Rômulo Ferreira da Silva
“Sou bi”
Félix, de 17 anos, se apresenta para o tratamento com Ligia Gorini[1] dizendo “Eu sou bi”. Sempre esteve em relacionamento heterossexual e se orgulha de ser o preferido das mulheres, estabelecendo relações platônicas e de cumplicidade, em uma série de imagens duplicadas de si mesmo.
Este cenário foi abalado quando um amigo sugeriu que ele era bissexual. Logo apaixona-se por um jovem homossexual muito depressivo, acreditando ser o único capaz de lhe devolver o gosto pela vida, mas sucumbe a uma angústia extrema.
Associa a lembrança de uma sala grande, úmida e escura, ao lugar onde os seus pais adotivos foram buscá-lo e o levaram de barco em um dia muito claro. Essa dicotomia claro/escuro se atualiza no gosto pelos passeios à luz do dia e sua ligação com as cavernas subterrâneas e escuras, nas quais se arriscava.
Pergunta “Por que sou assim?», ao que a analista responde «É o seu lado bi», associando o «bi» ao fato de que tudo se articulava em pares opostos no seu discurso. Esta intervenção possibilita a utilização singular do prefixo «bi», o colocando em um duplo dilema: objeto caído/posição de salvador.
Conseguiu realizar uma separação, testemunhando um efeito revigorante sentido no corpo.
Félix chegou a uma autodeterminação singular do «Eu sou bi» referida à sua história. A sílaba «bi» não se trata mais do mesmo signo. Um novo significante que testemunha um ponto de enigma encontrado no corpo que habita a linguagem.
[1] Ligia Gorini é psiquiatra, psicanalista, AME da ECF e da AMP.
“Sou bi”[1]
Por Ligia Gorini
É assim que Félix se apresenta em nosso primeiro encontro. Aos dezessete anos, ele está passando por um momento difícil, que atribui a “problemas de relacionamento”. Desde o jardim de infância, Félix sempre esteve em um relacionamento heterossexual: ele descreve com orgulho a série de garotinhas dispostas que se apegaram a ele desde criança. Bastante bonito, ele parece feliz sendo o queridinho das mulheres, a começar pela mãe, com quem parece ter uma grande conexão. Félix, no fundo, estabelece relacionamentos com garotas/mulheres que se parecem com ele, constituindo uma série de imagens em espelho de si mesmo. Seus relacionamentos permanecem platônicos.
Esse cenário idílico foi abalado há algum tempo, quando um amigo do ensino médio sugeriu que ele era bissexual, por causa de sua aparência esguia e de sua postura delicada e reservada. Isso o intrigou, mas ele acabou aceitando: “Sou bi”. Pouco depois, Félix se apaixonou por um jovem gay, com quem desenvolveu uma relação especial. Ele era “um rapaz com muitos problemas, muito deprimido e que não se sentia bem consigo mesmo”. Félix acreditava ser o único que poderia ajudá-lo a se reerguer e retomar o gosto pela vida. Ele levou essa missão a sério e acabou mergulhado em uma ansiedade extrema, o que o levou à análise.
Félix relembra uma lembrança de infância durante a sessão. Ele tem três anos. Está sozinho em uma sala grande, como se tivesse sido esquecido. Tudo é escuro e úmido, ele sente frio. Félix se lembra deste lugar, onde seus pais adotivos o buscaram. Desde o dia de sua partida, ele se lembra das cores dos embrulhos de presente e da luz ofuscante que, através da vigia, iluminava a cabine do barco que os levaria para a França. Durante as sessões, essa dicotomia entre claro e escuro se torna mais precisa: embora Félix goste de “olhar para a claridade do céu” , como acontece durante as caminhadas à luz do dia, ele também é viciado em espeleologia e não resiste a explorar cavernas escuras e subterrâneas, às vezes em aventuras arriscadas. Galerias escuras assombram seus sonhos, e a angústia o desperta. “Por que eu sou assim?”, ele pergunta. “É o seu lado bi”, eu disse a ele, associando o “bi” ao fato de que tudo em sua fala era articulado em dois. Essa intervenção parece abrir a possibilidade de um uso singular do prefixo “bi”, além daquele do discurso ativista LGBT.
Para além de sua identidade sexual, ocorreu uma remodelação de seu mundo, baseada em pares opostos: luz/escuridão, ar livre/profundezas subterrâneas, vida/morte, amor/devastação etc.
Em sua conexão com o “menino atormentado” — nome que deu ao amigo durante a sessão — Félix caiu em uma dupla armadilha: ou se identificava com ele, como um objeto caído, a criança extra; ou se colocava na posição de um facilitador/passador encarregado a todo custo de salvar o outro. Dois lados de si mesmo: em ambos os casos, ele disse que se sentia como “um balão murchando”, desvitalizado. As circunstâncias de sua adoção se reiteravam incansavelmente: uma criança pequena abandonada nas sombras precisa ser salva e trazida à luz.
Durante o tratamento, Félix conseguiu se desvencilhar de sua fixação no “menino atormentado”, em todas as suas ressonâncias. Uma separação parece ter de fato ocorrido. Ciente de que sempre terá que lidar com seu “lado sombrio” e com o risco de se ver em meio a confusões, ele pode, no entanto, testemunhar o efeito revigorante sentido em seu corpo.
Sua questão nunca esteve ligada à sua escolha sexual, mas à busca por sua identidade. Sob a transferência, Félix chega a uma autodeterminação singular, uma versão de “Eu sou bi” remetida à sua história; seu bi não corresponde ao que se chama de “bi” no discurso comum. A intervenção da analista parece ter permitido essa mudança de registro: arrancado da dimensão simples do diagnóstico extraído da fala de um amigo, seu bi ganha dignidade. Mesmo que a sílaba “bi” permaneça materialmente a mesma, não se trata mais do mesmo signo. Sublimado, torna-se a palavra do Outro. Esse novo significante testemunha um ponto de enigma encontrado em “um corpo, cuja característica seria habitar a linguagem”[2].