{"id":510659,"date":"2022-11-03T10:20:22","date_gmt":"2022-11-03T13:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510659"},"modified":"2022-11-03T10:20:22","modified_gmt":"2022-11-03T13:20:22","slug":"as-infidelidades-ou-a-grande-crise-do-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/as-infidelidades-ou-a-grande-crise-do-desejo\/","title":{"rendered":"As infidelidades, ou a grande crise do desejo"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]<strong>Laura Ferrero<\/strong><\/p>\n<p>Hot\u00e9is an\u00f4nimos, malas que se fecham rapidamente e um beijo fugaz nos l\u00e1bios porque a pressa, como a culpa, n\u00e3o demora a chegar. Restaurantes caros, presentes desproporcionais e a promessa de se ver em breve, quando as agendas voltarem a coincidir novamente, quando as crian\u00e7as n\u00e3o tiverem partida de futebol e os sogros n\u00e3o prepararem o maldito churrasco no jardim.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aeroportos, esta\u00e7\u00f5es de trem, olhadelas de lado quando o outro n\u00e3o olha, o assobio condicional nos ouvidos, o celular que sempre soa como realidade e o t\u00e9dio com um <em>Sim, querida, o jantar de trabalho correu bem<\/em>. Literatura e realidade. Realidade e literatura. Um prato complexo com ingredientes b\u00e1sicos que n\u00e3o s\u00e3o sempre os mesmos. Perguntas, desejos, amor, trai\u00e7\u00e3o. Alguns ingredientes que est\u00e3o mudando nessa receita sempre t\u00e3o dif\u00edcil de preparar: a infidelidade.<\/p>\n<p><strong>Um: as perguntas<\/strong><\/p>\n<p>Em um audit\u00f3rio lotado, a psicoterapeuta Esther Perel participa de uma daquelas famosas Ted Talks que tem um t\u00edtulo mais que sugestivo: \u201cO segredo do desejo em um relacionamento longo\u201d. N\u00e3o deixa de ser engra\u00e7ado que a conversa tenha acontecido no Dia de S\u00e3o Valentim (Dia dos Namorados), e o p\u00fablico com olhos arregalados, composto por muitos casais que buscam, de fato, uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta de um milh\u00e3o: podemos amar o que j\u00e1 temos? Sorriem, alguns at\u00e9 ficam vermelhos, talvez se reconhecendo no discurso da sex\u00f3loga de origem belga que pergunta ao p\u00fablico quest\u00f5es delicadas e inc\u00f4modas. Por que o proibido cont\u00e9m tanto erotismo? O que h\u00e1 na transgress\u00e3o que torna o desejo t\u00e3o poderoso? A famosa sex\u00f3loga, que escreveu livros como <em>Inteligencia er\u00f3tica<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, se especializou em tratar o tema da infidelidade no \u00e2mbito do casal, em como lidar com ela, mas, sobretudo \u2013 e isso \u00e9 o mais interessante \u2013 no porqu\u00ea. Sem d\u00favida, Perel n\u00e3o d\u00e1 respostas milagrosas e aponta que os dilemas do amor moderno s\u00e3o dif\u00edceis de desvendar. Podemos come\u00e7ar pelo princ\u00edpio, dizendo algo muito sensato: n\u00f3s queremos tudo. E nesse tudo h\u00e1 coisas contradit\u00f3rias: um lugar, um parceiro est\u00e1vel e que cuide de n\u00f3s, o parceiro-melhor-amigo, o que nos faz rir. Mas, quando procuramos o risco, a aventura, a novidade do descobrimento, a tens\u00e3o sexual n\u00e3o resulta&#8230; chamemos como quisermos. Aqui as coisas come\u00e7am a torcer. Ignoro se antes as coisas funcionavam de maneira distinta, mas atualmente, j\u00e1 nos disseram centenas de vezes e atrav\u00e9s de centenas de canais diferentes que existe um casal perfeito. Trata-se dessa metade da laranja em que se combinam o melhor amigo, o mito sexual, a pessoa compreensiva e quem cuida de n\u00f3s e, sim, claro, quem n\u00e3o tem olhos para mais ningu\u00e9m. A isso temos que acrescentar que agora vivemos duas vezes mais do que antes, e todas essas vari\u00e1veis devem ser mantidas ao longo dos anos. Essas exig\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o um pouco excessivas?