Sônia Vicente
Bom dia! Neste segundo dia das nossas Jornadas, daremos início a uma sequência de quatro Plenárias que, penso, fornecerão os fundamentos teóricos dos trabalhos clínicos apresentados ontem na Jornada Clínica. Trata-se de uma articulação bem-vinda e certamente frutífera, que evidencia a importância da teoria para a clínica. Nesta manhã, vamos nos debruçar na escuta de oito trabalhos de colegas que compartilharão conosco suas produções, de modo a estabelecermos uma conversação a partir delas.
Os trabalhos estão agrupados de dois em dois, orientados pelos quatro eixos temáticos instigantes que estudamos ao longo do ano de 2025. Os participantes dessa louvável e árdua empreitada serão nomeados no momento da apresentação.
A partir desse vislumbre do que ocorrerá hoje, acrescento algumas pontuações breves sobre o nosso tema, que, penso, poderão contribuir para nossas reflexões e articulações.
I. Lacan e o enigma da entrada em análise
Começo lembrando que, na sequência de seu ensino, nos anos 1970, no Seminário 19, Lacan nos apresenta uma afirmação, no mínimo, instigante para o estudo que ocupou a Seção Bahia ao longo deste ano: a entrada em análise e as entrevistas preliminares.
Cito Lacan:
“…o primeiro passo da experiência analítica é introduzir nela o Um, como o analista que se é… nós o fazemos (o analisando) dar o passo de entrada…”
Diante do enigma que essa expressão produz, emergem perguntas fundamentais:
- O que é um analista?
- O que é introduzir o Um?
- O que faz com que uma experiência analítica seja considerada lacaniana?
Responder a essas indagações, que se imbricam, exige retornar aos princípios que fundamentam nosso estilo e às regras que orientam nossa ação, para que nosso fazer se mantenha conforme a orientação ao real.
II. O analista e a direção do tratamento
Recordo, aqui, como Lacan abre o texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder:
“O psicanalista é aquele que seguramente dirige o tratamento.”
Ele nos situa, assim, na vertente técnica — a do que fazer — sempre orientada pela ética do bem-dizer, pelo desejo e pelo manejo do gozo. Em seguida, afirma: “No começo da psicanálise está a transferência”, acrescentamos: a transferência real.
Quando se adentra o consultório de um analista, entra-se num artifício simbólico, espaço onde se busca o obstáculo no qual se tropeça. Nesse tempo preliminar, o analista coloca em jogo hipóteses, convertendo a certeza com que o paciente chega em suposição.
Freud chamou esse tempo de análise de prova, o que designamos, com Lacan, como entrevistas preliminares — etapa preliminar à entrada em análise, cuja função é instalar no sujeito uma interrogação sobre a causa de seu sofrimento. Ele passa a buscar uma verdade que, porém, será logo suspensa pela interpretação.
A transferência se instala, então, pelo enigma: o que isso quer dizer?. Indica-se aí o encontro com a experiência — mas ainda não com o analista. Nesse momento inicial, nos deparamos com a transferência à psicanálise. Resta saber: como direcioná-la ao analista?
III. O sintoma endereçado ao analista
Lacan afirma que quem procura uma análise já faz uma escolha a favor do inconsciente, mesmo sem sabê-lo. Aqui encontramos a estrutura de linguagem, endereço do sintoma. Para que o sujeito advenha, indica-se ao paciente: fale, conduzindo-o ao consentimento ao inconsciente.
O analista opera algumas manobras até, num momento decisivo, sancionar com um ato a entrada do sujeito em análise. O ato analítico — ato criador da entrada em análise — cabe ao analista. Quando o paciente dirige seu sintoma ao analista, inclui-o no inconsciente; é o que chamamos de sintoma analítico.
A clínica lacaniana tem uma lógica própria: um início claro e uma conclusão que só pode situar-se na lógica do ato. Quando se produz o ato — interessado apenas na consequência do trauma, o gozo — há um término e uma aposta: a de que, ao final, alguém se prestará a ser objeto a para outro analisando.
O ato, enquanto causa, preserva a identidade da psicanálise.
IV. O impossível de dizer e o equívoco significante
Interpretar é tocar o impossível de dizer por meio do equívoco significante, ponto em que surge o Outro barrado, modificando a relação com o saber e produzindo a surpresa de uma significação inesperada. A impotência em alcançar o saber alimenta o trabalho de transferência.
A posição do Sujeito Suposto Saber transforma-se em impossibilidade: onde o falasser busca encontrar o seu ser no Outro, há o vazio, o traumatismo (trou-matisme), o furo bordeado pelo material significante. O analista convoca o uso da palavra e, no discurso corrente, opera conforme a letra de gozo, fazendo surgir a singularidade.
Por isso, a função do analista é uma função sintomática. O sintoma, tomado como meio de gozo que afeta o corpo, é aquilo que faz suplência à satisfação pulsional.
V. O ultimíssimo ensino: o Um traumático e a torção na prática
No ultimíssimo ensino, ao elaborar sobre alíngua e o Há Um — um corpo que se goza — Lacan introduz uma torção importante: o tropeço (l’une bévue) antecede o inconsciente. Ele distingue o Outro-corpo, substância gozante, e o Um traumático.
Essa torção desmonta a selva dos semblantes e explicita o inconsciente como inapreensível.
Aponta-se aí um outro modo de operar a transferência e a interpretação, ao privilegiar a palavra solitária, realizando a virada do inconsciente-saber para o inconsciente-furo, e afirmando que há apenas contingência. O analista, pelo corte, faz soar algo que não é sentido; faz ressoar uma significação vazia, pura ressonância do furo. Predominam aí a surpresa e o equívoco.
VI. Introduzir o Um e orientar o falasser diante do gozo
Retomando Lacan — “o primeiro passo no encontro com o analista é introduzir o Um, frente ao analista que se é” — podemos afirmar que uma análise se orienta pela relação do falasser com o gozo, diante do axioma “não há relação sexual”.
Introduzir o Um é apostar que o sujeito possa desembrulhar-se de seu sintoma, produzir um fazer com seu modo de gozar.
Para isso, é o desejo do analista o que, em último termo, opera na psicanálise: ao visar o não sentido, permitir a produção do S1 e não recuar diante dos impasses. Implicar o sujeito num novo laço com o Outro, oferecer-lhe um Outro-parceiro, é o que deve aparecer nas entrevistas preliminares.
O analista, enquanto parceiro-sinthoma, empresta seu corpo às ressonâncias, aos restos sintomáticos do paciente, acolhendo o contingente — aquilo que conduz ao incurável do real. Surge daí a letra de uma fala: “Eu sou o que sou.” “Eu sou como gozo”
Trata-se, enfim, de uma clínica da invenção.
Passamos agora à primeira Plenária.