{"id":432,"date":"2024-08-06T16:44:57","date_gmt":"2024-08-06T19:44:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=432"},"modified":"2024-08-12T15:32:16","modified_gmt":"2024-08-12T18:32:16","slug":"da-emocao-ao-afeto-patricia-bosquin-caroz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/da-emocao-ao-afeto-patricia-bosquin-caroz\/","title":{"rendered":"\u201cDa emo\u00e7\u00e3o ao afeto\u201d \u2013 Patricia Bosquin-Caroz AME(ECF\/AMP)"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Luiz Mena (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-423\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_002-300x180.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_002-300x180.jpeg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_002-768x460.jpeg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/phatos003_002.jpeg 899w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>[\/vc_column_text]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Da-emocao-ao-afeto-Patricia-Bosquin.pdf\" class=\"vcex-button theme-button inline\" style=\"background:var(--wpex-accent);color:#ffffff;\" data-wpex-hover='{&quot;background&quot;:&quot;#2677bf&quot;,&quot;color&quot;:&quot;#ffffff&quot;}' target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"vcex-button-inner theme-button-inner\">Baixar PDF<\/span><\/a> <div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Os recentes avan\u00e7os de J.A. Miller com rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo ensino de Lacan permitem reconsiderar o afeto em psican\u00e1lise sob um novo \u00e2ngulo. Desde que ele foi entendido como efeito de verdade de um significante recalcado, a partir da Metapsicologia de Freud, ou do Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia, de Lacan, o afeto se apresentava como enganador, sempre derivado, desancorado, deslocado. Por outro lado, como efeito real de gozo, ele faria signo do golpe no corpo por lal\u00edngua, \u201cafei\u00e7\u00e3o (afeto) marcante da l\u00edngua sobre o corpo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. De todo modo, que ele seja efeito de verdade ou efeito de gozo, Lacan n\u00e3o visar\u00e1 jamais o afeto fora da rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao significante, ou do falasser \u00e0 lal\u00edngua. Assim, a tomada do afeto em psican\u00e1lise n\u00e3o se apreende imediatamente e se diferencia radicalmente de uma \u201cfenomenologia das emo\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, como diz Miller.<\/p>\n<p><strong><u>O afeto e a verdade<\/u><\/strong><\/p>\n<p>Partamos da confer\u00eancia que Miller pronunciou em Gand em 1986, publicada sob o t\u00edtulo \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d. Como ele sublinha, sempre foi criticado o fato de a psican\u00e1lise ser uma iniciativa intelectual, deixando o afetivo de lado. O campo da fala e da linguagem seriam somente de ordem intelectual. Trata-se, diz ele, de um preconceito que daria espa\u00e7o ao afeto enquanto acesso direto e aut\u00eantico \u00e0 verdade. O afeto testemunharia um acesso imediato \u00e0 verdade.<\/p>\n<p>A abordagem de Lacan \u00e9 outra, na qual o corpo afetado n\u00e3o seria uma garantia da verdade. Levando em conta essa quest\u00e3o do afeto no Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia, Lacan se distancia de uma concep\u00e7\u00e3o do afeto se referindo a uma expressividade natural, esp\u00e9cie de dado imediato, translingu\u00edstico.<\/p>\n<p>O afeto \u00e9 enganador, a n\u00e3o ser a ang\u00fastia que, ela, n\u00e3o engana sobre o real em jogo. O afeto engana, porque ele \u00e9 desarrimado do significante que o representa, que est\u00e1 recalcado, inconsciente. O afeto parte \u00e0 deriva, diz Lacan: \u201cN\u00f3s o encontramos deslocado, louco, invertido, metabolizado, mas ele n\u00e3o \u00e9 recalcado. O que \u00e9 recalcado s\u00e3o os significantes que o amarram.