Wilker França – Associado do IPB
Irei começar pelo título de nossa jornada “Entrada em análise: entrevistas preliminares”. E sobre ele me ater aos dois pontos que se localizam entre a “entrada em análise” e as “entrevistas preliminares”, que acredito, inclusive, ter sido o ponto em torno do qual discutimos boa parte de nossas reuniões de cartel.
Na gramática, os dois pontos são um sinal de pontuação que exerce diversas funções. Ele pode servir para explicação ou para indicar uma relação de consequência, por exemplo: “Ele não veio: estava viajando”. Sua função principal é introduzir um enunciado que está em relação de explicação, equivalência, esclarecimento, enumeração, conclusão ou citação com o que foi dito antes. Poderíamos dizer que os dois-pontos funcionam como um operador de relação e torção, de corte e ligação ao mesmo tempo, pois relaciona os dois enunciados ao mesmo tempo que marca uma diferença. Um sinal que suspende e anuncia.
E é dessa forma que podemos pensar o título de nossa jornada. As entrevistas preliminares não são uma pré-análise, pois é dali mesmo que se produz a entrada. Há um corte, pois o ato de entrada marca um antes e um depois, mas também uma ligação, certa continuidade. Há muitas entradas e a cada entrada um novo que se apresenta no percurso de uma análise. Além de que, antes do possível futuro analisando bater a porta do analista, algo também já começou. Clarice Lispector (1998) se perguntou no início do seu livro A hora da Estrela: “Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” Algo já começa antes de começar!
Marcus André (2018), em A escrita do silêncio, em que dá testemunho de sua experiência de análise, indica alguns indícios que o levaram até a escolha do seu analista. Ele escutou seu futuro analista dizer “essa não terá nunca condições de um bom trabalho” e aquela certeza cortante sobre alguém o fisgou. Outra situação importante: em uma briga entre dois amigos, o futuro analista não escolhe ficar entre os dois amigos, ele escolhe decididamente e publicamente se alienar a um deles. Marcus (2018) diz “Essa submissão serena e segura me tocava” (p. 141).
Certamente esses índices não configuram uma entrada em análise. É preciso algo mais. Contudo, eles indicam algo sobre a transferência e o sintoma. Uma espécie
de trilha, migalhas de pão, que marca o caminho da travessia até a entrada, sublinhando assim, certa continuidade em uma anterioridade lógica.
Pensando nessa lógica dos dois-pontos como um operador de torção que promove corte e continuidade, poderíamos pensar: “sintoma: opacidade do gozo” e “fantasma: objeto a”.
Dessa forma, proponho fazer um percurso a partir dessas perguntas: Como se orientar por essas migalhas de pão nas entrevistas preliminares até a entrada em análise? O que se corta e o que se liga continuamente? E o sintoma e o fantasma, que papel jogam nesse deslocamento?
Proponho seguir a pista dada por Miller (2018) em que ele nos apresenta três matemas em jogo que se articulam logicamente em uma entrada em análise.
O primeiro matema se refere como o paciente busca um tratamento para seu sofrimento. O sujeito faz essa busca a partir do significante da transferência se dirigindo ao analista como um significante qualquer. E o sujeito dividido se encontra embaixo da barra, como verdade escondida. O que formaria então, parte daquilo que formará o discurso do amo:
S1 → Sq
_______
$̄
O segundo matema, seria a histerização: $̄ → S1. Após dirigir-se ao analista, o sujeito se faz representar pelo significante de seu sintoma. O que compõe a parte superior do discurso da histérica, o sujeito marcado pela divisão no lugar de agente que se dirige ao Outro em busca de um significante que possa dar conta de sua verdade. Aqui estaríamos no momento em que o sujeito se apresenta, nas entrevistas preliminares, com sua queixa mas não se implicando nela e demandando do Outro um saber sobre o que lhe faz sofrer.
