{"id":554,"date":"2024-09-12T06:45:24","date_gmt":"2024-09-12T09:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=554"},"modified":"2024-09-12T06:45:24","modified_gmt":"2024-09-12T09:45:24","slug":"um-caminho-para-o-inconsciente-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/um-caminho-para-o-inconsciente-real\/","title":{"rendered":"Um Caminho para o Inconsciente Real"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Clara Valverde Melo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">|<\/span><\/em>N\u00facleo da Pol\u00edtica da Nova Juventude<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-549 size-medium\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_004-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_004-300x200.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_004-768x512.jpg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_004.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O sujeito \u00e9 definido como representado por um significante junto a outro significante. Lacan definiu o sujeito do inconsciente como falta-a-ser, um sujeito sempre barrado, submetido \u00e0 fala, que n\u00e3o encontrar\u00e1 nunca sua representa\u00e7\u00e3o derradeira. Essa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do sujeito no primeiro tempo do ensino de Lacan.<\/p>\n<p>O termo de Lacan <em>parl\u00eatre<\/em>, lido por n\u00f3s como falasser, substituir\u00e1 o inconsciente de Freud, prop\u00f5e uma nova conex\u00e3o entre as palavras e as coisas, bem como ao analista uma orienta\u00e7\u00e3o pelo real. O falasser traz a ideia de que s\u00f3 h\u00e1 ser porque h\u00e1 fala e, ao mesmo tempo, ele goza, pois h\u00e1 gozo na fala. No que concerne ao real, esbarramos na no\u00e7\u00e3o de causa. O real \u00e9 causa. Cito Lacan:<\/p>\n<blockquote><p>\u201ca partir do fazer semblante do objeto pequeno a, ou seja, do que nomeio a prop\u00f3sito do que o homem se coloque no lugar do lixo que ele \u00e9 \u2013 pelo menos aos olhos de um psicanalista, que tem uma boa raz\u00e3o para saber disso, pois ele mesmo se coloca nesse lugar. \u00c9 preciso passar por esse lixo decidido para, talvez, reencontrar alguma coisa que seja da ordem do real.\u201d (O Sinthoma, p. 120).<\/p><\/blockquote>\n<p>Lacan afirmou que o Real \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o dele, ao passo que o diferencia da inst\u00e2ncia do saber renovada por Freud, o inconsciente. Esse Real do qual ele fala n\u00e3o condiciona a realidade, \u201ch\u00e1 a\u00ed um abismo, estamos longe de assegurar que seja transpon\u00edvel\u201d (O Sinthoma, p. 128), \u00e9 o desprovido de sentido, pois o campo do sentido \u00e9 distinto dele.<\/p>\n<p>E tem algo nas paix\u00f5es que \u00e9 de um Real irredut\u00edvel. As paix\u00f5es do falasser orientam, portanto, para o imposs\u00edvel, o impens\u00e1vel, o ileg\u00edvel do Real, que n\u00e3o s\u00e3o nada mais que o sem sentido da vida, como tantas coisas que parecem absurdas, aquelas que s\u00e3o dif\u00edceis de ver ou falar. Paix\u00f5es em desacordo com a vida, de certa forma destrutivas, que nos levam a pensar nossa pr\u00e1tica, n\u00e3o apenas pela via da l\u00f3gica, mas a partir de uma \u00e9tica, j\u00e1 que por vezes o analisante pode n\u00e3o encontrar palavras para descrever o indiz\u00edvel do que se viveu, como no testemunho de Debora Rabinovich em seu passe.<\/p>\n<p>Pode-se pensar o falasser como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seu corpo? Lacan nos diz no semin\u00e1rio 23 que a rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com seu corpo \u00e9 a cren\u00e7a: \u201cO falasser adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora todo instante\u201d (p. 64). Nas palavras de Marcus Andr\u00e9 Vieira, \u00e9 preciso dar muita consist\u00eancia ao corpo para que ele possa sustentar esse ser. Para a Psican\u00e1lise, trata-se de criar um corpo falante a partir de uma rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente ali onde havia o sil\u00eancio da puls\u00e3o de um corpo que n\u00e3o falava a ningu\u00e9m. Seria, ent\u00e3o, uma travessia da paix\u00e3o do corpo \u00e0 paix\u00e3o do significante?<\/p>\n<p>Em minha leitura, entendo que o sujeito do significante, da falta-a-ser, se apoia a posteriori no falasser, ambos articulados com o corpo. Falar do falasser n\u00e3o \u00e9 falar em oposi\u00e7\u00e3o ao ser, eles est\u00e3o articulados sob a \u00e9gide da transfer\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 uma dicotomia, assim como n\u00e3o \u00e9 dicot\u00f4mica a primeira cl\u00ednica de Lacan com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. Toda an\u00e1lise, em um certo sentido, \u00e9 um tratamento das paix\u00f5es, primeiramente das paix\u00f5es do ser. Se a Psican\u00e1lise \u00e9 a cl\u00ednica do singular, do caso a caso, do um a um, as paix\u00f5es seriam como um rastro do singular do falasser.<\/p>\n<p>O passe de Clotilde Leguil, \u201cUm Novo Amor, um Amor que Faz Ponto de Basta\u201d, apresentou enfaticamente a fertilidade de uma an\u00e1lise como um caminho para o inconsciente real, presente sob o modo da evid\u00eancia, inconsciente que se l\u00ea, mas n\u00e3o se interpreta mais. \u00c9 o que \u00e9, n\u00e3o o que se explica. Lembro-me das palavras de Clarice em \u201cUma aprendizagem ou O livro dos prazeres\u201d: \u201cO bom era ter uma intelig\u00eancia e n\u00e3o entender. Era uma ben\u00e7\u00e3o estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas ditas do intelecto, uma do\u00e7ura de estupidez\u201d. O que uma an\u00e1lise pode fazer, portanto, \u00e9 ser um encontro com o real que p\u00f5e fim \u00e0 busca pelo sentido. Volto \u00e0 Clarice: \u201cCompreender era sempre um erro \u2013 preferia a largueza t\u00e3o ampla e livre sem erros que era n\u00e3o entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condi\u00e7\u00e3o humana\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LAURENT, E. As Paix\u00f5es do Ser. EBP-BA, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LEGUIL. C. O novo amor, um amor que faz ponto de basta. Correio: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise N\u00ba 87.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J. A. A palavra que fere. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana N\u00ba 56\/57.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">RABINOVICH, D. Apaixonada pelo amor. Arteira Revista de Psican\u00e1lise N\u00ba 9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">VIEIRA, M. A. O real da paix\u00e3o. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, N\u00ba 31<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Particip<span style=\"font-size: 13px;\">ante do <strong>GT: As paix\u00f5es na experi\u00eancia anal\u00edtica: manejos e arranjos<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">S\u00f4nia Vicente AME (EBP\/AMP)- Coordenadora; Marina Recalde AME (EOL\/AMP) -\u00caxtima<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Participan<\/span>tes \u2013 Anal\u00edcea Calmon AME (EBP\/AMP), Clara Melo (IPB), Ethel Poll(IPB), Luiz Felipe Monteiro (EBP\/AMP), Maria Luiza Miranda (EBP\/AMP), Rog\u00e9rio Barros(EBP\/AMP), Samyra Assad(EBP\/AMP) e Waldomiro Silva Filho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clara Valverde Melo[1] |N\u00facleo da Pol\u00edtica da Nova Juventude O sujeito \u00e9 definido como representado por um significante junto a outro significante. 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