{"id":650,"date":"2024-10-17T06:26:15","date_gmt":"2024-10-17T09:26:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?page_id=650"},"modified":"2024-10-17T19:04:54","modified_gmt":"2024-10-17T22:04:54","slug":"relatorio-tema-3-a-paixao-na-experiencia-analitica-manejos-e-arranjos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/a-jornada\/grupos-de-trabalho-apresentacao\/relatorio-tema-3-a-paixao-na-experiencia-analitica-manejos-e-arranjos\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio &#8211; Tema 3: A Paix\u00e3o na experi\u00eancia anal\u00edtica: manejos e arranjos"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<strong>Coordenadora<\/strong>: S\u00f4nia Vicente (AME EBP\/AMP)<\/p>\n<p><strong>\u00caxtima:<\/strong> Marina Recalde (AME EOL\/AMP)<\/p>\n<p><strong>Relatores<\/strong>:<br \/>\nSamyra Assad (EBP\/AMP)<br \/>\nRog\u00e9rio Barros (EBP\/AMP)<\/p>\n<p><strong>Participantes:<br \/>\n<\/strong>Analicea Calmon (AME EBP\/AMP)<br \/>\nClara Melo (IPB)<br \/>\nEthel Ferreira Poll (IPB)<br \/>\nLuiz Felipe Monteiro (EPB\/AMP)<br \/>\nMaria Luiza Mota Miranda (EBP\/AMP)<br \/>\nWaldomiro J. Silva Filho (UFBA)[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;673&#8243; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space]<div class=\"vcex-multi-buttons wpex-flex wpex-flex-wrap wpex-items-center wpex-gap-10 wpex-justify-center\"><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/GT-003.pdf\" class=\"theme-button flat outline-transparent wpex-text-center vcex-count-1\">Baixar este documento<\/a><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Relatorios-GTs.pdf\" class=\"theme-button flat outline-transparent wpex-text-center vcex-count-2\">Baixar todos os textos<\/a><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space]<div class=\"vcex-module vcex-divider vcex-divider-solid vcex-divider-center wpex-mx-auto wpex-block wpex-h-0 wpex-border-b wpex-border-solid wpex-border-main\" style=\"border-color:currentColor;\"><\/div>[vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h3><span style=\"color: #000080;\">GT 3: A paix\u00e3o na experi\u00eancia anal\u00edtica: manejos e arranjos<\/span><\/h3>\n<p><strong>O inconsciente e o corpo<\/strong><\/p>\n<p>O corpo falante foi o ponto de partida da constru\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, quando os sintomas conversivos das hist\u00e9ricas come\u00e7aram a ser interpretados por Freud. Tal interpreta\u00e7\u00e3o consistia em traduzir a linguagem corporal, configurada no sintoma, em texto desconhecido para o sujeito.<\/p>\n<p>Desde essa \u00e9poca, vemos que, no campo da Psican\u00e1lise, tanto para os analisandos, quanto para os analistas, os corpos n\u00e3o param de falar. Esses corpos que falam s\u00e3o interpretados. Lacan, no in\u00edcio do seu ensino, acrescenta, \u00e0 refer\u00eancia ao corpo das hist\u00e9ricas, o sofrimento do obsessivo no pensamento, lembrando que se pensa tamb\u00e9m com o corpo.\u00a0Sabemos que h\u00e1 palavras que afetam o corpo fazendo rir ou chorar, o que faz supor um registro no qual os pensamentos t\u00eam uma incid\u00eancia direta sobre o corpo, sem media\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, por exemplo, nos diz sobre a ang\u00fastia, definindo-a como um afeto que n\u00e3o engana, o que a distingue dos sentimentos que mentem.<\/p>\n<p>Fazendo um paralelo com os corpos afetados das hist\u00e9ricas de Freud, evocamos a surra de Joyce, tal como Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> a comenta, a partir de uma confid\u00eancia feita pelo pr\u00f3prio Joyce<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> em\u00a0<em>Retrato do artista quando jovem.\u00a0<\/em>Ele conta que tomou uma surra, mas que n\u00e3o guardou rancor porque tudo se esvaiu como\u00a0uma casca. Isso mostra a rela\u00e7\u00e3o imperfeita de Joyce com o seu corpo, tanto quanto a rela\u00e7\u00e3o das hist\u00e9ricas, o que faz pensar que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o perfeita com o corpo. Quem tem um saber sobre o seu corpo, como diz Graciela Brodsky<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, s\u00e3o os esquizofr\u00eanicos que, a exemplo de Schreber, sabem que h\u00e1 um corpo que se transforma e que os \u00f3rg\u00e3os podem se perder ou n\u00e3o funcionar. Os neur\u00f3ticos, ao contr\u00e1rio, nada sabem de seus corpos e nada querem saber.<\/p>\n<p>Mas a refer\u00eancia a Joyce, que n\u00e3o experimenta nenhum afeto quando lhe d\u00e3o uma surra, vai suscitar uma maior precis\u00e3o do que chamamos de\u00a0<em>afeto<\/em>, que se distingue de sentimentos e emo\u00e7\u00f5es. Quando se diz que algo \u00e9 afetado, significa que se produziu um impacto.<\/p>\n<p>Enquanto Freud ensina que o que n\u00e3o se sabe sobre o que se passa no corpo, que nos \u00e9 alheio, tem a ver com o inconsciente, Lacan nos mostra que a rela\u00e7\u00e3o de Joyce com o corpo tem a ver com a imagem confusa que temos do nosso pr\u00f3prio corpo. Al\u00e9m disso, o que se sabe ou n\u00e3o sobre o que se passa no corpo depende da incid\u00eancia do significante.<\/p>\n<p><strong>O conceito de <em>parl\u00eatre<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O termo de Lacan <em>parl\u00eatre<\/em>, lido por n\u00f3s como falasser, substitui o inconsciente de Freud e prop\u00f5e uma nova conex\u00e3o entre as palavras e as coisas, bem como, ao analista, uma orienta\u00e7\u00e3o pelo real. <em>Parl\u00eatre<\/em> traz a ideia de que s\u00f3 h\u00e1 ser porque h\u00e1 fala e, ao falar, se goza, indo assim, al\u00e9m da frui\u00e7\u00e3o do ser, em dire\u00e7\u00e3o a uma ex-sist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em outras palavras, desde a origem h\u00e1 uma carga de paix\u00e3o, choque pulsional que amarra a vida ao corpo, o que conduz, logicamente, a dizer que a paix\u00e3o do <em>parl\u00eatre<\/em> carrega as Paix\u00f5es do Ser. Freud<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> j\u00e1 acenava para isso ao falar da primeira experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o conceito de <em>parl\u00eatre<\/em>, o gozo n\u00e3o se encontra mortificado pelo significante. Nessa perspectiva, a linguagem opera a partir dos efeitos de <em>al\u00edngua<\/em>, efeitos do que afeta e atravessa o corpo. Trata-se de um acontecimento traum\u00e1tico, contingente, cujo tra\u00e7o inaugura um <em>troumatisme<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> \u2013 marca primitiva de uma l\u00edngua no corpo. Essa marca fora do campo do sentido, que introduz o vazio inerente ao trauma inaugural da l\u00edngua no corpo, estar\u00e1 presente, de algum modo, no entanto, em cada elemento da l\u00edngua, sob a forma de uma resson\u00e2ncia dessa marca.