiro objeto desses nossos fracassados “estudos comparativos”: a clínica freudiana e aquilo que ele nomeava por “ensaio prévio”3.
Nesse tempo inicial, sua instrução era que se fosse “[…] narrada toda a biografia do paciente e a história de sua doença”4, de modo que o praticante, que nada saiba sobre aquele que vem se consultar, pudesse realizar uma “[…] sondagem para conhecer o caso e […] decidir se [era ou não] adequado à Psicanálise”5. De todo modo, ele parecia intuir que o trabalho nesse momento ia mais além da reunião de um conhecimento sobre o paciente. Em 1905, já dizia: durante essas primeiras sessões “[…] as informações que recebo nunca bastam para me orientar. Esse primeiro relato se compara a um rio não navegável cujo leito é ora bloqueado por massas rochosas, ora dividido entre baixios e bancos de areia.”6
Estas e de outras sugestões são, no geral, lidas em textos relativamente jovens. Aparecem de modo mais frequente nas primeiras elaborações acerca do método analítico, nas construções de casos clínicos e em textos um pouco mais maduros: os Escritos Técnicos e as Primeiras Conferências Introdutórias. Ou seja, quase nada é dito, de modo direto, após a virada estabelecida com a formulação da pulsão de morte. Nessa fase, um dos poucos trabalhos que parece tangenciar esse tema é: Análise Finita e Infinita7 de 1937. Nele, diferente dos demais, não há uma orientação sobre o “conhecer”. Aqui, ao falar desse início, Freud se dedica a descrever a experiência de introduzir a urgência a partir da antecipação e precipitação do fim do tratamento, bem como os efeitos advindos desse ato. Nessas linhas, a função desse momento fica mais cernida à ideia do ato incidindo sobre ou a partir do tempo.
Sim, eu bem que poderia lhes detalhar essas notas e suas implicações. Ocorre que, tratam-se de apontamentos que, se tomados assim, adquirem um tom de análise documental efetuada sobre uma práxis de mais de 125 anos. Uma postura que parece ser negligente com a leitura do texto freudiano, uma vez que já estabelecemos aqui seu caráter fundador.
Não por acaso, o nome dessa plenária é: “No início ‘é’ o verbo” e não “No início ‘era’ o verbo”. É no tempo presente que precisamos falar. E, para isso, não parece haver outra via que não a de tomar a invenção freudiana, não pelo valor de documento ou através de uma comparação, mas como algo vivo a operar como princípio em nossa prática nos dias de hoje.
Assim, vamos aos fundamentos.
Ou o fundamento. Não ironicamente o primeiro da série tomada por Lacan em os
Conceitos fundamentais da psicanálise8. Qual seja: o inconsciente.
Nesse caso, proponho que sejamos ainda mais precisos e nos orientemos por aquilo que Freud define como o seu âmago. Em suas próprias palavras: “O âmago do Ics consiste de representantes instintuais que querem descarregar seu investimento”9. Para tanto estão as formações: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas, todos eles meios de descarga e expressão.
Em um dos argumentos para o próximo Congresso da AMP, Ricardo Seldes nos lembra dessa tendência presente no âmago do inconsciente freudiano. Ao defini-lo, na sequência pontua: “talvez sua maior utilidade seja que ele serve para fazer falar”10.
Ouso dizer que, desde Freud, insiste vivo o fato de que os tratamentos de ensaio, as entrevistas preliminares — ou, seja lá qual for o nome que se escolha dar a esse momento inicial — servem para dar a ver e crer nessa função do inconsciente: servir para fazer falar.
Fale o que lhe vier à mente.
“Diga, sem qualquer reserva crítica, tudo o que lhe vier à cabeça”11.
Dito assim pode parecer simples, especialmente em um auditório repleto de analisantes e analistas. Mas, permitam-me lembrá-los o quão árduo é sustentar essa regra fundamental sem que haja uma crença no inconsciente e em suas produções. Essa difícil tarefa, no geral, só se alivia, e se cumpre, ao menos em parte, quando se consente com ela.
