{"id":645,"date":"2024-10-17T06:18:57","date_gmt":"2024-10-17T09:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/?page_id=645"},"modified":"2024-10-17T19:04:55","modified_gmt":"2024-10-17T22:04:55","slug":"relatorio-tema-4-o-humor-e-as-paixoes-do-falasser-e-suas-declinacoes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/a-jornada\/grupos-de-trabalho-apresentacao\/relatorio-tema-4-o-humor-e-as-paixoes-do-falasser-e-suas-declinacoes\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio &#8211; Tema 4: O Humor e as Paix\u00f5es do Falasser e suas declina\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Coordena<\/strong><strong>dora<\/strong><strong>:<\/strong> T\u00e2nia Abreu (EBP\/AMP)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>\u00caxtimo:<\/strong> Fabi\u00e1n Naparstek (AME EOL\/AMP)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Relatores:<br \/>\n<\/strong>Daniela Nunes Ara\u00fajo (EBP\/AMP)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Wilker Fran\u00e7a (IPB)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Participantes:<br \/>\n<\/strong>Bruno de Oliveira (IPB)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Karynna N\u00f3brega (EBP\/AMP)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">J\u00falia Jones (IPB)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Luiz Mena (EBP\/AMP)<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Virg\u00ednia Dazzani (IPB) <\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;672&#8243; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space]<div class=\"vcex-multi-buttons wpex-flex wpex-flex-wrap wpex-items-center wpex-gap-10 wpex-justify-center\"><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/GT-004.pdf\" class=\"theme-button flat outline-transparent wpex-text-center vcex-count-1\">Baixar este documento<\/a><a href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Relatorios-GTs.pdf\" class=\"theme-button flat outline-transparent wpex-text-center vcex-count-2\">Baixar todos os textos<\/a><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space]<div class=\"vcex-module vcex-divider vcex-divider-solid vcex-divider-center wpex-mx-auto wpex-block wpex-h-0 wpex-border-b wpex-border-solid wpex-border-main\" style=\"border-color:currentColor;\"><\/div>[vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]\n<h3><span style=\"color: #000080;\">GT 4: Os Usos do Humor na Experi\u00eancia Anal\u00edtica<\/span><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><strong>\u00a0<\/strong>Entre o corpo e o discurso h\u00e1 algo que os analistas se deleitam, chamando-o pretensiosamente, de afetos. \u00c9 evidente que voc\u00eas s\u00e3o afetados numa an\u00e1lise. (LACAN<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, 1971\/1972\/2012, p.220).<\/p>\n<p><strong>Introduzindo pelo fim<\/strong><\/p>\n<p>Existem diversas maneiras de abordar a experi\u00eancia anal\u00edtica e o seu final. Elegemos, para este trabalho, a via do humor e suas rela\u00e7\u00f5es com as paix\u00f5es do <em>falasser <\/em>considerando que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Lacan reintroduz as paix\u00f5es para pensar o final da an\u00e1lise, justo neste momento em que o sujeito vai ao encontro de uma radical aus\u00eancia de garantias, autorizando-se unicamente a partir de sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a causa anal\u00edtica. Momento este, em que j\u00e1 n\u00e3o se identifica com o objeto do fantasma fundamental e nem tampouco com o analista, e no qual o saber tem algo de derris\u00f3rio, de resto ca\u00eddo e rendido em face \u00e0 itera\u00e7\u00e3o do mesmo, do incur\u00e1vel do sinthome (MACEDO<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, 2019).<\/p>\n<p>Essa passagem fora recuperada por n\u00f3s no argumento do XIII Congresso de Membros da EBP, ocorrido em abril de 2019, durante o qual os membros da EBP se dedicaram a conversar sobre o \u201cJogo das Paix\u00f5es na Experi\u00eancia Anal\u00edtica\u201d, o que indica a pertin\u00eancia e a import\u00e2ncia do tema da\u00a0 XXVIII Jornadas da EBP Bahia e XXIV Jornadas do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia\u00a0 para a pr\u00e1xis anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Dito isso, retomaremos algumas experi\u00eancias de an\u00e1lise que chegaram ao fim e que os analisantes optaram pelo dispositivo do passe, atrav\u00e9s do qual compartilharam como fizeram a passagem do tr\u00e1gico ao c\u00f4mico:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Antes da \u00faltima sess\u00e3o uma colega me diz: \u201cTem um buraco no div\u00e3 do analista\u201d! Diante do que ironizo: \u201c\u00c9, deve ser o povo gordo que ele atende! \u201cVou dizer para ele que \u00e9 assim que o Brasil vai ficar se o \u201cCoiso\u201d ganhar\u201d. O humor diante do furo \u00e9 minha sa\u00edda. O analista encerra a sess\u00e3o, me acompanha at\u00e9 a porta, aperta minha m\u00e3o e diz: \u201c\u00c9 uma boa sa\u00edda!\u201d. N\u00e3o marca outra sess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Passo o final de semana inquieta, sem crer que chegara ao final e penso: \u201cAh, n\u00e3o! Pera\u00ed! Eu vou l\u00e1 saber se esse neg\u00f3cio terminou mesmo! Ao me ver ali, o analista na porta da sua sala me recebe com um \u201cHello\u201d! Surpreso. Entendo que n\u00e3o adianta mais continuar falando. Vou chegar ao infinito. Meu infinito particular! (ABREU<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, 2021)<\/p>\n<p>Reproduzimos aqui a passagem da \u00faltima sess\u00e3o de an\u00e1lise de T\u00e2nia Abreu, tal como fora escrita no seu \u00a0primeiro depoimento do passe e recentemente discutida no Encontro da AMP, na Conversa\u00e7\u00e3o sobre o Passe, em janeiro de 2024. Por que o interesse nessa passagem, quatro anos ap\u00f3s a sua nomea\u00e7\u00e3o? O interesse se deu pelo fato de que, nessa mesma Conversa\u00e7\u00e3o, alguns colegas a questionaram: \u201cO seu final se dera pelo humor ou pelo encontro com uma sa\u00edda da inibi\u00e7\u00e3o?\u201d. Em uma apresenta\u00e7\u00e3o, em setembro de 2023, durante a qual T\u00e2nia Abreu conversava com os colegas sobre a Forma\u00e7\u00e3o do Analista, e que contou com a presen\u00e7a de Guy Briole como convidado, este \u00faltimo ressaltou o lugar que a conting\u00eancia tivera na vida de T\u00e2nia e, consequentemente, em seus testemunhos. Eis que, durante a noite de apresenta\u00e7\u00e3o da nossa Jornada, com a presen\u00e7a do convidado Marcus Andr\u00e9 Vieira, Marcelo Veras questiona: \u201cQual o lugar do humor nas paix\u00f5es do <em>falasser?<\/em>\u201d. Contingencialmente, T\u00e2nia foi tomada pelo tema e, de imediato, ao ser\u00a0 fisgada por ele, convidou os demais colegas que comp\u00f5em este GT 4 para, com ela, pesquisarem os usos do humor na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Foi com alegria que o nosso colega Fabi\u00e1n Naparstek aceitou o convite para nos acompanhar como extimo. No GT 4 visamos trabalhar n\u00e3o s\u00f3 o lugar do humor e suas varia\u00e7\u00f5es no final da experi\u00eancia anal\u00edtica, mas tamb\u00e9m seus usos e manejos na diversidade da pr\u00e1tica cl\u00ednica<em>. <\/em>Sobre o final da pr\u00f3pria an\u00e1lise, T\u00e2nia conclui: \u201cO humor diante do furo \u00e9 minha sa\u00edda.\u201d Vejamos que articula\u00e7\u00f5es faremos que nos permitir\u00e1 entender esta passagem como uma sa\u00edda da an\u00e1lise. Desde j\u00e1 destacamos que o humor impl\u00edcito no tom do \u201chello\u201d\u00a0 emitido pelo analista ao ver T\u00e2nia no consult\u00f3rio, ap\u00f3s o final de semana, continha uma ironia que a levou a ler que, finalmente, s\u00f3 poderia ter voltado ali por ter se afastado do lugar de objeto que fora para o Outro, configurado na parceria sintom\u00e1tica com a inibi\u00e7\u00e3o. Trata-se de um fim selado pelo humor que, inicialmente, compareceu do lado da analisante e, depois, do analista.