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Lacan, sublinha J.A. Miller, est\u00e1 nessa quest\u00e3o perto de Freud, de sua teoria do recalque presente em sua metapsicologia. Em seu texto \u201cO inconsciente\u201d, Freud distingue o registro da representa\u00e7\u00e3o do fator quantitativo, que n\u00e3o pode jamais ser recalcado. A prop\u00f3sito da puls\u00e3o, ele afirma n\u00e3o somente que ela n\u00e3o pode, como tal, se tornar objeto da consci\u00eancia, mas que \u201cno inconsciente ela n\u00e3o pode se encontrar representada por nada al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Freud estende esse entendimento \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es, aos sentimentos e aos afetos. Seus representantes (ou significantes) seriam recalcados, enquanto que seu fator quantitativo se deslocaria, partiria \u00e0 deriva, se ligaria a um outro significante diferente desse do come\u00e7o, que permaneceria inconsciente. Nesta perspectiva freudiana, os afetos e os sentimentos corresponderiam a processos de descarga, \u201cdos quais as manifesta\u00e7\u00f5es \u00faltimas s\u00e3o percebidas como sensa\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Lacan, assinala Miller, est\u00e1 pr\u00f3ximo de Freud quando diz que os afetos enganam e que eles n\u00e3o valem como garantia de verdade, como o Outro do Outro, segundo a ideia de que o afeto diria a verdade.<\/p>\n<p><strong><u>Levantar a quest\u00e3o<\/u><\/strong><\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o se interessar pelo afeto, posto que ele \u00e9 t\u00e3o pouco confi\u00e1vel? \u00c9 a\u00ed que Miller, a partir de sua leitura de Televis\u00e3o, nos introduz a uma distin\u00e7\u00e3o \u00fatil entre o afeto e a emo\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Sem d\u00favida \u2013 diz Miller \u2013 trata-se, no afeto, do corpo, dos efeitos de linguagem sobre o corpo, esses efeitos que eu enumerei de corte, de desvitaliza\u00e7\u00e3o, de esvaziamento do gozo, quer dizer, de \u201coutrifica\u00e7\u00e3o\u201d do corpo. E isso que Freud chama de separa\u00e7\u00e3o da cota de afeto e da ideia, torna-se para n\u00f3s a articula\u00e7\u00e3o do significante e do objeto a. A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana comporta ent\u00e3o a distin\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, do registro animal, vital, em seu aspecto de rea\u00e7\u00e3o ao que existe no mundo, dos afetos enquanto s\u00e3o do sujeito.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Tamb\u00e9m, precisa Miller, Lacan aumenta o n\u00edvel da quest\u00e3o quando ele passa do debate das emo\u00e7\u00f5es e afetos para este dos afetos e paix\u00f5es. O debate concernindo o afeto se desloca ent\u00e3o da psicofisiologia \u00e0 \u00e9tica, quer dizer, das rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o gozo. Em Televis\u00e3o, Lacan faz da tristeza uma falta moral \u201cque s\u00f3 se situa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a partir do pensamento, ou seja, do dever de bem dizer ou de orientar-se no inconsciente, na estrutura\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.\u00a0 Lacan arranca a tristeza do registro emocional para faz\u00ea-la um neg\u00f3cio de saber que inclui a rela\u00e7\u00e3o que o sujeito tem com o significante para tentar cernir o que n\u00e3o pode se dizer, como explica Miller: \u201cQuando o saber \u00e9 triste ele \u00e9 impotente em colocar o significante em resson\u00e2ncia com o gozo\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>A tristeza, tal como a definiu Lacan, \u00e9 relativa a este acordo do significante e do gozo. Ela \u00e9 ent\u00e3o assunto de saber. Quando significante e gozo ressoam, produz-se o gaio saber relativo ao bem dizer. Constatamos frequentemente que o fim da an\u00e1lise est\u00e1 ligado ao entusiasmo que acompanha a travessia ou o fechamento do horror de saber. Lacan evoca, em outro lugar, a \u201csatisfa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, tantos termos que significam que o afeto acompanha os movimentos de uma an\u00e1lise at\u00e9 o fim e que ele concerne sempre a rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao significante. Como Lacan formula em Televis\u00e3o, para abordar as paix\u00f5es, trata-se de passar para o corpo afetado pela estrutura. \u201cAssim, o afeto chega a um corpo, cuja propriedade seria habitar a linguagem.