João Klaus L. S. Seydel
“Que cada um encontre algo acerca da língua que fala em si, que consiga produzir algum significante que ponha o tempo em movimento outra vez para que o passado
possa existir como tal”1.
Inicio meu trabalho com essa enunciação preciosa de Ricardo Seldes, entendendo haver contida nela uma formulação precisa, poética e condensadora de muito do que se pode esperar de uma experiência analítica.
Extraio essa frase de La Urgencia Dicha (2019), bem como o ensinamento de que na busca de alguém por uma análise há sempre uma urgência. E há, ainda que ela não se apresente a partir de um incidente trágico, aos moldes do que se convencionou chamar de trauma. Na clínica, o trauma deve ser compreendido no nível da resposta possível de um sujeito frente a seu advento, na relação que sustenta com o traumatismo inaugural, o traumatismo da linguagem2.
De acordo com Seldes, o trauma é um desses acontecimentos psíquicos que tocam o real, cuja angústia arranca o sujeito de suas rotinas, de sua tendência a considerar a vida como um sonho3. A urgência, que daí decorre, deve ser compreendida sobretudo como uma ruptura da cadeia significante, que fica impedida de se articular em um dizer. O efeito de mortificação que produz no sujeito impede todo o movimento de representação que permitiria uma perda de gozo ou sua localização4.
Seldes adverte que para que uma urgência possa se tornar subjetiva é fundamental a retomada deste movimento, a ser introduzido pela entrada do analista, este lugar de endereçamento em que a fala pode se desassociar dos sentidos preestabelecidos, ou ser relançada a partir da falta deles, fazendo com que algo do próprio dizer possa ser extraído nos ditos5.
Me chama atenção, de saída, essa ideia de movimento da cadeia significante, articulada a uma temporalidade, cuja fundação é explicitada metaforicamente na frase em destaque pelo significante “passado”. Me pergunto como é possível cernir algo disso que passa, da marca, desde as entrevistas preliminares, para que o “passado” possa de fato existir, mas como tal.
Em Lacan Elucidado (1997), Miller nos relança às entrevistas preliminares concebendo-as como “um modo de estruturar as boas-vindas”6. Para Freud7, esse momento de “prova” ou “ensaio preliminar” seria fundamental para introduzir o funcionamento da análise, estando submetido desde o início às mesmas regras que uma análise propriamente dita. Naquele momento era fundamental para Freud estabelecer uma hipótese diagnóstica logo de entrada, tendo em vista a não admissão em análise de pacientes psicóticos. Propunha então que a duração dessas entrevistas iniciais não se estendesse em demasia, evitando o aprofundamento da transferência em casos que poderiam não ter continuidade. Com esses cuidados, pretendia poupar o paciente da sensação equivocada de fracasso do tratamento em caso de interrupção nas primeiras semanas.
Nesse sentido, o que Miller esquematiza a respeito das entrevistas preliminares corrobora em boa parte com Freud. Há, evidentemente, a ressalva de que frente à primeira demanda direcionada ao analista, que é a demanda de ser paciente, não se deve recuar – o que hoje, a partir de Lacan, também inclui a psicose –, porém, além disso, o que se concebe, em termos gerais, ainda se trata de uma estruturação metodológica8 da entrada em análise.
Em primeiro lugar, esse período, de tempo indeterminado, seria necessário, segundo Miller, para que se faça uma avaliação clínica. Ou seja, para além de certa orientação diagnóstica, imprescindível para nortear o tratamento, deve interessar, de antemão, a própria avaliação feita pelo paciente9. Nessa mesma direção, uma outra necessidade das entrevistas preliminares seria a da localização subjetiva. Não para verificar a factualidade do que nos conta o paciente, mas sim o que ele de fato diz. O que importa aqui é a posição assumida em relação aos próprios ditos10, a capacidade de fornecer o texto a ser lido e de lê-lo11, implicando a perspectiva de mudança de uma posição queixosa para uma outra, a de interrogar o sintoma, passando da demanda inicial de ser paciente para uma demanda de análise.
A atribuição subjetiva, por fim, indica a maneira pela qual o analista procura fazer a atribuição do dizer ao sujeito do dito. Ao demonstrar incompreensão, valendo-se da douta ignorância, o analista sustenta o mal-entendido da linguagem12 e, exatamente aí, onde o significante se encontra separado da significação (S1/S2), consequentemente pode contribuir para o estabelecimento de uma atmosfera interpretativa e da transferência, lançando o sujeito em uma nova relação com o dizer.