<\/p>\n<p>Esther Perel mergulha na crise do desejo que est\u00e1 intimamente relacionada \u00e0 nossa imagina\u00e7\u00e3o. Desejamos o desconhecido, o Outro, porque parece que o previs\u00edvel n\u00e3o nos interessa. N\u00e3o, n\u00e3o nos d\u00e1 uma hist\u00f3ria sobre um casal entediado que cozinha br\u00f3colis todas as noites, mas que s\u00e3o felizes. Porque o verdadeiro problema da infidelidade \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre amor e desejo.<\/p>\n<p><em>Feliz Dia dos Namorados a todos<\/em>, Esther Perel deseja \u00e0 sua audi\u00eancia. E h\u00e1 sorrisos de cumplicidade, mas, sobretudo, h\u00e1 muito mais a vontade de seguir perguntando. Ou seja: a crise do desejo \u00e9 o grande detonador da infidelidade? Se sim, e agora?<\/p>\n<p><strong>Dois: o desejo<\/strong><\/p>\n<p>Leonard Cohen disse que h\u00e1 uma greta no todo; s\u00f3 assim entra a luz. Sempre me pareceu uma met\u00e1fora acertada para falar do homem e dessas superf\u00edcies aparentemente redondas e imperme\u00e1veis que se racham apenas por toc\u00e1-las. Essas superf\u00edcies se chamam certezas. E, para muitos, o mundo da parceria ou do matrim\u00f4nio n\u00e3o deixa de ser uma delas: uma \u00e2ncora. Uma dessas boias que nos mant\u00eam a flutuar no mar, mesmo na pior das tempestades. No entanto, sendo honestos, haveria de come\u00e7ar dizendo que mais do que o mundo das certezas, vivemos no mundo das rachaduras. A verdade \u00e9 que nunca se sabe realmente por que elas aparecem; simplesmente est\u00e3o a\u00ed. E isso \u00e9 o que ocorre no mundo de Irina e de Lawrence, o casal protagonista do <em>O mundo p\u00f3s-anivers\u00e1rio<\/em>, de Lionel Shriver<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Durante anos, a cada 6 de julho eles jantam \u2013 no que j\u00e1 se tornou uma tradi\u00e7\u00e3o \u2013 com Ramsey Acton, um popular jogador de sinuca que \u00e9 amigo do casal. Mas justo esse ano, Lawrence estar\u00e1 fora e pede a Irina que jante com Ramsey. Ela concorda. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em sair para jantar com um velho amigo que est\u00e1 passando por um momento dif\u00edcil. No entanto, depois daquele jantar, depois do anivers\u00e1rio, o mundo d\u00e1 uma virada, e a exist\u00eancia de Irina se divide em duas possibilidades que derivam do nascimento de um desejo: beijar Ramsey. A primeira possibilidade decorre do sim: beijar Ramsey e jogar a casa pela janela; e a segunda, de n\u00e3o fazer isso: ser uma boa menina e n\u00e3o ser infiel a Lawrence. Bem-vindos ao territ\u00f3rio da b\u00fassola moral.<\/p>\n<p>O original desse romance de Shriver \u00e9 que, longe de conformar-se em escolher um caminho, ele fica com os dois e escreve dois romances em um. Dessa maneira, alterna os cap\u00edtulos em que se veem as consequ\u00eancias dessa temida decis\u00e3o vital. \u00c9 certo: pode-se decidir faz\u00ea-lo ou n\u00e3o o fazer. Mas do que n\u00e3o se \u00e9 dono \u00e9 dos seus desejos. Voltamos ao mesmo ponto: o desejo \u00e9 o problema. \u00c9 a\u00ed que a literatura e a realidade ficam presas, e desse cruzamento do caminho surgem as hist\u00f3rias. Porque na atualidade, falar de infidelidade n\u00e3o \u00e9 falar de um tabu.