Virgínia Dazzani
A clínica contemporânea e os impasses de entrada
Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Lacan (1998, p. 322) afirma que é melhor que “renuncie a isso [à prática analítica] (…) quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”. Cada época produz novas modalidades de gozo frente ao mal-estar e, portanto, novas subjetividades e amarrações sintomáticas.
Os “novos sintomas”, como as toxicomanias, bulimia, anorexia, compulsões, adições, entre outras, nos fazem interrogar sobre os impasses de entrada em análise e sobre os limites da nossa prática analítica. Como sabemos, essa é uma prática que não prescinde da transferência e da sua ética. Domenico Cosenza (2024) refere-se aos “novos sintomas” naquilo que nomeia de “clínica do excesso” e “patologias do excesso”. São sintomas que não se organizam pela via da falta simbólica, mas pela saturação de gozo. Eles se apresentam como uma clínica do real. Enquanto o neurótico é estruturado pelo fantasma fundamental, os sujeitos das “patologias do excesso” muitas vezes se apresentam com “fantasmas congelados ou ausentes” (Cosenza, 2024). Falta-lhes uma narrativa fantasmática que dê enquadre simbólico ao gozo. Em vez disso, o gozo aparece cru, massivo, onde o funcionamento sintomático pode ocupar, em alguns casos, o lugar de suplência. O tratamento analítico, nesses casos, visa não a normalização, mas a invenção (ligado ao sinthome) a partir de um saber-fazer com o próprio excesso.
Algumas questões, então, colocam-se como incontornáveis: Quais desafios se impõem à psicanálise e, portanto, ao parceiro-analista diante de uma época marcada por essas novas parcerias sintomáticas, por um mal-estar que se apresenta sob o signo do ilimitado e da liberdade sem freios, mas que, ao mesmo tempo, traduz um assujeitamento radical que opera silenciosamente sob o disfarce da autonomia? Como lemos e formalizamos essas novas parcerias sintomáticas que se apresentam na clínica contemporânea? De que modo operamos como analistas?
As “subjetividades sem causa”
O discurso capitalista, presente nas sociedades neoliberais, ao rechaçar a inexistência da relação sexual e dissolver os ideais que antes organizavam o laço social, nos oferece a promessa de que tudo é possível sob a condição de um direito ao gozo (Rubião, 2021). Substituiu-se a interdição pela injunção a consumir, produzir e performar e é nessa passagem que se instala o novo mal-estar. Assim, a queda dos ideais e do semblante fálico tem transformado a economia psíquica dos sujeitos.
Em seu texto intitulado Para una clínica de las subjetividades sin causa, Leonardo Gorostiza (2019) lança uma interrogação sobre qual seria o elemento comum nas novas parcerias sintomáticas, nas novas subjetividades, que podem ser deduzidas como efeito da aliança discursiva entre o capitalismo e a ciência. Foi Jacques-Alain Miller, citado por Gorostiza, quem nomeou essa combinação como “capitalismo plus ciência”, que respondem, de modo singular, à desordem do real. De acordo com Gorostiza, essa aliança tem gerado um efeito clínico inédito: o surgimento de subjetividades sem causa, isto é, modos de existência em que o sujeito rejeita a função da causa que, para a prática da psicanálise, é essencial, condição mesma para a abertura do inconsciente e o tratamento do sintoma. Gorostiza retoma os quatro discursos formulados por Lacan (do amo, da histérica, universitário e do analista) e destaca que todos eles preservam a dimensão da impossibilidade e a função do falo como operador da falta. Cada discurso organiza o laço social de modo distinto, mas todos reconhecem um ponto de impossível que funda a causa e sustenta o desejo. O discurso capitalista e o discurso científico, ao contrário, eliminam essa impossibilidade estrutural. Ambos operam uma elisão da função da causa, aquilo que nos outros discursos é atravessado pelo impossível. Essa elisão tem consequências na clínica transferencial criada por Freud, uma clínica própria da localização do objeto causa do desejo no campo do Outro.
Gorostiza (2019) cita Lacan ao afirmar que o que distingue o discurso capitalista é a rejeição, a Verwerfung, da castração: “Toda ordem, todo discurso que se assemelha ao capitalismo deixa de lado o que chamaremos simplesmente de coisas do amor” (Lacan, 1972). O capitalismo oferece objetos de consumo como pseudo-objetos-causa, que tamponam a falta e produzem as subjetividades sem causa: sujeitos que já não se organizam em torno da falta, mas de objetos que prometem um gozo sem limite.