<\/p>\n<p>Isso nos permite pensar o <em>parl\u00eatre <\/em>a partir da sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo e o corpo. Lacan nos diz que a rela\u00e7\u00e3o que o <em>parl\u00eatre<\/em> tem com seu corpo \u00e9 a cren\u00e7a: \u201cO <em>parl\u00eatre <\/em>adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Trata-se de criar um corpo falante a partir de uma rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente ali onde havia o sil\u00eancio da puls\u00e3o de um corpo que n\u00e3o falava a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, dizer que o percurso de uma an\u00e1lise sup\u00f5e as voltas da paix\u00e3o do corpo e da paix\u00e3o do significante. Se Lacan define o sinthoma como resultante do significante que afeta o corpo, v\u00ea-se, ent\u00e3o, que o que afeta \u00e9 o significante e o que \u00e9 afetado \u00e9 o corpo \u2013 acontecimento traum\u00e1tico, contingente:<em> troumatisme. <\/em><\/p>\n<p>De toda forma, Lacan chama de afeto a rela\u00e7\u00e3o peculiar do corpo com sua imagem confusa. E, \u201cQuando n\u00e3o sabemos que nome dar a esse sujeito que n\u00e3o se relaciona com os significantes, e sim com o corpo, o chamamos de\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Logo, abordar a paixa\u0303o endere\u00e7a ao enodamento significante e \u00e0 subst\u00e2ncia gozante sob a orienta\u00e7\u00e3o do real que e\u0301 \u201co mist\u00e9rio do corpo falante, e\u0301 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Nessa perspectiva, o real do gozo \u00e9 nossa orienta\u00e7\u00e3o, sendo, portanto, tomado como causa.<\/p>\n<p>Frente a essa tem\u00e1tica, escolhemos nos dedicar a\u0300 experi\u00eancia anal\u00edtica, j\u00e1 que, no percurso de Lacan, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pelo real. Se a psican\u00e1lise \u00e9 a experi\u00eancia do um a um, a paix\u00e3o \u00e9 como um rastro do singular do <em>parl\u00eatre<\/em>. Para ilustrar os manejos e arranjos frente a essa paix\u00e3o, utilizaremos mais adiante dois testemunhos de Passe \u2013 de Deborah Rabinovich e de Clotilde Leguil \u2013, enfatizando respectivamente a ignor\u00e2ncia e o amor, sem excluir o \u00f3dio, que \u00e9 estruturalmente a eles inerente.<\/p>\n<p>Assim, a paix\u00e3o do <em>parl\u00eatre <\/em>ser\u00e1 o ponto a ser alcan\u00e7ado neste percurso que se inicia pelas Paix\u00f5es do Ser, a partir do qual trabalharemos a paix\u00e3o do falasser, onde reside a l\u00f3gica do Um.<\/p>\n<p>Devemos dizer que \u00e9 importante frisar que n\u00e3o se trata de uma evolu\u00e7\u00e3o entre as Paix\u00f5es do Ser e as do <em>parl\u00eatre<\/em>, se pensarmos a topologia entre o in\u00edcio e o fim de an\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Pontua\u00e7\u00f5es sobre as Paix\u00f5es do Ser <\/strong><\/p>\n<p>O tema das paix\u00f5es conduziu Freud ao seu primeiro trope\u00e7o cl\u00ednico, a descoberta do inconsciente, e, por conseguinte, a um novo caminho de sua pr\u00e1tica, que denominou psican\u00e1lise. Trataremos, primeiramente, das Paix\u00f5es do Ser \u2013 amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia \u2013, correlativos lacanianos da elabora\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente na transfer\u00eancia. Elas concernem \u00e0s paixo\u0303es da relac\u0327a\u0303o com o Outro, paix\u00f5es de aliena\u00e7\u00e3o, inscritas em um momento da teorizac\u0327a\u0303o lacaniana do sujeito do inconsciente enquanto falta-a-ser. Essas paix\u00f5es ent\u00e3o referem-se \u00e0 busca, no Outro, daquilo que poderia dar estofo \u00e0 falta<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nisso, o desejo, como demanda incondicional de aus\u00eancia ou de presen\u00e7a, evoca a falta-a-ser sob tr\u00eas figuras: o nada, que constitui o pano de fundo da demanda de amor; o ser do outro, que se quer anular no \u00f3dio; e o indiz\u00edvel, que aponta a ignor\u00e2ncia, o horror ao saber sobre a castra\u00e7\u00e3o, onde o desejo se perfila. <em>N\u00e3o quero saber nada disso<\/em> \u00e9 a frase em que a estrutura se manifesta, ou seja, o recalque radical.<\/p>\n<p>Quanto ao saber, \u00e9 interessante destacar que, nessas tr\u00eas formas da paixa\u0303o, ele \u00e9 constitu\u00eddo a partir do encontro com o Outro. Do lado do analisante, podemos nomear o amor como suposi\u00e7\u00e3o de saber, o \u00f3dio como dessuposi\u00e7\u00e3o de saber e a ignor\u00e2ncia como n\u00e3o querer saber. Do lado do analista, que opera como suporte da paixa\u0303o transferencial, a transfer\u00eancia e\u0301 o que sustenta essa rela\u00e7\u00e3o com o saber na sua articula\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/p>\n<p><strong>Amor:<\/strong><\/p>\n<p>O amor, na experi\u00eancia anal\u00edtica, e\u0301 a transfer\u00eancia. Uma pungente defini\u00e7\u00e3o, elaborada por Freud, com base nos fen\u00f4menos passionais encontrados em sua pr\u00e1tica cl\u00ednica, raz\u00e3o pela qual o significante paixa\u0303o foi frequentemente utilizado por ele para caracteriz\u00e1-la. A pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o suporta a paixa\u0303o sob transfer\u00eancia.