{"id":435,"date":"2024-08-06T16:49:52","date_gmt":"2024-08-06T19:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=435"},"modified":"2024-08-07T18:48:24","modified_gmt":"2024-08-07T21:48:24","slug":"um-corpo-afetado-pelas-paixoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/um-corpo-afetado-pelas-paixoes\/","title":{"rendered":"Um corpo afetado pelas paix\u00f5es"},"content":{"rendered":"<h6>Licene Garcia<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-424\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_003-300x185.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"185\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_003-300x185.jpeg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_003-1024x631.jpeg 1024w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_003-768x474.jpeg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_003.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Falo com meu corpo, e isto, sem saber.<br \/>\nDigo, portanto, sempre mais do que sei.<br \/>\n<em>Jacques Lacan<\/em><\/p>\n<p>Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> introduz as paix\u00f5es do ser \u2013 amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia \u2013 como uma tr\u00edade que, atrav\u00e9s da demanda, cristalizar\u00e1 o modo a partir do qual o sujeito estabelecer\u00e1 rela\u00e7\u00f5es com o Outro, propondo uma separa\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o freudiana, que definia os afetos pela via das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sendo a transfer\u00eancia o motor que orienta o trabalho de an\u00e1lise, Freud aponta o par amor e \u00f3dio como afetos fundamentais presentes na cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Lacan, ao ler Freud, compreende que o saber suposto em um sujeito \u00e9 o fundamento da transfer\u00eancia e aponta que a ignor\u00e2ncia, em associa\u00e7\u00e3o com o amor e o \u00f3dio, aparece como verdadeiro piv\u00f4 na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o saber.<\/p>\n<p>Lacan reposiciona o estatuto do ser no semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<\/em> e, consequentemente, retoma o amor, o \u00f3dio e a ignor\u00e2ncia, mas agora sob novo contexto. As paix\u00f5es deixam de se organizar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta-a-ser do sujeito e passam a estar do lado do gozo. \u201cO ser \u00e9 o gozo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, nos diz Lacan. Deste modo, onde est\u00e1 o ser, h\u00e1 uma exig\u00eancia de gozo. Diante de tal precis\u00e3o, o que Lacan faz \u00e9 colocar os afetos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 paix\u00e3o, mais precisamente \u00e0s paix\u00f5es da alma. \u201cO que diz respeito ao ser, ao ser que se colocaria como absoluto, n\u00e3o \u00e9 jamais sen\u00e3o a fratura, a rachadura, a interrup\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula ser sexuado, no que o ser sexuado est\u00e1 interessado no gozo\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> O que podemos ler, com Lacan, \u00e9 que ser\u00e1 entre saber e gozo, muito mais do que entre o sujeito e o ser, que se articular\u00e3o os afetos e as paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Reposicionar saber e gozo consequentemente reposiciona o lugar da verdade, que, estando do lado do real, tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o. Isso implica dizer que h\u00e1 um impasse, um fracasso estrutural em nomear, em transpor em palavras tudo que se experimenta, n\u00e3o somente no la\u00e7o com o Outro, mas principalmente naquilo que se experimenta na rela\u00e7\u00e3o com o corpo pr\u00f3prio. Por isso, s\u00f3 podemos falar de afetos na condi\u00e7\u00e3o de um corpo afetado pelas paix\u00f5es. Pensar em um corpo afetado localiza o esfor\u00e7o presente tanto em Freud quanto em Lacan, para sustentar a inadequa\u00e7\u00e3o que h\u00e1 no ser falante, entre seu corpo e o mundo.<\/p>\n<p>Sobre isso, Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> nos esclarece: \u201co afeto quer dizer que o sujeito est\u00e1 afetado em suas rela\u00e7\u00f5es com o Outro\u201d. Com Miller, podemos ler que estamos diante de um paradoxo, pois se nossa pr\u00e1tica se orienta para o singular do gozo em cada um, s\u00f3 podemos acessar algo do singular pelo modo que cada um se deixa afetar pelo Outro.