{"id":278,"date":"2024-07-11T13:16:37","date_gmt":"2024-07-11T16:16:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=278"},"modified":"2024-07-12T16:52:25","modified_gmt":"2024-07-12T19:52:25","slug":"mau-humor-um-toque-do-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/mau-humor-um-toque-do-real\/","title":{"rendered":"Mau Humor: um toque do real"},"content":{"rendered":"<h6>Wilker Fran\u00e7a &#8211; Associado do IPB<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-279\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Mau-humor-imagem-300x229.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Mau-humor-imagem-300x229.jpeg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Mau-humor-imagem-1024x780.jpeg 1024w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Mau-humor-imagem-768x585.jpeg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Mau-humor-imagem.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<ul>\n<li>Tem veneno pra rato?<\/li>\n<li>Tem! Vai levar? &#8211; pergunta o balconista.<\/li>\n<li>N\u00e3o, vou trazer os ratos pra comer aqui! &#8211; responde seu Lunga.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Seu Lunga \u00e9 um poeta residente em Juazeiro do Norte, conhecido, em todo Brasil, pela sua impaci\u00eancia e mau humor. In\u00fameras de suas respostas \u00e0s perguntas do cotidiano viraram versos de cordel. Ruy Castro, escritor e jornalista, lan\u00e7ou um livro intitulado \u201cMau humor\u201d com cita\u00e7\u00f5es \u00e1cidas de personalidades conhecidas. Cito algumas:<\/p>\n<p>\u201cSe duas pessoas se amam, n\u00e3o pode haver final feliz\u201d &#8211; Ernest Hemingway<\/p>\n<p>\u201cFeliz anivers\u00e1rio! Pode ser o \u00faltimo\u201d &#8211; Robert Benayoun<\/p>\n<p>Em alguma medida, o autor equivale as frases ir\u00f4nicas como express\u00e3o do mau humor. A ironia, diferente do humor, atesta a inexist\u00eancia do Outro, j\u00e1 nos ensinou Miller (1996). Portanto, o mau humor estaria mais pr\u00f3ximo da ironia? Do que se trata mesmo o mau humor? Seria o contr\u00e1rio do bom humor?<\/p>\n<p>Miller (2010b) considera este afeto como uma das paix\u00f5es do objeto <em>a<\/em>, a partir do que Lacan nomeou em televis\u00e3o, de paix\u00f5es da alma. Diferente das paix\u00f5es do ser, que s\u00e3o paix\u00f5es que fazem la\u00e7o com o Outro, essas paix\u00f5es s\u00e3o paix\u00f5es de separa\u00e7\u00e3o do Outro, escapam ao enquadre fantasm\u00e1tico e apresentam uma esp\u00e9cie de soldadura entre o saber inconsciente e o gozo.<\/p>\n<p>Esta paix\u00e3o, sugere Miller (2010b), tem rela\u00e7\u00e3o inclusive com a felicidade tal qual Lacan pensou em Televis\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O mau humor poderia ser um pecado, como recorda Lacan, se n\u00e3o for nada al\u00e9m de tristeza. Poderia ser um gr\u00e3o de loucura se se tratar de uma paran\u00f3ia. Mas pode ser um verdadeiro toque do real se quiser dizer &#8211; e por isso n\u00e3o \u00e9 em absoluto incompat\u00edvel com a felicidade de todos (&#8230;)\u201d (p. 467).<\/p>\n<p>O mau humor ent\u00e3o est\u00e1 atrelado a impossibilidade de suportar o real, visto que o real sempre escapa ao significante, ou seja, \u00e9 uma paix\u00e3o que surge diante da impossibilidade de uma harmonia entre significante e gozo. \u00c9 nessa dire\u00e7\u00e3o que Laurent (2019), interrogando esse \u201ctoque de real\u201d que Lacan atrela ao mau humor, relaciona-o com a impossibilidade estrutural, posto que \u201cn\u00e3o \u00e9 isso\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, n\u00e3o se trata disso. O objeto pequeno <em>a<\/em> \u00e9 sempre um resto e nunca A Coisa como tal. Estando o objeto sempre perdido, esta paix\u00e3o do objeto <em>a<\/em> seria um modo de \u201csuperar la insatisfacci\u00f3n hist\u00e9rica o el aislamiento obsesivo\u201d (p.57). Seria o que resta de um recha\u00e7o \u00e0 felicidade da repeti\u00e7\u00e3o. Completa Laurent (2019):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">La repetici\u00f3n de la demanda impone un cierto modo de felicidad y, en esta felicidad, hay insatisfacci\u00f3n, aislamiento, todos los mecanismos neur\u00f3ticos, mientras que, en el mau humor, la felicidad de la repetici\u00f3n se completa con un \u201cno es esto\u201d del objeto peque\u00f1o a, no es La Cosa (p. 57).