{"id":437,"date":"2024-08-06T16:55:06","date_gmt":"2024-08-06T19:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=437"},"modified":"2024-08-06T16:55:06","modified_gmt":"2024-08-06T19:55:06","slug":"afeto-e-paixao-um-dialogo-com-uma-cancao-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/afeto-e-paixao-um-dialogo-com-uma-cancao-de-amor\/","title":{"rendered":"Afeto e paix\u00e3o: um di\u00e1logo com uma can\u00e7\u00e3o de amor"},"content":{"rendered":"<h6>Camila Abreu Costa<br \/>\nAssociada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<br \/>\nParte da Nova Pol\u00edtica de Juventude-Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-425\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_004-292x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_004-292x300.jpeg 292w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_004-997x1024.jpeg 997w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_004-768x788.jpeg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_004.jpeg 1242w\" sizes=\"auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px\" \/><\/p>\n<p>Come\u00e7o com a palavra entusiasmo, que ultimamente tem me atravessado. \u00c9 com este significante, que tamb\u00e9m atravessa o corpo, que tentarei desenvolver algo que passe pela escrita. De antem\u00e3o, aviso-lhes que n\u00e3o pretendo falar de amor. Este significante representa nada mais que uma linda letra de m\u00fasica do Caetano Veloso.<\/p>\n<p>Lacan, <em>no semin\u00e1rio 10<\/em>, situa a ang\u00fastia como um afeto. Certamente boa parte da comunidade anal\u00edtica j\u00e1 ouviu a frase: \u201cA ang\u00fastia \u00e9 um afeto que n\u00e3o engana\u201d. Lacan, neste mesmo semin\u00e1rio, lembra-nos que ele n\u00e3o s\u00f3 se interessa em falar dos afetos, como considera importante um di\u00e1logo, chegando a formular a ideia de que o afeto n\u00e3o \u00e9 recalcado, bem como Freud j\u00e1 havia sinalizado. \u201cPodemos encontra-lo enlouquecido, invertido, metabolizado, mas n\u00e3o \u00e9 recalcado. O que \u00e9 recalcado s\u00e3o os significantes que o amarram\u201d (p.23). Talvez, possamos articular as palavras de Lacan em muitas frentes, dentre elas, de que a ang\u00fastia n\u00e3o nos deixa enganar, pois \u00e9 um afeto que incomoda, o sujeito fica meio destrambelhado, perdido, algo por essa via.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma m\u00fasica de Caetano Veloso, chamada <em>\u201cCan\u00e7\u00e3o de amor\u201d.<\/em> E ela diz assim:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Saudade, torrente de paix\u00e3o<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Emo\u00e7\u00e3o diferente<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Que aniquila a vida da gente<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Uma dor que n\u00e3o sei de onde vem<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Deixaste meu cora\u00e7\u00e3o vazio<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Deixaste a saudade<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Aos desprazeres aquela amizade<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Que nasceu ao chamar-te, meu bem<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Nas cinzas do meu sonho<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Um hino ent\u00e3o componho<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Sofrendo a desilus\u00e3o que me invade<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Can\u00e7\u00e3o de amor, saudade<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Saudade.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o em trazer a m\u00fasica foi de caminharmos um pouco com a arte, mesmo que possamos nos embara\u00e7ar com ela em algum ponto. Caetano fala de emo\u00e7\u00e3o, e claro, emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que afeto e nem o mesmo que paix\u00e3o. Ao menos, n\u00e3o para a psican\u00e1lise. Vamos passear um pouco pelo livro \u201cA \u00e9tica da paix\u00e3o\u201d, do Marcus Andr\u00e9 Vieira.<\/p>\n<p>Em um trecho, ele nos traz que a emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima da inibi\u00e7\u00e3o e da como\u00e7\u00e3o. No entanto, as emo\u00e7\u00f5es, paix\u00f5es e afetos est\u00e3o numa mesma s\u00e9rie, que \u00e9 a dificuldade de agir, de avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao gozo. A emo\u00e7\u00e3o seria mais uma \u201cagita\u00e7\u00e3o de corpos\u201d. Este termo, o Marcus Andr\u00e9 retoma de Lacan e acrescenta que a emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais ligada a representa\u00e7\u00e3o da busca de sintonia do indiv\u00edduo com o mundo.<\/p>\n<p>Caetano Veloso cantando a palavra \u201cemo\u00e7\u00e3o\u201d, pode estar falando do que chamamos, aqui, de \u201cafeto\u201d. Seria um afeto diferente que aniquila a vida da gente? Uma dor que n\u00e3o sei de onde vem?