<\/p>\n<p>O objetivo deste t\u00f3pico \u00e9 configurar o chiste e o passe como tendo uma \u00fanica estrutura: ambos existem a partir de tr\u00eas elementos. Na estrutura de um chiste se distinguem tr\u00eas pessoas: \u201cal\u00e9m da que faz o chiste, deve haver uma segunda que \u00e9 tomada como objeto da agressividade hostil ou sexual e uma terceira na qual se cumpre o objetivo do chiste de produzir prazer\u201d (FREUD<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, 1996, p. 100). Freud (1905\/1996) definiu o chiste como uma forma de humor que envolve um jogo de palavras ou conceitos, gerando um prazer intelectual por meio da quebra de expectativas ou da revela\u00e7\u00e3o de significados ocultos. Segundo ele, o chiste serve como uma forma de liberar tens\u00f5es ps\u00edquicas, permitindo que desejos reprimidos ou pensamentos inconscientes se manifestem de maneira aceit\u00e1vel e socialmente consentida. Um exemplo cl\u00e1ssico de chiste \u00e9 um trocadilho ou uma piada que utiliza a ambiguidade de palavras para provocar riso, como no caso de uma piada sobre um m\u00e9dico que \u00e9 confundido com um paciente devido \u00e0 ambiguidade de uma express\u00e3o. Freud (1905\/1996) detalhou os mecanismos do chiste, como condensa\u00e7\u00e3o (quando dois pensamentos s\u00e3o combinados em um) e deslocamento (quando o significado \u00e9 transferido de uma ideia para outra).<\/p>\n<p>No caso do passe, trata-se de um dispositivo proposto por Lacan em 1967, dentre outras raz\u00f5es, para precisar o que \u00e9 um final de an\u00e1lise em sua orienta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de um simples fim cronol\u00f3gico, mas de um conceito. Com o postulado ortodoxo da an\u00e1lise did\u00e1tica e da liquida\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia defendidas pelos p\u00f3s-freudianos, a ideia de final de an\u00e1lise havia deslizado para a identifica\u00e7\u00e3o com o analista. A este prop\u00f3sito, Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> relembra que, para Lacan, o final de an\u00e1lise marca que o sujeito que da\u00ed resulta tornou-se um analista a partir da pr\u00f3pria an\u00e1lise, que o permitiu autorizar-se de si mesmo e n\u00e3o a partir da pr\u00e1tica cl\u00ednica, do n\u00famero de an\u00e1lises que conduziu.<\/p>\n<p>Miller (2023), em <em>Portraits de famille<\/em> (Retratos de Fam\u00edlia), nos incita a considerar a estrutura de <em>Witz<\/em> para o passe, tal como Freud nos prop\u00f5e, ou seja, a partir de tr\u00eas elementos. Essa estrutura est\u00e1 evidenciada no dispositivo do passe a partir dos componentes: o passante, o passador e o cartel do passe. Podemos arriscar a afirmar que essa \u00e9 a estrutura de base do pensamento psicanal\u00edtico para a constitui\u00e7\u00e3o do inconsciente, desde Freud?\u00a0 Sen\u00e3o, vejamos: para falar de puls\u00f5es, Freud afirma que elas se satisfazem no corpo pr\u00f3prio. Lendo Freud a partir do ultim\u00edssimo Lacan, podemos afirmar que s\u00f3 h\u00e1 gozo do corpo do Um. \u00c9 o que Freud nomeou de autoerotismo. Se segu\u00edssemos somente a modalidade freudiana da l\u00f3gica das puls\u00f5es parciais, nos manter\u00edamos no eixo das rela\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias. Lacan, entretanto, ao conceituar o movimento circular da puls\u00e3o, introduz, nessa equa\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o terceira do Outro, como no chiste. Sigamos Miller<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>: \u201cO objeto pequeno <em>a<\/em> pode ser visto, no esquema, como algo no Outro transportado pela trajet\u00f3ria pulsional ao campo do sujeito\u201d (1998, p. 25). Condi\u00e7\u00e3o tern\u00e1ria imposta pelo real do objeto <em>a<\/em>, que \u00e9, em sua estrutura, um furo. \u00c9 da\u00ed que partimos em uma experi\u00eancia anal\u00edtica e para onde voltamos ao final, quando passamos da impot\u00eancia \u00e0 impossibilidade de dizer da verdade que, em si, tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o. O encontro com a verdade mentirosa \u00e9 o cen\u00e1rio para passarmos da trag\u00e9dia \u00e0 com\u00e9dia do que foi nossa vida, de modo chistoso. Essa passagem da trag\u00e9dia para a com\u00e9dia \u00e9 o resultado do consentimento com a castra\u00e7\u00e3o e com o real, com a contig\u00eancia, ou seja, \u00e9 a passagem do Outro completo para o Outro n\u00e3o-todo, barrado. Vimos que na trag\u00e9dia h\u00e1 um Outro completo, enquanto na com\u00e9dia h\u00e1 sempre o Outro que falta. O fantasma tem sempre o destino de trag\u00e9dia (quando voc\u00ea cr\u00ea no pr\u00f3prio fantasma \u00e9 uma trag\u00e9dia) e a travessia do fantasma tem rela\u00e7\u00e3o com a passagem da trag\u00e9dia para o humor, quando se deixa de crer no supereu, que atenua a agressividade e passa a proteger e consolar o eu, como nos ensinou S\u00e9rgio de Campos (2015) a partir da transmiss\u00e3o do seu final de an\u00e1lise. De acordo com ele, \u201co humor n\u00e3o foi causa, instrumento, mas consequ\u00eancia do desalinhamento e da distens\u00e3o entre o eu e o supereu\u201d (CAMPOS<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>, 2015, \u00a0p. 263). Essa passagem da trag\u00e9dia \u00e0 com\u00e9dia (ou ao humor) seria um tratamento poss\u00edvel que se d\u00e1 ao supereu. Essa seria a dist\u00e2ncia necess\u00e1ria para se inventar maneiras de lidar com o real que n\u00e3o cessa de comparecer em nossa vida, incluindo a\u00ed o que vivenciamos em nossa experi\u00eancia de Escola.<\/p>\n<p>O paralelo que estabelecemos entre a estrutura do circuito pulsional e a do <em>witz<\/em>, al\u00e9m de configurar o lugar prim\u00e1rio do chiste na constitui\u00e7\u00e3o do <em>falasser<\/em>, tem por objetivo advertir sobre a import\u00e2ncia de continuar viva entre n\u00f3s a ideia de que o passe \u00e9 uma aposta que se ganha, sobretudo quando o Analista da Escola (AE) consegue manter a dist\u00e2ncia entre o verdadeiro e o real, consentindo com a natureza enganosa da verdade e o advento da com\u00e9dia em detrimento da trag\u00e9dia que o levou \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Para que possamos rir, ao final, do que foi nossa trag\u00e9dia, \u00e9 necess\u00e1rio que, como nos chistes, a condensa\u00e7\u00e3o e o deslocamento se prestem para que o movimento dos representantes nos permitam encontrar o efeito de riso que produz o jogo das representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para que o cartel do passe possa nomear, atestar que ali h\u00e1 um AE, \u00e9 necess\u00e1rio que haja efeitos de afetos que toquem o corpo dos cartelizantes. Brodsky<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> afirma que tais efeitos, em alguns casos, s\u00e3o mais importantes que a demonstra\u00e7\u00e3o propriamente dita, o que, por outro lado, cria o desafio de distanciar tal nomea\u00e7\u00e3o da identifica\u00e7\u00e3o ou da sugest\u00e3o. Encontramos aqui o ponto de conex\u00e3o com o chiste. Segundo Brodsky:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Nesta conversa\u00e7\u00e3o houve uma resposta que me pareceu que abria uma porta de sa\u00edda. A interven\u00e7\u00e3o levou a pensar no efeito de afeto do chiste&#8230; que tem uma fun\u00e7\u00e3o social, o chiste n\u00e3o \u00e9 para algu\u00e9m rir sozinho, o que seria o fracasso do chiste. O chiste transmite algo que produz o riso, que \u00e9 um efeito de afeto que n\u00e3o poderia ser colocado no balaio da demonstra\u00e7\u00e3o porque quando se demonstra um chiste &#8230;\u00e9 fatal&#8230;no pr\u00f3prio Freud parece haver uma indica\u00e7\u00e3o para pensar efeitos de afetos que n\u00e3o impactam somente o corpo de um, mas que possam ressoar no coro de v\u00e1rios. (2019, p. 22-23)<\/p>\n<p>Em seu texto <em>O humor<\/em>, Freud<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> (1927\/1996) caracterizou o humor como uma recusa ao sofrimento e um triunfo do ego. Ele qualificou a inven\u00e7\u00e3o humorista como tendo origem numa satisfa\u00e7\u00e3o que pode ser endere\u00e7ada ao pr\u00f3prio eu ou a outras pessoas. O humor \u00e9 rebelde, serve-se dos traumas para obter satisfa\u00e7\u00e3o e apresenta uma dignidade do sujeito. Lendo Freud, Lacan e Miller, foi poss\u00edvel perceber que, no chiste, h\u00e1 um jogo com os significantes, h\u00e1 um predom\u00ednio do simb\u00f3lico.