Cláudio Melo
A entrada em análise é sustentada por uma série de operadores que, desde Freud, em sua essência, permanecem atuais até hoje. Esses operadores constituem o eixo pelo qual o analista deve se guiar – retomadas e reeditadas no ensino lacaniano. As entrevistas preliminares, a transferência, a associação livre, a interpretação e o ato analítico são elementos fundamentais que, desde o início da psicanálise, acompanham e sustentam essa prática. E, apesar das atualizações que a contemporaneidade impõe à psicanálise – inclusive diante dos novos sintomas –, continuam a nortear sua direção.
A partir de discussões e produções no nosso Cartel pretendo explorar alguns desses operadores, tomando o conceito de “desejo do analista” como eixo norteador, por entender que ele ocupa lugar central na direção do tratamento, pois é a partir do desejo do analista como função que o praticante pode orientar o tratamento em direção a uma análise. Focarei especialmente na transferência e no ato analítico, por entender a íntima relação com a função desejo do analista.
O desejo do analista e a transferência
No texto de Freud (1913), sobre O início do tratamento, ele nos adverte que no campo do tratamento analítico a “mecanização da técnica” é impossível diante das variabilidades diversas que envolvem a constituição psíquica, ou seja, não existe um padrão a ser seguido. Porém, é necessário, logo de início, seguir algumas regras prévias: “… sem standard, mas não sem princípios.”[1]
Para começar, antes do tratamento de análise propriamente dito, torna-se essencial realizar um processo de sondagem e ensaio preliminar com objetivo de avaliar a pertinência do tratamento para cada paciente. Mas, não se trata apenas de uma avaliação, esse ensaio faz parte por si só do processo terapêutico já em andamento desde o início, ressalta Freud, e deve seguir os mesmos parâmetros da análise.
No texto original, Freud utiliza o termo Vorversuch, literalmente “experimento preliminar”, formado pela junção do advérbio vor, que indica algo antecipado ou preparatório, e de versuch, que designa um experimento ou ensaio. Desse modo, podemos conceber as entrevistas preliminares como uma experiência que põe à prova a possibilidade de o sujeito sustentar uma posição analítica.
Ainda no texto citado acima, ao se questionar sobre o momento ideal para se iniciar as interpretações, Freud diz que isso só deve ocorrer “… apenas depois que se estabeleceu no paciente uma transferência produtiva, um rapport apropriado. O primeiro objetivo do tratamento é ligá-lo à terapia e à pessoa do médico.” Do ponto de vista de Lacan, nessas entrevistas, busca-se o estabelecimento de um laço que muda a posição do dito do sujeito da queixa para uma suposição de saber no inconsciente, o que ele nomeou como Sujeito Suposto Saber, estabelecendo justamente essa nova relação do sujeito ao saber.
Para além dessa orientação, do lado do analista, podemos dizer que a condição sine qua non para a entrada do sujeito em análise é a operação da função “desejo do analista” — ou seja, é apenas quando essa função está em jogo que a entrada em análise pode de fato se sustentar. O desejo do analista, enquanto função, é fundamental porque sustenta a possibilidade de uma torção na demanda inicial do sujeito – como disse antes, da queixa ao desejo de saber – na forma da retificação subjetiva, que é a mudança de posição do sujeito diante de sua queixa e do discurso. Desse modo, o sujeito é colocado a questionar o desejo do Outro e o seu próprio. Assim começa-se a construir a possibilidade da entrada em análise.