\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p><strong><u>Percuss\u00e3o da l\u00edngua sobre o corpo<\/u><\/strong><\/p>\n<p>Que o significante seja considerado em sua articula\u00e7\u00e3o S1 \u2013 S2, para os efeitos de sentido que ele libera, ou que ele seja apreendido como desarticulado do S2, isolado como significante sozinho tendo um impacto de gozo, o afeto n\u00e3o se deixa ler em seu imediatismo. Como efeito de verdade, ele precisa de um deciframento dos significantes que s\u00e3o a ele ligados e, como efeito de gozo, ele exige somente o acontecimento de l\u00edngua, acontecimento traum\u00e1tico, seja fechado, cernido para al\u00e9m do inconsciente revela\u00e7\u00e3o. O fen\u00f4meno do afeto n\u00e3o fala de si mesmo. No entanto, a concep\u00e7\u00e3o do traumatismo articulado aos efeitos de percuss\u00e3o de lal\u00edngua sobre o corpo, tal como Miller extraiu do \u00faltimo Lacan, permite abord\u00e1-lo sob um novo \u00e2ngulo. O que n\u00e3o significa que devemos tomar o afeto como simples \u201cexpress\u00e3o natural\u201d e \u201ctranslingu\u00edstica\u201d do corpo falante que todo mundo compreenderia gra\u00e7as a uma \u201ccoalesc\u00eancia (contra\u00e7\u00e3o) do significante e do significado\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Mesmo nessa nova perspectiva, o afeto n\u00e3o seria \u201ca voz do corpo\u201d, sua express\u00e3o natural, mas signo de um efeito de gozo correlativo \u00e0 marca significante, \u00e0 letra, sobre o corpo falante.<\/p>\n<p>Em uma experi\u00eancia anal\u00edtica, somos conduzidos a colocar o acento sobre a implica\u00e7\u00e3o do significante no afeto e, segundo a express\u00e3o de Lacan sublinhada por Miller, de \u201cverificar o afeto\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Assim, na mais cl\u00e1ssica apreens\u00e3o deste, trata-se de emitir a verdade recalcada e, na concep\u00e7\u00e3o de afeta\u00e7\u00e3o do corpo por lal\u00edngua, trata-se de isolar a marca traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ao final de uma an\u00e1lise, alguma coisa se identifica, se espreme, do registro disto que marcou o falasser \u2013 este que fala e \u00e9 falado \u2013 real\u00e7ando um aqu\u00e9m do sentido, a saber, do impacto ou do choque das palavras sobre o corpo, \u201cpercuss\u00e3o\u201d das palavras sobre o corpo<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Tal como Lacan o concebe a partir do Semin\u00e1rio 20, o corpo aqui n\u00e3o \u00e9 para ser entendido enquanto corpo especular, mas enquanto subst\u00e2ncia gozante, e o significante como tendo efeitos de gozo. Desde ent\u00e3o, o acontecimento traum\u00e1tico teria que ser apreendido como um acidente contingente, abrindo-se \u00e0 \u201cincid\u00eancia da l\u00edngua sobre o ser falante (&#8230;) a afei\u00e7\u00e3o essencial torna-se \u201ca afei\u00e7\u00e3o marcante da l\u00edngua sobre o corpo\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> e \u201co sinthome um circuito de repeti\u00e7\u00f5es que se libera a partir de um acontecimento de corpo\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, que faria dessa marca puramente contingente um \u201cn\u00e3o cessa de se escrever\u201d, seja \u201cuma reitera\u00e7\u00e3o desta marca primeira que n\u00e3o cessa\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. O que ajuda a entender o que Lacan, em seu semin\u00e1rio 20, anuncia assim: \u201cLal\u00edngua nos afeta primeiro por tudo o que ela comporta de efeitos que s\u00e3o afetos\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>Isso, por\u00e9m, n\u00e3o quer dizer que a an\u00e1lise prescinda do sentido e da busca pela verdade. Como lembrou Miller em seu curso \u201cCoisas de fineza\u201d, \u201ctrata-se na an\u00e1lise de fazer verdade (&#8230;) disto que faltou fazer verdade \u2013 os traumatismos, o que fez buraco, isto que Lacan chamar\u00e1 mais tarde <em>troumatismo<\/em>. Trata-se de fazer chegar o discurso ao que n\u00e3o foi poss\u00edvel e tomar posi\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<\/p>\n<p>Entretanto, Lacan far\u00e1 valer que o impacto do traumatismo de lal\u00edngua n\u00e3o \u00e9 tanto a procurar do lado dos efeitos de sentido, mas do lado dos