<\/p>\n<p>Para pensarmos as paix\u00f5es enquanto express\u00f5es desse modo singular de gozo, n\u00e3o o fazemos sem passar pelo Outro. Esse foi o esfor\u00e7o de Lacan ao demarcar a dicotomia presente entre as paix\u00f5es do ser \u2013 que tangem a rela\u00e7\u00e3o com o Outro \u2013 e as paix\u00f5es da alma, enquanto paix\u00f5es do objeto <em>a.<\/em> Aqui, abrem-se as perguntas: quando demarcamos essa dicotomia, estamos falando do Outro e do Um? Seriam as paix\u00f5es do ser uma defesa, mas tamb\u00e9m uma porta de acesso \u00e0s paix\u00f5es do <em>falasser, <\/em>j\u00e1 que, seguindo Miller, n\u00e3o necessariamente precisamos nos desprender das paix\u00f5es da alma? Podemos apostar nas paix\u00f5es para ter algum acesso ao Um?<\/p>\n<p>Ao considerarmos que o <em>falasser <\/em>se defende da puls\u00e3o que o habita, situando-a no Outro, os afetos podem enganar na medida que tocam na verdade mentirosa de cada um, quando lidas pelas lentes da fantasia. Com exce\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, que, para Lacan, \u00e9 o \u00fanico afeto que n\u00e3o engana. Podemos dizer, ent\u00e3o, que o afeto n\u00e3o \u00e9 jamais inconsciente, ele sempre aparecer\u00e1 para o sujeito como um significado. Nesse sentido, Lacan est\u00e1 mais perto de Freud ao formular que os afetos enganam: \u201co afeto, pode ser louco, invertido, metabolizado mas n\u00e3o recalcado. O que \u00e9 recalcado s\u00e3o os significantes que o amarram\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Gorostiza<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> aponta que ser\u00e1 desta inadequa\u00e7\u00e3o que decantar\u00e1 o axioma lacaniano \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d, pedra angular dos afetos. Assim, ser\u00e1 o <em>troumatisme<\/em> &#8211; enquanto acontecimento de corpo, marca da a\u00e7\u00e3o de <em>lal\u00edngua<\/em> &#8211; que implicar\u00e1 ao <em>falasser<\/em> a corporiza\u00e7\u00e3o do significante como afeto, como efeito de gozo do significante sobre o corpo. O que nos permite dizer que os afetos lacanianos podem ser lidos como aquilo que testemunham isso que Lacan chamar\u00e1 de \u201ctra\u00e7o de ex\u00edlio\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quem fala s\u00f3 tem a ver com a solid\u00e3o, no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que s\u00f3 posso definir dizendo, como fiz, que ela n\u00e3o se pode escrever. Essa solid\u00e3o, ela, de ruptura do saber, n\u00e3o somente ela se pode escrever, mas ela \u00e9 mesmo o que se escreve por excel\u00eancia, pois ela \u00e9 o que, de uma ruptura do ser, deixa tra\u00e7o.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Se \u00e9 desse <em>troumatisme <\/em>que emerge o <em>falasser, <\/em>\u00e9 a partir dele que cada um precisa confrontar-se com o desafio de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para esse vazio constituinte, que produz, como marca, essa dimens\u00e3o opaca e inomin\u00e1vel chamada gozo.<\/p>\n<p>Ao colocar a quest\u00e3o do <em>falasser <\/em>em rela\u00e7\u00e3o ao gozo, torna-se poss\u00edvel dizer que os afetos tomados no n\u00edvel das paix\u00f5es tocam na dimens\u00e3o \u00e9tica e tocar na dimens\u00e3o \u00e9tica do <em>falasser <\/em>implica que cada uma das paix\u00f5es apontam para a posi\u00e7\u00e3o que cada um estabelecer\u00e1 com a verdade, mas sobretudo, a posi\u00e7\u00e3o fundamental de cada um, em rela\u00e7\u00e3o ao verdadeiro traum\u00e1tico: o choque da l\u00edngua com o corpo e \u201co inconsciente \u00e9 o testemunho de um saber, no que em grande parte ele escapa ao ser falante\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Por isso, a linguagem \u00e9 uma elocubra\u00e7\u00e3o de saber sobre <em>lal\u00edngua <\/em>e o inconsciente um saber-fazer com ela, visto que tudo que <em>lal\u00edngua<\/em> comporta s\u00e3o afetos. \u201cSe se pode dizer que o inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem, \u00e9 no que os efeitos de al\u00edngua, que j\u00e1 est\u00e3o l\u00e1 como saber, v\u00e3o bem al\u00e9m de tudo que o ser que fala \u00e9 suscet\u00edvel a enunciar\u201d.