E o terceiro matema consiste no discurso analítico. “O sujeito que emergiu da histerização deve se por a trabalho”, no diz Miller (2018, p. 310). Essa operação se dá a partir do lugar que o analista ocupa, posição singular para cada sujeito, funcionando como objeto, condensador de um gozo impossível de simbolizar. O objeto a no lugar do agente.
a → $̄
─────
S2
Se instala então o discurso do analista:

O discurso do analista, formulado por Lacan, é aquele em que o objeto a ocupa o lugar de agente e se dirige ao sujeito barrado, convocando-o a falar a partir de sua divisão. Nesse discurso, o saber está no lugar da verdade, não como um saber exposto, mas como saber inconsciente que sustenta a experiência analítica. O analista não se apresenta a partir de um significante que comanda, mas é colocado na posição de semblante de objeto, oferecendo-se como suporte vazio que faz trabalhar o inconsciente. É por isso que se diz que o discurso do analista opera uma inversão: ele não transmite um saber, mas cria as condições para que o sujeito produza o seu, orientado pelo ponto de real que o objeto a encarna. Isso aponta justamente para a torção realizada da queixa para a implicação subjetiva que marca o sintoma analítico.
Os elementos que compõem a parte superior do discurso do analista estão invertidos no matema do fantasma. O analista não encena o fantasma do sujeito, mas sustenta um ponto de opacidade que permite que o fantasma se revele em sua estrutura.Em seu matema, os dois termos heterogêneos ($̄ e a) estão ligados pelo losango, punsão, que indica relação e proporção — um operador lógico que marca as possíveis articulações entre elementos heterogêneos. Essa relação confere consistência àquilo que, sem ela, seria um furo no simbólico. Marcus André (2018) observa que o fantasma opera como uma grade que articula as marcas deixadas pelo Outro, sustentando a ilusão de que haveria um sentido onde, em si, há apenas desarticulação e contingência.
O fantasma não se vincula ao Outro enquanto lugar do significante; ele se articula ao Outro barrado, não ao saber suposto, e sim à sua destituição. Desde o início, está referido ao desejo do Outro. Assim, mantém-se à margem das transformações operadas pela interpretação significante. Ele não se modifica, ele é atravessado, a partir de suas trilhas, das marcas pulsionais do objeto.
Apresentarei agora uma vinheta clínica do testemunho de passe de Bernard Seynhaeve (2010) para avançarmos na discussão das trilhas do fantasma na entrada em análise.
Sua análise se desenvolveu entre duas intervenções-chave que adquirem valor de ato, sendo a primeira delas a que precipita o início da análise. O analista, olhando diretamente em seus olhos, questiona sobre uma cicatriz em sua bochecha e afirma: “você deveria ter me falado disso”. O sujeito é atingido por essa intervenção como por uma bofetada, que o faz experimentar uma angústia intensa. A partir desse episódio, ou mais especificamente do olhar contido nele, iniciou-se o trabalho sobre as marcas pulsionais do objeto olhar. Durante anos, a análise se organiza em torno dessa tentativa de cifração e decifração do gozo.
Na outra interpretação, próximo do final de sua análise, o analista disse-lhe: “você ama demais suas fantasias”. Essa intervenção trouxe uma interrupção na associação significante, um corte radical entre S1 e S2, criando um espaço de vazio e silêncio. O efeito dessa intervenção não é a produção de sentido, mas o seu esvaziamento.
Ambas intervenções, uma que precipita a entrada em análise e a outra que precipita seu final, têm o mesmo estatuto em relação ao real. Entretanto, produzem efeitos distintos. Uma põe em marcha a relação entre significantes, a partir do inconsciente transferencial e a outra produz um corte entre significantes e torna possível o advento do inconsciente real. Miller (2012) elaborando sobre essa diferença dos efeitos diz para Bernard:
Portanto, de certo modo, é você quem cria isso, o que lhe confere um valor. Da mesma forma que Lacan podia dizer que o analista faz parte do conceito de inconsciente, é preciso dizer:
o analisando faz parte do conceito de interpretação (2012, p. 170).