Nesses casos, o sujeito busca um parceiro que lhe permita regular o excesso de gozo. O sujeito cola-se ao objeto (tóxico, tecnológico ou de consumo) como tentativa de escapar da castração; o objeto não causa o desejo, mas ocupa seu lugar e captura o sujeito. A droga, o corpo, o dinheiro, o outro digital ou o trabalho podem ocupar a função de parceiro-sintoma (Miller, 2008). De acordo com Gorostiza (2019), um dos desafios da psicanálise contemporânea é reintroduzir o impossível, reinstalar a função da causa e, com ela, a responsabilidade subjetiva. A clínica deve localizar o que resta, o sinthoma, como forma singular de cada sujeito lidar com o impossível, resistindo à lógica capitalista do “tudo funciona”. O analista deve jogar a sua partida preservando o que não fecha, o que falha, pois é justamente nesse resto que se encontra a dignidade do sujeito. Em uma época marcada pelo “todos iguais”, Gorostiza (2019) salienta que cabe ao analista sustentar o que diferencia: o relevo do sinthoma, essa marca que não se reduz ao consumo nem ao imperativo de que se deve gozar ilimitadamente de tudo.
As patologias do excesso e a recusa da cessão do objeto
Cosenza (2024) afirma que os “novos sintomas” ou, como prefere chamar, “patologias do excesso”, constituem soluções alternativas ao impasse no processo de incorporação da lei edipiana. A perda do objeto primário de satisfação, que é a base da estruturação da neurose, se mostra, nas “novas formas de sintoma”, impossível ou precária. A partir de Freud e Lacan, sabemos que a perda de um objeto parcial, para o neurótico, é o resultado da operação de simbolização do gozo primário. Esse objeto parcial, chamado por Lacan de objeto pequeno a, constitui o resíduo de gozo que escapa à lei edipiana e que retorna na repetição do sintoma neurótico. O que acontece nos chamados “novos sintomas” é que, no plano estrutural, a ação reguladora do Outro não incide sobre o corpo do gozo Um, e o sujeito não experimenta a perda do objeto. Não há cessão do objeto, ou seja, o sujeito não cede parte de seu gozo ao Outro (Cosenza, 2024).
Lacan (1962-1963/2005), no Seminário Livro 10: A angústia, já havia indicado que a constituição do sujeito exige a cessão do objeto a ao campo do Outro. Essa operação abre um vazio simbólico que regula o gozo, permitindo sua inscrição no discurso. No neurótico, o excesso se inscreve de modo discursivo: um gozo parcial, que mantém o sujeito no laço social. Nas “patologias do excesso”, há uma recusa da cessão: o objeto não é abandonado, o desmame não ocorre, e o sujeito fica colado a um objeto-gozo (Cosenza, 2024). Isso resulta em um excesso fora do discurso, “em práticas autárquicas”, desconectadas do Outro. Cosenza (2024) assinala que essas práticas se organizam em “circuitos repetitivos e fechados”, nos quais o sujeito “goza em autossuficiência com o objeto” (com as drogas, a comida, as restrições corporais, a tecnologia, os rituais autolesivos). O resultado é um sujeito “desbussolado”, prisioneiro da demanda de um Outro absoluto que tudo promete e tudo devora. Os “novos sintomas” ou “patologias do excesso” revelam o modo como o gozo, ao perder sua borda simbólica, retorna no corpo. Em vez de dividido, o sujeito aparece identificado ao sintoma. Trata-se de tentativas de restabelecer um limite, de reinscrever no corpo o corte que o discurso contemporâneo tenta apagar.
A promessa de um gozo pleno e autônomo mascara o fato de que, estruturalmente, toda experiência de prazer comporta o encontro com o limite. A própria estrutura pulsional comporta um ponto de impossibilidade: a satisfação absoluta é interditada. Como observa Freud (1912/1996), “algo na própria natureza do instinto sexual é desfavorável à realização da satisfação completa” (p. 171). Ao negar a castração, o discurso capitalista neoliberal fabrica sujeitos supostamente sem falta, mas também sem desejo. O impossível, contudo, é aquilo que esteve e estará sempre aí. Freud o formulou no âmbito da pulsão e Lacan o articulou na noção da não relação sexual, esse furo estrutural que nenhuma engenharia do corpo ou da técnica pode suturar. O gozo, longe de ser plenitude, é sempre uma borda em torno de um vazio. Em El partenaire-síntoma, Miller (2008) afirma que o ser falante goza de modo sintomático: “seu gozo nunca é o que deveria ser; há sempre um erro, uma falha no modo de gozar”(p. 28), ou seja, o gozo não convém ao significante. Esse erro estrutural define a condição humana e a própria impossibilidade da relação sexual. O sintoma é, então, a maneira singular de cada um lidar com essa falha estrutural do gozo. O encontro entre a língua e o corpo já instaura um corte originário, nos dirá Lacan. Laurent (2017, p. 28) aponta essa falha estrutural ao dizer que “não há gozo último que possa nos aliviar definitivamente da nossa angústia”.