<\/p>\n<p>No entanto, relativamente faz pouco tempo, ao abordar a infidelidade ou o adult\u00e9rio, entr\u00e1vamos no territ\u00f3rio do tabu. O adult\u00e9rio era um assunto-chave no romance do s\u00e9culo XIX: hero\u00ednas tr\u00e1gicas como Emma Bovary ou Anna Karenina se definem quase por completo por sua rebeli\u00e3o contra os la\u00e7os dessa institui\u00e7\u00e3o sagrada que era o casamento. Outros romances que comp\u00f5em um elogio \u00e0 infidelidade, como Choderlos de Laclos e <em>As rela\u00e7\u00f5es perigosas<\/em>, <em>O vermelho e o negro<\/em>, de Stendhal, tamb\u00e9m foram duramente criticados na \u00e9poca do ponto de vista moral. As leis castigam o amor ileg\u00edtimo que a literatura exalta. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o segredo dessa literatura para atrair tantos leitores? Talvez isso permita lan\u00e7ar luz sobre nossos desejos ocultos de transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria da infidelidade na literatura remonta ao in\u00edcio da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o. A <em>B\u00edblia<\/em> j\u00e1 deu alguns outros conselhos sobre o assunto, embora \u2013 visto o que foi visto \u2013 muitos tivessem que pular o cap\u00edtulo. Perguntar-se sobre a infidelidade \u00e9 faz\u00ea-lo pela natureza humana. E, portanto, falar da literatura do adult\u00e9rio \u00e9 falar da literatura em si mesma. N\u00e3o entende de g\u00eaneros nem de momentos.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: quebramos o tabu. Agora s\u00f3 h\u00e1 um problema: o desejo. Voltamos \u00e0 mesma pergunta de Esther Perel: a crise do desejo \u00e9 o grande gatilho da infidelidade? Parece que assim \u00e9. Mas segue faltando essa pergunta que acrescentei: e agora, o qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas: o amor<\/strong><\/p>\n<p>Muitas hist\u00f3rias de infidelidade s\u00e3o, no fundo, grandes hist\u00f3rias de amor. Faz pouco tempo, apareceu um livro no mercado chamado <em>Hace cuarenta a\u00f1os<\/em>, de Maria van Rysselberghe<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. \u00c9 um livro curto e de grande beleza, que narra, depois de quarenta anos que havia acontecido, uma rela\u00e7\u00e3o amorosa entre um homem e uma mulher casada. O que faz excepcionalmente bela essa hist\u00f3ria \u00e9 que essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 mais mental do que f\u00edsica. Trata-se desses amores que nunca chegam a consumar-se e que, portanto, nunca expiram. Esse \u00e9 o perigo que t\u00eam as ideias, especialmente as rom\u00e2nticas: que vagam livremente pelas armadilhas sedutoras da mem\u00f3ria. Portanto, mais do que completamente uma infidelidade, tamb\u00e9m se trata de um amor hipertrofiado por culpa de tantos subjuntivos. Um amor que dar\u00e1 sentido \u00e0 vida de Maria, a protagonista, que depois de quarenta anos enfrenta de novo essa hist\u00f3ria e a fixa na escritura. Colocar palavras \u00e9 uma maneira de amarrar, e \u00e9 isso o que ela faz: dar uma realidade \u2013 a de escritura \u2013 ao que nunca aconteceu, \u00e0queles desejos que nunca se concretizaram porque seguiram o caminho do n\u00e3o. Entramos novamente no territ\u00f3rio da b\u00fassola moral com outra pergunta de um milh\u00e3o: qual estatuto t\u00eam os desejos? Este \u00e9 pensado tamb\u00e9m como outra forma de trai\u00e7\u00e3o? Escrever \u00e9 uma maneira de fazer que as coisas aconte\u00e7am. E pensar nelas, em muitas ocasi\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 pior do que faz\u00ea-las.