{"id":625,"date":"2024-10-10T16:31:00","date_gmt":"2024-10-10T19:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=625"},"modified":"2024-10-10T16:31:00","modified_gmt":"2024-10-10T19:31:00","slug":"corpos-afetados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/corpos-afetados\/","title":{"rendered":"Corpos Afetados"},"content":{"rendered":"<h6>Anal\u00edcea Calmon AME (EBP\/AMP)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-616\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/phatos_005_003.jpg\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/phatos_005_003.jpg 466w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/phatos_005_003-233x300.jpg 233w\" sizes=\"auto, (max-width: 466px) 100vw, 466px\" \/><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Para tratar dos afetos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, remeto-me ao seguinte enunciado de Lacan, no Semin\u00e1rio 20: \u201cO real \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante; \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d. E para come\u00e7ar a elucidar esta frase, recorro a uma interroga\u00e7\u00e3o de Graciela Brodsky, em seu livro <em>Pasiones Lacanianas<\/em>:<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 a novidade do corpo falante?<\/p>\n<p>Sabemos que o ponto de partida da constru\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise foi o corpo falante, quando os sintomas conversivos das hist\u00e9ricas come\u00e7aram a ser interpretados por Freud. Tal interpreta\u00e7\u00e3o consistia em traduzir a linguagem corporal, configurada no sintoma, num texto desconhecido para o sujeito.<\/p>\n<p>Desde essa \u00e9poca, vemos que, no campo da Psican\u00e1lise, tanto para os analisantes quanto para os analistas, os corpos n\u00e3o param de falar. E este corpo que fala se interpreta. Lacan, no in\u00edcio do seu ensino, acrescenta, \u00e0 refer\u00eancia freudiana ao corpo das hist\u00e9ricas, o sofrimento do obsessivo no pensamento, lembrando que se pensa tamb\u00e9m com o corpo.<\/p>\n<p>Numa refer\u00eancia \u00e0 psicose, Lacan comenta a \u201csurra de Joyce\u201d, no Cap. X do Semin\u00e1rio 23, a partir de uma confid\u00eancia feita pelo pr\u00f3prio James Joyce em <em>Retrato de um Artista quando Jovem.\u00a0<\/em>No livro, ele conta que tomou uma surra, mas que n\u00e3o guardou rancor porque tudo se esvaiu como\u00a0<em>uma casca<\/em>. O coment\u00e1rio mostra que a rela\u00e7\u00e3o de Joyce com o corpo \u00e9 t\u00e3o imperfeita quanto a dos neur\u00f3ticos, o que faz pensar que n\u00e3o h\u00e1, nos seres humanos, rela\u00e7\u00e3o perfeita com o pr\u00f3prio corpo. \u00c9 poss\u00edvel entender tal imperfei\u00e7\u00e3o evocando o saber.<\/p>\n<p>Enquanto Freud ensina que o que n\u00e3o se sabe sobre o que se passa no corpo, que \u00e9 alheio, tem a ver com o inconsciente; para Lacan, o que se sabe ou n\u00e3o sobre o que se passa no corpo depende da localiza\u00e7\u00e3o do significante. Al\u00e9m disso, Lacan mostra que a rela\u00e7\u00e3o de Joyce com o corpo tem a ver com a imagem confusa que temos do nosso corpo. Este ponto remete \u00e0 vertente imagin\u00e1ria do corpo, proposta por Clotilde Leguil<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, ao apontar o desassossego do neur\u00f3tico em ter um corpo que responda \u00e0 demanda social, oferecendo-o ao olhar do Outro, sem a marca da castra\u00e7\u00e3o. Por outro lado, na atitude de Joyce, ao constatar que o assunto da surra se solta como uma casca, n\u00e3o aparece a marca da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal vertente imagin\u00e1ria das paix\u00f5es do corpo, segundo Lacan, implica um afeto, podendo da\u00ed se depreender a rela\u00e7\u00e3o do corpo com o afeto. Incluindo o saber nesta rela\u00e7\u00e3o, Graciela Brodsky vai dizer que quem tem um saber sobre o seu corpo s\u00e3o os esquizofr\u00eanicos que, a exemplo de Schreber, sabem que h\u00e1 um corpo que se transforma e os \u00f3rg\u00e3os podem se perder ou n\u00e3o funcionar. Os neur\u00f3ticos, ao contr\u00e1rio, nada sabem de seus corpos e nada querem saber.<\/p>\n<p>\u00c9 a esta rela\u00e7\u00e3o peculiar com o corpo que Lacan chama de afeto. Sobre isso, a refer\u00eancia a Joyce, que n\u00e3o experimenta nenhum afeto quando lhe d\u00e3o uma surra, vai suscitar maior precis\u00e3o do que chamamos de <em>afeto<\/em>. O primeiro passo \u00e9 distinguir o afeto de sentimentos e emo\u00e7\u00f5es. Quando se diz que algo \u00e9 afetado, significa que afetar \u00e9 produzir um impacto sobre algo. \u00c9 o que Lacan diz, no Semin\u00e1rio 10, sobre a ang\u00fastia, definindo-a como um afeto que n\u00e3o engana, o que a distingue dos sentimentos, que mentem.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que h\u00e1 palavras que afetam o corpo fazendo rir ou chorar, o que faz supor haver um registro no qual os pensamentos t\u00eam uma incid\u00eancia direta sobre o corpo, sem media\u00e7\u00e3o. Como exemplo, temos o fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico, que implica uma irrup\u00e7\u00e3o do pensamento no real do corpo, afetando-o na forma de uma les\u00e3o, justamente porque falta a media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ensino, Lacan define o <em>sinthoma <\/em>como um acontecimento de corpo resultante do significante de <em>al\u00edngua,<\/em> que afeta o corpo, produzindo gozo. Assim, d\u00e1 a ver que o significante \u00e9 o que afeta e o que \u00e9 afetado \u00e9 o corpo, que se faz ressoar no sil\u00eancio das puls\u00f5es, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s paix\u00f5es do ser e do <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Anal\u00edcea Calmon \u00e9 participante do GT que tem como coordenadora S\u00f4nia Vicente AME (EBP\/AMP) e \u00caxtima Marina Recalde AME (EOL\/AMP). Os demais participantes s\u00e3o Anal\u00edcea Calmon AME (EBP\/AMP), Clara Melo (IPB), Ethel Poll(IPB), Luiz Felipe Monteiro (EBP\/AMP), Maria Luiza Miranda (EBP\/AMP), Rog\u00e9rio Barros(EBP\/AMP), Samyra Assad(EBP\/AMP) e Waldomiro Silva Filho.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Leguil, C. \u2013 \u201cLas pasiones del cuerpo em el siglo XXI\u201d. In: Revista Freudiana, n\u00ba 73; 2015.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anal\u00edcea Calmon AME (EBP\/AMP)[1] \u00a0Para tratar dos afetos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, remeto-me ao seguinte enunciado de Lacan, no Semin\u00e1rio 20: \u201cO real \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante; \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d. 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