<br \/>\nFreud, ao se dar conta desse la\u00e7o, se deparou com um par de contr\u00e1rios: o amor e o \u00f3dio. Em seu texto \u201cNossa atitude para com a morte\u201d,<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> ele nos diz que, ao trabalharmos com esse par, somos obrigados a manter desperto o amor e a renova\u0301-lo para protege\u0302-lo do \u00f3dio que, por tr\u00e1s dele, esta\u0301 a\u0300 espreita.<\/p>\n<p>Lacan<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, traduz essa pontua\u00e7\u00e3o, criando o neologismo <em>am\u00f3dio<\/em>, uma enamora\u00e7\u00e3o feita de amor e \u00f3dio (<em>hainamoration<\/em>), introduzindo-o na experi\u00eancia. Como falar \u00e9 em si um gozo, lembra que na\u0303o se conhece nenhum amor sem o\u0301dio. Assim, quanto menos se odeia (<em>hait<\/em>), menos se e\u0301 (<em>est<\/em>)<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>. Consequentemente, menos se ama.<\/p>\n<p>No entanto, ressaltamos que, em rela\u00e7\u00e3o ao par analista-analisando, a teoria freudiana da transfer\u00eancia tenta demonstrar que o que se estabelece vai al\u00e9m de uma relac\u0327a\u0303o imagin\u00e1ria. O amor surge como efeito da transfer\u00eancia por sua promessa de alcan\u00e7ar um saber sobre o ser, e querer ser amado sustenta o avan\u00e7o da an\u00e1lise pelos caminhos da verdade, do simb\u00f3lico. Se o amor na transfer\u00eancia se dirige ao saber, inversamente o saber fracassa ao dirigir-se ao amor, porque dele nada se pode saber, s\u00f3 temos palavras.<\/p>\n<p>Dessa forma, o discurso do amor e\u0301 clinicamente articulado a\u0300 falta do significante no Outro, S(A), lugar de onde o sujeito demanda ao perguntar: \u201cvoc\u00ea me ama?\u201d, \u201co que voc\u00ea ama em mim?\u201d. Tenta-se, assim, fazer passar algo do indiz\u00edvel ao dito, implicando ai\u0301 a dimens\u00e3o do imposs\u00edvel. Se o ser do sujeito \u00e9 definido como falta-a-ser, as palavras de amor tentam fazer supl\u00eancia a\u0300 relac\u0327a\u0303o sexual que na\u0303o existe.<\/p>\n<p>O amor, como paixa\u0303o cega cujo engodo se reflete na desilus\u00e3o, faz perceber que dois na\u0303o fazem um. O sofrimento amoroso e\u0301 um meio privilegiado de saber que se alimenta de uma falsa reciprocidade: ma\u0301scara de um duplo narcisismo, cujo efeito faz transparecer, no excesso da paixa\u0303o, o o\u0301dio ao amado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00d3dio:<\/strong><\/p>\n<p>O \u00f3dio, assim como o amor, est\u00e1 ligado a\u0300 transfer\u00eancia principalmente na sua dimens\u00e3o imagin\u00e1ria e funciona tamb\u00e9m como motor e obst\u00e1culo a\u0300 fala. Tenta destruir o ser do Outro, pois o falasser n\u00e3o quer saber da sua falta-a-ser. As palavras de \u00f3dio, as inj\u00farias, s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o para se fazer ser. Dizendo de outro modo, a inj\u00faria \u00e9 o que se consegue dizer quando falta o significante para nomear o que existe de ser do Outro.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica da qual o \u00f3dio procede expressa uma rela\u00e7\u00e3o de si com o Outro como objeto de \u00f3dio (estranho) e a Alteridade que nos habita (\u00edntimo). Isso denota uma tens\u00e3o entre o estranho e o \u00edntimo. Referimo-nos ao que foi nomeado por Lacan como Outro gozo. Outro, porque n\u00e3o \u00e9 suscept\u00edvel de nenhuma subjetiva\u00e7\u00e3o, s\u00f3 podendo ser reconhecido pelos seus efeitos.<\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e9, assim, consequ\u00eancia do Outro gozo, que o faz surgir \u2013 paixa\u0303o l\u00facida, que repousa na imputa\u00e7\u00e3o ao Outro na\u0303o somente de ser diferente, mas de obter, por ast\u00facia, uma parte indevida de gozo, \u00edndice de uma priva\u00e7\u00e3o. Nada se faz mais estrangeiro do que a interioridade. Esse e\u0301 o paradoxo do infamiliar, como o imposs\u00edvel de suportar por atingir o \u00a0ser.<\/p>\n<p>Queremos ressaltar que o \u00f3dio a si resulta de uma recusa, de uma rejei\u00e7\u00e3o (<em>Austossung<\/em>) do que \u00e9, ao mesmo tempo, familiar e estranho \u2013 acontecimento que se manifesta sempre sob o regime da intrus\u00e3o e expuls\u00e3o. O objeto eleito da experi\u00eancia do infamiliar, que nos habita \u00e9 a paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Ignor\u00e2ncia:\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Lacan, nos seus <em>Escritos<\/em>, traz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">O analista, com efeito, so\u0301 pode enveredar por ela [refere-se a\u0300 forma\u00e7\u00e3o] ao reconhecer em seu saber o sintoma de sua ignor\u00e2ncia [&#8230;]. A ignor\u00e2ncia, de fato, na\u0303o deve ser entendida aqui como aus\u00eancia de saber, mas, tal como o amor e o o\u0301dio, como uma paixa\u0303o do ser, a\u0300 semelhan\u00e7a deles, uma via em que o ser se forma [&#8230;]. O fruto positivo da revela\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia e\u0301 o na\u0303o-saber, que n\u00e3o e\u0301 uma nega\u00e7\u00e3o de saber, por\u00e9m sua forma mais elaborada, um sintoma.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O analista na\u0303o existe, mas um analista pode, levando a ignor\u00e2ncia ate\u0301 seu ponto sintom\u00e1tico, preservar esse furo que, se fosse preenchido, o tornaria um robo\u0302. \u00c9 interessante esse modo de enunciar que o analista deve \u201cvirar-se com\u201d para n\u00e3o cair na enfatuac\u0327a\u0303o. Afinal, \u00e9 preciso manter a ignor\u00e2ncia para sustentar a posi\u00e7\u00e3o do analista. Do lado do sujeito, tomar a ignora\u0302ncia como um sintoma pode ser pensado tambe\u0301m como um tratamento no percurso anal\u00edtico, cuja extra\u00e7\u00e3o de saber se liga \u00e0 forma mais elaborada da ignora\u0302ncia.