PLENÁRIA DO CONSELHO DA EBP-BA TORNAR-SE ANALISTA: UMA EXPERIÊNCIA
COMPOSIÇÃO ATUAL DO CONSELHO DA EBP BAHIA: Aléssia Fontenelle, Analícea Calmon, Fátima Sarmento, Lucy de Castro, Mônica Hage (Presidente), Pablo Sauce (Vice-presidente).
Lucy de Castro (EBP/AMP)
Há poucos meses atrás, seguindo a proposta do Conselho da EBP-Ba para o Seminário de Orientação Lacaniana em 2025 em torno do tema “Advir analisante, tornar-se analista: uma questão de Escola”, escolhi abordar a PAIXÃO DA IGNORÂNCIA E DESEJO DE SABER.
Vimos a impossibilidade de se pensar a Paixão da Ignorância, sem relacioná-la imediatamente ao Saber e que, a Paixão da Ignorância não deve ser entendida como paixão de não saber nada. A Paixão da Ignorância, designa o Saber como um conjunto vazio – o saber é desalojado, mas fica o enquadre, sua inscrição em relação ao não saber. Vamos encontrar a ignorância no espaço que se deixou vazio para que se possa ter ali a invenção do saber1.
Hoje, nessa última plenária da XXIX Jornada reservada ao Conselho da EBP-Ba, cabe-me falar sobre TORNAR-SE ANALISTA, UMA EXPERIÊNCIA.
Nesse contexto, não há como fugir do tema: Ignorância e Desejo de Saber.
Afinal, Ignorância e saber estão no cerne da experiência analítica.
Tomamos como ponto de partida “Variantes do Tratamento Padrão”, que Lacan escreve em 1953, tempo inaugural de seu ensino, publicado em 1955.
O fruto positivo da revelação da ignorância é o não-saber, que não é uma negação do saber, porém sua forma mais elaborada. A formação do candidato não pode concluir-se sem a ação do mestre ou dos mestres, que o formam nesse não-saber, sem o que ele nunca será nada além de um robô do analista.
Lacan. J. Variantes do Tratamento Padrão. In Escritos, p. 360
O percurso analítico implica, sempre o tratamento da ignorância. No entanto, o fruto positivo da ignorância como sua forma mais elaborada – a fecunda ignorância – deve ser mantida. É importante ressaltar, que no sentido figurado, o termo fecundo significa a capacidade de gerar resultados criativos ou inventivos. É nessa condição que entendemos o fruto positivo da ignorância como sua forma mais elaborada. Ignorar o que sabe, ignorar o que aprendeu enquanto analisante, é o que vai sustentar a posição do analista. Se essa ignorância não for mantida, o analista pode cair na enfatuação. No final da experiência, o analista deve saber “virar-se com”, para não se tornar um robô.
Lacan, refere-se à psicanálise como uma “prática subordinada em sua destinação ao que há de mais particular no sujeito” e nos alerta: “o analista só pode enveredar por ela, ao reconhecer em seu saber, o sintoma de sua ignorância”.
Em “O Saber do Psicanalista”2, Lacan (1971), diz que “a ignorância é um modo de estabelecer o saber; de fazer disso um saber estabelecido”.
Miller, discorrendo sobre “As Bodas do Gozo e o Saber”3, pontua que, na história da psicanálise e em sua atualidade, os psicanalistas nem sempre fazem essa diferença, e que há uma parte do saber dos analistas bem distanciada do inconsciente como saber; o saber dos analistas e o inconsciente como saber, aqui não têm nada a ver um como outro; não se encontram, cada qual segue seu caminho.
No outro extremo, para outros analistas, ambos, o saber dos analistas e o inconsciente como saber se confundem, levando à interpretação incessante, sem saber o que se diz.