<\/p>\n<p>A literatura, mais que de infidelidades, est\u00e1 cheia de desejos que lentamente se confundem com amor. Uma combina\u00e7\u00e3o de desejos, amor e tristeza. Em um mundo n\u00e3o t\u00e3o imagin\u00e1rio, um espl\u00eandido texto de Leila Guerreiro, que comp\u00f5e a s\u00e9rie <em>Formas del amor<\/em>, a jornalista aborda um dos lados mais tristes da infidelidade. Come\u00e7a assim: \u201cUm dia, j\u00e1 n\u00e3o se sabe quando nem como, em um desses encontros, entre os len\u00e7\u00f3is amarrotados de um hotel, ele disse que a queria\u201d. Se antes falamos de desejo, aqui falamos do limite que vive nas coisas, nas rela\u00e7\u00f5es. Esses limites recordam os dos quadros de Escher, nos quais, de repente, os patos se convertem em peixes e ningu\u00e9m sabe exatamente quando isso come\u00e7ou a ocorrer. Limites que n\u00e3o s\u00e3o vistos. O sexo rapidamente se converte em outra coisa, e isso n\u00e3o \u00e9 conhecido apenas em Hollywood. Leila Guerreiro condensa em um artigo essa felicidade lun\u00e1tica dos amantes que sabem ter um tempo limitado. A expira\u00e7\u00e3o desses mundos paralelos que sucedem simultaneamente e em velocidades t\u00e3o distintas. A culpa por aqueles que ficam em casa. As proibi\u00e7\u00f5es, a ideia de que existe outra vida e, sobretudo, o medo de fazer mal.<\/p>\n<p>(\u201cSerei capaz?\u201d, \u201chaver\u00e1 dor?\u201d). Outras vezes se olham longamente nos olhos at\u00e9 que ele diz: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 bem?\u201d, e ela fica muda durante uns segundos \u2013 e espera que ele saiba ver, nisso, uma resposta \u2013 e ent\u00e3o sorri e diz: \u201cSim, estou bem.\u201d. Quase sempre \u00e9 mentira.<\/p>\n<p>Mentiras que se acabam dizendo a eles mesmos. Isto \u00e9: a dor misturada com o desejo. Uma vida feita de desculpas que leva outros nomes como trabalho, reuni\u00f5es. Covardia, sim, talvez. A covardia de abandonar a placidez de uma vida que lhes \u00e9 c\u00f4moda. A literatura est\u00e1 cheia dessas hist\u00f3rias. E de todas, em minha opini\u00e3o, essas s\u00e3o as mais tristes.<\/p>\n<p>E agora, o qu\u00ea? Ent\u00e3o, nesse audit\u00f3rio imagin\u00e1rio, nessa Ted Talk tamb\u00e9m imagin\u00e1ria, faz-se um sil\u00eancio cada vez mais dif\u00edcil. As perguntas, o desejo. Quando adicionamos esse terceiro ingrediente ao prato, o amor h\u00e1 que voltar a come\u00e7ar a se perguntar, como o disse Raymond Carver, do que estamos falando quando falamos de amor.<\/p>\n<p><strong>Quatro: A trai\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Emma e Jerry est\u00e3o sentados tomando algo.<br \/>\n<em>Emma: Faz muito tempo que n\u00e3o nos vemos.<br \/>\n<\/em><em>Jerry: Bom, fui \u00e0 sua exposi\u00e7\u00e3o privada.<br \/>\n<\/em><em>Emma: N\u00e3o, n\u00e3o me refiro a isso.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Traici\u00f3n<\/em>, a obra do dramaturgo ingl\u00eas Harold Pinter, est\u00e1 cheia de sil\u00eancios e palavras que n\u00e3o querem dizer exatamente isso. Emma e Jerry s\u00e3o amantes h\u00e1 sete anos; ao mesmo tempo, Emma est\u00e1 casada com Robert, o melhor amigo de Jerry. Sim, a trai\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 como uma ma\u00e7\u00e3 podre, esse elemento que apodrece tudo o que tem ao redor. Mentiras, duplos sentidos e desculpas. Porque a infidelidade \u2013 na literatura, na vida \u2013 implica sempre algum tipo de trai\u00e7\u00e3o. A cada um mesmo, aos demais, tudo depende de como se olha. O terreno da trai\u00e7\u00e3o \u00e9 perigoso: estamos pr\u00f3ximos da vingan\u00e7a, leia <em>Perdida<\/em>, um <em>best-seller<\/em> que \u2013 embora muitos tenham suas ressalvas por se tratar justamente de um <em>best-seller<\/em> \u2013 d\u00e1 muito o que pensar sobre a natureza das rela\u00e7\u00f5es de um casal.