{"id":281,"date":"2024-07-11T13:18:50","date_gmt":"2024-07-11T16:18:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=281"},"modified":"2024-07-11T13:20:25","modified_gmt":"2024-07-11T16:20:25","slug":"o-tedio-do-coronel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/o-tedio-do-coronel\/","title":{"rendered":"O T\u00e9dio do Coronel"},"content":{"rendered":"<h6>Caroline Cabral Quixabeira<br \/>\nParticipante da Nova Pol\u00edtica da Juventude<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-282 alignright\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Ninguem-escreve-ao-coronel-imagem-173x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"173\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Ninguem-escreve-ao-coronel-imagem-173x300.jpeg 173w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Ninguem-escreve-ao-coronel-imagem-590x1024.jpeg 590w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Ninguem-escreve-ao-coronel-imagem.jpeg 737w\" sizes=\"auto, (max-width: 173px) 100vw, 173px\" \/><\/p>\n<p>Gabriel Garcia Marquez (1927-2014) renomado escritor colombiano, em seu livro \u201cNingu\u00e9m Escreve ao Coronel\u201d leva o leitor a viver um recorte de tr\u00eas meses da vida do Coronel<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, entre outubro e dezembro, que espera h\u00e1 15 anos uma carta. Participante ativo da revolu\u00e7\u00e3o de Aureliano Buend\u00eda, fazendo refer\u00eancia ao livro tamb\u00e9m de sua autoria, Cem Anos de Solid\u00e3o, acompanhamos o personagem em sua espera pela confirma\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do recebimento de sua aposentadoria, como havia sido negociada por Buend\u00eda.<\/p>\n<p>H\u00e1 15 anos, todas as sextas-feiras, sem falta, o Coronel sobe a ladeira que leva ao porto por onde chegam as cartas por lancha. Acompanha o descarregar dos pacotes, dirige-se aos Correios, espera serem distribu\u00eddas todas as cartas, enquanto aguarda ansiosamente a sua vez. Diante do sil\u00eancio de quem as distribui, ele pergunta se chegou algo em seu nome e recebe, h\u00e1 quinze anos, a mesma resposta: \u201cNingu\u00e9m escreve ao Coronel\u201d. Mas ele aguarda.<\/p>\n<p>Disposto a viver na mis\u00e9ria at\u00e9 que ela chegue, a esposa aponta: \u201cEstamos apodrecendo vivos\u201d, em outro momento, suplica para que ele fa\u00e7a algo diferente al\u00e9m de esperar. O Coronel tenta prover algo al\u00e9m da mis\u00e9ria por meio de um galo de briga deixado pelo falecido filho. Afirma, em outubro, que, no m\u00eas de janeiro, o galo dar\u00e1 muito dinheiro, mas at\u00e9 l\u00e1, tiram de suas bocas para dar alimento ao animal e, novamente, espera. Espera que a carta chegue e mude sua vida. Espera que o galo ganhe, em janeiro, e sejam capazes de comprar comida.<\/p>\n<p>Heidegger (2011) foi um dos estudiosos que mais dedicou tempo para estudar o t\u00e9dio e sua rela\u00e7\u00e3o com a expectativa que surge ao esperar. Em seu livro \u201cOs Conceitos Fundamentais da Metaf\u00edsica\u201d, desenvolve sobre esse tema ao estudar as dimens\u00f5es do <em>Dasein<\/em>, ser-a\u00ed. Apresenta o t\u00e9dio como o que nos aproxima de n\u00f3s mesmos e a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o tempo. Ao se deparar com o t\u00e9dio, o tempo seria alongado, e cada um construiria uma rela\u00e7\u00e3o com o que o estagna ou o estica. Para ele, existem tr\u00eas n\u00edveis de t\u00e9dio: 1. Quando se entedia por alguma coisa, o que leva a um alongamento do tempo. 2. Entediar-se junto a algo, em que o tempo \u00e9 estagnado. 