<\/p>\n<p>Quando o cantor diz: \u201cSaudade, torrente de paix\u00e3o\u201d, o que interessa \u00e9 saber o que seria saudade para ele. O que ele sente e interpreta? Apostaria, minimamente, que uma das paix\u00f5es de Caetano \u00e9 a m\u00fasica, por exemplo. Como as paix\u00f5es revelariam a singularidade de cada um?<\/p>\n<p>Exste um grande debate sobre as paix\u00f5es e o que compartilho aqui n\u00e3o \u00e9 uma verdade, mas um \u201clapso\u201d de possibilidade de articula\u00e7\u00e3o. Lacan, em Televis\u00e3o (1973), retoma uma quest\u00e3o importante: Os afetos s\u00e3o uma descarga de adrenalina quem envolvem o corpo? A partir deste questionamento, ele traz que o inconsciente estruturado como linguagem permite verificar, com mais seriedade, o afeto. Situa, ent\u00e3o, o afeto como deslocado e que comparece a partir de uma representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seguindo por esta via, salienta que as paix\u00f5es da alma s\u00e3o nomeadas de modo justo desde S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e Plat\u00e3o, que as situa segundo o corpo: Cabe\u00e7a, cora\u00e7\u00e3o etc. Trata-se, aqui, de uma l\u00f3gica que passa pela filosofia.\u00a0 Por outro lado, para abordar esta quest\u00e3o, ter\u00edamos que pensar o corpo como estrutura, diz Lacan. Aqui, nesta l\u00f3gica, as paix\u00f5es n\u00e3o passam pela rela\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky, em <em>Pasiones Lacanianas (2019)<\/em>, mais precisamente no cap\u00edtulo \u201c<em>Lo indecible\u201d<\/em>, traz outras elucida\u00e7\u00f5es sobre o tema das paix\u00f5es, articulando que no ensino de Lacan, nos primeiros semin\u00e1rios, ele apresenta tr\u00eas paix\u00f5es do ser: amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia. Quando falamos das paix\u00f5es do ser, estamos no terreno das paix\u00f5es do \u201cfalta a ser\u201d. Graciela, ajuda-nos a perceber que as paix\u00f5es do ser e as paix\u00f5es da alma, s\u00e3o ideias diferentes a serem discutidas.<\/p>\n<p>O ponto escolhido para este escrito, talvez tenha mais a ver com as paix\u00f5es do ser, a partir da sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro. No \u201c<em>Semin\u00e1rio sobre a carta roubada (Escritos)\u201d,<\/em> Lacan se utiliza de uma analogia interessante. Ele diz: \u201ca paix\u00e3o do jogador n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o uma pergunta feita ao significante\u201d (p.44). As paix\u00f5es est\u00e3o associadas a cadeia significante de cada um. Talvez seja este o pulo do gato! Sobre as paix\u00f5es, embara\u00e7os e quereres de cada um, n\u00e3o conseguimos acesso se o interlocutor n\u00e3o ousar se expor na linguagem endere\u00e7ada a um Outro. Ser\u00e1 a an\u00e1lise uma possibilidade de endere\u00e7amento e constru\u00e7\u00e3o das nossas paix\u00f5es?<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00e3o, afeto e paix\u00e3o: do que trata a psican\u00e1lise? Talvez seja um eco no qual pode surgir uma pesquisa futura. Parafraseando Caetano Veloso \u201cnas cinzas do meu sonho, um hino ent\u00e3o componho, sofrendo a desilus\u00e3o que me invade\u201d. E essa desilus\u00e3o chamaria de \u201cn\u00e3o saber\u201d. Ao mesmo tempo que traz entusiasmo, \u00e9 desconcertante, angustiante, alguma coisa que n\u00e3o sei dizer. O querer saber, entretanto, traz um movimento, uma dan\u00e7a. Uma paix\u00e3o? Um amor? Que fiquem os rastros e os ecos&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>G (2019). Pasiones lacanianas. Olivos: Grama Ediciones.<\/li>\n<li>Lacan, J (2005[1962-63]).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 10:<em>a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/li>\n<li>Lacan, J (1998[1958]). \u201cO semin\u00e1rio sobre a carta roubada\u201d. In:\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p.44.<\/li>\n<li>Lacan, J (2003[1973]). Televis\u00e3o. In J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/li>\n<li>Viera, M. A (2001). A \u00e9tica da paix\u00e3o: uma teoria psicanal\u00edtica do afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Abreu Costa Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia Parte da Nova Pol\u00edtica de Juventude-Escola Brasileira de Psican\u00e1lise Come\u00e7o com a palavra entusiasmo, que ultimamente tem me atravessado. \u00c9 com este significante, que tamb\u00e9m atravessa o corpo, que tentarei desenvolver algo que passe pela escrita. De antem\u00e3o, aviso-lhes que n\u00e3o pretendo falar de amor.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-437","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=437"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":438,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437\/revisions\/438"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=437"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=437"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=437"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=437"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}