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas trai\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que valem a pena comentar, minhas favoritas: a de Howard Belsey em <em>Sobre a beleza<\/em>, a trai\u00e7\u00e3o a essa mulher maravilhosa que \u00e9 Kiki, por uma jovem \u2013 ah, os homens casados! \u2013; a do matrim\u00f4nio Berglund em <em>Liberdade<\/em>, de Jonathan Franzen. No papel, gostamos das trai\u00e7\u00f5es. Porque tem bons e maus, c\u00e9us e infernos, e de colocar r\u00f3tulo, todos n\u00f3s sempre gostamos. H\u00e1 amantes, maridos enganados e filhos que nunca t\u00eam, os pobres, a culpa de nada. Mas as piores trai\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as que perpetramos contra os demais, sen\u00e3o contra n\u00f3s mesmos. No relato \u201cComo ser outra mulher\u201d, inclu\u00eddo em <em>Autoayuda<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, Lorrie Moore narra a hist\u00f3ria de Charlene, uma mo\u00e7a jovem que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o com um homem casado, uma circunst\u00e2ncia que, mais do que convertida <em>na outra<\/em>, a converte simplesmente em outra mulher distinta da que acreditava ser: \u201c- Ol\u00e1, sou Charlene. Sou uma amante. \u00c9 como ter um livro emprestado de uma biblioteca. \u00c9 como ter constantemente um livro emprestado da biblioteca\u201d.<\/p>\n<p>Charlene \u00e9 o livro que logo voltar\u00e1 para a estante porque ningu\u00e9m o comprou, mesmo que seja de Goethe, Tchekhov. Foi emprestado e ningu\u00e9m vai se incomodar \/ vai se dar ao trabalho de virar as p\u00e1ginas cuidadosamente.<\/p>\n<blockquote><p>Quando tinha seis anos, acreditava que \u201camante\u201d significava algo inc\u00f4modo, como p\u00f4r um sapato no p\u00e9 errado. Agora \u00e9 maior e sabe que pode significar muitas coisas, mas que essencialmente significa p\u00f4r o sapato no p\u00e9 errado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Charlene d\u00e1 \u2013 ao meu ju\u00edzo \u2013 a melhor defini\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o que encontrei. Porque frequentemente a trai\u00e7\u00e3o \u00e9 isso: confundir-se de sapato. Tentar que o p\u00e9 direito caiba no esquerdo e come\u00e7ar a andar. Ap\u00f3s curto per\u00edodo de tempo, o atrito aparece, e depois \u00e9 imposs\u00edvel continuar andando.<\/p>\n<p><strong>Cinco: todo o resto<\/strong><\/p>\n<p>E agora, o qu\u00ea?<\/p>\n<p><em>\u201cI think the history of marriage can be written like this: people want too much\u201d \/ \u201cEu penso que uma hist\u00f3ria de casamento poderia ser escrita assim: as pessoas querem demais\u201d.<\/em> Essa frase t\u00e3o l\u00facida \u00e9 o que seu pai diz a Lenny em \u201cThe year of getting to know us\u201d, um incisivo relato de Ethan Canin<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Porque queremos tudo; isso resume e nos resume.<\/p>\n<p>Querer tudo, isto \u00e9: a\u00ed estava. Talvez esse deveria ter sido o ponto de partida deste artigo. Porque me perguntaram v\u00e1rias vezes por que eu estava escrevendo um artigo sobre a infidelidade. Fizeram isso com o sorriso travesso de assuntos frequentemente-sempre-os-mesmos, ou pensando, por dentro, que raz\u00f5es eu teria para estar escrevendo \/ escrever.