Se digo “crença” não é por um mero efeito retórico. Esse termo nomeia uma noção central no campo da epistemologia observada desde Platão12. Trata-se do estado mental ou atitude na qual um sujeito assente a uma proposição tomando-a como verdadeira, mesmo sem provas definitivas. A crença se distingue do conhecimento, precede-o. E, diferente dele, está no campo da possibilidade, no qual não há certeza absoluta. Sim, ela é uma convicção, mas uma que não necessariamente é justificada e que pode ou não corresponder à realidade.
Daí que, aqui, não se trata de conhecer o inconsciente, mas sim de, em cada caso, abrir as condições para que nele se possa acreditar.
Justo por isso, não nos serve o argumento de que, após um século de difusão, o entranhamento dos conceitos psicanalíticos na cultura facilitaria esse trabalho inicial. A psicanálise tem, para esses sujeitos “informados”, o estatuto de conhecimento, não de crença.
Por outro lado, certamente, há os que chegam ao consultório após uma primeira análise. Já transferidos com a invenção freudiana. “Crentes” do inconsciente, por assim dizer. Nesses casos, (como bem disse Sônia Vicente, em um dos Seminários que precedeu essa Jornada), “[…] falamos primeiro de transferência à psicanálise [e então a questão se converte em:] Como direcioná-la ao analista?”13
Mas, aqui havemos de convir: essa é certamente a minoria da maioria da clínica dos presentes. Em meu cotidiano, ao menos, o que há é o trabalho diário de, nesses momentos iniciais, sustentar a aposta e atuar para que aquela crença fundamental possa se fazer existir.
E, como se faz isso?
Certamente não como “testemunhas do inconsciente” a “pregar a boa nova”. Não a partir da nossa própria fala, e daquilo que supostamente teríamos a dizer enquanto “conhecedores” do assunto. Mas sim, abrindo espaço para, o que, a cada um, serve para fazer falar. É como responde Freud a seu “interlocutor imparcial” em A questão da análise leiga,
Evidentemente, ele [o paciente] necessitará de uma preparação, e isso [diz Freud] pode ser feito de um modo fácil. Pedimos a ele que seja muito sincero com seu analista, que não omita propositalmente nada que lhe venha à mente, e depois que ignore todos os impedimentos que querem excluir alguns pensamentos ou lembranças da comunicação. Toda pessoa sabe que há coisas que ela contaria aos outros apenas a contragosto, ou cuja comunicação ela julga impraticável. São suas “intimidades”. Ele também intui aquilo que significa um grande progresso no autoconhecimento psicológico, que há outras coisas que não se quer confessar a si mesmo, que se quer esconder de si mesmo e que por isso se interrompe e se afugenta de seus pensamentos quando elas surgem. Talvez ele próprio perceba o indício de um problema psicológico muito curioso na situação em que um pensamento deva ser escondido de si mesmo. É como se o si-mesmo [Selbst] não fosse mais aquela unidade que se julgava ser, como se ainda houvesse outra coisa dentro dele que se contrapusesse a esse si-mesmo. Algo como uma oposição entre o si-mesmo e uma vida anímica em sentido amplo pode ser vislumbrado por ele ainda em contornos obscuros. Quando, então, ele aceita a exigência da análise de dizer tudo, ele facilmente se torna acessível à expectativa de que um trânsito e uma troca de ideias sob circunstâncias tão incomuns também possa levar a efeitos curiosos.14
Há algo de extraordinário nessa indicação. Não somente no que escreve Freud, mas especialmente naquilo que não escreve. Algo que resta não dito entre a descrição acerca das elucubrações do sujeito e o momento “quando então, ele aceita”, consente com a noção de inconsciente. Não dito, pois não é calculável. É da ordem do acontecimento e do ato.
Em se tratando desse tempo inicial, haveria-se então de abrir espaço para que isso se ponha a falar, e com ele criar lugar para a manifestação e constatação da divisão subjetiva que é consoante ao que aqui chamei de crença no inconsciente. Para tanto, cabe ao praticante fazer o convite, deixar que se caminhe e permitir-se a surpresa.
