{"id":545,"date":"2024-09-12T06:40:21","date_gmt":"2024-09-12T09:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=545"},"modified":"2024-09-18T17:04:00","modified_gmt":"2024-09-18T20:04:00","slug":"dos-afetos-as-paixoes-das-paixoes-do-ser-as-paixoes-da-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/dos-afetos-as-paixoes-das-paixoes-do-ser-as-paixoes-da-alma\/","title":{"rendered":"Dos afetos \u00e0s paix\u00f5es. Das paix\u00f5es do ser \u00e0s paix\u00f5es da alma."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>F\u00e1tima Sarmento<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><em>&#8211; AME (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-548\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_002-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_002-300x300.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_002-150x150.jpg 150w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/boletim005_002.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><strong>Sobre os afetos<\/strong><\/p>\n<p>Para Freud, o afeto \u00e9 formado da mesma maneira que um ataque hist\u00e9rico \u2013 ambos s\u00e3o precipitados de experi\u00eancias traum\u00e1ticas muito antigas que deixaram restos, tra\u00e7os e respingos. Se o pedido de an\u00e1lise passa por querer libertar-se do sofrimento causado pelas \u201cpalavras feridas\u201d que repercutem no corpo, n\u00e3o h\u00e1 como pensar a an\u00e1lise fora da experi\u00eancia afetiva. Nessa dire\u00e7\u00e3o, Lacan, em uma confer\u00eancia proferida em Bruxelas, em 1977, (1) ao se expressar sobre o inconsciente, admite que \u201co afeto \u00e9 feito do efeito da estrutura, do que \u00e9 dito em algum lugar\u201d. De maneira muito precisa ele reconhece que foi guiado pelas hist\u00e9ricas e o que lhe chama a aten\u00e7\u00e3o nos Estudos sobre a Histeria \u00e9 que \u201cFreud chega a desembuchar que \u00e9 com as pr\u00f3prias palavras da paciente que o afeto se evapora\u201d. Lacan quer saber se o afeto se areja ou n\u00e3o com palavras, uma vez que \u201calguma coisa sopra com as palavras, torna o afeto inofensivo, sem engendrar sintoma, quando a hist\u00e9rica come\u00e7a a narrar esta coisa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ela se assustou\u201d. No dizer de Lacan, se a hist\u00e9rica se assustou, \u00e9 porque causamos medo a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Nos seus \u201cArtigos sobre Metapsicologia\u201d, Freud mostra uma recusa \u00e0 ideia do afeto ser uma express\u00e3o inconsciente, considerando que a opera\u00e7\u00e3o do recalque incide somente sobre as representa\u00e7\u00f5es. O afeto, n\u00e3o sofrendo a a\u00e7\u00e3o do recalque, se desloca, se move, fica \u00e0 deriva, podendo ligar-se a um outro significado. Disso deduz-se que quando uma representa\u00e7\u00e3o \u00e9 recalcada se produz sempre um substituto. O medo de Hans pelo cavalo ilustra o deslocamento do afeto de uma representa\u00e7\u00e3o recalcada. Se o recalque s\u00f3 incide sobre o significante e o afeto \u00e9 sempre transformado, a presen\u00e7a do recalque sugere um tra\u00e7o de afeto ligado ao significante. Vale ressaltar que nesse momento da elabora\u00e7\u00e3o freudiana h\u00e1 uma perfeita vincula\u00e7\u00e3o entre inconsciente e recalque.