Entretanto, nesse ensaio preliminar algumas condições, além da retificação, devem ser observadas: que essa retificação não desmonte uma solução contra a foraclusão, sob pena de a pergunta lançar o sujeito numa certeza delirante; e, que as perguntas feitas pelo sujeito tenham o analista como parceiro no deciframento de seu inconsciente. Todavia, a suposição de saber do analisando não deve ser tomada pelo analista como um dado de realidade, ou seja, ele não deve se situar no lugar de um Outro que sabe realmente sobre o paciente. Retorno ao texto de Freud, para situar a advertência que ele, já em sua época, faz a essa “presunção” de saber por parte do analista:
… quanta presunção e leviandade é preciso para informar a um estranho que acabamos de conhecer, e que ignora todos os pressupostos analíticos, que ele se acha unido incestuosamente à sua mãe, que abriga desejos de morte em relação à esposa que supostamente ama… e coisas semelhantes! Soube que há psicanalistas que se gabam desses diagnósticos instantâneos e tratamentos expressos, mas quero prevenir a todos contra esses exemplos… Mesmo em estágios posteriores do tratamento é necessário ter cautela, a fim de não comunicar uma solução de sintoma ou tradução de desejo antes que o paciente esteja bem próximo dela… (Freud, 1911-1913, p. 163)
Em outro aspecto, Lacan (1960) define o desejo do analista como um “desejo prevenido” (p. 352) — uma função que o mantém advertido contra aquela presunção de saber. Essa função, acrescenta ele, é também causa de desejo, jamais ideal. O analista, renunciando ao saber e ao gozo, situa-se no lugar de objeto a, não de mestre — prevenindo-se, assim, de um saber suposto a ele. O desejo do analista funciona, também, na direção de levar o sujeito ao ponto do significante primordial, onde ele encontra a estrutura de sua divisão e o lugar de falta que o constitui. Não se trata apenas de reestruturação simbólica ou ressignificação, mas de um encontro com o Real da estrutura, fundado no furo. O desejo do analista deve conduzir o sujeito a confrontar-se com esse furo estrutural.
Assim, de Freud a Lacan, um dos principais objetivos das entrevistas preliminares é o estabelecimento da transferência. Só a partir daí é que o sujeito pode entrar em análise. Essa transferência não é como a imaginada por Alcebiades no Banquete de Platão, ela é, segundo Lacan, uma função de estrutura — e pode ser pensada topologicamente, como laço que faz borda ao real, guiada pelo desejo do analista e por seu ato. Uma lógica que aponta para o furo no Real como verdade do desejo.
O ato analítico e a entrada em análise
Sônia Vicente (1991) cita um paciente que diz: “A análise é uma armadilha. Falo do que não quero falar, descubro o que me causa horror, vou onde não pretendia ir. O que quero com tudo isto? Por que volto?” (p. 305). Essa frase define bem a ordem do ato analítico: ele faz o sujeito falar de um lugar onde não pensa — aí onde o inconsciente se manifesta. Outro exemplo é a de minha própria análise; no velho blá-blá-blá de sempre, notei rachaduras no teto do consultório. Refleti, então, sobre como poderia o consultório de um grande analista ter aquelas marcas; de imediato, percebi a idealização que eu projetava no Outro – e algo se deslocou em mim. Esse instante marcou um antes e um depois.
Nesse exemplo, e no do paciente de Sônia, o que está em questão não é o ato analítico como um ato comportamental do analista, mas como uma posição que coloca em jogo uma lógica em que o sujeito passa a duvidar de suas certezas, abalando também as defesas. Penso que essa posição é justamente a do discurso do analista e do desejo do analista como operadores de uma lógica que tem efeito de mudança de posição do analisando. Aqui podemos fazer uma outra observação: a de que o ato analítico pode estar desde o primeiro contato do paciente com o analista, até mesmo quando ele acolhe a demanda de uma primeira sessão por parte do paciente. Na Proposição de 9 de outubro de 1967, Lacan (1967) diz que “…uma análise, como um todo é um ato, ato analítico”.
Mais uma forma de pensar o ato analítico é através da noção de ato falho. Freud, ao nomear o ato falho como Vergreifung, já indicava sua dimensão de transgressão, segundo as diversas traduções desse termo. Pois então, não é justamente isso que está implicado em um ato falho, a colocação em suspensão da verdade do discurso sustentada no Outro?