Falando assim soa realmente fácil. Mas isso também não é qualquer coisa. Exige uma disposição deste praticante em suspender aquilo que supunha conhecer de modo a se fazer meio para o ato. Deixar-se surpreender pelo dito do analisante para então recolher o que caí de cada sessão, em cada caso e, surpreendentemente, reconstruir com cada um, sua práxis. Daí que, desde o início, como disse Serge Cottet em Dois modos de interpretação, a surpresa está tanto do lado do analisante, quanto do analista.
[…] o melhor que uma análise pode operar sobre o sujeito é surpreendê-lo a ponto deste poder acreditar no inconsciente. [E] O analista faz bem em surpreender os princípios da doutrina para dar lugar à «ciência inclusa no inconsciente».15
Enquanto praticante, implica atuar advertido de que: “ter superado o horror ligado ao fato de que não há relação sexual, [pode] ter consequências, até mesmo aquela de tornar o amor mais digno do que a tagarelice”16; mas isso é para depois. Para após se ter superado o horror. O analista, em sua posição, pode prescindir de tagarelar, mas não de escutá-la, e assim dirigir o tratamento até que se conclua a tal travessia.
Agora que estou me aproximando de um encerramento, permitam-me comentar um argumento que poderia ser utilizado para desmontar toda a construção que fizemos até aqui. Ele é formulado em uma aula do curso do Jacques Alain Miller: Os usos do lapso.
Nela, Miller nos diz que, ainda que o inconsciente possa estar associado à “[…] algo que parece tão duvidoso quanto uma suposição” Freud o concebia como “alguma coisa de real”.
No geral, reconhece Miller, “somos forçados a constatar que, regularmente, Freud apresenta a existência […] do inconsciente como uma hipótese. [Ele] mantém as duas pontas, a saber: a um só tempo o estatuto hipotético do inconsciente e seu estatuto real, no sentido da ciência”17. No entanto, especifica, Miller:
Todo o problema está reunido nesta frase de Freud: ‘a possibilidade, diz ele, de dar um sentido ao sintoma neurótico por meio da interpretação analítica é uma prova inabalável da existência […] de processos psíquicos inconscientes” […]. Encontramos aqui, em redução, a mudança de modalidade lógica, a passagem da possibilidade à necessidade, o que lhe permite atribuir o caráter “real” ao inconsciente.18
No campo da necessidade, a crença elementar é impossível. As coisas simplesmente são. É justo essa mudança de modalidade lógica que promove uma fenda que aparta a elaboração lacaniana de uma dimensão ética do inconsciente (diga-se de passagem afim ao que também formulamos aqui seguindo o próprio Freud), da construção quase ontológica observada nessa acepção de um inconsciente freudiano real para a ciência.
Mas também, é precisamente aí onde Miller dizia ver um problema, que eu, humildemente, vejo a causa e os efeitos do ato de fundação de um campo. Ousaria dizer que a atitude de “não soltar” as duas pontas e, por outro lado, pender para a assunção de um inconsciente real em termos científicos, talvez tenha sido justo o necessário para o estabelecimento deste solo sobre o qual agora se pode derivar para uma ou outra direção. Seria essa uma atitude condescendente com o fundador? Talvez…
O que é certo é que não operamos mais sobre um mesmo inconsciente, e isto implica um modo diferente de abordá-lo. Como disse o próprio Miller, cerca de 30 anos atrás,
Nossa perspectiva de hoje [leia-se, já naquele tempo] é a de uma prática da psicanálise que não é mais a prática do tempo de Freud e que talvez comece a não ser a do tempo de Lacan. Sem dúvida, a psicanálise propriamente dita é freudiana em seus fundamentos. Ao mesmo tempo, perto de um século de prática modificou as condições de seu exercício, de um modo que repercute muito longe nos próprios fundamentos.19
Ainda assim, por tudo dito, penso ser possível sustentar que há algo de fundamental – nisso que serve para falar – que se coloca desde os inícios. Algo que situou e, ainda, situa essa práxis como uma “cura pela fala”, com todas as implicações e complicações que enunciar isso, nos dias de hoje, pode comportar.
E, aqui, creio que tomar Freud na radicalidade de seu ato fundador, é entender que apesar da distância, o momento da invenção da crença no inconsciente está vivo, a cada vez, em cada tempo inicial de um tratamento. E é justo isso que permite que “cada analista, com cada analisante, invente e reinvente a psicanálise.”20