Carla Fernandes
O ato analítico nas entrevistas preliminares
Um candidato a analisante pede análise com Lacan. Pierre Rey, jornalista e escritor. Em uma das consultas, nas entrevistas preliminares, sabendo que o paciente dormia até tarde, Lacan se despede marcando: “Até amanhã às seis”.
O paciente consente e Lacan intervém: “seis da manhã”, apertando-lhe a mão. No dia seguinte, Rey sai de casa “sem ter pregado o olho” e indica: “ele repetia o experimento até ter certeza de que me habituara (…) teria sido preciso mais para me fazer desistir: eu estava fisgado”. No seu relato, destaca-se a aposta do analista no ato já no princípio, convocando um desejo decidido.
Lacan concluía cada sessão com um ‘até amanhã’. As intervenções impactam o corpo, fisgando-o. “Por quanto tempo eu ia conseguir realizar esse milagre cotidiano?” – pergunta-se com relação ao pagamento, pois conseguia o dinheiro das sessões na véspera.
No seu relato, aparece o tom amistoso do analista e a abertura de um campo livre para o discurso. Uma posição neste momento que descreve como parecendo “degustar suas palavras”, ao mesmo tempo em que degustava um chá.
No quinto encontro, contrariando o hábito de apertar a sua mão depois do pagamento, o analista declara: “decidi dar-lhe um lugar como analisando”. Surpreso, sem entender, afirma que achava que já tinha começado a análise. Lacan levanta e se despede: “até segunda”. Neste testemunho é possível ler o efeito de surpresa com as intervenções, ao mesmo tempo em que a transferência se instaura e vai tecendo um circuito. O analista que produz um traumatismo promovendo uma abertura a algo inédito.