No texto Uma psicanálise com uma estrutura ficcional (2014), Miller alude a essa nova relação com o dizer como sendo da ordem da adoção de um novo supereu, pautado agora pela regra analítica que convoca à transmissão do acontecimento do pensamento na fala, à assunção do amorfo mental em uma estrutura de linguagem13, o que corresponde ao movimento que vai do discurso do mestre à histerização do discurso, da queixa pelo desprazer do sintoma ao apelo à sua interpretação, detendo o sujeito, nesse momento, entre consciente e inconsciente, na oposição entre o que se sabe e o que não se sabe, ao molde da questão “o que isso quer dizer?”. Mas ainda é preciso ir mais além: “o que isso satisfaz?”14. O analista não há de se furtar a essa questão. Se fica detido na ilusão do saber, sustenta a crença de haver um Outro que detém as respostas. É preciso incluir o gozo, efetuando mais um giro e, só assim, a instalação do discurso analítico.
Freud, em suas investigações sobre o sintoma, já indicava haver algo além do sentido em sua formação. Seu caráter patológico se daria pela sustentação em fantasias inconscientes, trazendo à tona, de modo substitutivo, e por uma solução de compromisso entre as instâncias psíquicas, a satisfação rechaçada de excitações sexuais. Os sintomas condensariam, portanto, as “mesmas sensações sexuais e inervações motoras que originalmente acompanharam a fantasia”15, com a obtenção da satisfação sexual alcançada numa espécie de aproximação.
Parece possível dizer, a partir de Freud, que o sintoma, enquanto ciframento significante, é uma proliferação que comporta um ponto de desprazer alinhado, ao mesmo tempo, à satisfação obtida na fantasia inconsciente, não se restringindo apenas ao campo do saber. No mesmo sentido, Lacan declara, no Seminário O Saber do Psicanalista (1971-1972), que o sintoma é a tradução em palavras de seu valor de verdade. Essa coisa, a verdade, não tem nenhuma equivalência a um único sentido, na medida em que é aquilo que, por intermédio da linguagem, aborda algo que é inteiramente real16. Como sublinha Miller, em O Parceiro-Sintoma (2008), isso implica que é sempre necessário considerar um elemento suplementar à significação do Outro no que diz respeito ao sintoma17.
Este grifo de Miller parece nos remeter à ideia de fantasma fundamental, apresentada por Lacan no Seminário 6 (2016 [1958-1959]), a partir de sua fórmula simbólica $♢a, cuja importância de formalização situa também a estrutura mínima de suporte do desejo18. De acordo com Lacan, o sujeito, em sua origem, é constituído a partir da relação com o Outro como lugar dos significantes, mas também a partir de um Outro enquanto personagem real, aquele através do qual a demanda se emprenha de significação, até que se converta em algo diferente da necessidade que buscava originalmente satisfazer. Essa introdução do sujeito no significante permite a subjetivação do Outro e o leva a ter com ele uma nova relação, em que passa a se fazer necessário o seu reconhecimento já não mais como demanda, mas sim como sujeito19.
Isso significa que o sujeito, para poder se designar, precisa empregar algo do Outro, mas às suas próprias custas, pagando por isso com sua castração20. O objeto a, esse “elemento suplementar à significação do Outro”, se revela justamente como efeito da castração, de não haver o Outro do Outro, e da inexistência de um significante que recubra a falta e identifique o sujeito a si mesmo de maneira definitiva.
Diante da demanda do sujeito que exige uma garantia, é o próprio Outro, enquanto lugar da fala, que acaba por se revelar como faltante (Ⱥ). E frente a esse Outro o sujeito terá, enfim, de se situar. É nesse sentido que Lacan nos indica que o sujeito não pode se situar no desejo sem se castrar. A barra posta sobre o sujeito, $, implica, nesta época de seu ensino, que o objeto a está à margem de todas as demandas, representando a falta como “uma tensão real do sujeito”21.