\u00a0 Por outro lado, a dimens\u00e3o do c\u00f4mico se d\u00e1 pelo imagin\u00e1rio, enquanto que o humor \u00e9 da ordem do real e do supereu.<\/p>\n<p>A partir do que aqui fora introduzido, ser\u00e1 que podemos pensar o humor como um afeto? Como uma inven\u00e7\u00e3o de final de an\u00e1lise? Quais as repercuss\u00f5es do humor no percurso de experi\u00eancias de an\u00e1lise? Como o humor faz ressoar o real do lado da interven\u00e7\u00e3o do analista (analista \u201csanto de suas paix\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>), assediado pelas paix\u00f5es que suscita e para as quais n\u00e3o haver\u00e1 sossego jamais<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>? Como o humor faz ressoar o real do lado do falasser? \u00c9 o que aqui nos propomos a investigar.<\/p>\n<p>Assim sendo, a primeira etapa do nosso trabalho tomou como b\u00fassola as rela\u00e7\u00f5es do chiste com o final de an\u00e1lise, nos servindo dos depoimentos de passes para esta pesquisa. Esse material foi usado para investigar quais os poss\u00edveis destinos do supereu nos finais de an\u00e1lise, al\u00e9m da cl\u00ednica das varia\u00e7\u00f5es do humor (mania, melancolia e tristeza). Isso nos leva a refletir sobre a especificidade do manejo do humor na psicose,\u00a0 bem como o mau humor e a c\u00f3lera, como voc\u00eas ver\u00e3o a seguir por meio de algumas vinhetas cl\u00ednicas.<\/p>\n<p><strong>Humor e Supereu<\/strong><\/p>\n<p>Bernardino Horne busca responder \u00e0 pergunta sobre o final de an\u00e1lise articulando a rela\u00e7\u00e3o dos afetos com o supereu. De acordo com ele<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> (2015, p. 232),<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">abre-se a dimens\u00e3o do amor, e tamb\u00e9m abre-se a evid\u00eancia da fixa\u00e7\u00e3o de gozo desse <em>falasser<\/em> singular. Esse \u00e9 o sintoma, fixo em um nome de gozo que vem do supereu. Saber dar a volta a esse nome feroz com humor, com alegria, duplicada pela alegria do saber fazer, a habilidade ps\u00edquica implica uma grande satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um dos testemunhos de passe de L\u00eada Guimar\u00e3es<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> (2015, p. 241), ela relata que o supereu \u201cdeixou de funcionar como imperativo devastador\u201d. Eventualmente, segundo a pr\u00f3pria L\u00eada, quando algum tormento advinha, o padecimento mort\u00edfero era \u201ct\u00eanue e evanescente\u201d. O final de an\u00e1lise produziu um novo dinamismo pulsional, no qual a puls\u00e3o de morte, que estava fixada no supereu, passou a fruir por outras vias: sentimentos de raiva, rancor e indiferen\u00e7a passaram a ser experimentados sem culpa. Os dois estados subjetivos da bipolaridade \u2013 alegria excitante e devasta\u00e7\u00e3o \u2013 cederam lugar a um estado subjetivo mais calmo relativo a uma alegria de viver, por\u00e9m contendo em seu centro um vazio que j\u00e1 n\u00e3o era mais recoberto nem pela alegria excitante, nem pela devasta\u00e7\u00e3o. (GUIMAR\u00c3ES, 2015, p. 242)<\/p>\n<p>Sobre o destino do humor, S\u00e9rgio de Campos (2015, p. 261) afirma que:<\/p>\n<p>Com o esvaziamento do sentido, um humor <em>nonsense<\/em> surgiu como um dos resultados do final de an\u00e1lise. O <em>falasser<\/em> n\u00e3o se leva mais t\u00e3o a s\u00e9rio, j\u00e1 que o sinthoma-menino proporciona uma \u201cautor-risada\u201d de si mesmo.\u00a0(&#8230;) \u00c9 como se o supereu protetor falasse para o eu que essa realidade cruel n\u00e3o passa de um jogo infantil, merecedora apenas de que se fa\u00e7a uma boa piada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Como podemos verificar nos testemunhos de L\u00eada e de Bernardino, o humor \u00e9 rebelde, pois protege o ego ao garantir o princ\u00edpio do prazer contra a dura realidade e a for\u00e7a al\u00e9m desse princ\u00edpio. Ele desvia a compuls\u00e3o de sofrer, permitindo ao ego triunfar sobre a realidade. Freud (1927\/1996) destacou que embora o humor possa surgir em uma pessoa, ele nunca acontece de forma isolada, pois, de acordo com a nossa leitura, existe um sujeito que atua como mediador na rela\u00e7\u00e3o entre o ego e o superego.\u00a0 O humor pode ser tomado pelo sujeito como uma sa\u00edda no final de an\u00e1lise, uma esp\u00e9cie de am\u00e1vel crueldade afetuosa que\u00a0 permite superar a figura idealizada do pai. Isso ocorre porque o humor est\u00e1 livre de culpa, vergonha e censura, indo al\u00e9m do sentido \u00e0 medida que o sujeito consegue rir de si mesmo diante do vazio e da falta de sentido da vida.<\/p>\n<p><strong>Varia\u00e7\u00f5es do humor<\/strong><\/p>\n<p>As varia\u00e7\u00f5es do humor podem ser interpretadas \u00e0 primeira vista como uma oscila\u00e7\u00e3o dos afetos, mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata, como explica Cottet<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> (2015) em <em>La<\/em> <em>aversi\u00f3n<\/em><em> del objeto en los estados mixtos<\/em>, a cl\u00ednica das oscila\u00e7\u00f5es de humor, antigamente chamada de Psicose Man\u00edaco Depressiva e hoje nomeada como Transtorno Bipolar, n\u00e3o \u00e9 uma cl\u00ednica dos afetos, mas uma cl\u00ednica do objeto. A partir do caso de Olga Blum, Cottet (2015) explica que o que \u00e9 o ponto central do caso \u00e9 a altern\u00e2ncia de per\u00edodos euf\u00f3ricos e melanc\u00f3licos de uma forma espec\u00edfica: quando a paciente est\u00e1 identificada \u00e0 m\u00e3e e em total oposi\u00e7\u00e3o ao pai, experimenta uma felicidade euf\u00f3rica. A euforia que a domina coincide com um saber sobre o mundo, em que todo o sem sentido se anula. Quando est\u00e1 identificada com o pai n\u00e3o tem direito a viver, nem de estar em rela\u00e7\u00e3o com os outros. O essencial \u00e9 o lugar dos pais no del\u00edrio: na fase man\u00edaca, a paciente est\u00e1 claramente identificada com a m\u00e3e, e se alegra de ter superado seu pai, objeto de uma verdadeira avers\u00e3o. Na fase depressiva, se identifica com o pai, se cobre de insultos e n\u00e3o se sente digna de existir. Na depress\u00e3o, ela \u00e9 filha de um pai que n\u00e3o tem direito \u00e0 exist\u00eancia.Acredita que o pai deveria ter se suicidado: \u201cSe ele n\u00e3o pode dar nada e s\u00f3 se disp\u00f5e a receber, ent\u00e3o deveria meter uma bala na cabe\u00e7a!\u201d. A essa falta moral do pai resulta o seguinte: \u201cSe algu\u00e9m \u00e9 como meu pai, ent\u00e3o n\u00e3o deveria ter filhos!