Pablo Sauce
Esthela Solano-Suárez com Lacan[1]
E. S.-S. telefona e pede uma consulta. Lacan disse: “Uma consulta para quê?”. Ela respondeu que queria fazer uma análise. Lacan perguntou se era urgente. Ela disse que não… ao que ele respondeu: “Venha imediatamente!”. Na primeira sessão Lacan perguntou por que queria fazer uma análise: ela disse que queria tornar-se analista… A resposta dele foi: “E qual é o seu sintoma?… o que é que a faz sofrer?”. Ela balbuciou, nunca tinha pensado nisso… “O que lhe deixou a análise que você fez com B.?” prosseguiu Lacan. Ela disse: “Um certo saber sobre meu inconsciente”. Lacan insistiu: “E por que você pediu análise a B. aos dezenove anos?”. Ela relata as circunstâncias… Diante da insistência de Lacan sobre por que queria se analisar com ele e não com outro, ela disse: “Vim vê-lo para resolver um assunto com a morte, e somente o senhor, e não outro, poderia me ajudar.” No final da entrevista Lacan anuncia-lhe que “Uma análise é um assunto de grande envergadura”, justo um instante antes de indicar que, antes de começar a análise propriamente dita, ele praticava as entrevistas preliminares. Já no umbral da porta, disse-lhe: “Você vai me dar algo por esta entrevista?”. Ela respondeu: “Não tenho nada”. Ele disse: “Me dê o que você quiser”… colocando o acento sobre o desejo; tornando possível o inicio de uma análise. Um ano mais tarde ela exigiu que ele a fizesse passar ao divã. Ele consentiu. Ela se deitou… e, ao final, Lacan anunciou-lhe que, a partir daquele momento, ela iria lhe pagar tal valor por cada sessão: Era o dobro do que ela pagava. Com suas perguntas, Lacan fez emergir o significante-mestre (morte) desse assunto como significante da transferência; deslocando a demanda explícita, colocando o acento sobre o sintoma, demonstrando em ato o verdadeiro eixo de uma demanda de análise.