No Inconsciente há um ponto de não saber, do homem sobre a mulher e da mulher sobre o homem4. Isso a princípio pode ser dito: os dois sexos são estranhos um ao outro, são exilados. Mas não há nenhuma simetria, porque o não saber de que se trata, incide sobre a mulher. No inconsciente, nada se sabe sobre a mulher, daí a expressão “Outro sexo” Há o significante do homem, mas, apenas este, e Freud constata que há um único símbolo da libido, e este é viril. o significante da mulher é perdido, se extravia, levando Lacan a formular que “a” mulher não existe. Miller pontua que está aí a razão pela qual o sujeito que entra no dispositivo da análise é submetido a uma histeria estrutural, não porque ele se experimenta dividido pelos efeitos do significante, mas porque, independentemente de sua vontade é lançado à procura do significante da mulher, que ele necessitaria para que a relação sexual existisse. Na experiência da fala, a estrutura diacrítica da linguagem que faz com que um significante valha apenas para o outro (S1 S2), abre a palavra para uma recorrência sem fim. A Relação S1 – S2 constitui o fundamento racional da análise infinita; porque não há relação sexual, espera-se que esta se manifeste um pouco mais tarde.
O saber como tal situa-se no lugar do saber do outro sexo (S2), porque no inconsciente nada se sabe sobre a mulher.
Ao definir o Inconsciente como um saber, Lacan muda algo da definição freudiana do Inconsciente (situado no ponto em que entre a causa e o que ela afeta, há sempre claudicação)5. Em Lacan trata-se de um saber feito de correspondências das palavras – significantes – que correspondem entre si. Apenas um significante está atrás dessa correspondência, levando à indagação sobre o que vem a ser o saber analítico: seria o inconsciente como saber, ou seria o saber dos analistas sobre o inconsciente como saber?
S1–S2 significa que o sujeito não saberia encontrar no significante, designação própria, representação absoluta. O Sujeito do Significante (S1) não
tem nome no Outro do Significante (S2). O sujeito do Significante está sempre deslocalizado e falta-lhe ser. Está presente apenas no objeto “a”, que reveste a fantasia.
Indo mais além, Lacan no Seminário 176, diz que a posição do psicanalista é feita substancialmente do objeto a, na medida em que, esse objeto a designa o que, dos efeitos do discurso, se apresenta como o mais opaco, há muito tempo desconhecido, e, no entanto, essencial – efeito de discurso, que é efeito de rechaço.
O inconsciente sustenta que não há relação sexual, porém o faz sem sabê-lo. O saber inconsciente é também um saber onde se encontra algo: o Gozo e, também, a Repetição, que é o primeiro grande encontro. A tese freudiana formulada por Lacan, de que o Inconsciente como saber trabalha para o gozo, é quase o núcleo das formações do inconsciente: há uma conexão do saber com a satisfação. Entretanto, na psicanálise, a satisfação não é equivalente ao saber.
A transferência é um fenômeno em que estão incluídos juntos, o sujeito e o psicanalista. É a suposição pelo analisante de um sujeito que sabe, que inicia o processo analítico. “Desde que haja em algum lugar o Sujeito suposto Saber (S.s.S.) há transferência, diz Lacan no Seminário 117. Sujeito suposto Saber designa uma função que o analista pode chegar a encarnar na cura.
Em relação à Paixão da Ignorância que circula entre o analisante e o analista em uma experiência de análise, Lacan diferencia a paixão da ignorância do lado do analisante – seu não querer-saber, da paixão da ignorância do lado do analista – a douta ignorância.
Douta Ignorância, é o exercício de ignorar o que se sabe para tomar cada caso como se fora a primeira vez. A análise só pode encontrar sua medida, nas vias de uma douta ignorância (Escritos p. 364).
Segundo Miller, sua própria experiência psicanalítica o ensinou que na experiência da psicanálise, cada um é um matema. Lacan reformula a psicanálise convidando cada um a tentar conhecer seu próprio matema, em particular o matema de seu fantasma fundamental, na medida em que este condiciona, determina ou se desprende dele, tudo que a pessoa faz em sua existência, o que experimenta, pensa, com o séquito de êxitos, fracassos etc. que constitui a vida humana.