\u201d, ou seja, ela n\u00e3o deveria ter nascido. Cottet afirmou que trata-se aqui de um \u201csuic\u00eddio do objeto\u201d, retomando a express\u00e3o de Lacan<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> (1992, p. 38) no semin\u00e1rio da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Koretsky<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> (2016) toma a mesma perspectiva de Cottet e Lacan e destaca como at\u00e9 no amor h\u00e1 um elemento dirigido ao objeto, e n\u00e3o ao Outro. A paix\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, claramente ligada ao objeto. Aqui se demonstra como o amor, mesmo se ele \u00e9 procura de complemento da falta, vem sobretudo esconder a fun\u00e7\u00e3o do objeto parcial, esse objeto precioso, esse agalma que o apaixonado Alceb\u00edades achou ver em S\u00f3crates.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Diferentes usos do humor na cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p><strong>4.1)<\/strong>\u00a0 <strong>V<\/strong><strong>inheta<\/strong><strong> 1<\/strong><strong>&#8211;<\/strong><strong> Acontecimento riso<\/strong><\/p>\n<p>Em um dado momento, um sujeito procura an\u00e1lise para lidar com uma tristeza profunda que durava h\u00e1 muitos anos. Com diagn\u00f3stico de Transtorno Bipolar, dizia que h\u00e1 muito n\u00e3o sabia o que era estar na mania, passando por momentos depressivos bastante extensos. Em um determinado momento, enquanto narrava a duradoura luta para controlar o transtorno, diz que nunca mediu esfor\u00e7os para sanar completamente a intensa ansiedade que sentia nos momentos de mania. Seu grande \u00edmpeto era se livrar totalmente das agita\u00e7\u00f5es de uma vida ansiosa. Uma vez conseguido por meio de in\u00fameras terapias medicamentosas, mergulhou em um longo per\u00edodo de isolamento e depress\u00e3o. Essa demanda muito se assemelha ao que alerta Vieira<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> (2002) em seu texto \u201cComo se ri da ang\u00fastia?\u201d, no qual define bem que, nos dias atuais, pouco se procura um analista sob o regime da falta, mas sim pelo excesso \u201cde uma adi\u00e7\u00e3o ansiosa aos <em>gadgets<\/em> ou \u00e0s solu\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas\u201d (p. 2), \u00a0como as drogas ou a pornografia.<\/p>\n<p>Na era do imperativo superegoico \u201cgoza!\u201d vivemos a experi\u00eancia de gozarmos autisticamente, cada um com sua droga, o celular\u2026 o algoritmo. Um verdadeiro imp\u00e9rio das paix\u00f5es do \u201c<em>a<\/em>\u201d. Lacan<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>, em <em>Televis\u00e3o<\/em>, esclarece os efeitos de uma vida desenfreada como um t\u00e9dio que assola a contemporaneidade.<\/p>\n<p>Voltando ao caso, o que o sujeito perseguiu a vida toda, e conseguiu de certa forma, resultou no triunfo da puls\u00e3o de morte na forma da anula\u00e7\u00e3o de qualquer encontro com a castra\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o quero sentir nada!\u201d. T\u00e9dio total! Nesse momento o analista tenta uma articula\u00e7\u00e3o: \u201cParece que voc\u00ea n\u00e3o mediu esfor\u00e7os para conseguir estar morto, n\u00e3o \u00e9\u201d?! Surpreso, o analisante ri e dispara:\u201c\u00c9! Lembrei que em certa ocasi\u00e3o perguntei a um psiquiatra se o rem\u00e9dio que me passara anularia totalmente a ansiedade e ele me respondeu que isso s\u00f3 seria poss\u00edvel, na santa paz do cemit\u00e9rio!\u201d. Mais risos e, dessa vez, de ambos os lados. O corte da sess\u00e3o aconteceu nesse ponto crucial a ser destacado: o efeito do humor na dire\u00e7\u00e3o do tratamento como uma esp\u00e9cie de anzol que fisga o sujeito da soldadura com o gozo, numa esp\u00e9cie de reinaugura\u00e7\u00e3o da abertura do inconsciente, uma abertura ao Outro, quando \u00a0a palavra pode fazer efeito.<\/p>\n<p>Retomando a no\u00e7\u00e3o do humor como transgress\u00e3o, podemos destac\u00e1-lo como uma via de triunfo do prazer sobre a realidade, animando o desejo frente \u00e0 puls\u00e3o de morte que nos habita. No <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, Lacan<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> dedicou-se a repensar a quest\u00e3o do riso de modo mais amplo que o chiste e o c\u00f4mico, posicionando-o como condi\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria do ser que antecede at\u00e9 mesmo a fala: \u201cantes de qualquer palavra, a crian\u00e7a ri\u201d (1999, p. 343). Dito de outro modo, \u00e9 o riso, anterior \u00e0 pr\u00f3pria linguagem, que inaugura a rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Em brincadeiras utilizando m\u00e1scaras ou at\u00e9 mesmo no <em>Fort-d\u00e1<\/em>, \u00e9 o riso (ou o choro) que demarca um corpo afetado na rela\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/p>\n<p>Gustavo Stiglitz<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>(2023), em sua confer\u00eancia na XII Jornadas da EBP- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo intitulada <em>Acontecimento: Riso<\/em>, afirma que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">o riso tem uma dupla cara: de um lado, articula-se na rela\u00e7\u00e3o com o Outro. De outro, est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o Um, como acontecimento de corpo, um riso que n\u00e3o converge com nenhum efeito de significa\u00e7\u00e3o extra\u00eddo de um <em>witz<\/em>.<\/p>\n<p>De acordo com Stiglitz (2023), esse \u00e9 um riso como desapari\u00e7\u00e3o de qualquer conveni\u00eancia com a representa\u00e7\u00e3o, um mais al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o a um ponto real, deten\u00e7\u00e3o do <em>automaton <\/em>significante. Nesse sentido, o riso seria um acontecimento corporal que marca o ponto de gozo no corpo, fora de sentido.<\/p>\n<p>Ainda sobre a vinheta em quest\u00e3o, nas sess\u00f5es que sucederam \u00e0 interven\u00e7\u00e3o, no s\u00f3-depois, foi poss\u00edvel perceber algumas retifica\u00e7\u00f5es para o <em>falasser<\/em>: suas falas excessivamente vazias de cunho farmacol\u00f3gico foram aos poucos desinvestidas em prol do bem-dizer sobre sua vida, de como era marcado por uma rela\u00e7\u00e3o mortificada com o pai (dono de farm\u00e1cia), de como tinha se ausentado da vida social anos a fio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Vinheta 2<\/strong><strong>&#8211;<\/strong><strong> Avareza da psicose <\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de um caso de psicose, no qual Luz Casenave<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>se questiona se o uso do humor pode ser uma estrat\u00e9gia para a estabiliza\u00e7\u00e3o da psicose, visto que, atrav\u00e9s do seu uso, objetiva-se diminuir o investimento libidinal no del\u00edrio. Trata-se do caso Lia. Gurgel<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> (2022), ao comentar esse caso, assinala:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">A ideia \u00e9 que o psic\u00f3tico, que n\u00e3o teve acesso ao simb\u00f3lico \u2013 e, justamente por isso, d\u00e1 testemunho de um encoberto a decifrar \u2013 por estar fixado em uma posi\u00e7\u00e3o que o impossibilita de restaurar o sentido, possa compartilhar com o outro<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>, quando, ap\u00f3s o momento de sidera\u00e7\u00e3o, advenha o efeito sujeito, consequente a um aporte de sentido ao n\u00e3o sentido.<\/p>\n<p>Vejamos a cl\u00ednica:<\/p>\n<p>Lia chega \u00e0 sess\u00e3o com roupa de ver\u00e3o em um dia de inverno. A analista questiona: \u201cpor que voc\u00ea n\u00e3o usa um casaco? Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 com frio?\u201d. Ela responde: \u201ccom o que voc\u00ea quer que eu compre? Voc\u00ea sabe que eu sou pobre!\u201d. A analista sorrindo diz: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o tem dinheiro para comprar um casaco?