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Assim, \u00e9 com ela e contra ela que nos humanizamos. \u00c9 a partir do mal-entendido estrutural e irredut\u00edvel que nos inserimos em um ex\u00edlio sem retorno. Nas palavras de Pascale Fari: \u201clal\u00edngua nos faz falar, rir e chorar. [&#8230;] Dizer que ela nos afeta \u00e9 pouco: ela \u00e9 nossa carne e nosso sangue. [&#8230;] o inconsciente, \u00e9 a um s\u00f3 tempo, a comemora\u00e7\u00e3o desse encontro imemorial e defesa contra esse real sem lei e fora de sentido.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Podemos afirmar, ent\u00e3o, que os afetos, por tocarem na verdade mentirosa do falasser, podem ser, tamb\u00e9m, um dos modos de acessar algum saber. Eis o motivo pelo qual Lacan vai apostar na \u00e9tica do bem-dizer para acessar a dimens\u00e3o do gozo, visto que a paix\u00e3o conserva a rela\u00e7\u00e3o com o objeto. Nossa rela\u00e7\u00e3o como o mundo nunca \u00e9 direta, ela sempre ser\u00e1 mediada pelo objeto a. Com isso, Lacan marcar\u00e1 algo importante: \u201co a, que chamo de objeto [&#8230;] e o A, designo com ele o que, de come\u00e7o, \u00e9 um lugar. Eu disse \u2013 o lugar do Outro\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>. Sendo o Outro um lugar, ele n\u00e3o \u00e9 algo dado de entrada, \u00e9 preciso constru\u00ed-lo. O lugar do Outro \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, uma fic\u00e7\u00e3o. Por isso, cada realidade se funda e se define pelo discurso enquanto modalidade de la\u00e7o.<\/p>\n<p>Segundo Esebbag<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, podemos dizer que o Outro tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o, uma vez que, em uma an\u00e1lise, trata-se de fazer emergir a forma particular que cada um fez para existir seu Outro de um modo espec\u00edfico pela fantasia. \u00c9 por n\u00e3o poder separar-se deste Outro constru\u00eddo que o sujeito dedica parte de seus sintomas e sofrimentos. Sendo o fim de uma an\u00e1lise o momento da queda deste Outro como fic\u00e7\u00e3o, demonstrando, assim, sua inexist\u00eancia. Nas palavras de Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00f3s s\u00f3 gozamos com o Outro [&#8230;] s\u00f3 o Outro usufrui de n\u00f3s [&#8230;] o S(A\/) \u00e9 a mesma coisa que acabo de formular: que com o Outro se goza mentalmente [&#8230;] Voc\u00eas s\u00f3 gozam com suas fantasias. O importante \u00e9 que suas fantasias gozam com voc\u00eas\u201d.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><span style=\"color: #636363; font-size: 15px;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 exist\u00eancia sen\u00e3o contra um fundo de inexist\u00eancia. Se o Outro n\u00e3o pode fundar uma exist\u00eancia &#8211; pois o Outro se inscreve no n\u00edvel do ser -, o que domina \u00e9 o Um: s\u00f3 h\u00e1 o Um. Por isso, o Um \u00e9 \u201co que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, ele <em>ex-siste<\/em> a partir do dizer, ao mesmo tempo em que subsiste fora dele.<\/p>\n<p>Em outras palavras, tudo que implica o ser sempre ir\u00e1 remeter ao Outro, como podemos verificar nas paix\u00f5es do ser<em>. <\/em>H\u00e1-Um n\u00e3o diz respeito ao que o Um seja, mas diz de sua exist\u00eancia. \u00c9 o que nos permite dizer que H\u00e1-Um e o Outro. Por isso, o percurso de uma an\u00e1lise se trata de uma leitura e escrita \u2013 em retroa\u00e7\u00e3o \u2013 daquilo que deixou tra\u00e7o. \u00c9 somente pelo Outro que podemos ter acesso ao Um, n\u00e3o para diz\u00ea-lo, mas para ler o tra\u00e7o de sua exist\u00eancia. \u00c9 tomar a fala como um modo de satisfa\u00e7\u00e3o que toca o corpo, que, para al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o e da equivoca\u00e7\u00e3o dos sentidos, aponta para o modo que o gozo toca o corpo do <em>falasser<\/em>. O gozo enquanto gozo do Um, que n\u00e3o se dirige ao Outro; marca da experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria em habitar o corpo pr\u00f3prio, visto que o Um que diz respeito ao ser falante \u00e9 o Um que n\u00e3o passa ao dois.