efeitos de gozo. No semin\u00e1rio \u201cL\u00b4insu que sait&#8230;\u201d, \u00e0 preval\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o da verdade, Lacan substitui o \u201cenrolamento da l\u00edngua\u201d, o \u201ccaldo de cultura\u201d, o \u201ccaldo da linguagem\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>A apreens\u00e3o do afeto deve ser situada tendo em vista esses dois movimentos na an\u00e1lise, mas o que interessa, no final da experi\u00eancia, seria mais a maneira na qual o corpo se goza do significante que percutiu e imprimiu nele um modo de gozar singular. Isolar uma marca traum\u00e1tica implica sua redu\u00e7\u00e3o significante, mas tamb\u00e9m sua redu\u00e7\u00e3o libidinal. Miller, em \u201cO parceiro sintoma\u201d, faz refer\u00eancia ao texto de Freud \u201cSobre alguns mecanismos neur\u00f3ticos no ci\u00fame, a paranoia e a homossexualidade\u201d, para evocar o fator quantitativo, \u201ca quantidade de investimento libidinal que as estruturas ou as formula\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas s\u00e3o capazes de atrair\u201d, e que n\u00e3o \u00e9, em nenhum caso, previs\u00edvel, determinada, program\u00e1vel. Diz Miller que \u201cFreud fazia uma disjun\u00e7\u00e3o forte entre a articula\u00e7\u00e3o e o investimento. Uma articula\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica (&#8230;) de natureza patog\u00eanica, mas que n\u00e3o age. E, em um dado momento, pelo efeito de um superinvestimento, isso se coloca a agir&#8230; ent\u00e3o, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o na economia libidinal.\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>No passe, trata-se de \u201cdesinvestir as articula\u00e7\u00f5es patog\u00eanicas\u201d depois de ter obtido sua redu\u00e7\u00e3o significante e a redu\u00e7\u00e3o do fator quantitativo \u00e0 conting\u00eancia, ao encontro, ao cessa de se escrever. Nos testemunhos do passe, esse desinvestimento libidinal se formula de maneiras bastante variadas: desapego, desativa\u00e7\u00e3o&#8230; poder\u00edamos at\u00e9 falar em \u201cdesafei\u00e7\u00e3o\u201d. Mas o passe n\u00e3o \u00e9 um processo de desinvestimento libidinal do lugar nocivo, pois a libido \u00e9 indestrut\u00edvel, ela n\u00e3o pode ser contrariada, erradicada, o que deixa aberta a quest\u00e3o do saber-a\u00ed-fazer com o investimento libidinal ou aquela da \u201creconfigura\u00e7\u00e3o\u201d do gozo. O \u00faltimo ensino de Lacan abre uma perspectiva para a psican\u00e1lise, n\u00f3s n\u00e3o nos orientamos mais sobre a linguagem, mas sobre lal\u00edngua, \u201cconcebida como uma secre\u00e7\u00e3o de um certo corpo, e que se ocupa menos dos efeitos de sentido que ele tem desses efeitos que s\u00e3o afetos (&#8230;) O sinthome \u00e9 o afeto enquanto irredut\u00edvel ao efeito de sentido\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<\/p>\n<p><strong><u>A prop\u00f3sito das emo\u00e7\u00f5es e do afeto, retorno sobre meu passe<\/u><\/strong><\/p>\n<p>A fala analisante encontrava-se duplicada pelas l\u00e1grimas, revelando um afeto de tristeza relutante ao trabalho anal\u00edtico. A travessia do fantasma sacrificial articulada ao amor pelo pai morto n\u00e3o havia mudado em nada. O sujeito do gozo restava atra\u00eddo por uma for\u00e7a obscura. O amor estava dramatizado. A paix\u00e3o amorosa intensa, carregada, acabava por prejudicar o conjugal. Duas interpreta\u00e7\u00f5es iam orientar a cura sobre a tomada de consci\u00eancia desta carga afetiva localizada no lugar do amor. A primeira \u2013 \u201cN\u00e3o \u00e9 ele que voc\u00ea ama, mas suas l\u00e1grimas\u201d \u2013 anunciava a segunda \u2013 \u201cVoc\u00ea \u00e9 a primeira glutona de emo\u00e7\u00f5es que eu encontro na cl\u00ednica!