<\/p>\n<p>No texto O inconsciente Freud distingue o afeto da puls\u00e3o. A puls\u00e3o s\u00f3 adquire o estatuto de afeto ao se associar ao objeto que lhe confere uma representa\u00e7\u00e3o. O afeto \u00e9 aqui definido como descarga pulsional associada ao elemento representativo. Para Vieira e outros (2) a puls\u00e3o s\u00f3 afeta a percep\u00e7\u00e3o se receber uma representa\u00e7\u00e3o da linguagem, cujos elementos se organizam, numa l\u00f3gica independente do discurso da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>No avan\u00e7o da teoria, na passagem da primeira para a segunda t\u00f3pica, Freud ir\u00e1 separar o conceito de recalque do conceito de inconsciente. Se o inconsciente e o recalcado fossem da mesma ordem, tudo se resumiria em recalque e retorno do recalcado. Ao declarar que \u201ctodo o recalcado \u00e9 inconsciente, por\u00e9m n\u00e3o todo o inconsciente \u00e9 recalcado\u201d, Freud amplia o campo do inconsciente \u2013 h\u00e1 algo inconsciente que excede a categoria conceitual do recalcado. Freud ir\u00e1 necessitar de outros conceitos para concluir que inconsciente e recalcado n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos. O conceito de sintoma enquanto satisfa\u00e7\u00e3o pulsional e a constru\u00e7\u00e3o do fantasma \u201cBate-se numa crian\u00e7a\u201d seguem nessa dire\u00e7\u00e3o de pensar o inconsciente al\u00e9m do recalque.<\/p>\n<p>A partir dessas elabora\u00e7\u00f5es (discutidas nos semin\u00e1rios de forma\u00e7\u00e3o como prepara\u00e7\u00e3o para a nossa Jornada) n\u00e3o se pode falar que n\u00e3o existe afeto inconsciente. O afeto de fato n\u00e3o \u00e9 recalcado, mas ele pode ser inconsciente.<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia j\u00e1 citada, Lacan critica a ideia de representa\u00e7\u00e3o inconsciente, ao afirmar que \u00a0\u00a0o inconsciente \u00e9 isto: as palavras fazem corpo e a nossa pr\u00e1tica consiste em abordar como as palavras operam. Para ele, isso \u00e9 mais importante do que saber o que quer ou n\u00e3o quer dizer o inconsciente.<\/p>\n<p><strong>Dos Afetos \u00e0s Paix\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o quatro os termos que comp\u00f5em o quadro afetivo: afeto, emo\u00e7\u00e3o, sentimento e paix\u00e3o. Lacan no semin\u00e1rio 10 retoma Freud ao tentar separar o afeto da emo\u00e7\u00e3o. \u00a0Enquanto o afeto n\u00e3o expressa nada, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 um meio de express\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de uma necessidade, mas vai al\u00e9m disso- \u00e9 da ordem da a\u00e7\u00e3o, do movimento, da agita\u00e7\u00e3o corporal. O afeto se distingue tamb\u00e9m do sentimento. Enquanto o afeto se apresenta ligado ao corpo, o sentimento se dirige ao discurso. \u00a0Se o afeto engana, o sentimento- mente. Nessa dire\u00e7\u00e3o, os afetos n\u00e3o se apresentam sempre como \u00edndice do real, podem ser enganosos, da\u00ed ser necess\u00e1rio verific\u00e1-los, quer dizer, remet\u00ea-los \u00e0 estrutura do inconsciente advinda da linguagem.<\/p>\n<p>Ainda no semin\u00e1rio 10 Lacan reserva um lugar precioso para o afeto: a ang\u00fastia- \u00fanico afeto que n\u00e3o engana e, esse sim \u00e9 sinal do real. Para Miller(3) quando Lacan faz da ang\u00fastia um afeto central, ele retira o afeto da psicologia e avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro. Se o que afeta \u00e9 o choque de <em>al\u00edngua <\/em>no corpo, n\u00e3o h\u00e1 palavra para nomear esse afeto. Miller parte para considerar que nos afetos se trata n\u00e3o s\u00f3 do significante e do Outro, mas \u00e9 necess\u00e1rio incluir um terceiro termo: o gozo. Foi seguindo esse percurso que Lacan, conforme Miller passou da psicofisiologia \u00e0 \u00e9tica, do n\u00edvel do debate das emo\u00e7\u00f5es e afetos para o dos afetos \u00e0s paix\u00f5es. Assim, Lacan enodou os afetos \u00e0s paix\u00f5es, principalmente \u00e0s paix\u00f5es da alma.