\u201d. A inten\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o da analista visava apontar que a analisante pertencia a uma fam\u00edlia rica, com alto poder aquisitivo. Lia responde secamente: \u201cvoc\u00ea sabe que eu sou uma <em>sovina<\/em>\u201d. A analista ri, provocando algo da ordem de um chiste. Ao introduzir o riso na sess\u00e3o, a analista visava fazer passar o objeto ao campo do Outro, dentro do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Por outro lado, essa resposta chistosa da analista abre caminho para a inje\u00e7\u00e3o de sentido. No primeiro momento,\u00a0 a interven\u00e7\u00e3o provoca em Lia desconcerto e temor. Ela n\u00e3o entende o porqu\u00ea da interven\u00e7\u00e3o e do riso e, por isso mesmo, reage ao sem sentido da pergunta da analista que faz uma manobra transferencial, explicando-lhe que <em>sovina<\/em> n\u00e3o \u00e9 ant\u00f4nimo de rica, apontando a foraclus\u00e3o da riqueza familiar.<\/p>\n<p>Em um segundo momento, nota-se uma mudan\u00e7a no modo de falar de Lia, que passa a fazer piadas com a qualifica\u00e7\u00e3o de <em>sovina<\/em>. O significante <em>sovina<\/em> trata-se de uma marca que clama por sentido, e a analista, com o riso, indica a possibilidade de uma outra leitura.<\/p>\n<p>Gurgel<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a> (2023) destaca:<\/p>\n<p style=\"text-align: left; padding-left: 120px;\">O sorriso da analista e sua proposta de humor produzem certo desconcerto em Lia, operando como uma san\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que modifica a imagem torturante que ela tinha \u00a0si mesma \u2013 ser\u00a0<em>sovina<\/em>. H\u00e1 um movimento de articula\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico consequente do olhar e da voz do Outro, que faz limite ao real invasivo, dando testemunho da presen\u00e7a da analista.<\/p>\n<p>Como efeito da interven\u00e7\u00e3o, Lia consegue realizar pequenos gastos e desfrutar de f\u00e9rias. O caso nos interessa pela transmiss\u00e3o do efeito que uma interven\u00e7\u00e3o pela via do humor teve, seja pela via do objeto, seja pela via do sentido.<\/p>\n<p><strong>4.3.<\/strong><strong>)<\/strong><strong> Vinheta 3<\/strong><strong> &#8211;<\/strong> <strong>O percurso do humor em um processo anal\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Esta vinheta faz refer\u00eancia ao testemunho de passe de Fabi\u00e1n Naparstek<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>, comentado por Marcus Andr\u00e9 Vieira. Naparstek relata que o pai costumava ler o obitu\u00e1rio nos jornais. Um dia, ele pergunta o motivo e o pai responde: &#8220;Quero saber quem j\u00e1 n\u00e3o toma Coca-Cola&#8221;. Essa resposta poderia ser vista como um chiste: em vez de morto, seria algu\u00e9m incapaz de gozar dessa bebida. Mas o menino n\u00e3o consegue rir. Isso indica a forma como o garoto interpretava o romance familiar, especialmente o desejo do pai. O menino vivia dividido entre &#8220;um mundo de cruzes e estrelas de Davi&#8221; (NAPARSTEK<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>, 2005, p. 60), ou seja, entre cat\u00f3licos e judeus. De um lado, os consumistas americanos, do outro, os filhos s\u00e9rios e mortificados de Abra\u00e3o. Essa vis\u00e3o dualista \u00e9 o que cria o conflito e impede o riso.<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a> situa a ambiguidade presente no chiste: o pai estava rindo dos americanos mortos ou admitindo que, no final, todos s\u00e3o consumistas, inclusive os judeus, que pensam estar fora disso? Provavelmente ambos. Diante da polariza\u00e7\u00e3o em que vivia, o menino escolhe rejeitar as cren\u00e7as judaicas, figura para ele maior de uma mortifica\u00e7\u00e3o, levando-o a se opor aos ideais judaicos.<\/p>\n<p>Somente na segunda an\u00e1lise ele consegue se situar de uma outra forma diante do chiste do pai sobre os obitu\u00e1rios e enxergar a com\u00e9dia no drama de sua vida, percebendo que tanto judeus quanto cat\u00f3licos consomem Coca-Cola. Na dicotomia que vivia, os excessos relacionados ao prazer oral eram comuns, pois estavam desarticulados de suas identifica\u00e7\u00f5es, algo que ele descreve como uma postura &#8220;c\u00ednica&#8221;. A an\u00e1lise permitiu que ele transitasse entre os dois polos, provavelmente ap\u00f3s muitas idas e vindas entre a satisfa\u00e7\u00e3o oral e o sacrif\u00edcio. Essa transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi poss\u00edvel quando ele deixou de ver o pai como s\u00edmbolo dos ideais falidos de seu povo e passou a enxerg\u00e1-lo como representante de um gozo a mais, especialmente atrav\u00e9s do humor e da capacidade de rir. Foi preciso n\u00e3o mais crer no pai, ou crer mais ou menos, \u201cescrer\u201d no pai. Al\u00e9m disso, foi preciso reconhecer em si mesmo o mesmo tra\u00e7o de humor, sempre presente, percebendo que aquilo que ele antes via como um cinismo derrotista era, na verdade, um estilo pessoal.<\/p>\n<p>O pai seguia lendo os obitu\u00e1rios, e o sujeito, mais uma vez, pergunta o que ele estava fazendo. O pai responde, como antes, que estava verificando quem j\u00e1 n\u00e3o tomava Coca-Cola. Desta vez, o sujeito diz que j\u00e1 conhecia a piada, e o pai responde: &#8220;\u00c9 verdade, ou eu mudo a piada ou mudo o p\u00fablico&#8221;.<\/p>\n<p>Esse chiste reflete um fracasso, indicando que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter tanto a gra\u00e7a do chiste quanto o p\u00fablico. Al\u00e9m disso, ressalta que, para o pai, n\u00e3o havia escolha: ele preferia &#8220;perder o amigo do que a piada&#8221;. O filho, por meio da an\u00e1lise, percebe isso em si mesmo e consegue dar um novo destino a esse gozo. At\u00e9 ent\u00e3o, seu cinismo era um sintoma e uma forma de satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia ser negativada. Com a ajuda dos chistes do pai, ele consegue &#8220;transitar da cren\u00e7a no pai para a cren\u00e7a no sintoma&#8221; (LAURENT citado por VIEIRA<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>, 2021), entendendo o sintoma como um prazer singular que atravessa o fantasma e permeia a rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto.<\/p>\n<p>De acordo com (VIEIRA<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>, 2021), \u201co sinthoma \u00e9 incur\u00e1vel, mas n\u00e3o necessariamente intrat\u00e1vel\u201d. O pai do falasser, no testemunho citado anteriormente, continuar\u00e1 \u00a0&#8220;perdendo o amigo sem deixar de rir&#8221;, pois n\u00e3o pode fazer de outra forma, mas, em algumas ocasi\u00f5es, o chiste pode ser menos mort\u00edfero. Isso, por si s\u00f3, j\u00e1 representa um grande ganho.<\/p>\n<p><strong>5) <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>Toque do Real: mau humor e c\u00f3lera<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>Vida de Lacan<\/em>, Miller<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a> (2011) relata que \u00e0 medida que a doen\u00e7a ia progredindo, Lacan foi ficando mais quieto em seus semin\u00e1rios. E qualquer obst\u00e1culo era recebido de forma impaciente, pois era sentido como um doloroso empecilho ao seu progresso intelectual. Em seus \u00faltimos dois anos de vida, Lacan experimentou \u201cuma agudeza de mau humor\u201d, mau humor j\u00e1 presente anteriormente nele.