<\/p>\n<p>Lacan toma o saber como correlato da ignor\u00e2ncia. Se a verdade na\u0303o e\u0301 o saber, ela e\u0301, propriamente, o na\u0303o saber. O discurso anal\u00edtico se situa na fronteira sens\u00edvel entre a verdade e o saber, ponto em que esta\u0301 preparado o terreno para se levantar a bandeira do na\u0303o saber. A ignor\u00e2ncia, n\u00e3o sendo um contraponto ao saber, e sim a sua forma mais elaborada, toca o sintom\u00e1tico. \u00c9 o traum\u00e1tico o que nos mostra o \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d do Passe de Deborah. Ela localiza precisamente o tratamento que deu ao \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d, enla\u00e7ando-o ao necess\u00e1rio e ao imposs\u00edvel \u2013 giro a partir do qual ela p\u00f4de se encontrar com esse \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d que marcou sua vida.<\/p>\n<p><strong>A paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia no <em>parl\u00eatre<\/em>: o passe de Deborah Rabinovich<\/strong><a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Vamos partir de uma cena que situa o que se fixa em termos da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe, e tamb\u00e9m inaugura seu empuxo ao que n\u00e3o cessa de se escrever, produzindo assim o sofrimento neur\u00f3tico: \u201cDomingo de manh\u00e3. Momento tranquilo, agrad\u00e1vel. Somente eu e minha m\u00e3e. Ela se arrumava em frente ao espelho do seu banheiro. Eu a observava. Uns raios de sol entravam pela janela. Toca o telefone. Naquela \u00e9poca, eram fixos. Tive que ir ao seu quarto para atender. Ainda n\u00e3o haviam levantado as persianas. O quarto estava \u00e0s escuras e com a cama ainda desfeita. Levanto o telefone. A\u00ed a irrup\u00e7\u00e3o do inesperado. Uma voz feminina me diz: \u2018Ol\u00e1 Deborah! Sou a namorada do seu pai\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Diz Deborah: \u201cEsse chamado me fraturou. Como todo trauma, foi totalmente aleat\u00f3rio. Um acontecimento acidental, um <em>touch\u00e9.<\/em> Frente a esse imprevisto, uma resposta. Mas minha m\u00e3e estava ali e perguntou quem era ao telefone. E, de pronto, respondi: \u201c<em>n\u00e3o sei, ningu\u00e9m<\/em>\u201d. A partir de ent\u00e3o, nada voltou a ser como era. Fiquei determinada por dois momentos: a chamada e a resposta que dei \u00e0 minha m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Nos testemunhos anteriores, Deborah havia conjugado esses dois momentos em uma cena traum\u00e1tica. Agora, a primeira parte implicou o imposs\u00edvel. A segunda, o necess\u00e1rio. Atrav\u00e9s da resposta, o sujeito ficou fixado na fic\u00e7\u00e3o. Lacan se refere a isso em \u201cO Aturdito\u201d, escrevendo \u201cfic\u00e7\u00e3o\u201d com \u201cx\u201d, <em>fix\u00e3o<\/em>. O que em franc\u00eas remete a \u201cfixo\u201d, <em>fixion<\/em>, \u201cuma fix\u00e3o do real, ou seja, do imposs\u00edvel que o fixa pela estrutura da linguagem\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. Deborah havia ignorado a fic\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se fixou. Ela, ent\u00e3o, diz: \u201cNo entanto, o escrevi uma e outra vez sem respiro. \u00c0 pergunta da minha m\u00e3e: \u2018Quem \u00e9?\u2019, respondi: \u2018N\u00e3o sei, ningu\u00e9m\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d, com o tempo, foi ganhando mais e mais amplitude. Come\u00e7ou na escola, desde o primeiro ano. E seguiu continuamente. N\u00e3o houve tese de doutorado, nem publica\u00e7\u00e3o, nem aula que viessem aplacar esse sentimento subjetivo. Eram formas de se dar uma volta a mais ao necess\u00e1rio, ao \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d<em>.<\/em><\/p>\n<p>O final teve a ver com o come\u00e7o. Depois de muit\u00edssimos anos, na sa\u00edda da an\u00e1lise, ela encontrou a entrada transformada. A primeira demanda havia se concretizado, quando, aos treze anos, tirou uma nota abaixo do esperado. Na porta de sa\u00edda tamb\u00e9m estava o \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d. N\u00e3o cessa, mas mudou seu estatuto. Isso surgiu nos dois \u00faltimos sonhos que relatou ao analista. Foram as duas \u00faltimas sess\u00f5es.<\/p>\n<p>A pen\u00faltima: \u201cAli, algo do meu sintoma se escreveu de outro modo. Escreveu-se com a leitura, que, ao despertar, fiz desse sonho. Mais precisamente, uma imagem desse sonho. Um rinoceronte. Li, como indica Freud na \u2018Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u2019, quando ele fala do <em>rebus<\/em>, ou enigma em imagens. Para essa leitura quase instant\u00e2nea, creio t\u00ea-la feito antes mesmo de abrir os olhos \u2013 usei o castelhano da minha l\u00edngua materna e o franc\u00eas, l\u00edngua da minha \u00faltima an\u00e1lise. O rinoceronte se distanciou da sua imagem, que, no entanto, ap\u00f3s esse sonho, me interpela. O rinoceronte tornou-se escrita, e com essa escritura, uma nova leitura. O \u2018ri\u2019 (de \u2018riso\u2019 em franc\u00eas, do qual tirei o \u2018t\u2019 mudo que carrega nesse idioma). O \u2018noce\u2019 foi o \u2018<em>n\u00e3o sei<\/em>\u2019, com \u2018s\u2019, aquele que me adormeceu<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> desde sempre. E o \u2018ceronte\u2019 tornou-se \u2018<em>zero honte<\/em>\u2019, que significa \u2018zero vergonha\u2019. Embora esteja longe de ficar em zero, tamb\u00e9m \u00e9 certo que est\u00e1 longe dessa inibi\u00e7\u00e3o que tanto me angustiava e me impedia\u201d.<\/p>\n<p>O \u00faltimo sonho: \u201cNa sala de espera da minha analista somos apenas duas pessoas. Ela, atraente, ruiva, de um pa\u00eds onde se fala outra l\u00edngua, nem castelhano, nem franc\u00eas, e eu. Sobre a mesa, um telefone ocupa o lugar das flores que sempre gostei de ver ali. Ela me pergunta, enquanto me mostra o telefone, como se chama essa parte que est\u00e3o escritos os n\u00fameros. Olho, penso e digo: \u2018<em>n\u00e3o sei<\/em>\u2019<em>.