Pablo Sauce
A heroína
Hero, ativista política de sucesso, exilada e “ex-heroinômana”; retorna a seu país de origem, onde já não está ameaçada de morte por seu ativismo heroico, para librar-se da heroína. Vicia-se em cocaína e consulta quando seu ativismo fica ameaçado por esta e tem a sensação de que algo nela vem desfiando; o que desperta o “instinto de sobrevivência” que sempre teve. O analista pergunta por essa sensação e ela responde que antecede a droga; que a acompanha desde sempre, como uma maldição. Admira personagens atrevidos, desapegados, que vivem “no fio da navalha”. Reivindica para si esse mundo da heroína, de se colocar em risco e estar sempre “no limite”. O pai, admirado e distante, “só tem olhos para o esplendor”. Com seu ativismo heroico, que forçou o exílio, Hero não cessa de procurar sua admiração; e padecer sua indiferença com a droga encontrada no exílio: “quando não trabalho enlouqueço”, diz. O início do uso da heroína coincide com seu debut como ativista política. Alguém lhe oferece a droga, Hero titubeia e pergunta a um desses personagens que admira; ante a indiferença como resposta, fica perplexa e cai no vício; mas, sem deixar cair o lugar da ativista admirável. Após um ano de entrevistas a heroína aparece, pela primeira vez, não como droga, senão sob a moldura de uma formação do inconsciente: ao dizer, “sonhei com a heroína”, o analista lhe pergunta: “com qual delas?”; corta a sessão e lhe indica que na próxima passará ao divã.
– Recorte extraído do texto “La heroína”, de Mauricio Tarrab, no livro: “Sujeto, goce y modernidad. Fundamentos de la clínica II”. Ed. Atuel – TyA. Bs. As. 1994.