O parceiro-analista, a operação analítica e a ética do falasser
Se, por um lado, o sintoma neurótico freudiano sempre se apresenta como uma representação, ainda que metafórica, do encontro com o objeto de gozo perdido, por outro, a mesma operação não acontece com os chamados “novos sintomas”. Nas entrevistas preliminares da clínica “clássica”, a avaliação diagnóstica, realizada através do discurso daquele que procura um analista, indica saber da estrutura do sujeito (diagnóstico diferencial do sujeito) enquanto avaliação clínica e tratamento da demanda que contempla a retificação subjetiva e a histerização do discurso. Na clínica “clássica”, a intenção de significação e a localização do significante da transferência permitem a abertura de um caminho para uma análise. Hoje, vemos, nas “novas parcerias sintomáticas”, sujeitos que, frequentemente, não formalizam uma demanda nem se interrogam sobre a causa de seu sintoma. São sujeitos que se apresentam com uma descrença no Sujeito Suposto Saber e com uma ruptura da ancoragem na suposição.
Assim, cabe a nós, praticantes da psicanalise, localizar o que podemos extrair e ler dessas novas parcerias sintomáticas, circunscrever algo do excesso pulsional para que possa ser colocado a um trabalho de elaboração analisante. Então, como operar e jogar a partida, desde a entrada, na aposta de que o sofrimento se formalize e emerja o efeito sujeito como resposta ao real?
Em seu texto “Abonados e desabonados”, Tudanca (2023) defende a hipótese de que o “desabonado do inconsciente não é desabonado do sinthome”. Partindo dessa hipótese, então, Argaña e cols. (2023) propõem um trabalho de análise através do qual a operação do analista se dê na direção de “abalar a posição inicial de gozo e produzir, por meio de um forçamento, o ‘abonamento’ do inconsciente, ou ainda a leitura do sintoma”. De acordo com eles, isso só possível, a partir da leitura da “irrupção de algum tropeço, de alguma emergência de gozo, sobre a qual se pode verificar o consentimento do sujeito ao ato analítico”. Contudo, eles destacam que o fato de haver consentimento não implica que haja entrada em análise: a “dimensão do amor pode estar ausente, assim como a do saber, ainda que não a do gozo”. Nesse caso, o parceiro-analista joga a partida fazendo par com aquilo que não faz parceria: o gozo do Um. Isso implica “no deslizamento da urgência como dimensão do sofrimento na sessão, para ´o que urge´ como aquilo que empurra, que preside como satisfação uma análise. Uma urgência relacionada com o real”.
A função das entrevistas preliminares, nesse cenário, talvez deva ser pensada como aquela de sustentar a aposta no discurso, mesmo quando o laço simbólico parece ruir. Marie Hèlène Brousse (citada por Rubião, 2021) assinala que, diante do declínio dos ideais e da prevalência do gozo como imperativo contemporâneo, a psicanálise sustenta uma ética própria — a ética do corpo falante, ou seja, a ética do falasser. Essa ética não promete cura nem felicidade, mas convida o sujeito a encontrar uma maneira própria de lidar com o real do gozo, isto é, a um fazer com o seu sintoma. Frente aos discursos que prometem a superação da falta, o parceiro-analista sustenta a presença do impossível — não como falha a corrigir, mas como condição da subjetividade.
Nohemi Brown, na sua transmissão à EBP-Ba, em Outubro deste ano, destacou, nessa mesma direção, que o desafio atual do analista consiste em criar condições para que algo do gozo não endereçado ao Outro, um “gozo ilegível”, possa se “tornar legível”, restituindo à palavra sua função de mediação. Isso significa, ainda, criar as condições de localização dos significantes, os S1 que “ajudam a tornar o gozo legível”. Para ela, essa ação clínica implica, também, no reconhecimento da existência de um gozo ilegível que deve ser respeitado enquanto tal, funcionando como uma “letra velada” que o analista não deve obliterar. No que se refere à prática analítica, retoma a importância das entrevistas preliminares, conforme o Seminário 19 (O Seminário, livro 19: … ou pior) de Lacan (1971-1972/2012), destacando que elas têm uma função essencial não apenas para o analisante, mas também para o analista, e que nelas deve localizar essa “economia do gozo de cada um” e a função do analista em cada caso. A análise exige distinguir a demanda do Outro da demanda do sujeito, o que supõe uma escuta capaz de extrair “fiapos de sentido” do discurso, em vez de impor uma leitura prévia. Exige a escuta do efeito de significante que habita o falasser, e que lhe escapa (Brousse, 2011). Em El partenaire-síntoma, Miller (2008, p. 60) diz que “o sujeito-suposto-saber é o “sintoma-suposto-palavra”. Assim, a prática analítica consiste em “verificar a palavra do sintoma” e “introduzir a crença no sintoma é um postulado prático. É introduzir sentido no sofrimento, transformar o sintoma que se sofre em uma entidade que fala”.