{"id":510647,"date":"2022-11-03T10:00:21","date_gmt":"2022-11-03T13:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510647"},"modified":"2022-11-03T10:00:21","modified_gmt":"2022-11-03T13:00:21","slug":"uma-etica-do-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/uma-etica-do-encontro\/","title":{"rendered":"Uma \u00e9tica do encontro?"},"content":{"rendered":"<h6><em>Milena Nadier<\/em><\/h6>\n<p>Em \u201cEncontro: do imposs\u00edvel ao contingente\u201d, Pierre Naveau comenta que a com\u00e9dia do amor se converte em drama quando os enamorados esquecem daquilo que ele opta por nomear como \u201c\u00e9tica do encontro\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Mas o que seria mesmo isso? Como pensar uma \u00e9tica desse breve instante de ver ou saber?<\/p>\n<blockquote><p>Se pensarmos, com Lacan, que todo encontro \u00e9 lido segundo a l\u00f3gica instaurada pelo encontro primordial com <em>lal\u00edngua<\/em>, encontrar a felicidade depender\u00e1 da posi\u00e7\u00e3o subjetiva diante da maldi\u00e7\u00e3o do sexo. Temos nisso uma chave para pensar o que um sujeito pode ou n\u00e3o fazer com a repeti\u00e7\u00e3o e o retorno do real: ele pode encontrar o mesmo para fazer igual ou diferente; viver o mesmo de novo ou viver o novo uma vez mais; subjetivar o imprevisto com as mesmas leis ou inventar varia\u00e7\u00f5es novas para elas. Assim, no instante de ver do encontro, o sujeito \u00e9, em tese, sempre feliz. Trata-se de um ponto zero que se abre a alternativas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Poder\u00edamos pensar ent\u00e3o que a \u00e9tica concernente ao encontro estaria na escolha feita diante desse ponto zero ali instaurado. Mas n\u00e3o parece ser apenas isso. Afinal, Naveau est\u00e1 advertindo sobre o drama do amor, algo que parece estar em um tempo posterior \u00e0 \u201cfelicidade\u201d do encontro.<\/p>\n<p>De minha parte, imagino que a pista para acompanh\u00e1-lo na proposi\u00e7\u00e3o dessa \u00e9tica est\u00e1 em uma das aulas do Semin\u00e1rio 20. Nela, um pouco antes de falar sobre \u201co destino e o drama do amor\u201d (mesmo tema escolhido ali por Naveau), Lacan menciona que \u201cencarnou\u201d a conting\u00eancia no <em>para de n\u00e3o se inscrever<\/em>, pois, de acordo com ele, \u201c[&#8230;] a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 outra coisa sen\u00e3o encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o tra\u00e7o do seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Talvez, ent\u00e3o, dizer de uma \u00e9tica do encontro seria dizer de \u201ccomo o <em>falasser <\/em>responder\u00e1 frente \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o estrutural de solid\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Ou, ainda, dizer \u201cdas conseq\u00fc\u00eancias que [este] extrai do encontro com a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e de como lida com a promessa que n\u00e3o se cumpre. Ou seja, de como faz amor e felicidade a partir de um discurso que n\u00e3o seja semblante alheio ao real\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Marilyn e Arthur: muitos encontros ou apenas dois primeiros? Esqueceram da \u00e9tica do encontro? Ou escolheram diferente? O que cada um fez daquela conting\u00eancia tamb\u00e9m me soa dif\u00edcil precisar, apesar das extensivas narrativas sobre o \u201ccasal\u201d. Sinto-me aqui como os escafandristas e s\u00e1bios de Chico Buarque, em \u201cFuturos amantes\u201d, aqueles que viriam<\/p>\n<blockquote><p>Explorar sua casa<br \/>\nSeu quarto, suas coisas<br \/>\nSua alma, desv\u00e3os<br \/>\nS\u00e1bios em v\u00e3o<br \/>\nTentar\u00e3o decifrar<br \/>\nO eco de antigas palavras<br \/>\nFragmentos de cartas, poemas<br \/>\nMentiras, retratos<br \/>\nVest\u00edgios de estranha civiliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><\/a><\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> NAVEAU, Pierre. Encontro: do imposs\u00edvel ao contingente. In: NAVEAU, Pierre. <em>O que do encontro se escreve<\/em>: estudos lacanianos. Belo Horizonte: EBP, 2017. p. 262.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> CALDAS, Heloisa. O amor nosso de cada dia. <em>Latusa, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, Rio de Janeiro, n. 13, p. 27, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 156.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> GARCIA, Licene. Ex\u00edlio, saber e amor: um la\u00e7o. <em>Boletim Modos de usar<\/em>, 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sul\/exilio-saber-e-amor-um-laco\/. Acesso em: 27 ago. 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> CALDAS, 2008, <em>op. cit<\/em>., p. 27.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> BUARQUE, Chico. Futuros amantes. In: <em>Paratodos<\/em>. S\u00e3o Paulo: BMG Ariola, 1993.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Milena Nadier Em \u201cEncontro: do imposs\u00edvel ao contingente\u201d, Pierre Naveau comenta que a com\u00e9dia do amor se converte em drama quando os enamorados esquecem daquilo que ele opta por nomear como \u201c\u00e9tica do encontro\u201d[1]. 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