<\/p>\n<p>O mau humor experimentado por Lacan \u00e9 lido por Miller (2011) como um afeto anal\u00edtico original e essencial que, por propriedade, ao chegar em um corpo habitaria a linguagem; contudo, n\u00e3o encontra alojamento, \u201cpelo menos n\u00e3o alojamento a seu gosto\u201d (2011, p. 46). E \u00e9 justamente por n\u00e3o encontrar alojamento na linguagem que Miller<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a> (2010b, p. 465) chama esse afeto de uma das \u201cpaix\u00f5es do objeto <em>a<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Essa paix\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o, inclusive, com a felicidade, tal qual Lacan pensou em <em>Televis\u00e3o<\/em><em>, <\/em>assinala Miller:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">O mau humor poderia ser um pecado, como recorda Lacan, se n\u00e3o for nada al\u00e9m de tristeza. Poderia ser um gr\u00e3o de loucura se se tratar de uma paranoia. Mas pode ser um verdadeiro toque do real se quiser dizer &#8211; e por isso n\u00e3o \u00e9 em absoluto incompat\u00edvel com a felicidade de todos (&#8230;)\u201d (MILLER, 2010b, p. 467).<\/p>\n<p>O mau humor, ent\u00e3o, est\u00e1 atrelado \u00e0 impossibilidade de suportar o real, visto que o real sempre escapa ao significante. \u00c9 nessa dire\u00e7\u00e3o que Laurent<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a> (2019) o relaciona com a impossibilidade estrutural, posto que \u201cn\u00e3o \u00e9 isso\u201d, n\u00e3o se trata disso. O objeto pequeno <em>a<\/em> \u00e9 sempre um resto e nunca A Coisa como tal. Estando o objeto sempre perdido, essa paix\u00e3o do <em>a<\/em> seria um modo de superar a insatisfa\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica ou o isolamento obsessivo (LAURENT, 2019, p.57). Seria, portanto, o que resta de um recha\u00e7o \u00e0 felicidade da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mau humor seria um afeto que escapa \u00e0 linguagem e que resta diante da impossibilidade de capturar A Coisa mesma. \u00c9 importante destacar que essa paix\u00e3o, por escapar \u00e0 linguagem, n\u00e3o faz demanda, n\u00e3o deixa o outro culpabilizado, sem produzir um inferno dom\u00e9stico, sinaliza Laurent (2019, p. 57).<\/p>\n<p>Todo <em>falasser <\/em>sofre de uma perturba\u00e7\u00e3o do humor fundamental que \u00e9 estrutural e n\u00e3o biol\u00f3gica; por isso mesmo, cada um \u00e9 mais ou menos depressivo, mais ou menos man\u00edaco, mas \u00e9 preciso que nos separemos do j\u00fabilo da imagem, e isso se faz sempre de uma forma equivocada, afinal, h\u00e1 uma desarmonia estrutural entre significante e real, sendo o mau humor uma solu\u00e7\u00e3o diante de uma harmonia poss\u00edvel, uma rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre desejo e gozo (LAURENT, 2019).<\/p>\n<p>Sendo assim, o mau humor seria o contr\u00e1rio do entusiasmo que \u00e9 um afeto que est\u00e1 mais do lado da mania. Os dois apresentam esse \u201ctoque do real\u201d, contudo, diante da express\u00e3o \u201cn\u00e3o \u00e9 isso\u201d, e n\u00e3o havendo nada melhor, se acolhe essa constata\u00e7\u00e3o de uma forma entusiasta, o lado positivo do humor, ou a partir do seu lado negativo, o mau humor.<\/p>\n<p>O passe de Irene Kuperwajs<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>aborda esse afeto em sua an\u00e1lise. Ela relata:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">Transitar o deserto depois do atravessamento da fantasia implicava em terminar de fazer o luto pelo objeto que fui para o Outro, tamb\u00e9m para a analista. E, se bem que finalmente alcan\u00e7ado o al\u00edvio, tamb\u00e9m me invadiram a tristeza, o desconcerto e o mau humor (2020, p. 140)<\/p>\n<p>J\u00e1 em suas \u00faltimas sess\u00f5es, Irene ficava muito mau humorada por perceber que pininhos n\u00e3o encaixavam nos buracos: dessa vez interpretou um sonho pr\u00f3prio onde um resto se apresentava, mas aguardava um acontecimento imprevisto como que idealizando o final. At\u00e9 que a analista, com toque de humor, interv\u00e9m. O riso, que durou meses, venceu o mau humor desse <em>falasser<\/em>, sem esquecer daquilo que \u00e9 inelimin\u00e1vel:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">(&#8230;) buscava que tudo encaixasse e gozava da reten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">(\u2026) N\u00e3o sou de c\u00f3lera f\u00e1cil&#8230; Como lhes contei, n\u00e3o \u00e9 meu estilo, mas nem a palavra, nem o grito, nem o choro ficam mais engasgados ou retidos (2020, p. 142).<\/p>\n<p>Elena Yeyati faz uma interessante observa\u00e7\u00e3o sobre diferentes espectros do humor que vai da f\u00faria e passa pela c\u00f3lera, arrebatamento, desgosto, mau humor, at\u00e9 chegar em falar em tra\u00e7os desses afetos.\u00a0 Assim, o aspecto das modula\u00e7\u00f5es do mau humor nos leva \u00e0 c\u00f3lera. Miller<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a> (2010), em <em>El banquete de los analistas<\/em>, \u00a0assinala que o mau humor \u00e9 a \u201cc\u00f3lera cotidiana\u201d. E no livro de Brodsky<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>, <em>Pasiones Lacanianas<\/em>, Marisa Chamizo<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup>[36]<\/sup><\/a> afirma que a c\u00f3lera seria uma das formas do mau humor, talvez o tom mais elevado desse afeto.<\/p>\n<p>No <em>Sem<\/em><em>in\u00e1rio<\/em><em> 5<\/em>, Lacan<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>localiza, inicialmente, a c\u00f3lera no registro da l\u00f3gica f\u00e1lica. Para o homem, o falo s\u00f3 pode ser concebido sob o pano de fundo do n\u00e3o ter; j\u00e1 para a mulher, ocorre o contr\u00e1rio \u2013 ela n\u00e3o o tem, mas sob o pano de fundo de\u00a0 t\u00ea-lo. Isso explica a raiva associada ao <em>penisneid<\/em>, que n\u00e3o \u00e9 apenas um anseio. Essa c\u00f3lera, especialmente na mulher, est\u00e1 enraizada nesse sentimento de inveja. Para Chamizo (2020), aqui Lacan passa do registro da inveja, do <em>penisneid<\/em> como inveja do p\u00eanis, ao registro da c\u00f3lera pelo encontro com o \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio <\/em><em>6<\/em>, Lacan<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><sup>[38]<\/sup><\/a>, ao tratar de afeto, afirma que tamb\u00e9m pode acontecer de, no interior do simb\u00f3lico, ele constituir uma irrup\u00e7\u00e3o do real, sendo assim perturbadora. A origem da c\u00f3lera seria justamente, diante da trama simb\u00f3lica bem montada, perceber que os pininhos n\u00e3o entram nos buraquinhos: \u201cToda c\u00f3lera, \u00e9 fazer o mar se agitar\u201d (LACAN, <em>Sem<\/em><em>in\u00e1rio<\/em><em> 6<\/em>, 2016, p.160). A c\u00f3lera \u00e9 o afeto paradigm\u00e1tico desse toque do real, pois se exprime de modo mais direto e sem contar com os poderes da palavra. Segundo Brodsky (2019, p. 144), \u201cdepois de uma `grande c\u00f3lera\u00b4o c\u00e9u \u00e9 azul, tudo est\u00e1 bem\u201d [tradu\u00e7\u00e3o nossa].<\/p>\n<p>No testemunho de passe de Ana Lydia Santiago<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\"><sup>[39]<\/sup><\/a>, a c\u00f3lera ocupa um lugar fundamental e disso recolhemos um ensino: \u00e9 um indicador do real que o amor n\u00e3o recobre. O seu sintoma se inscreveu como um \u201cn\u00e3o saber falar\u201d e essa dificuldade remetia ao incompreens\u00edvel do amor do pai. Marcada pelo desejo paterno em ter uma filha que recebesse o mesmo nome que sua esposa, se torna uma atenta observadora dos ind\u00edcios do que melhor era conveniente ao outro, para encaixar e ser reconhecida como a filha modelo, de comportamento exemplar. O termo \u201cencaixar\u201d aqui nos permite fazer direta associa\u00e7\u00e3o com a indica\u00e7\u00e3o de Lacan de que a c\u00f3lera se produz quando as cavilhas n\u00e3o encaixam nos respectivos buracos, ou seja, a identifica\u00e7\u00e3o com a menina ideal constituiu uma defesa contra o real, enquanto a ilus\u00e3o da armadura neur\u00f3tica ainda a fazia \u201cfuncionar acreditando\u201d que as cavilhas encaixariam nos buracos.