Ou seja, no início de uma análise as intervenções em direção ao real assumem efeitos distintos das do seu final, obviamente. No Perspectivas do Seminário 23, Miller (2009) nos aponta, a partir do último ensino de Lacan, uma desconexão da relação entre significantes.
Aqui, a ruptura da continuidade à qual, sob o ponto de vista da psicanálise absoluta, atribuímos uma função crucial, uma vez que ela mostra o discurso analítico articulado em torno de um corte, articulado em torno de uma desconexão da relação do significante ao significante (…) Há sempre algo interrompido na relação do significante ao significante” (2009, p. 160).
A partir dessa desconexão, como poderíamos pensar as entrevistas preliminares e o início de uma análise, incluindo evidentemente, a regra fundamental da associação livre? Miller marca então uma antinomia entre prática e perspectiva. A prática estaria nessa relação entre S1 e S2 da associação livre e na perspectiva estaria a disjunção radical entre eles. Dois-pontos:Ligação e corte!
Essa relação de ligação e corte, que iniciei falando meu trabalho, nos ajuda a pensar também o sintoma. Diferente de outras formações do inconsciente, o sintoma insiste no tempo, apresenta-se como uma permanência que permite aproximá-lo do real, fora da cadeia significante, portanto longe do sentido. Poderiamos então pensar, com Miller (2010) em Ler um sintoma, que o sintoma comporta duas faces: uma decifrável, que se dirige ao saber do Outro, articulando S1 e S2 e a segunda que faz obstáculo ao sentido, o S1 disjunto.
Se nos primeiros tempos o sintoma foi pensado como portador de um sentido a ser decifrado, em continuidade com o desejo e suas significações inconscientes, com “Joyce, o sinthoma” a ênfase desloca-se para o acontecimento de corpo. Essa virada introduz uma nova dimensão do sintoma que se dá como uma amarração contingente do falasser diante do impossível de simbolizar.
Nessa perspectiva, nas entrevistas preliminares, o analista se orienta menos pelo conteúdo da queixa e mais pelo que nela insiste como ponto de impossível. E é esse fundo de impossível que garante ao sintoma sua parte opaca. Miller (2016) indica que a opacidade do sintoma é a chave para a fórmula “todo mundo é louco, ou seja, delirante”: justamente porque o sintoma contém um gozo opaco, todo sentido construído em torno dele é, de algum modo, um delírio. Mas como poderíamos avançar no entendimento em relação à opacidade do gozo do sintoma? Patricio Alvarez (2023) fez essa pergunta e destacou três modalidades de opacidade: do corpo Real, do feminino e da letra como S1.
Ao desenvolver essa questão, Álvarez (2023) aprofunda-se em duas dimensões de opacidade do sintoma enquanto acontecimento de corpo. A primeira, situada entre o simbólico e o real, refere-se à letra, o S1, significante mestre: a partir de um acontecimento contingente, inscreve-se uma letra sem significação que retorna, iterando-se. A segunda concerne ao próprio corpo, tomado como uma opacidade em si, situado entre o imaginário e o real. O sintoma, portanto, não é apenas letra, mas também corpo.
O percurso analítico consiste em formalizar o sintoma, reconhecer sua repetição, distinguir o S1 sem sentido dos S2 produtores de sentido, e, finalmente, esvaziar o S1 de seu valor fantasmático, o que permite passar da repetição à iteração. Desse modo, ao longo da análise, o S1 se destaca como letra sem sentido, o ponto ineliminável do sintoma. Esse ponto fixo de gozo conduz à possibilidade de um arranjar-se aí com o sintoma. Contudo, o que me parece importante perceber é que desde o início de uma análise algo dessa opacidade já se deixa entrever.