<\/p>\n<p>Ou seja, o mau humor seria um afeto que escapa a linguagem e que resta diante da impossibilidade de capturar A Coisa mesma. Importante destacar que essa paix\u00e3o, por escapar \u00e0 linguagem, n\u00e3o faz demanda, n\u00e3o deixa o outro culpabilizado, \u201csin producir un infierno dom\u00e9stico\u201d, sinaliza Laurent (2019, p. 57).<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Lacan era conhecido por experimentar esse afeto. No livro \u201cLa vie de Lacan\u201d, Miller (2010a) relata que, \u00e0 medida que a doen\u00e7a ia progredindo, Lacan foi ficando mais quieto em seus semin\u00e1rios. E qualquer obst\u00e1culo era recebido de forma impaciente, pois era sentido como um doloroso empecilho ao seu progresso intelectual. Em seus \u00faltimos dois anos de vida, Lacan experimentou \u201cuma agudeza de mau humor\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>,\u00a0 j\u00e1 presente anteriormente nele.<\/p>\n<p>Todo <em>falasser<\/em> precisa se arranjar diante de uma perturba\u00e7\u00e3o do humor fundamental que \u00e9 estrutural e n\u00e3o biol\u00f3gica. A separa\u00e7\u00e3o do j\u00fabilo da imagem \u00e9 sempre uma bricolagem, afinal, h\u00e1 uma desarmonia estrutural entre significante e gozo. Por isso mesmo, cada um \u00e9 mais ou menos depressivo, mais ou menos man\u00edaco. O mau humor seria o contr\u00e1rio do entusiasmo, que \u00e9 um afeto que est\u00e1 mais do lado da mania. Os dois apresentam esse \u201ctoque do real\u201d, contudo, diante da express\u00e3o \u201cn\u00e3o \u00e9 isso\u201d e n\u00e3o haver\u00e1 nada melhor, responde-se a essa constata\u00e7\u00e3o de uma forma entusiasta, o lado positivo do humor ou, a partir do seu lado negativo, o mau humor (LAURENT, 2019).<\/p>\n<p>Sabemos que h\u00e1 muitos relatos de passe que falam sobre uma esp\u00e9cie de entusiasmo no final de uma an\u00e1lise e n\u00e3o do mau humor. Falta entusiasmo aos mau humorados a escolha pelo passe? A pergunta sobre a rela\u00e7\u00e3o da ironia com esta paix\u00e3o segue aberta: A ironia seria uma esp\u00e9cie de tratamento poss\u00edvel para o mau humor?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (2003). Televis\u00e3o. In J. Lacan. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. Los objetos de la pasi\u00f3n. Buenos Aires: Tres Haches, 2019.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2010a). Vie de Lacan. In Cours d\u2019Orientation Lacanienne III. In.: <a href=\"https:\/\/www.podcastjournal.net\/Lacan-revit-et-meurt-a-Nice_a11279.html\">https:\/\/www.podcastjournal.net\/Lacan-revit-et-meurt-a-Nice_a11279.html<\/a><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A (2010b) Extimidad. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cClinica ir\u00f4nica\u201d. In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Alus\u00e3o ao \u201cEu te pe\u00e7o que recuses o que te ofere\u00e7o, porque n\u00e3o \u00e9 isso\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> &#8220;<em>une acuit\u00e9 de mauvaise humeur<\/em>&#8220;<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilker Fran\u00e7a &#8211; Associado do IPB Tem veneno pra rato? Tem! Vai levar? &#8211; pergunta o balconista. N\u00e3o, vou trazer os ratos pra comer aqui! &#8211; responde seu Lunga. Seu Lunga \u00e9 um poeta residente em Juazeiro do Norte, conhecido, em todo Brasil, pela sua impaci\u00eancia e mau humor. In\u00fameras de suas respostas \u00e0s perguntas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-278","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=278"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":295,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/278\/revisions\/295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=278"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}