<\/p>\n<p>O significante <em>c\u00f3lera<\/em>, em franc\u00eas <em>col\u00e8re<\/em>, surge como um equ\u00edvoco em sua segunda an\u00e1lise, uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente que faz refer\u00eancia ao nome de sua primeira analista. A c\u00f3lera enoda sua escolha transferencial com o gozo sem sentido das mulheres de sua fam\u00edlia: sua m\u00e3e e sua av\u00f3.<\/p>\n<p>Inicialmente, Ana Lydia Santiago (2018) localiza a c\u00f3lera situada do lado do Outro: no caso da m\u00e3e, pelo modo de difamar seu pai; e no da av\u00f3, pelas express\u00f5es hostis ao tratar sua \u00fanica nora. Entretanto, a experi\u00eancia da an\u00e1lise instalou um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o do gozo que colocou a menina na cena do inconsciente. Assim, a c\u00f3lera se mostrou como um fragmento de real do sintoma. \u00c0 medida que a an\u00e1lise segue, a c\u00f3lera passa a aparecer nos sonhos e se corporiza. Aparecia em crises espor\u00e1dicas de raiva e de ci\u00fames contra o parceiro, sintoma que se converteu em um afeto indesejado que deveria ser controlado \u2013 e a\u00ed o contradit\u00f3rio para quem almejava o bem-dizer.<\/p>\n<p>O amor, insuficiente para recobrir a c\u00f3lera, foi o tema que teceu a trama de sua an\u00e1lise, privilegiando, na montagem fantasm\u00e1tica, o objeto olhar e o gozo domesticado pelos significantes do amor ao pai. As primeiras fraturas do fantasma implicaram uma separa\u00e7\u00e3o \u2013 do olhar fascinado do pai que recobria a aus\u00eancia do olhar do lado da m\u00e3e; e uma perda do lugar de exce\u00e7\u00e3o que lhe dava uma suposta garantia de enfrentamento do gozo opaco do \u00f3dio materno. A c\u00f3lera, nesse momento, j\u00e1 n\u00e3o era apenas pr\u00f3pria da linhagem feminina, mas tamb\u00e9m um grito diante da ren\u00fancia do pai de conter os excessos dessas mulheres.<\/p>\n<p>Ao final de an\u00e1lise aparece um sonho que causa surpresa: crian\u00e7as s\u00e3o atingidas por tiros de fuzil \u2013 <em>coups de fusil<\/em> \u2013 vindos de toda parte, corpos caem por toda parte no ch\u00e3o. Pergunta-se: \u201cO que \u00e9 isso? Corpos de crian\u00e7as ca\u00eddos, atingidos por tiros de fuzil?.\u201d E a resposta \u00e9 recebida: \u201c<em>coup de foudre<\/em>!\u201d, resposta que tamb\u00e9m causa surpresa pelo inesperado da substitui\u00e7\u00e3o. Algo inteiramente novo sobre o qual n\u00e3o h\u00e1 saber. \u00c9 preciso lidar com isso.<\/p>\n<p>A c\u00f3lera relatada no testemunho de Ana Lydia Santiago (2018), portanto, diria respeito ao ponto opaco de satisfa\u00e7\u00e3o do sintoma \u00e0 resposta do real que fura o dizer. Ao final da an\u00e1lise, esse significante inicial da transfer\u00eancia se revelou como algo contido na ambiguidade do <em>coup de foudre<\/em>, raio fulminante\/f\u00faria que destroi, incluindo um arrebatamento vivo para al\u00e9m do mortificante da f\u00faria.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Concluindo\u2026<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>Para finalizar elencamos diferentes usos do humor na experi\u00eancia anal\u00edtica que usamos ao longo de nossas discuss\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Como inven\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Como modo de lidar com o furo;<\/li>\n<li>Como tratamento do supereu;<\/li>\n<li>Como efeito de um processo de an\u00e1lise &#8211; do lado do <em>falasser<\/em>;<\/li>\n<li>Como perturbar a defesa &#8211; do lado da interven\u00e7\u00e3o do analista;<\/li>\n<li>Entre outros usos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sabe-se que, para compreender a abordagem da teoria dos afetos, ou at\u00e9 das paix\u00f5es, Miller<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\"><sup>[40]<\/sup><\/a>, em <em>A prop\u00f3sito dos afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica,<\/em> nos levou a concluir \u00a0que \u00e9 preciso passar da psicofisiologia \u00e0 \u00e9tica, j\u00e1 que nem a biologia e nem a psicofisiologia conseguiriam acessar o gozo. O aparelho mais adequado para tal seria a \u00e9tica, por cernir o gozo. Lacan a definiu como a \u00e9tica do bem-dizer, ou seja, n\u00e3o um manejo de significante para significante, mas um efeito de significante com o gozo e sua resson\u00e2ncia. A \u00e9tica do bem-dizer, para Miller, consistiria no cernir, no saber o que n\u00e3o se pode dizer.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. Os corpos aprisionados pelo discurso. In:<em> O semin\u00e1rio<strong>:,<\/strong> livro 19:&#8230;ou pior<\/em>\/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. [tradu\u00e7\u00e3o Vera Ribeiro]. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p..220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MACEDO, L. passagem fora recuperada por n\u00f3s no argumento do XIII Congresso de Membros da EBP, ocorrido em abril de 2019, durante o qual os membros da EBP se dedicaram a conversar sobre o \u201cJogo das Paix\u00f5es na Experi\u00eancia Anal\u00edtica\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> ABREU, T.\u00a0 A pasta\u00a0 In:\u00a0 <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em><strong>: <\/strong>Revista Psicanal\u00edtica Brasileira Internacional. S\u00e3o Paulo: Eolia.\u00a0 n.84, 2021. p.117-122.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><\/a><sup>[4]<\/sup> FREUD, S. <em>Os chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em>. Obras Psicol\u00f3gicas Completas, Vol. VIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996\/1905. p. 100.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. Portraits de Famille. In: <em>La Cause Freudienne<\/em>: Revue de Psychanalyse. Paris::ECF, 1999. Em portugu\u00eas o texto est\u00e1 publicado no livro intitulado <em>Como terminam as an\u00e1lises: Paradoxos do passe<\/em><em>.<\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Rio de Janeiro: Zahar, 2023, p. 300-312.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> \u00a0MILLER, J-A. O amor sintom\u00e1tico. In: <em>O sintoma- charlat\u00e3o<\/em><strong>.<\/strong> Rio de Janeiro: Zahar, 1998.p. 22- 34.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><\/a><sup>[7]<\/sup>\u00a0 CAMPOS, S. <em>Supereu\/ Uerepus: Das origens aos seus destinos<\/em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> BRODSKY, Graciela. Cuerpos afectados. In: <em>Pasiones lacanianas<\/em><em>.<\/em> 1\u00aa ed. \u2013 Olivos: Grama Ediciones, 2019.p.21-23.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> FREUD. S. <em>O Humor<\/em>. In:\u00a0 Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1927\/1996.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J. Televis\u00e3o<strong>.<\/strong> In: \u00a0LACAN J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> CARNEIRO, G. N. Breve coment\u00e1rio sobre o humor. In: <em>Correio Express<\/em>: Revista Online da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. ECOS- XIII Congresso de Membros da EBP. 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><\/a><sup>[12]<\/sup> HORNE, B. Supereu Breve . In: CAMPOS, S. <em>Supereu\/ Uerepus: Das origens aos seus destinos<\/em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> GUIMAR\u00c3ES. L. O supereu depois do final de an\u00e1lise. In: \u00a0CAMPOS, S. <em>Supereu\/ Uerepus: Das origens aos seus destinos<\/em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><\/a><sup>[14]<\/sup> COTTET, S. La aversi\u00f3n del objeto en los estados mixtos. In: MILLER, J-A. <em>Variaciones del humor.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015. p. 25-34.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> LACAN, J.