<\/em> E n\u00e3o sei em nenhum idioma. Acordo tranquila, nem ela, nem eu, e em nenhum idioma! Como podem ver, o \u2018<em>n\u00e3o sei<\/em>\u2019 \u00e9 ainda atual. No entanto, situar o imposs\u00edvel alivia a impot\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Esses fragmentos podem ser lidos como o modo pelo qual ela tenta situar o imposs\u00edvel com o qual se confronta ao final, que Deborah localiza em sua pr\u00f3pria leitura: \u201c<em>nem ela, nem eu, e em nenhum idioma<\/em>\u201d, o que alivia a impot\u00eancia. Podemos acrescentar: a impot\u00eancia que implicava a via do saber pela vertente epist\u00eamica, essa tentativa neur\u00f3tica desesperada que nada aplacava. Esse saber n\u00e3o se encontra nos livros. Havia ficado fixa nessa fic\u00e7\u00e3o, fixa a um falso \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d, localizando e se encaixando exatamente em sua histeria e sustentando a pergunta: como se \u00e9 mulher? Essa foi uma cena estruturante para ela, marcando o ritmo da sua inibi\u00e7\u00e3o. Esse tratamento dado em sua an\u00e1lise lhe permitiu precisamente situ\u00e1-lo em rela\u00e7\u00e3o ao imposs\u00edvel: nem ela, nem a Outra, nem ningu\u00e9m pode ter essa resposta. Ela sai dali com a decis\u00e3o de se apresentar ao Passe.<\/p>\n<p><strong>A paix\u00e3o do <em>parl\u00eatre: <\/em>o amor no passe de Clotilde Leguil<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 o testemunho de passe de Clotilde Leguil remete ao equ\u00edvoco inerente \u00e0 marca de uma l\u00edngua no corpo \u2013 o equ\u00edvoco da exist\u00eancia entre o O (zero) e o UM \u2013 e elucida o que seria esse \u201cfarrapo de discurso\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. A partir da\u00ed, se coloca uma \u201caltern\u00e2ncia m\u00ednima disso que pode vir a ser, [&#8230;] esse efeito m\u00ednimo de duas letras que se enla\u00e7a ao gozo e introduz toda a topologia\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>, que nos permite, por sua vez, observar como o final de um percurso conduz ao in\u00edcio ininterpret\u00e1vel da aquisi\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua.<\/p>\n<p>O sinthoma a\u00ed j\u00e1 surge como algo que vem reparar esse furo da linguagem a partir de um ponto que n\u00e3o se pode imaginarizar, ou seja, um tra\u00e7o que n\u00e3o faz par. O acento recai, portanto, sobre um \u201cfazer\u201d. Amar, ent\u00e3o, esse sinthoma, amar essa singularidade, \u00e9 um arranjo que exigiu muitas manobras e indicou um novo amor.<\/p>\n<p>Clotilde \u00e9 a primeira filha entre seus irm\u00e3os e, como tal, era-lhe destinado o lugar de ser um \u00eddolo, <em>idouly<\/em> na l\u00edngua francesa. Curiosamente, o nome da primeira irm\u00e3 da fam\u00edlia paterna, Iduli, traz uma homofonia entre os termos em franc\u00eas. Trata-se da primeira irm\u00e3 paterna que faleceu quando beb\u00ea, ao ingerir uma \u00e1gua (<em>d\u2019eau<\/em>) insalubre, cuja sonoridade da pron\u00fancia em franc\u00eas equivale a \u201c\u00f4\u201d. Essa morte sempre foi algo silenciado, apesar de sabida, tornando-se um imperativo, algo que n\u00e3o deveria ser contado, tal como um zero, e que, for\u00e7osamente, n\u00e3o deveria existir. Paradoxalmente, uma exist\u00eancia \u00e9 colocada em quest\u00e3o, sob a forma de um segredo a ser mantido na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nesse contexto, uma interpreta\u00e7\u00e3o orientada pelo real joga com a mat\u00e9ria sonora equ\u00edvoca que, por sua vez, remete \u00e0 opacidade do gozo<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> (<em>d\u2019eau<\/em> e \u201c\u00f4\u201d). Desse modo, a interpreta\u00e7\u00e3o colocou em evid\u00eancia a irrup\u00e7\u00e3o contingente de uma letra atrav\u00e9s de um equ\u00edvoco sonoro, favorecendo a leitura dessa escritura m\u00ednima, um equ\u00edvoco que indexou, portanto, o UM.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Podemos dizer que o encadeamento simb\u00f3lico, em torno do qual tudo girou e que teve o comando do significante \u201ca primeira\u201d, mesclou a morte em vida, sob a forma de um \u201cdesejo asfixiado\u201d. \u201cA primeira\u201d como filha e a morte da primeira irm\u00e3 do pai compuseram, para Clotilde, parte da trama simb\u00f3lica sintom\u00e1tica, a partir da qual poderia se situar uma verdade n\u00e3o dita que sofreu uma desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desconstru\u00e7\u00e3o, evidenciada em um sonho que trouxe, enfim, um ponto de basta na busca de sentido: em uma cidade estrangeira, ela perdia sua pr\u00f3pria filha, que lhe respondia, do fundo de um bueiro, \u201cestou aqui\u201d. Foi a\u00ed que algo que ela sempre soube, mas n\u00e3o queria saber, se tornou um enigma e uma surpresa ao mesmo tempo. Nesse momento, tem uma lembran\u00e7a encobridora: seu pai, enquanto fazia para ela a contagem dos seus cinco irm\u00e3os, mencionou o nome da sua irm\u00e3 falecida. Sua m\u00e3e se irritou e perguntou: \u201c\u00c9 preciso contar a primeira perdida?\u201d. O trauma se transformou em enigma da rela\u00e7\u00e3o com a morte no discurso materno.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o do gozo articulado a esse significante-mestre, \u201ca primeira\u201d, como o eco de um dizer no corpo, demostrou a uni\u00e3o entre surpresa e enigma. Logo, ela ressalta um \u201ceu estou aqui\u201d, ao parafrasear a filha perdida no bueiro que o seu sonho produziu. A filha perdida ganhou exist\u00eancia a partir do que se enumera, do que se pode, enfim, contar. Poder\u00edamos, ent\u00e3o, dizer que, na filha perdida, havia uma exist\u00eancia contraposta a um fundo de inexist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na conting\u00eancia provocada pelo sonho \u2013 \u201ceu estou aqui\u201d \u2013 foi poss\u00edvel trazer os significantes que se articulam em torno de uma escritura, que carregam entre si a marca do tra\u00e7o traum\u00e1tico pelo equ\u00edvoco sonoro da letra matem\u00e1tica em torno desse \u00f4\/zero\/\u00e1gua. Essa letra sempre a mesma, assim sucedendo: letra \u201co\u201d do seu grupo sangu\u00edneo, o \u201cO\u201d que falta na palavra <em>d\u00e9nuement<\/em> (\u201cpriva\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cindig\u00eancia\u201d) para se transformar em <em>d\u00e9n<strong>o<\/strong>uement<\/em> (\u201cdesfecho\u201d), a partir de uma escans\u00e3o que o analista lhe faz: <em>d\u00e9-n<strong>o<\/strong>ue-ment<\/em>.