<\/p>\n<p>Coloco o acento em uma das paix\u00f5es da alma: a tristeza. Lacan, em <em>Televis\u00e3o, <\/em>aponta a tristeza como um saber falido \u2013 \u2018covardia moral\u2019<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> \u2013 e, ao contr\u00e1rio do que se pensa, n\u00e3o coloca a tristeza em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 alegria, mas em oposi\u00e7\u00e3o ao bem-dizer, ao gaio saber. Assim, para compreender qualquer teoria que tange aos afetos, Lacan nos esclarece que n\u00e3o se faz isso sem passar pela \u00e9tica, justamente por ela tocar na rela\u00e7\u00e3o do <em>falasser <\/em>com o gozo. Nas palavras de Miller: \u201cO que \u00e9 o bem-dizer? N\u00e3o se trata do manejo do significante pelo significante, mas precisamente do acordo do significante com o gozo e sua resson\u00e2ncia. A \u00e9tica do bem-dizer consiste em cernir, apreender no saber o que n\u00e3o se pode dizer\u201d.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> Por isso Lacan colocar\u00e1 a tristeza como uma quest\u00e3o ligada ao saber; ao fazer isto, ele nos esclarece que a tristeza \u00e9 relativa a esse acordo entre significante e gozo e, assim, se o saber \u00e9 triste, o <em>falasser<\/em> se mant\u00e9m em uma posi\u00e7\u00e3o de exterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio gozo, abandonando a si mesmo.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise \u00e9 uma aposta no entusiasmo, em um saber alegre que faz o sujeito passar da impot\u00eancia que caminha ao lado da tristeza, ao imposs\u00edvel do saber, que comporta o gaio saber. Aqui cabe esclarecer a import\u00e2ncia de opor o entusiasmo \u00e0 beatitude, na medida em que Lacan colocar\u00e1 o entusiasmo como afeto pr\u00f3prio a um bom acesso ao saber, enquanto a beatitude \u00e9 um estado onde ao sujeito nada falta, j\u00e1 que ele acredita estar de acordo com seu gozo. Por isso, para pensar os afetos lacanianos torna-se crucial a passagem da consist\u00eancia \u00e0 inconsist\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p>A \u201calegria lacaniana\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, termo proposto por Miller, \u00e9 relativa ao saber, um saber que admite a extimidade do gozo, permitindo alguma reconcilia\u00e7\u00e3o entre significante e gozo, reposicionando a rela\u00e7\u00e3o de cada um com o objeto <em>a<\/em>, marcando assim uma passagem do horror ao saber \u2013 paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia \u2013 para o \u2018<em>a<\/em>\u2019 enquanto causa de desejo, espa\u00e7o e condi\u00e7\u00e3o para alguma inven\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, o saber de que se trata \u00e9 quando o sujeito pode consentir com a inconsist\u00eancia do grande <em>A<\/em> simb\u00f3lico e pode tomar o pequeno <em>a<\/em>, enquanto objeto causa de desejo. \u201cAbre-se, aqui, ent\u00e3o, outra dimens\u00e3o, na qual o que existe de n\u00e3o negativiz\u00e1vel, isto \u00e9, de real, concernente ao gozo pode achar seu lugar n\u00e3o mais como obturador da falta-a-ser, mas como a exist\u00eancia de uma satisfa\u00e7\u00e3o singular e incur\u00e1vel: H\u00e1-Um\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Ainda que o Outro n\u00e3o exista, \u201co saber, este existe, na condi\u00e7\u00e3o de constru\u00ed-lo e invent\u00e1-lo\u201d.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> Isso reposiciona tamb\u00e9m o lugar da transfer\u00eancia, na medida em que aponta para o que est\u00e1 realmente em jogo em uma an\u00e1lise: a passagem da suposi\u00e7\u00e3o de um saber no Outro para a suposi\u00e7\u00e3o de um saber no real, esclarecendo a precis\u00e3o cl\u00ednica que Lacan prop\u00f5e ao dizer que o analista opera com o real. Nas palavras de Oscar Zack: \u201cSe o real de cada sujeito \u00e9 imodific\u00e1vel, o que tem que se modificar \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do sujeito para fazer frente a esse real que o habita. Desta transforma\u00e7\u00e3o subjetiva, o analista, a partir do caso, tratar\u00e1 de dar conta.\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. Como nos ensina Lacan, \u00e9 dar-se a chance de \u201cdesfazer pela fala o que foi feito pela fala, at\u00e9 certo ponto.\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A experi\u00eancia anal\u00edtica ela \u00e9<br \/>\nde fato, uma experi\u00eancia afetiva.<br \/>\n<em>Jacques-Alain Miller<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista praticante. Mestre em Pesquisa e Cl\u00ednica em Psican\u00e1lise pela UERJ. Reside e exerce a pr\u00e1tica cl\u00ednica em S\u00e3o Paulo. Participante em forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, Jacques. <strong>Semin\u00e1rio 5:<\/strong> <strong>as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente <\/strong>(1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999, p. 513.