3. Entediar algu\u00e9m, em que estaria localizado o t\u00e9dio profundo no <em>dasein,<\/em> que pr\u00f3prio n\u00e3o se reconhece. (Heidegger, 2011)<\/p>\n<p>Em um outro contexto, o t\u00e9dio \u00e9 extra\u00eddo por Miller (2017) do texto \u201cTelevis\u00e3o\u201d, de Lacan (1974\/1993), como uma das paix\u00f5es do <em>parl\u00eatre<\/em>. Nesse texto, o falasser viria a se encontrar com o t\u00e9dio na medida que est\u00e1 diante de um Outro do qual nada necessita. Lacan d\u00e1 o exemplo da beatitude, uma satisfa\u00e7\u00e3o plena que faz com que o Outro seja identificado como Um e que, como consequ\u00eancia, instaura uma repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste caminho, Lacan, em seu Semin\u00e1rio 26, constr\u00f3i que o t\u00e9dio \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o dolorosa da repeti\u00e7\u00e3o, em termos de uma monotonia. Essa coincide com \u201cqualquer coisa da ordem do desgaste da met\u00e1fora paterna\u201d (p. 53), presentificando um encontro com um Outro que n\u00e3o \u00e9 barrado e que pode viver um gozo em que n\u00e3o lhe falte nada. Laurent (2004) acrescenta: \u201cEl tedio es siempre del orden del Uno que se repite\u201d (p. 78)<\/p>\n<p>Sobre o tema, Miller (2017) adiciona \u201cel aburrimiento naci\u00f3 un d\u00eda de la uniformidad\u201d (p. 467). Neste sentido, podemos pensar no que se inscreveu antes mesmo do Coronel esperar a carta, Marquez nos conta: \u201cHavia cinquenta e seis anos &#8211; desde que acabara a \u00faltima guerra civil &#8211; que ele n\u00e3o fazia outra coisa sen\u00e3o esperar\u201d (p. 5). Ora, a carta \u00e9 s\u00f3 mais um Um que lhe posiciona frente ao gozo sem sentido que ele repete, da espera.<\/p>\n<p>Instaurada a monotonia da repeti\u00e7\u00e3o, passar fome em outubro \u00e9 o mesmo que passar fome at\u00e9 janeiro. Ao mesmo tempo que nos encontramos com um Coronel v\u00edtima de um corpo que sofre ciclicamente com o gozo tedioso da espera sem causar qualquer retifica\u00e7\u00e3o. \u201cAcontece que, em Outubro, eu me sinto como se estivesse com as tripas cheias de bicho\u201d (p. 14), e mesmo assim, o Outubro chegou como os mesmos outros quinze para ele. Antelo (2017) comenta que, no t\u00e9dio, uma das paix\u00f5es do Um, n\u00e3o existe a troca do ruminar pela a\u00e7\u00e3o. Neste caso, lemos o padecimento que n\u00e3o conversa com o sentido. (Antelo, 2017)<\/p>\n<p>Ao final, depois de dias e dias de fome, tendo pegado fiado em todas as vendinhas da vila, a esposa do Coronel, suplica-lhe que vendesse os tr\u00eas \u00fanicos bens que sobravam: um quadro de ninfa, um rel\u00f3gio de dar corda e o galo. Os dois primeiros ningu\u00e9m se interessou o bastante e o terceiro, ainda viria a dar dinheiro em janeiro. Desesperada, a esposa do Coronel lhe sacode com for\u00e7a e pergunta: \u201cDiga, o que n\u00f3s vamos comer?\u201d Ao que o Coronel responde \u201cMerda.\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>Antelo, M. 2017. Paix\u00e3o Ordinariamente Louca. <a href=\"https:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2017\/paixao-ordinariamente-louca\/\">https:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2017\/paixao-ordinariamente-louca\/<\/a><\/h6>\n<h6>Lacan, J. 1993. Televis\u00e3o<\/h6>\n<h6>Lacan, J. 1978-1979. Semin\u00e1rio 26. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>Laurent, E. 2004. Los objetos de la pasi\u00f3n<\/h6>\n<h6>Heidegger, M. 2011. Os Conceitos Fundamentais da Metaf\u00edsica<\/h6>\n<h6>M\u00e1rquez, G. 1980. Ningu\u00e9m escreve ao coronel.<\/h6>\n<h6>Miller, J. A. 2017. Extimidad<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> O personagem \u00e9 intitulado somente de Coronel na obra.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caroline Cabral Quixabeira Participante da Nova Pol\u00edtica da Juventude Gabriel Garcia Marquez (1927-2014) renomado escritor colombiano, em seu livro \u201cNingu\u00e9m Escreve ao Coronel\u201d leva o leitor a viver um recorte de tr\u00eas meses da vida do Coronel[1], entre outubro e dezembro, que espera h\u00e1 15 anos uma carta. 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