\u201d<\/p>\n<p>O analista havia imitado um morcego insaci\u00e1vel, que colocava na boca tudo que podia. \u00c9 verdade que n\u00e3o faltavam ocasi\u00f5es (significantes) para que o afeto de tristeza estacionasse e alimentasse, sem que o sujeito soubesse, a puls\u00e3o que a sustentava secretamente. Mas o que teve finalmente raz\u00e3o desse modo de gozar oral conectado sobre o humor \u201cmelancoliforme\u201d, foi o isolamento da marca traum\u00e1tica de lal\u00edngua, denominada \u201cdesenvoltura\u201d. A redu\u00e7\u00e3o \u201cda afei\u00e7\u00e3o marcante sobre o corpo\u201d ao choque da voz materna e seus efeitos de afeto, o deixar cair, iria \u201cretornar em efeito de cria\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>: a implica\u00e7\u00e3o e o engajamento de minha voz na Escola. E hoje? Agir, ainda. Para \u201carrancar da ang\u00fastia sua certeza\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>, como diz Lacan no seu semin\u00e1rio da ang\u00fastia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. \u201cA experi\u00eancia do real na cura anal\u00edtica\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 09\/06\/1999, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J.-A., \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, p.109.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan J. \u201cO semin\u00e1rio, livro 10, A ang\u00fastia\u201d. Paris : Seuil, 2004, p.23.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Freud, S. \u201cO inconsciente\u201d, <em>Metapsicologia<\/em>. Obras completas, v.XIII. Paris : PUF, p.218.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, p.220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, p.109.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lacan, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Outros Escritos. Paris : Seuil, 2001, p.526 (p.44)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Miller, J.-A. \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, p.110.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan, J., \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. Outros Escritos. Paris : Seuil, 2001, p.572.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Lacan, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Outros Escritos. Paris : Seuil, 2001, p.527 (p.46)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Miller, J.-A. \u201cOs afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, p.103.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Lacan, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Outros Escritos. Paris : Seuil, 2001, p.524.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO ser e o um\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 25\/05\/2011, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Miller, J.-A. \u201cA experi\u00eancia do real na cura anal\u00edtica\u201d, aula de 09\/06\/1999, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Miller, J.-A. \u201cA crian\u00e7a e o saber\u201d. <em>La petite Girafe<\/em>, n.1, Paris : Navarin, 2011, p.19.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Miller, J.-A. \u201cCoisas de fineza em psican\u00e1lise\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio: livro XX, Mais, ainda. Paris : Seuil, 1975, p.127.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Miller, J.-A. \u201cCoisas de fineza em psican\u00e1lise\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 18\/03\/2009, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio: livro XXIV, \u201cL\u00b4insu que sait de l\u00b4une-b\u00e9vue s\u00b4aile \u00e0 mourre\u201d, aula de 19\/04\/1977, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Miller, J.-A. \u201cO parceiro-sintoma\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 06\/05\/1998, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Miller, J.-A. \u201cPe\u00e7as soltas\u201d. Curso proferido no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII, aula de 15\/12\/2004, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Lacan, J. \u201cDos nossos antecedentes\u201d. In <em>Escritos<\/em>, Paris : Seuil, 1966, p.66.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio, livro X: a ang\u00fastia\u201d. Paris : Seuil, 2004, p.93.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Tradu\u00e7\u00e3o: Luiz Mena (EBP\/AMP) [\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Os recentes avan\u00e7os de J.A. Miller com rela\u00e7\u00e3o ao \u00faltimo ensino de Lacan permitem reconsiderar o afeto em psican\u00e1lise sob um novo \u00e2ngulo. 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