<\/p>\n<p><strong>Das Paix\u00f5es do Ser \u00e0s Paix\u00f5es da Alma<\/strong><\/p>\n<p>Nos seus primeiros semin\u00e1rios Lacan nos traz as paix\u00f5es do ser- o amor, o \u00f3dio e a ignor\u00e2ncia que s\u00e3o paix\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro. Aqui, o Outro do simb\u00f3lico precede e afeta o sujeito que busca um complemento. A partir da d\u00e9cada de 70, Lacan se dedica \u00e0s paix\u00f5es da alma, tomando como refer\u00eancias os fil\u00f3sofos. No entanto, a passagem das paix\u00f5es do ser \u00e0s paix\u00f5es da alma, conforme Koretzky (4) j\u00e1 estava no horizonte desde o semin\u00e1rio da Transfer\u00eancia no qual Lacan articula a paix\u00e3o ao objeto parcial, aqui denominado de <em>ag\u00e1lma<\/em>. \u00c9 esse objeto precioso que Alceb\u00edades quer de S\u00f3crates. Aqui, o desejo deixa de se ligar apenas ao significante \u2013 paix\u00e3o pelo significante, passando a se ligar claramente ao objeto. \u00a0As paix\u00f5es da alma n\u00e3o se referem mais a rela\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e0 sua falta e ao seu ser, mas enquanto relativas ao saber concernem ao <em>parl\u00eatre<\/em> e n\u00e3o ao sujeito. S\u00e3o paix\u00f5es do a, do objeto \u201ca\u201d. Fazem parte dessa lista: (a tristeza, o gaio saber, a felicidade, a beatitude, o entusiasmo, o t\u00e9dio, o mau humor.)<\/p>\n<p>Finalmente, as paix\u00f5es ainda de acordo com Koretzky n\u00e3o s\u00e3o apenas as de aliena\u00e7\u00e3o ao Outro, mas est\u00e3o relacionadas ao objeto como resqu\u00edcio, res\u00edduo da opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o do Outro. No final de um trabalho anal\u00edtico o sujeito pode perceber o objeto de seu pr\u00f3prio corpo que ele colocou no campo do Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Notas:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan,J- Considera\u00e7\u00f5es sobre a Histeria- Op\u00e7\u00e3o Lacaniana- Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise- Dezembro 2007- Edi\u00e7\u00e3o Especial n. 50 p. 17-22<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Vieira, M. Andr\u00e9 e outros .Semiologia da afetividade: o afeto que se encerra na estrutura- Psicopatologia Lacaniana- Escola Brasileira de Psican\u00e1lise- Aut\u00eantica Vol 1- Semiologia-2017. Antonio Teixeira- Helo\u00edsa Caldas- (orgs) p.151<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Miller ,J.A- A prop\u00f3sito dos afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica- As paix\u00f5es do ser-Kalimeros- Escola Brasileira de Psican\u00e1lise- Rio de Janeiro-1998.p.47<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Koretzky, Carolina- Paix\u00f5es do ser, Paix\u00f5es da alma-In: Le cause du desir,n.93. <\/span><span style=\"font-size: 13px;\">Dispon\u00edvel em: https\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2016-2-page-73.htm<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Participante do GT: \u201cUma douta paix\u00e3o\u201d e os afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica<\/p>\n<p>M\u00f4nica Hage (EBP\/AMP) &#8211; Coordenadora, Gerardo Arenas (EOL\/AMP) &#8211; \u00caxtimo<\/p>\n<p>Participantes: Alice Munguba (IPB), Carla Fernandes (EBP\/AMP), F\u00e1tima Sarmento AME (EBP\/AMP), Graziela Pires (IPB), J\u00falia Solano (EBP\/AMP), Klaus Seydel (IPB), Kleyanne Lima (IPB), T\u00e2nia Porto (IPB).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1tima Sarmento[1]&#8211; AME (EBP\/AMP) Sobre os afetos Para Freud, o afeto \u00e9 formado da mesma maneira que um ataque hist\u00e9rico \u2013 ambos s\u00e3o precipitados de experi\u00eancias traum\u00e1ticas muito antigas que deixaram restos, tra\u00e7os e respingos. 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