Miller, em Sintoma-Fantasma (2024), indica que o fantasma está fundamentalmente articulado a este ponto, não como correlato ao Outro enquanto lugar do significante, mas como uma cobertura frente ao enigmático de seu desejo22. Já em O Ser e o Um (2011), situa o fantasma como o que conjuga, para o sujeito, o imaginário e o simbólico, de maneira a fazer uma janela sobre o real: “É a matriz a partir da qual o mundo, a realidade, ganha sentido e se ordena para o sujeito”23. Nesse sentido, portanto, a punção (♢) não entra na fórmula de maneira indiscriminada entre o $ e o pequeno a. De acordo com Miller, esse símbolo, que tem a forma de um losango, é utilizado na lógica modal para representar todas as relações possíveis entre dois termos. Na fórmula aqui em questão, $♢a, vemos como ele ajuda a compor a ideia do fantasma como index de uma relação entre duas ordens distintas24.
Parece partir daí a ideia de travessia e, talvez, também, a de responsabilização do sujeito, haja vista que a orientação na direção do real pretende ir mais além do regime da verdade e do desejo, que são modalidades do significado e que mantêm o sujeito sob o guarda-chuva do Outro. A análise, sob esse prisma, supõe ir de encontro ao gozo. Dentro do possível, se destinaria ao atravessamento das margens simbólicas que remontam uma cenografia ou fraseologia que obtura a falta do Outro25, o que implica a responsabilidade do sujeito em sua construção.
Isso não parece simples à primeira vista. Como vimos, em geral, nas entrevistas preliminares, o sujeito tende a se queixar do seu sintoma, do que lhe causa desprazer. Mas a respeito do fantasma, o silêncio impera, como nos faz observar Miller, e isto não é sem razão. Há de se supor aí um gozo não reconhecido pelo sujeito como seu, em desacordo com os valores e com toda montagem simbólico-imaginária que dispõe para saber de si26.
Enquanto fala do seu sintoma, o sujeito faz apelo à interpretação, o que não ocorre em relação ao fantasma, justamente por estar para o sujeito no lugar do real, inacessível ao sentido27. De acordo com Miller, em O Ser e O Um (2011), vemos que o fantasma, além de passar pelos registros simbólico e imaginário, é também real, porque retorna sempre ao mesmo lugar para o sujeito, exigindo do analista uma orientação que não se detenha apenas na via da falta a ser, mas que aponte na direção do Um28.
A partir do Seminário 19 (2012 [1971-1972]) pode-se depreender que o efeito do significante, ao mesmo passo em que cria o sujeito, introduzindo-o no campo do Outro e na dimensão do ser, também o apaga, condenando-o ao silêncio. Isto por que, nessa dimensão, o significante só pode representar o sujeito para outro significante. Se sua função é justamente a de conotar a diferença, a própria diferença se torna, como tal, irrepresentável, ineliminável.
Com a leitura que faz do traço unário de Freud, tanto no Seminário 16 (2008 [1968-1969]) quanto no Seminário 19, Lacan nos aponta essa marca primeira como escritural, a partir da qual devemos pensar o efeito chamado de repetição. Nessa perspectiva, a marca é aquilo que introduz, neste que ainda não podemos chamar de sujeito, a alteração da qual resulta a perda, o apagamento. Assim, o gozo, consequentemente almejado, se dá pela ambição do reencontro com o que o sujeito não pode contabilizar, o impossível.
Suporte do significante e da identificação, a marca inscrita no corpo é ancoragem do inconsciente, da tagarelice que deveremos sustentar na clínica, através da associação livre, como forma de seguir no encalço do real. Como indica Lacan, essa associação nada tem de livre, e seu interesse está justamente no fato de ser ligada, de nela falar o Um29.
O sujeito, ao aceder a uma suposta unidade, se crê suportado por essa passagem a um campo distinto, que vai do escrito à fala30, mas neste campo está sempre implicado o “passado”, apagamentos, perdas, vazio, ou seja, o Um como o que existe por ser impossível de enumerar, na sua diferença para os elementos contáveis de um conjunto. Conforme nos diz Lacan, o Um evoca sempre uma bipartição, o extremo de não haver existência sem o fundo da inexistência; de não haver existência senão sustentada por um fora que não é (o que ex-siste)31.
Em Lituraterra (2003 [1971]), fica ainda mais claro que essa escrita primordial não se trata da impressão gráfica do significante, mas daquilo que é absorvido como efeitos de língua, pelos seus restos. A letra desponta aí como o que desenha a borda do furo, não ainda como significante, mas como litoral, admitindo um campo inteiro que serve de fronteira em relação ao outro, por serem estrangeiros entre si. A singularidade dessa escrita, para cada falasser, esmaga o Universal do significante, e é o que permite acrescentar, como diz Lacan, a “diz-mansão do nãomaiskium”, ou seja, “o sujeito que vem preencher a angustia d’Acoisa”, aqui conotada como o pequeno a32.