No testemunho de Bernard Seynhaeve (2010), ele destaca a letra L como S1, o significante-mestre que presidirá seu destino e que, no início de sua análise, se apresenta revestido de seu valor fantasmático. Após a intervenção do analista: “você deveria ter me falado disso”, ele faz um sonho que inaugura sua análise: um corredor em forma de L, ligado à maternidade, à origem, e uma necessidade imperiosa de urinar até o transbordamento e ele acorda urinado. Esse sonho precipita uma fobia ao se deitar, acompanhado pelo temor de que a crise de enurese se repetisse. Mesmo quando conseguia adormecer, era tomado por sonhos de castração que o faziam despertar sobressaltado, atormentando-o por vários anos.
O sonho toca no excesso pulsional e revela que o que Bernard deveria falar não se tratava do cisto na bochecha, mas de outra coisa, a marca de gozo, que excede o corpo. Esse excesso pulsional se faz presente, inclusive no sonho que precipita o final de sua análise.
E a letra L, como S1, o significante-mestre (S1), entra na associação livre, em uma operação de relação entre S1 e S2, seguindo em sua análise as trilhas do fantasma. Seu tio que vivia um romance com sua mãe, ferido na guerra, envia uma carta ao irmão, futuro pai de Bernard, dizendo: “Se eu morrer, ocupe-se dela”. Essa injunção, proferida à beira da morte, sela a união de seus pais e marca o sujeito por uma palavra que o precede. Bernard encarna o “L” de elle, o feminino, fazendo dessa letra, o ponto em que o corpo e o significante se enlaçam para definir um modo de gozo e uma posição sexuada. O “L” é, desde o início, a letra em torno da qual o sujeito tenta se representar, uma marca real que funda sua história sob o signo de um gozo que itera.
A segunda intervenção do analista: “Você gosta demais de suas fantasias”, marca um corte na relação entre S1 e S2, suspendendo o movimento de significação. Esse corte deixa o sujeito abandonado ao significante-mestre isolado, ao S1 tomado em sua dimensão de letra, puro traço de gozo sem mediação simbólica. O “L” tomado agora como letra real, marca de um corpo que goza ao falar disso.
Enquanto a letra pode ser trabalhada como efeito de discurso, o corpo real exige outro tipo de abordagem. Lacan introduz aqui o conceito de “efeito de afeto”: o corpo não se trata pela repetição nem pela letra, mas pelos efeitos de afeto, pela ressonância. O corpo pode ser tocado, feito ressoar, mas não interpretado. Ao distinguir essas duas opacidades — a da letra e a do corpo real —, compreende-se que o gozo opaco do sintoma decorre do enlace entre ambas: o acontecimento que se escreve como letra opaca e sem sentido, e o corpo real, igualmente opaco.
O significante é causa do sujeito no discurso e, também, causa de gozo no corpo. Sobre o gozo obscuro do sintoma, a operação analítica deve, como indica Lacan (2007) “[…] realizar uma sutura e uma emenda” (p. 71). Uma operação que localiza, delimita, circunscreve as marcas de gozo inscritas no corpo.
A partir do fragmento de passe, podemos localizar modalidades de interpretação, evidenciando, em cada uma, a direção que busca o arranjo do gozo, transformando-o de algum modo e que, para isso, o analista “[…] mobiliza algo do corpo (…) por exemplo, que ele coloque o tom, a voz, o sotaque, até o gesto e o olhar” (MILLER, 2011 p. 136).
Assim, desde as entrevistas preliminares, é o real que está em perspectiva. Na perspectiva de um instante. O analista, situado como “Um que se é”, aposta nessa opacidade, nessa falha de sentido que indica o real do sintoma e vai destacando as marcas do objeto, trilhando o caminho do fantasma. O dois-pontos, então, deixa de ser apenas um sinal gráfico: torna-se a própria escrita de uma passagem, o ponto de torção entre o corte e a continuidade, entre o falar e o corpo, entre o sentido e o não sentido, enfim, real!