A noção de erro, equívoco implicada no ato falho está justamente alinhada ao que Lacan (1972) chama em “O Artudito” de “Defeito no Universo”, cito ele:
Se meu dizer se impõe, não, como se costuma dizer, por um modelo, mas pelo propósito de articular topologicamente o próprio discurso, é do defeito no universo que ele provém… (p. 478)
O defeito no universo é justamente a assertiva de que não há Outro do Outro, e para nos alinharmos com o tema do XV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, podemos dizer também do impossível da relação sexual. Assim, é esse lugar que o ato analítico visa, fazer revelar justamente o ponto de erro, de furo a respeito das certezas da fantasia e dos semblantes que estão implicados na queixa do paciente, operando como uma torção möbiana que se desfaz e se reenoda de uma forma nova, inédita para o sujeito. Não se trata aqui de um novo sujeito, mas do mesmo sujeito em nova posição frente à sua falta através dos efeitos do ato analítico, que se constitui desde as entrevistas preliminares.
Todavia, se pensamos o ato analítico como uma posição lógica, que se coloca desde o início até o final da análise, que comporta um ato de saída, como podemos entender as entrevistas como um ato de entrada e, além disso, quais suas propriedades no que o distingue do ato de final de análise. As entrevistas preliminares, valendo-se do ato analítico, visam a instauração da relação transferencial como dissemos antes; além disso, o estabelecimento por parte do paciente de um discurso que seja analítico, ou seja, que se desloque da queixa sobre o sintoma para um questionamento sobre ele e sobre o inconsciente, como diz Miller (2023) em “Come iniziano le analisi?”: “…um sintoma do tipo analítico… capaz de produzir leituras do inconsciente”.
Nesse texto Miller faz equivaler o início de uma análise ao desencadeamento psicótico, diz ele:
Eu diria, sendo um pouco radical: nisto – para responder à pergunta Come iniziano le analisi? –, as análises começam como as psicoses, porque nelas encontramos o significante em seu poder desencadeante, no registro do que chamamos de fenômenos intuitivos.
Nesse texto, Miller propõe uma aproximação entre os fenômenos intuitivos da psicose ao efeito interpretativo que um sujeito neurótico atribui à análise. Ele diz que, ao procurar um analista, o paciente já impõe um sentido ao seu sintoma, similar a um delírio interpretativo. Porém, não é pela via do sentido que a análise deve operar, mas na direção de apontar para o furo da estrutura. Podemos ilustrar essa diferença topologicamente: a interpretação pelo sentido é como um corte longitudinal na banda de Möbius – amplia o circuito, mas o mantém. Já o ato analítico tem o efeito similar a de um corte transversal, que desmonta e reenlaça o sujeito de modo inédito, o que coaduna com a ideia de Miller de um desencadeamento que precipita a entrada em análise.
Para concluir, retorno a pergunta do paciente de Sônia, quando ele se questiona do por que retorna à análise, mesmo constatando que fala e termina sabendo de coisas que não o agradam muito. Não seria a transferência o motivo desse retorno? Diz Iordan Gurgel (2025):
O chamado “tratamento de ensaio” serviria para evitar a interrupção da análise após um certo tempo; podemos deduzir então, que é o tempo de se estabelecer a transferência e, também, tempo para o estabelecimento do diagnóstico diferencial entre neurose e psicose… a possibilidade de instauração da transferência, a emergência de um sintoma que possa ser interpretado, a posição subjetiva do paciente diante de sua demanda e de seu sofrimento. Ou seja: preliminares não são apenas “anamnese” ou triagem clínica, mas o momento inaugural de estruturação da experiência analítica.
Retornando a pergunta do paciente de Sônia: “Por que volto?” A resposta poderia ser, então, que ele retorna porque está justamente sustentado na transferência, como suposição de saber no inconsciente.