<\/p>\n<p>Essa letra matem\u00e1tica, \u201cO\u201d, demonstrar\u00e1 o \u201cfio de ouro do gozo\u201d, como diz Clotilde, por demonstrar em sua fun\u00e7\u00e3o ser sempre a mesma e, com isso, \u201csuas afinidades com o registro do real\u201d <a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>. Se o desfecho da sua an\u00e1lise foi marcado por um desapego do sentido, isso favoreceu morder a subst\u00e2ncia gozante, conjugando a\u00ed o corpo falante.<\/p>\n<p>Outro sonho: seu pai deixa um n\u00famero de telefone num peda\u00e7o de papel e lhe entrega. L\u00ea-se a\u00ed a escritura: 0 &#8211; 1. Dessas duas letras \u2013 o \u201cO\u201d contingencial da hist\u00f3ria da \u00e1gua ou o zero, e o 1 do significante-mestre \u201ca primeira\u201d, este que \u201cbateu\u201d, afetou seu corpo e em torno do qual tudo girou \u2013 emergiu o fato de que o traumatismo do seu encontro com a l\u00edngua estava a\u00ed. Ao se destacar o 0 do 1 trazido no sonho, acedeu-se ao inconsciente real, este que se l\u00ea, que se coloca mais al\u00e9m da verdade paterna e \u00e9, portanto, ininterpret\u00e1vel, ou seja, \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada mais para se ver desse lado\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>. Extrai-se, ent\u00e3o, o efeito de gozo na oposi\u00e7\u00e3o desses dois termos, quando esse Um se torna a letra que marcou a sua l\u00edngua, sob a forma de uma ex-sist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tornou-se decisivo encontrar esse 0 (zero) que antecede ao Um do tra\u00e7o paterno articulado simbolicamente para dar lugar ao desfiladeiro significante que visava o sentido. Ou seja, antes de ter um sentido, esse tra\u00e7o simb\u00f3lico teve um valor de gozo que repercutiu no corpo como eco de um dizer. A letra articulada ao significante n\u00e3o era mais casada com um significado, mas com um efeito de gozo. Assim, para Clotilde, seu final de an\u00e1lise implicou articular a letra (O) ao significante (Um), como efeito de gozo, n\u00e3o mais como esse significado se fez quando \u201ca morte\u201d e a \u201cprimeira\u201d se imiscu\u00edam. Ser a primeira e ao mesmo tempo perdida trouxe o que ela n\u00e3o conseguia nomear: sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo.<\/p>\n<p>Nomear o trauma, por fim, articulou o tra\u00e7o simb\u00f3lico e o valor de gozo, ou seja, um nome indica a forma em que o <em>parl\u00eatre <\/em>\u00e9 afetado pela l\u00edngua e introduz o vazio do sentido que conduziu ao desfecho da an\u00e1lise. Reconhece-se a\u00ed a parte do semblante que toca o real, agora disjunto de uma consequ\u00eancia. Isso diz do real como imposs\u00edvel, restando apenas \u201ca estranheza do que pode se dizer do amor ao inconsciente tal como ele \u00e9 lido\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O que foi desamarrado com a montagem inerente ao que deveria prevalecer de forma supereg\u00f3ica e essencial do significante-mestre \u2013 \u201cn\u00e3o se contar a primeira perdida\u201d \u2013 foi reatado de outra forma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e \u00e0 morte, ao se dispensar a verdade do pai. Houve uma queda do sentido que um significante mestre instituiu. Isso revelou um \u201cfundo de indetermina\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a> e, por conseguinte, fez com que restasse uma nova rela\u00e7\u00e3o com o vivo, uma nova rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente. Entrev\u00ea-se a\u00ed o que \u201cdeixaria um resto ex-sistente, [&#8230;] a virada da suposi\u00e7\u00e3o para a ex-sist\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a><sup>,<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a><\/sup>.\u00a0 O <em>parl\u00eatre<\/em> est\u00e1 submetido \u00e0 l\u00f3gica do Um.<\/p>\n<p>Clotilde experimenta um novo amor, ela passa a amar o que de mais singular existe em um <em>parl\u00eatre<\/em>. Como dissemos, esse novo amor como uma paix\u00e3o do <em>parl\u00eatre <\/em>contou com a indetermina\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 l\u00edngua a partir de uma primeira escritura. Isso transformou sua rela\u00e7\u00e3o com seus analisandos, ao oferecer a\u00ed o seu corpo atrav\u00e9s da satisfa\u00e7\u00e3o pela escuta da exist\u00eancia singular de cada um deles. A solu\u00e7\u00e3o que lhe adveio foi dirigida ao seu pr\u00f3prio of\u00edcio e \u00e0 feminilidade, que lhe permitiu amar um homem, separando-se assim da \u201cfam\u00edlia supereg\u00f3ica\u201d. Ela passa a amar o seu sinthoma, que faz um ponto de basta, ap\u00f3s o deslizamento de uma <em>varit\u00e9<\/em><a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Se disso adv\u00e9m um corpo po\u00e9tico, sua fun\u00e7\u00e3o implicar\u00e1 a revela\u00e7\u00e3o de que \u201ca linguagem n\u00e3o \u00e9 significa\u00e7\u00e3o, mas resson\u00e2ncia, e evidencia a mat\u00e9ria que, no som, excede o sentido\u201d<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>. Tal como a letra matem\u00e1tica 0 e o n\u00famero Um, demonstraram. Para Clotilde, uma letra tocou seu corpo, fazendo dele um corpo po\u00e9tico, se podemos assim dizer, sob o tom do eco de um dizer ao som vazio de sentido que precipitou a marca de uma l\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nas Paix\u00f5es do Ser, como aponta Koretzky<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>, o Outro \u00e9 o <em>locus<\/em> da causa significante do sujeito. Amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia s\u00e3o as paix\u00f5es que d\u00e3o forma ao ser, a partir do apelo por um complemento, sob a ilus\u00e3o de sutura da falta-a-ser. Entretanto, como Koretzky adverte, a despeito da paix\u00e3o do significante, busca-se no Outro a paix\u00e3o do objeto parcial. Nessa perspectiva, as Paix\u00f5es do Ser t\u00eam articula\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel com a paix\u00e3o do falasser. O v\u00e9u do amor, do \u00f3dio e da ignor\u00e2ncia s\u00e3o revestimentos simb\u00f3licos que mascaram a paix\u00e3o pelos objetos parciais. Desse modo, a paix\u00e3o liga-se a um objeto contido, supostamente, no Outro, como nos apresenta Miller<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a> em seu curso <em>Extimidade<\/em>.