Entendemos aqui, como um convite à formalização.
Convido-os a ler o Capítulo V de “El Banquete del Analistas” intitulado com os termos do matema que nos interessa: IGNORÂNCIA, TRABALHO, REPOUSO (PEREZA), PRODUTO. Nos deteremos no Discurso do Inconsciente e Discurso do Analista,
Lacan denominou o Discurso do Inconsciente, de Discurso do Amo.
DISCURSO DO AMO / DISCURSO DO INCONSCIENTE.

Miller8 coloca em S1, lugar do Amo, a Ignorância; defende que cabe a Ignorância no lugar do Amo (S1), porque estatutariamente o amo é cego; manda, sem querer saber de nada. Sua vontade é de poder e não de saber.
Em (S2), que no discurso do Amo é o lugar do saber, ele coloca o Inconsciente como Saber. Nesse lugar do escravo, o Inconsciente-Saber trabalha incessantemente obedecendo ao princípio do prazer, para conduzi-los à beatitude; desvela-se para fazê-los gozar com suas formações do Inconsciente, e produz um excedente que não se deixa reabsorver neste saber.
O “a” está no lugar do produto; e o Sujeito do Inconsciente ($) no lugar do repouso (com braços cruzados).
Miller acrescenta a importância de que, o que estrutura os quatro conceitos é a distinção entre transferência e repetição, que não é algo já sabido, e lança a pergunta: como intervém o analista aqui? Ele deixa claro que o discurso do Inconsciente segundo Lacan, não é discurso do analista; O analista intervém e introduz uma perturbação fundamental: Basta de enrolar… e lhe oferece o divã. É suficiente que saiba falar… Se alguém deseja, há que se lançar! É o que significa Associação Livre. Não há que saber nada antes.
No discurso do inconsciente, ele o analista fica de “pernas para o ar”, no sentido de não fazer nada; permanece em estado de inatividade ou de descanso. Faz com que o sujeito comece a trabalhar.
DISCURSO DO ANALISTA
O que faz atuar e o que trabalha é o Inconsciente
Surge aqui um problema para os analistas que estão no discurso do analista, diz Miller: uma vez que deixam estar ali, o Inconsciente que está acostumado a trabalhar passa ao largo e os acting out se multiplicam. O inconsciente-saber no lugar do repouso, por mais surpreendente que pareça, na experiência analítica, conforme Lacan, é puro efeito. Na experiência analítica o saber inconsciente vai se depositar e se escreverá a partir de zero. Por isso o começo deste inconsciente está vazio, e não é mais que pura suposição – dando origem à expressão sujeito suposto saber.
Resta um símbolo para escrever o lugar do analista no lugar da ignorância: “a” no discurso do analista “manda” a causa do desejo. É o que manda e o que deixa algo para desejar.
Na experiência analítica há a passagem para o desejo de saber.
DESEJO DE SABER é o ponto a partir do qual podemos dizer, que Há Analista. Não há analista, se o DESEJO DE SABER, não lhe advém. Não se pode, pois, pensar o desejo do analista do final de análise, sem se chegar à causa do desejo de saber. O desejo de saber é o que resulta da substituição do horror ao saber – equivalente ao horror à castração – pelo sujeito barrado, opondo a pulsão como vontade de gozo, ao desejo de saber. Sigo Miller9 que diz “a causa do horror ao saber, própria de cada sujeito, separada da de todos, causa do desejo do analista enquanto tal…”.
Concluo com a citação de Miller (2023) em “Observação sobre o desejo
de saber”10:
“Creio que o papel especial do saber na psicanálise tem seus fundamentos na própria cura, na própria operação analítica. E o que tratamos de fazer nestes tempos, é algo novo. Tratamos de fazer da Escola um conceito fundamental da Psicanálise”.
Tema que será abordado por Mônica Hage nessa plenária.