\u00a0 <em>O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/em>. 1960-1961. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><\/a><sup>[16]<\/sup>\u00a0 KORETSKY, C. Passions de l &#8216;\u00eatre, passions de l&#8217;\u00e2me. In:\u00a0 <em>La cause du d\u00e9sir<\/em> (93). 2016. p 73-78.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> VIEIRA, M. A. Como se ri da ang\u00fastia?. In: BESSET, V. L. <em>Ang\u00fastia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2002. p. 71-89.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><\/a><sup>[18]<\/sup> LACAN, J.\u00a0 Televis\u00e3o. In:\u00a0 LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> LACAN,\u00a0 J. <em>O semin\u00e1rio<\/em><em>,<\/em><em> livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> STIGLITZ, G. <em>Acontecimento: Riso<\/em>. Confer\u00eancia proferida na XII Jornadas da EBP- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, em 27 e 28 de outubro de 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><\/a><sup>[21]<\/sup> CASENAVE, L. El humor como estrategia en la estabilizacio\u0301n de una psicoses. In:\u00a0 <em>Las estrat\u00e9gias de la transferencia en psicoan\u00e1lisis<\/em>. Buenos Aires: Manantial, 1992. p. 144.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><\/a><sup>[22]<\/sup> GURGEL, I. <em>Um sorriso para Lia<\/em>. In: Boletim Gaio #02.\u00a0 Boletim Eletr\u00f4nico das XII Jornadas\u00a0 da EBP- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, 2023.\u00a0 Texto dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/boletim-gaio-02\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/boletim-gaio-02<\/a>. O autor nos informa que esse texto foi inspirado por outro de Luz Casenave, psicanalista da EOL, j\u00e1 falecida, a quem presta homenagem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><\/a><sup>[23]<\/sup> LACAN, J. <em>O<\/em>\u00a0<em>semin\u00e1rio<\/em>,\u00a0<em>livro 3: as psicoses.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 153.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><\/a><sup>[24]<\/sup> GURGEL, I. <em>Um sorriso para Lia<\/em>. In: Boletim Gaio #02.\u00a0 Boletim Eletr\u00f4nico das XII Jornadas\u00a0 da EBP- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, 2023.\u00a0 Texto dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/boletim-gaio-02\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/boletim-gaio-02<\/a>. O autor nos informa que esse texto foi inspirado por outro de Luz Casenave, psicanalista da EOL, j\u00e1 falecida, a quem presta homenagem<em>.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><\/a><sup>[25]<\/sup> NAPARSTEK, F. Do sujeito ocidentado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o pelo sintoma: modula\u00e7\u00f5es sobre a cren\u00e7a, In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 42. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, 2005. p. 60-63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> NAPARSTEK, F. Do sujeito ocidentado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o pelo sintoma: modula\u00e7\u00f5es sobre a cren\u00e7a, In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 42. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, 2005. p. 60-63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><\/a><sup>[27]<\/sup> VIEIRA, M. A. Sintoma, cl\u00ednica e pol\u00edtica. In: <em>Boletim Travessias<\/em>. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/<\/a>. Acessado em 12 out 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup>[28]<\/sup><\/a> VIEIRA, M. A. Sintoma, cl\u00ednica e pol\u00edtica. In: <em>Boletim Travessias<\/em>. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/<\/a>. Acessado em 12 out. 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><\/a><sup>[29]<\/sup> VIEIRA, M. A. Sintoma, cl\u00ednica e pol\u00edtica. In: <em>Boletim Travessias<\/em>. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise- Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/<\/a>. Acessado em 12 out. 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><\/a><sup>[30]<\/sup> MILLER, J-A. <em>V<\/em><em>ida de Lacan.<\/em> Buenos Aires: Gama, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><\/a><sup>[31]<\/sup> MILLER, J-A. <em>Extimidad<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010b.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><\/a><sup>[32]<\/sup> LAURENT, E. Pasiones religiosas del parl\u00eatre. In: <a href=\"https:\/\/elpsicoanalisis.elp.org.es\/category\/numero-37\/dossier-pasiones-contemporaneas-37\/\"><em>Dossier. <\/em><em>Pasiones contempor\u00e1neas<\/em> (37)<\/a>, <em>El Psicoan\u00e1lisis:<\/em> Revista de la Escuela Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis. 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/elpsicoanalisis.elp.org.es\/numero-37\/pasiones-religiosas.del-parletre\/\">https:\/\/elpsicoanalisis.elp.org.es\/numero-37\/pasiones-religiosas.del-parletre\/<\/a>. Acessado em 12 out. 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\"><sup>[33]<\/sup><\/a> KUPERWAJS, I. Soltar a voz. In: <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise (82). abril 2020. p. 135-142.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> MILLER, J-A. <em>El banquete de los analistas.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2010.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\"><sup>[35]<\/sup><\/a> BRODSKY, G. <em>Pasiones lacanianas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\"><\/a><sup>[36]<\/sup> CHAMIZO.M. C\u00f3lera y sexuaci\u00f3n. In: BRODSKY, G. <em>Pasiones lacanianas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2020. p. 118-128.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\"><sup>[37]<\/sup><\/a> LACAN,\u00a0 J. <em>O semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\"><\/a><sup>[38]<\/sup> LACAN,\u00a0 J. <em>O semin\u00e1rio, livro 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\"><sup>[39]<\/sup><\/a> SANTIAGO, A. L. Coup de foudre<em>. <\/em>In: MILLER, J-A. <em>Aposta no passe<\/em>: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Ana Lydia Santiago. Rio de Janeiro: Contracapa, 2018. p. 189-196)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\"><sup>[40]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. <em>A prop\u00f3sito dos afetos na experi\u00eancia anal\u00edtica<\/em>. In: Paix\u00f5es do ser: amor, \u00f3dio e ignor\u00e2ncia. Cole\u00e7\u00e3o Kalimeros. EBP-Rio. Rio de Janeiro: Contracapa, 1998.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]Coordenadora: T\u00e2nia Abreu (EBP\/AMP) \u00caxtimo: Fabi\u00e1n Naparstek (AME EOL\/AMP) Relatores: Daniela Nunes Ara\u00fajo (EBP\/AMP) Wilker Fran\u00e7a (IPB) Participantes: Bruno de Oliveira (IPB) Karynna N\u00f3brega (EBP\/AMP) J\u00falia Jones (IPB) Luiz Mena (EBP\/AMP) Virg\u00ednia Dazzani (IPB) [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;672&#8243; css=&#8221;&#8221;][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] GT 4: Os Usos do Humor na Experi\u00eancia Anal\u00edtica \u00a0Entre o corpo e o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":30,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"templates\/no-sidebar.php","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"class_list":["post-645","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=645"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/645\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":708,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/645\/revisions\/708"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/30"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}