Tânia Abreu
“A Elegância de um destino”
Com essa expressão, Miller[1] definiu o percurso de Bernardino Horne na vida, intimamente ligada à psicanálise.
O sujeito volta a Paris para dar continuidade às entrevistas preliminares, centrado em um problema com o saber. Um instante de ver: relato de um sonho, no qual estava brincando na praia e lançava um disco branco a um amigo que o devolvia. Depois de várias associações, o analista encerrou a sessão dizendo: o disco branco é uma condensação. Devolveu o objeto, tal como o amigo no sonho. Decorrem daí: oito anos de análise e uma nomeação como AE. Tempo de compreender: memorizar na adolescência uma poesia horrível, que promove a pureza do amor pelo elogio do branco. Momento de concluir; o animal que se desprendeu da travessia do fantasma era branco e fora golpeado na cabeça, lugar do saber. Esse fato associado à mirada da êxtase feminina em um espaço sob muita luz, desencadeia o final iluminado por um clarão. Perplexidade! Há algo do animal branco no disco branco. O real do umbigo do sonho é aspirado e entra no inconsciente pela metonímia. O disco branco equivale ao objeto pulsional. O sujeito fora reconduzido aos significantes elementares, que tantas vezes repetiu em sua análise.
Três tempos condensados no disco branco. Com esta interpretação o analista iniciou o trabalho da transferência que culminou na passagem de analisante à psicanalista. Fazendo uso da surpresa nos primeiros encontros, marcava o infantil ali presente, através da fixação de gozo. Entrevistas preliminares conduzidas em direção ao real, sem contorno, pois sustentadas na ética do desejo do analista. Um final já anunciado na entrada por um sonho e dois lapsos: “o erro de um nome e o equívoco, ao tomar o caminho que o levou a um velho cemitério.”[2]