Aléssia Fontenelle

Descolamento

A demanda de atendimento com urgência chega por WhatsApp, em uma sexta-feira à noite, após anos levando na bolsa, de um lado para o outro, a indicação do analista. À proposta de horário — “Sexta-feira, às 19 horas?” — a resposta vem imediata, confirmando o horário, porém, para a semana seguinte.

Na sessão, apresenta-se confusa e, entre soluços, enuncia: “Estou mortalmente grávida. Carrego uma gravidez molar”. A mãe insistia em que se fizesse um histerectomia o mais rápido possível, apesar de não ser essa a indicação dos médicos que cuidavam dela, ressoando “a sombra da morte” no discurso materno desde a ameaça de descolamento embrionário que marcou sua gestação. O analista intervém: – “Mas tem essa pressa toda? “, apontando para a possibilidade de aguardar um tempo antes de decidir.

Ela se acalma e diz que não era por isso que estava ali, e sim, para tratar a confusão, uma atrás da outra, que era sua vida. Uma emergência. Um despertar. Um corte. O silêncio se instala: “Não consigo parar em um emprego, numa relação. Sou como uma ovelha desgarrada. Nem um bebê consigo segurar na barriga.” Mais um corte, e a paciente se apressa: quer saber o valor, a duração da sessão etc. A analista responde com tranquilidade: “Não há pressa em decidir, temos tempo.”

Suas sessões são descontínuas — ela vai e vem, ela vai e volta… “mas, temos tempo!”

Recorte extraído do texto Otoni Brisset, Fernanda. “Uma ovelha desgarrada: a fic(x)ção de um descolamento”. Curinga, n. 49, p. 47-53, jan./jun. de 2020. EBP-MG.

 

 

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