<\/p>\n<p>Havia muitas raz\u00f5es. Por um lado, \u00e9 certo que, nos \u00faltimos tempos, li artigos que alertavam acerca do crescimento da infidelidade no Reino Unido e nos Estados Unidos. Referiam-se a ela como se tratasse de uma pandemia e estivessem buscando uma cura para esse detest\u00e1vel defeito \/ v\u00edcio. Tamb\u00e9m li outros artigos pseudocient\u00edficos que falam de psic\u00f3logos especializados no tratamento de \u201cc\u00f4njuges infi\u00e9is\u201d e pareciam saber tudo, inclusive se atreviam a fazer uma tipifica\u00e7\u00e3o da conduta normal depois do adult\u00e9rio do estilo \u201ca mulher enganada quer\u201d ou \u201co esposo infiel deve\u201d. Mais tarde, li alguns artigos que, supostamente aprovados por revistas, intentavam dar distintas porcentagens com respeito ao adult\u00e9rio: \u201c40% dos homens enganam devido \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o sexual e 50% das mulheres o fazem porque necessitam de um romance\u201d. S\u00f3 cheguei a uma conclus\u00e3o: como n\u00f3s gostamos dos dados para entender o que n\u00e3o se pode entender.<\/p>\n<p>Depois estava a realidade, claro.<\/p>\n<p>Porque um dia voc\u00ea se senta num bar e escuta como, na mesa ao lado, uma mo\u00e7a abaixa o tom para contar algo a sua amiga e voc\u00ea s\u00f3 escuta que ele prometeu que vai deixar a mulher. Voc\u00ea olha para ela, e ela tamb\u00e9m est\u00e1 usando uma alian\u00e7a e voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o sabe quem tem que deixar a quem. Porque outro dia voc\u00ea se senta ao lado de um estranho no avi\u00e3o que tira a alian\u00e7a assim que aperta o cinto e te diz, com doce h\u00e1lito de u\u00edsque, que n\u00e3o case, <em>voc\u00ea que \u00e9 jovem, olhe para mim, estou apaixonado por uma mulher que n\u00e3o \u00e9 a minha<\/em>. Pensa que, se pudesse abrir a janela, jogaria o anel. Mas, nos avi\u00f5es, as janelas n\u00e3o abrem.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, estava a literatura.<\/p>\n<p>Porque voc\u00ea chega ao seu quarto e revisa os livros da estante. Suspira.<em> \u00c9 assim que voc\u00ea a perde<\/em>, de Junot Di\u0301az; <em>Revolutionary Road<\/em>, de Richard Yates; <em>Saber perder<\/em>, de David Trueba; <em>El periodista deportivo<\/em>, de Richard Ford; <em>Ada ou ardor<\/em>, de Vladimir Nabokov; <em>A insuport\u00e1vel leveza do ser<\/em>, de Milan Kundera; <em>Vi\u00fava por um ano<\/em>, de John Irving, ou <em>Un di\u0301a es un di\u0301a<\/em>, de Margaret Atwood. A lista \u00e9 intermin\u00e1vel. Poderia seguir assim durante horas. Voc\u00ea se d\u00e1 conta de que s\u00e3o todos livros muito distintos e que, no entanto, compartilham em algum momento essa mesma tem\u00e1tica: a infidelidade. Assim, pois, o que \u00e9 que faz do adult\u00e9rio algo t\u00e3o infinitamente irresist\u00edvel para os romancistas&#8230; e para todos?<\/p>\n<p>Esse ponto chega quando voc\u00ea pergunta aos outros. \u00c9 quando a pergunta das raz\u00f5es por esse excesso de infidelidade na literatura d\u00e1 lugar a outro questionamento: por que somos infi\u00e9is? A\u00ed voc\u00ea se perde. Alguns te dizem que talvez seja a crise. Nesse bendito pa\u00eds, a crise sempre tem a culpa de tudo. Outros te dizem que talvez seja a necessidade de aventura ou que essa cultura de <em>fast food<\/em> ao final se aplica a absolutamente tudo, inclusive aos relacionamentos. Disso falava Zygmunt Bauman em <em>Amor l\u00edquido<\/em>. Mas sim, \u00e9 f\u00e1cil conformar-se com explica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas que pretendem abarcar tudo.