<\/p>\n<p>Pista como essa j\u00e1 encontramos na pr\u00f3pria apreens\u00e3o lacaniana no semin\u00e1rio <em>A transfer\u00eancia<\/em>,<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a> quando aborda o apaixonamento de Alceb\u00edades por S\u00f3crates, nos fazendo ver que, mais al\u00e9m do saber, a paix\u00e3o se revela a partir do agalma \u2013 objeto precioso, contido no Outro. Ao deslocar da paix\u00e3o pela via do significante \u00e0 busca apaixonada pelo objeto, em um s\u00f3 giro, inclui-se, sobre as Paix\u00f5es do Ser, a paix\u00e3o do <em>parl\u00eatre<\/em>, dando \u00e0 alma o seu nome pr\u00f3prio: objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o, assim, n\u00e3o concerne apenas \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o ao Outro, mas reporta, igualmente, ao objeto como res\u00edduo, resto da opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o. O objeto resto, ao final de an\u00e1lise, corresponde \u00e0 mesma parte de si perdida e colocada sobre o campo do Outro. O percurso de uma an\u00e1lise leva \u00e0 inconsist\u00eancia do Outro, apontando que a repeti\u00e7\u00e3o da busca pulsional pelo objeto encontra, no corpo, enquanto Outro, a satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o do falasser faz pensar especialmente na travessia da fantasia, porque diz respeito \u00e0s formas como se vive a puls\u00e3o. Atravessada a fantasia no percurso anal\u00edtico, h\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o do estatuto do Outro, que passa a ser meio de gozo \u2013 corpo, a quem n\u00e3o se pede mais garantia, pois \u201cse est\u00e1 sozinho no palco do mundo\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>. N\u00e3o se busca domestica\u00e7\u00e3o ou equil\u00edbrio, mas, a partir do ato e da autoriza\u00e7\u00e3o de si, retira-se as consequ\u00eancias pela responsabilidade no mundo.<\/p>\n<p>Sem expectativa, mas n\u00e3o sem paix\u00e3o, o final de uma experi\u00eancia de an\u00e1lise torna evidente a frui\u00e7\u00e3o de gozo que atravessa os corpos, em um mundo constru\u00eddo j\u00e1 sem as garantias e desgra\u00e7as das paix\u00f5es do Outro, paix\u00f5es do significante.<\/p>\n<p>Isso implica que a paix\u00e3o prim\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 atravessada pela falta, nem seu estofo \u00e9 suposto no Outro, mas pela \u00e9tica que conduz ao ato, sob a responsabilidade radical do pr\u00f3prio modo de gozar. Evidenciamos aqui a paix\u00e3o do falasser, que, no dispositivo anal\u00edtico, subsume as Paix\u00f5es do Ser, apontando ao Um, esse tra\u00e7o que marca o ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual. Nos dois passes apresentados, vimos como, no final do percurso, aparece um encontro com a l\u00edngua que favoreceu uma nova forma de ignor\u00e2ncia e am\u00f3dio.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/h6>\n<h6>Assad, S. O lapso no ato anal\u00edtico: sobre a antecipa\u00e7\u00e3o temporal. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 88, p. 138-143, out.\/nov. 2022.<\/h6>\n<h6>Brodsky, G. <em>Pasiones lacanianas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2019.<\/h6>\n<h6>Joyce, J. <em>Retrato do artista quando jovem<\/em>. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2001.<\/h6>\n<h6>Koretzky, C. Paix\u00f5es do ser, paix\u00f5es da alma. <em>La cause du d\u00e9sir<\/em><em>: Revue de <\/em>Psychanalyse, n. 93, 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2016-2-page-73.html\">https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2016-2-page-73.html<\/a>. Acesso em: 01 out. 2024.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/h6>\n<h6>Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: A transfer\u00eancia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Dulce Duque Estrada; revis\u00e3o de Romildo do R\u00eago Barros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original publicado em 1960-61).<\/h6>\n<h6>Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6>Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; vers\u00e3o final de Marcus Andr\u00e9 Vieira e prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).<\/h6>\n<h6>Laurent, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, abr. 2022a.<\/h6>\n<h6>Laurent, \u00c9. Coment\u00e1rio do testemunho de Clotilde Leguil. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, abr. 2022b.<\/h6>\n<h6>Leguil, C. L\u2019\u00e9v\u00e9nement traumatique, un \u201clambeau de discours\u201d. <em>R\u00e9vue de la Cause du d\u00e9sir<\/em>, n. 100, 2018.<\/h6>\n<h6>Leguil, C. O novo amor, um amor que faz ponto de basta.\u00a0<em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, p. 115-125, abr. 2022.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. A Ex-sist\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 33, jun. 2002.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. Pi\u00e8ces detach\u00e9es. <em>La Cause freudienne, <\/em>n. 62, mar, 2006.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. <em>Extimidade<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; vers\u00e3o final de Angelina Harari e prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lacan, J. A escrita do ego. In: <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 139-151. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Joyce, J. <em>Retrato do artista quando jovem<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2001.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Brodsky, G. <em>Pasiones lacanianas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Freud, S. Projeto para uma psicologia cientifica. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1990. p. 387-401. (Trabalho original publicado em 1950[1895]).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Neologismo de Lacan que condensa <em>trou<\/em> (buraco) e <em>traumatisme<\/em> (traumatismo).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, J. Joyce e o enigma da raposa. In: <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 59-74. (Trabalho original proferido em 1975-76). p. 64.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Brodsky, 2019, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73). p. 178.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> <em>Idem, ibidem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Freud, S. Nossa atitude para com a morte. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIV, 1974. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Lacan, 1972-73\/1985.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Trata-se de uma homofonia na l\u00edngua francesa entre esses dois termos, <em>hait<\/em> e <em>est<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Lacan, J. Variantes do tratamento-padr\u00e3o. In: <em>Escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 325-364. (Trabalho original publicado em 1955). p. 360.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Os fragmentos desse testemunho foram extra\u00eddos de dois textos: \u201cLas ficciones de la familia en el passe o de las ficciones del an\u00e1lisis a las ficciones del passe\u201d (apresentado em Belo Horizonte em 2017), e \u201cLo necess\u00e1rio y lo imposible\u201d (apresentado nas Jornadas de C\u00f3rdoba, em 26 e 27 de junho de 2015).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Lacan, J. O aturdito. In: <em>Outros Escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 448-500. (Trabalho original proferido em 1972). p. 480.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><\/a><sup>[17]<\/sup> Comich\u00e3o, que d\u00e1 dorm\u00eancia.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> Leguil, C. L\u2019\u00e9v\u00e9nement traumatique, un \u201clambeau de discours\u201d. <em>R\u00e9vue de la Cause du d\u00e9sir<\/em>, n. 100, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, abr. 2022a. p. 122.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> <em>Idem, ibidem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> Assad, S. O lapso no ato anal\u00edtico: sobre a antecipa\u00e7\u00e3o temporal. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 88, p. 138-143, out.\/nov. 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. Pi\u00e8ces detach\u00e9es. <em>La Cause freudienne<\/em>, n. 62, mar. 2006, p. 79.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9. Coment\u00e1rio do testemunho de Clotilde Leguil. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, abr. 2022b. p. 124.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup>[24]<\/sup><\/a> <em>Idem<\/em>, p. 125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><sup>[25]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; vers\u00e3o final de Marcus Andr\u00e9 Vieira e prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72). p. 125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\"><sup>[26]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. A Ex-sist\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 33, jun. 2002, p. 17.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><sup>[27]<\/sup><\/a> Miller (2002, p. 17) conceitua a exist\u00eancia, nesse mesmo texto, \u201ccomo resultado que permanece no exato momento em que apagamos a opera\u00e7\u00e3o da qual ele resulta. [&#8230;] o suposto permanece na depend\u00eancia direta daquilo que o apresenta e que, aqui, a condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser anulada. Nesse sentido, o uso dos termos como o praticamos, o que \u00e9 suposto n\u00e3o ex-siste\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup>[28]<\/sup><\/a> Neologismo de Lacan a partir dos termos \u201cverdade\u201d, <em>verit\u00e9<\/em>, e \u201cvaridade\u201d, <em>varit\u00e9<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><sup>[29]<\/sup><\/a> Laurent, 2022, p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><sup>[30]<\/sup><\/a> Koretzky, C. Paix\u00f5es do ser, paix\u00f5es da alma. <em>La cause du d\u00e9sir<\/em><em>: Revue de <\/em>Psychanalyse, n. 93, 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2016-2-page-73.html\">https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2016-2-page-73.html<\/a>. Acesso em: 01 out. 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><sup>[31]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. <em>Extimidade<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><sup>[32]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: A transfer\u00eancia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Dulce Duque Estrada; revis\u00e3o de Romildo do R\u00eago Barros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original publicado em 1960-61).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\"><sup>[33]<\/sup><\/a> Koretzky, 2016, p. 78.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Coordenadora: S\u00f4nia Vicente (AME EBP\/AMP) \u00caxtima: Marina Recalde (AME EOL\/AMP) Relatores: Samyra Assad (EBP\/AMP) Rog\u00e9rio Barros (EBP\/AMP) Participantes: Analicea Calmon (AME EBP\/AMP) Clara Melo (IPB) Ethel Ferreira Poll (IPB) Luiz Felipe Monteiro (EPB\/AMP) Maria Luiza Mota Miranda (EBP\/AMP) Waldomiro J. 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