{"id":204,"date":"2024-06-08T09:58:26","date_gmt":"2024-06-08T12:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?p=204"},"modified":"2024-06-10T14:10:54","modified_gmt":"2024-06-10T17:10:54","slug":"um-grito-sobre-a-angustia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/um-grito-sobre-a-angustia\/","title":{"rendered":"Um grito sobre a ang\u00fastia"},"content":{"rendered":"<h6>por Kleyanne Lima (IPB) e Quezia Menezes<\/h6>\n<figure id=\"attachment_182\" aria-describedby=\"caption-attachment-182\" style=\"width: 242px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-182\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/boletim001_005-242x300.jpg\" alt=\"\" width=\"242\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/boletim001_005-242x300.jpg 242w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/boletim001_005.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 242px) 100vw, 242px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-182\" class=\"wp-caption-text\">Edvard Munch, \u201c O Grito\u201d, 1893.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que falar sobre a ang\u00fastia, se o que a gente sabe \u00e9 sentir?\u00a0 Esse afeto que n\u00e3o engana, segundo Lacan (1962-63\/2005), e que \u00e9 sentido no corpo como um efeito do significante que marca o <em>falasser<\/em>, ang\u00fastia que por vezes surge na garganta como um n\u00f3. \u00c9 por meio da ang\u00fastia que algo do inconsciente emerge e com ele, a possibilidade de um sujeito advir.<\/p>\n<p>Em sua obra expressionista, Munch tenta transmitir as emo\u00e7\u00f5es, deixando de lado o equil\u00edbrio formal e contornos n\u00e3o lineares &#8211; at\u00e9 ent\u00e3o caracter\u00edsticos de outros movimentos &#8211; buscando, por meio das cores intensas, escuras e do seu tra\u00e7o sinuoso, retratar a dor, o desespero, as sombras da pr\u00f3pria ang\u00fastia humana, de algo incompreens\u00edvel que est\u00e1 al\u00e9m da simboliza\u00e7\u00e3o e do que \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel por meio da palavra.<\/p>\n<p>O personagem que captura nosso olhar ao centro da tela parece exibir uma solid\u00e3o, um desolamento que \u00e9 pr\u00f3prio do sujeito angustiado. Nessa vertente da ang\u00fastia que paralisa, o sujeito aparece desolado, \u00e0 deriva, imerso na solid\u00e3o, o sujeito grita. Um grito que expressa o real em jogo, num sem sentido e gozo puro, como um apelo ao Outro que, neste momento, se encontra desarticulado e sem falta. Como comenta Miller (2005), \u00e9 quando alguma coisa aparece no lugar da castra\u00e7\u00e3o, uma quantidade suplementar de estimula\u00e7\u00e3o pulsional, que faz surgir a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, Munch relata o momento em que esse afeto o atravessa:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu estava a passear c\u00e1 fora com dois amigos e o sol come\u00e7ava a p\u00f4r-se.\u00a0 De repente, o c\u00e9u ficou vermelho, cor de sangue. Eu parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma mureta, havia sangue e l\u00ednguas de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade. Os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, em p\u00e9, a tremer de ansiedade e senti um grito infind\u00e1vel da natureza\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Munch, esse pintor atravessado por suas paix\u00f5es, para al\u00e9m do belo e do est\u00e9tico, parece fazer da ang\u00fastia fundamentalmente humana uma obra de arte. Aqui talvez possamos pensar na possibilidade de um acordo entre significante e gozo, no qual o n\u00f3 na garganta se desemaranha e de um \u201cGrito\u201d se funda um la\u00e7o que perpassa \u00e9pocas.<\/p>\n<p>Diante dessa obra atemporal, somos convocados, juntamente com nossas paix\u00f5es, a pensar na seguinte quest\u00e3o: qual tratamento poss\u00edvel diante do <em>falasser<\/em> afetado pela ang\u00fastia, hoje?<\/p>\n<p>Para Lacan (1960 &#8211; 1961\/2010), o rem\u00e9dio para a ang\u00fastia \u00e9 o desejo e ele s\u00f3 se constitui quando a mesma \u00e9 ultrapassada. Portanto, \u00e9 preciso ofertar a quem sofre um lugar onde se possa apostar na palavra, apostar que \u201co <em>falasser<\/em> encontre uma inven\u00e7\u00e3o que s\u00f3 \u00e9 compreendida por ele mesmo\u201d (Lima, 2016), uma inven\u00e7\u00e3o que possa fazer furo nessa ang\u00fastia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1962-63\/2005). O Semin\u00e1rio, Livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1960- 1961\/2010). O Semin\u00e1rio, Livro 8: A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor<\/h6>\n<h6>\u00a0Lima, M. M. (2016). Forma\u00e7\u00e3o do analista e universidade: algumas assimetrias. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie Ano 7, N\u00famero 21.<\/h6>\n<h6>Miller, J. A. (2005). Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do Semin\u00e1rio da Ang\u00fastia de Jacques Lacan. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba 43, p 73.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Kleyanne Lima (IPB) e Quezia Menezes O que falar sobre a ang\u00fastia, se o que a gente sabe \u00e9 sentir?\u00a0 Esse afeto que n\u00e3o engana, segundo Lacan (1962-63\/2005), e que \u00e9 sentido no corpo como um efeito do significante que marca o falasser, ang\u00fastia que por vezes surge na garganta como um n\u00f3. \u00c9&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-204","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=204"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":214,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/204\/revisions\/214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=204"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}