Tendo a pensar que podemos encontrar justamente aí o que está cifrado como $♢a, litoral a partir do qual se constitui o sujeito e onde reside o axioma dos sintomas, fixação que desencadeia ficções, aquém de uma interpretação possível apenas no nível da verdade, já que o sentido tende a desaguar no gozo.
Antes de concluir, me sirvo da pesquisa feita até aqui para retomar a minha questão inicial, o que me leva também a querer situar alguma coisa do ato analítico. De que modo seria possível cernir algo disso que passa, da marca, desde as entrevistas preliminares, para que o “passado”, como tal, possa existir (ex-sistir)?
Me parece primeiro necessário desfazer a ideia de que o que passa seja o mesmo que o “passado”, no sentido mais comum, como história biográfica, conteúdo que estaria por se revelar. Talvez seja algo disso o que se atravesse, mas não é disso que se trata ao fim. Até mesmo porque, a essa altura, penso ter sido possível concluir que o fantasma não vem a ser interpretável. Estarmos orientados por sua estrutura, para sua travessia, é o que nos serve de guia para a interpretação, mas pelo avesso da significação, acolhendo as ressonâncias do gozo.
Lacan diz, no Seminário 19 (2012 [1971-1972]): “Na experiência analítica, o primeiro passo é introduzir aí o Um como analista que se é”33. O que talvez nos indique que o analista não deve se confundir com o sujeito, com a pessoa que se é. O analista se faz presente quando está em posição de fazer uso da dessubjetivação, atingida a partir da própria análise, para conduzir o analisante ao inesperado, à surpresa, ao real sem sentido e também sem lei34.
O analista assim posicionado, desde as entrevistas preliminares, é o que possibilita colocar em marcha a transferência, a suposição de saber que faz do inconsciente uma substância e o que leva ao aparecimento do sujeito situado em sua divisão. A transferência, neste viés, é justamente o que faz obstáculo ao diálogo, à compreensão, criando enigma, abertura ao real.
Sônia Vicente recorda que o sujeito que procura uma análise faz uma escolha a favor do inconsciente, mesmo que disso não saiba. Assim, fica a cargo do analista o ato criador que suscite a entrada em análise35. Esse ato, por ser contingente, atinge o sujeito no seu dizer, evocando uma temporalidade outra, que não a cronológica.
O ato, ainda de acordo com Vicente, é quando o desejo vai mais longe que a intenção do sujeito e que, na retomada significante, recupera a sua própria dimensão num só-depois. É o instante que permite situar um antes e um depois, algo que passa de uma ordem para outra, e que, ao emergir, cria seu passado, “gerando o equívoco de supor que estava ali desde sempre”36.
A interpretação como corte incide na cadeia significante introduzindo o equívoco, o intervalo, desinflando o sintoma, desvelando o furo bordeado pelo sentido e reconduzindo o sujeito à opacidade de seu gozo37. O corte, como ato, vai mais além da contradição entre o que se sabe e o que não se sabe, incidindo no litoral entre linguagem e gozo, onde o sujeito se subverte e o que emerge é o objeto a.
Apesar de toda estruturação metodológica que se pode conferir às entrevistas preliminares, o que não se deve evitar evidenciar é justamente isso que desponta no instante do ato, sem correspondência necessária a uma premeditação ou escalonamento estratégico: não há relação com o Outro, o que está em jogo é a relação com o objeto. No nível do gozo, o Outro não existe, o que se manifesta são as ressonâncias da língua.
Por fim, é com esse limite na garantia das respostas ao que lhe faz enigma que o sujeito terá de haver-se, para com isso também haver-se com seu desejo e, mais ainda, com seu gozo. Seguir em análise talvez indique o consentimento com o que decanta dos ditos, do sintoma, encaminhando um trabalho sobretudo de invenção a partir dos restos que propagam o inconsciente. Talvez seja isso o que recoloque o tempo novamente em movimento, porém, não mais enquanto série, que, pela via da repetição, o passado atualiza. E sim na via do passo que, ao passar, do passado se inaugura.