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, Jacques. <strong>Semin\u00e1rio 20:<\/strong> <strong>Mais, ainda <\/strong>(1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p.15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p.20.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. A prop\u00f3sito dos afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica. In: <strong>Kalimeros<\/strong>: As paix\u00f5es do ser. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contra Capa. 1998, p. 47.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Idem, p.44.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> GOROSTIZA, Leonardo. Afetos lacanianos. In: Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. <strong>Scilicet:<\/strong> <strong>Os objetos <em>a<\/em> na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/strong> Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contra Capa. 2008, p.16-17.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem 3, p. 198.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem 3, p. 163.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem 3, p. 170.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Idem 3, p. 170.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> FARI, Pascale. Lal\u00edngua. In: Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. <strong>Scilicet:<\/strong> <strong>Um real para o s\u00e9culo XXI<\/strong>. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Belo Horizonte: Scriptum. 2014, p.221-222.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Idem 3, p.40.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> ESEBBAG, Gabriela. El Outro no existe. In: GONZ\u00c1LEZ, Claudia (coord.). <strong>Aforismos lacanianos: una introducci\u00f3n al psicoan\u00e1lisis<\/strong><em>.<\/em> Barcelona: Ned ediciones. 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> LACAN, Jacques. &#8230;ou pior (1971-1972). In: <strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.109-110.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Idem 14, p.131)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> LACAN, Jacques. Televis\u00e3o (1974). In: <strong>Outros Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p.524.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Idem 5, p.50.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Idem 5, p. 50.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> SOUTO, Simone. Como conceber a transfer\u00eancia na cl\u00ednica do Um que dialoga sozinho? <strong>Boletim (in)temporal<\/strong><em>.<\/em> Boletim eletr\u00f4nico da 24\u00aa Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise da Se\u00e7\u00e3o Bahia. 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2019\/2019\/06\/21\/como-conceber-a-transferencia-na-clinica-do-um-que-dialoga-sozinho\/\">https:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2019\/2019\/06\/21\/como-conceber-a-transferencia-na-clinica-do-um-que-dialoga-sozinho\/<\/a>. Acesso em: 12 de fev. de 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Idem 5, p.51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> <strong>ZACK, Oscar. Reflex\u00f5es a prop\u00f3sito da constru\u00e7\u00e3o do caso. In: Curinga, v.1 n.0. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, 2010, p.150. <\/strong><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> LACAN, Jacques. Le moment de conclure. Le\u00e7on du 15 de novembre 1977, <strong>Ornicar?<\/strong>, Paris, 1979.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Licene Garcia[1] \u00a0 Falo com meu corpo, e isto, sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei. Jacques Lacan Lacan[2] introduz as paix\u00f5es do ser \u2013 amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia \u2013 como uma tr\u00edade que, atrav\u00e9s da demanda, cristalizar\u00e1 o modo a partir do qual o sujeito estabelecer\u00e1 rela\u00e7\u00f5es com o Outro, propondo uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-435","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=435"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":449,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions\/449"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=435"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}