\u00a0 Mas a realidade est\u00e1 longe da\u00ed \/ de l\u00e1, longe de Bauman.<\/p>\n<p>Fiquei sem respostas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 pouco, em um bar em frente ao Retiro, enquanto falava com uma amiga, comentei que n\u00e3o sabia como terminar este artigo. Fiquei presa no final. No princ\u00edpio, pensei que, depois de tanto ler, teria algo conclusivo a dizer. E o certo \u00e9 que n\u00e3o o tenho. Porque, lentamente, a pergunta sobre o tratamento da infidelidade na literatura foi se transformando nessa pergunta um pouco mais dif\u00edcil de responder: por que somos infi\u00e9is?<\/p>\n<p>Minha amiga sorriu e me respondeu algo interessante: que a infidelidade n\u00e3o era mais do que uma tor\u00e7\u00e3o. <em>Para qu\u00ea?<\/em> Perguntei. <em>Bem, voc\u00ea j\u00e1 sabe, a hist\u00f3ria de sempre. O garoto quer a garota, o garoto come\u00e7a a sair com a garota, mas, de repente, o garoto gosta de outra. E assim vale tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio. A garota quer o garoto, a garota se junta com o garoto, t\u00eam filhos \u2013 ou n\u00e3o \u2013 e a garota gosta de outro garoto mas n\u00e3o deixa o dela. H\u00e1 algo de novo nisso?<\/em> N\u00e3o, na realidade, n\u00e3o. Eu me disse.<\/p>\n<p>Suponho que n\u00e3o h\u00e1 uma resposta v\u00e1lida \u00e0 pergunta \u2018por que somos infi\u00e9is\u2019. N\u00e3o existe. Ou existem muitas, que \u00e9 como dizer que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma. Busquei nos livros uma resposta que n\u00e3o estava nos livros. Que n\u00e3o est\u00e1 em nenhuma parte. J\u00e1 o disse Oteiza: <em>Buscava o seu nome entre os nomes errados das coisas<\/em>. Perguntar-se \u2018por que somos infi\u00e9is\u2019 \u00e9 parecido a se perguntar \u2018por que nos apaixonamos\u2019. Eu n\u00e3o tenho as respostas. Se algu\u00e9m se atreve, comece a escrever.<\/p>\n<p><strong>Laura Ferrero<\/strong> \u00e9 fil\u00f3sofa e jornalista. Ela trabalha no mundo editorial h\u00e1 anos. Pela FronteraD, publicou <em>El Chad: lejos del desencanto<\/em>, <em>En letras mayu\u0301sculas<\/em> e <em>Miedo de ser William Stoner<\/em>. Ela mant\u00e9m o blog <em>Los nombres de las cosas<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Julia Jones<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> PEREL, Esther. <em>Inteligencia er\u00f3tica<\/em>: claves para mantener la pasi\u00f3n en la pareja. Madri: Ediciones Mart\u00ednez Roca, 2007.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> SHRIVER, Lionel. <em>O mundo p\u00f3s-anivers\u00e1rio<\/em>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2009.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> VAN RYSSELBERGHE, Maria. <em>Hace cuarenta a\u00f1os<\/em>. Trad. Regina L\u00f3pez Mu\u00f1oz. Barcelona: Errata naturae, 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MOORE, Lorrie. <em>Autoayuda<\/em>. Trad. Alejandro Pareja Rodr\u00edguez. Madrid: Salamandra, 2002.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> CANIN, Ethan. The year of getting to know us. In: CANIN, Ethan. <em>Emperor of the air<\/em>. San Francisco: Mariner Books, 1988.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f68a547e14\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/As-infidelidades-ou-a-grande-crise-do-desejo-Laura-Ferrero.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]Laura Ferrero Hot\u00e9is an\u00f4nimos, malas que se fecham rapidamente e um beijo fugaz nos l\u00e1bios porque a pressa, como a culpa, n\u00e3o demora a chegar. 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