{"id":556,"date":"2024-09-12T06:47:22","date_gmt":"2024-09-12T09:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=556"},"modified":"2024-09-18T09:06:55","modified_gmt":"2024-09-18T12:06:55","slug":"nao-mexe-comigo-que-nao-ando-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/nao-mexe-comigo-que-nao-ando-so\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o mexe comigo, que n\u00e3o ando s\u00f3\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>\u00a0Mar\u00edlia Santiago<br \/>\n<\/em>N\u00facleo da Pol\u00edtica da Nova Juventude<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c&#8230;\u00c9 assim, eu tenho, n\u00f3s temos poetas e escritores extraordin\u00e1rios. Eu sou cantora popular, n\u00e3o sou escritora. Eu escrevo para me preservar, para me resguardar um pouquinho da vitrine, do palco, n\u00e9? Que a carreira, a profiss\u00e3o exige. Eu adoro escrever, desde muito mo\u00e7a. Escrevo muito. O Wally Salom\u00e3o, que era uma pessoa que sempre se interessava pelo que eu escrevia, mas que brigava muito comigo, meu querido amigo, porque ele me ligava e dizia assim:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8211; Eu soube que voc\u00ea passou o fim de semana escrevendo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu falei:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8211; Pois \u00e9, escrevi.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8211; Eu vou a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8211; N\u00e3o vem, porque eu j\u00e1 queimei.<\/p>\n<p>Eu escrevo e queimo, eu escrevo e queimo, eu escrevo e queimo. Porque acho&#8230;acho purificador, escrever e queimar [&#8230;] eu escrevo para mim, que eu acho que posso me compreender um pouquinho, o que seja, n\u00e9? Pro meu analista, mostro muita coisa para ele, pros meus amigos, atores, diretores, Fauzi, Elias. Pessoas minhas, pessoas daqui, de dentro da minha vida, do meu cora\u00e7\u00e3o. Para essas pessoas, eu escrevo.\u201d\u00b9 (Maria Beth\u00e2nia, em entrevista.)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Refr\u00e3o entoado por Maria Beth\u00e2nia em sua M\u00fasica \u201cCarta de Amor\u201d, faz parte do \u00e1lbum de mesmo nome. Refr\u00e3o que toma forma imperativa, tom firme, amea\u00e7ador, como se mostra ao longo da can\u00e7\u00e3o. Dando a ver todo \u00f3dio contido no amor. A cada estrofe, muda ritmo, compasso, a can\u00e7\u00e3o inicia falando de amor, daqueles que protegem e cuidam. Territ\u00f3rio conhecido, seu ber\u00e7o, seu ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Beth\u00e2nia tem uma longa trajet\u00f3ria, para al\u00e9m da m\u00fasica, no candombl\u00e9, \u00e9 filha de Oxum, orix\u00e1 das \u00e1guas doces, rios e cachoeiras, deusa da beleza, do amor, da fertilidade. Tamb\u00e9m, filha Ians\u00e3, deusa dos ventos, raios e tempestades. Com muito trabalho, construiu um lugar de import\u00e2ncia e respeito, sua m\u00fasica entoou c\u00e2nticos e levou a hist\u00f3ria e a cultura do povo de santo onde jamais se imaginara. Ap\u00f3s revelar a vasta lista dos seus guias protetores e sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com eles, seu tra\u00e7o visceral resplandece, n\u00e3o \u00e9 apenas do amor divino que se trata essa m\u00fasica. Uma vertente feroz, como quem mostra uma face pouco vista, mas um tra\u00e7o certeiro da cantora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cJacques Lacan faz do \u00f3dio uma das paix\u00f5es do ser, junto com o amor e a ignor\u00e2ncia. Se bem que o amor pode virar rapidamente \u00f3dio, este \u2013 em sua face real- p\u00f5e em ato a impossibilidade de fazer do pr\u00f3ximo um semelhante [&#8230;] A rela\u00e7\u00e3o com o semelhante \u00e9 amb\u00edgua. Quando o outro n\u00e3o nos devolve a imagem ideal, torna-se amea\u00e7ador,\u00a0<em>malvado<\/em>. A dial\u00e9tica imagin\u00e1ria, com suas paix\u00f5es, n\u00e3o consegue dar conta disso, pois o outro pode ser, para o sujeito, o imposs\u00edvel de suportar.\u201d \u00b2.<\/p>\n<p>O \u00f3dio est\u00e1 no princ\u00edpio da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, Lacan retoma a teoria freudiana e assinala que h\u00e1 um gozo n\u00e3o reconhecido como pr\u00f3prio, que permanece como um resto inassimil\u00e1vel para o sujeito, sendo assim o mais \u00edntimo e o mais alheio para o sujeito. Segundo Patr\u00edcia Moraga\u00b3, n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, acordo ao n\u00edvel do gozo, o \u00f3dio aponta para uma diferen\u00e7a absoluta: <em>te odeio porque tu n\u00e3o gozas como eu. <\/em>Nada concentra mais \u00f3dio do que o dizer de uma exce\u00e7\u00e3o na qual se situa a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cOnde vai, valente? \/Voc\u00ea secou, seus olhos insones secaram\/N\u00e3o veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira\/ Seus ouvidos se fecharam a qualquer m\u00fasica\/A qualquer som\/Nem o bem, nem o mal\/Pensam em ti\u201d4. Ana Stela Sande, em sua transmiss\u00e3o no Semin\u00e1rio de Forma\u00e7\u00e3o Permanente do presente ano, nos ensinou que esse n\u00e3o reconhecimento do gozo do Outro \u00e9 o que o sujeito experimenta enquanto \u00f3dio, e, por n\u00e3o reconhec\u00ea-lo, o sujeito quer elimin\u00e1-lo, pois representa uma amea\u00e7a. N\u00e3o se sabe ao certo a origem da m\u00fasica, <em>no boca a boca<\/em>, h\u00e1 uma lenda urbana que diz que essa m\u00fasica seria uma resposta de Beth\u00e2nia a uma cr\u00edtica de um jornalista. No entanto, n\u00e3o achei registros em que se comprovassem ou negassem essa hist\u00f3ria. O que de fato podemos atestar \u00e9 o que o \u00f3dio \u00e9 o \u00fanico sentimento l\u00facido.<\/p>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>Entrevista dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AVabA3iKnSM\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AVabA3iKnSM<\/a><\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Moraga, P., <strong>Del odio como lazo social. <\/strong>AMP Blog, 4 de dezembro de 2018.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6><em>idem<\/em><\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Trecho da m\u00fasica Carta de Amor dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Zi2cb9cK4M8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Zi2cb9cK4M8<\/a> e demais plataformas digitais.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"wpex-responsive-media\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Maria Beth\u00e2nia | &quot;Carta de Amor&quot; | Carta de Amor (Ao Vivo)\" width=\"980\" height=\"735\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Zi2cb9cK4M8?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Mar\u00edlia Santiago N\u00facleo da Pol\u00edtica da Nova Juventude \u201c&#8230;\u00c9 assim, eu tenho, n\u00f3s temos poetas e escritores extraordin\u00e1rios. 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