{"id":510643,"date":"2022-11-03T09:49:34","date_gmt":"2022-11-03T12:49:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510643"},"modified":"2022-11-03T09:49:34","modified_gmt":"2022-11-03T12:49:34","slug":"o-saber-depois-do-frame","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-saber-depois-do-frame\/","title":{"rendered":"O Saber depois do frame"},"content":{"rendered":"<h6>Saulo Machado Cunha<\/h6>\n<p>Parto da provoca\u00e7\u00e3o de Lacan acerca do encontro amoroso, a saber, a de que, um dia, ao acaso, os enamorados <em>n\u00e3o desejaram n\u00e3o<\/em> <em>saber demais<\/em>. A pergunta que se imp\u00f4s ap\u00f3s as discuss\u00f5es no cartel \u2013 a respeito do meu querer \u201csaber demais\u201d \u2013 foi a de investigar de que tipo de saber estamos falando, quando do momento do encontro, na rela\u00e7\u00e3o amorosa. Isso exige alguns apontamentos acerca da linguagem, do ser falante e do corpo. A linguagem \u00e9 feita de al\u00edngua, diz Lacan, e todo o trabalho dela \u00e9 a tentativa de produzir um saber sobre os efeitos de al\u00edngua, quais sejam, os afetos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Produzir um saber sobre esses efeitos nos leva a uma defini\u00e7\u00e3o de saber primeiro como enigma, depois como aquilo que se articula (S<sub>1<\/sub>, S<sub>2<\/sub>&#8230;)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. No entanto, de que saber se trata, no <em>instante<\/em> do encontro amoroso, se tomarmos como premissa base a ideia de que, no apaixonamento, <em>a rela\u00e7\u00e3o sexual para de n\u00e3o se escrever<\/em>?<\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o de Lacan \u00e9 a de que a rela\u00e7\u00e3o sexual para de n\u00e3o se escrever somente pela via de uma miragem. Podemos dizer tamb\u00e9m: de uma imagem. \u00c9 pela via do <em>frame<\/em> que se d\u00e1 a tal da \u201cpaix\u00e3o fulgurante\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Mas n\u00e3o \u00e9 somente pela captura imagin\u00e1ria que nos apaixonamos. A primeira vez que Arthur Miller avista Marilyn Monroe, ela est\u00e1 no centro das aten\u00e7\u00f5es de uma festa, quando ainda n\u00e3o era famosa. Arthur Miller diz que ela \u201cparecia ridiculamente provocativa, porque seu vestido estava grudado de uma forma descarada\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Esse \u00e9 o <em>frame<\/em> de Miller, o <em>imprinting<\/em>, a cena que o capturou mas que, segundo Vieira<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, n\u00e3o se esgota em si mesma: \u00e9 preciso qualquer coisa que se articule de <em>a mais<\/em>. \u00c9 para o que Arpin parece nos apontar quando aproxima a hist\u00f3ria de orfandade do pai de Miller \u00e0 de Marylin, indagando se n\u00e3o se tratava, para Miller, de \u201csustentar o pai atrav\u00e9s da figura de A Mulher\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Assim, o que se articulou para al\u00e9m da imagem de Marilyn no centro das aten\u00e7\u00f5es com um vestido colado no corpo \u2013 imagem nada original, diga-se \u2013 foi, no dizer do pr\u00f3prio Miller, \u201calgo semelhante a uma esperan\u00e7a\u201d que havia \u201carticulado algo secreto\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Junto a Lacan, podemos dizer que este \u201calgo secreto\u201d enunciado pelo dramaturgo \u00e9 o \u201cafeto que resta enigm\u00e1tico\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> que se articula como presen\u00e7a de al\u00edngua, fazendo refer\u00eancia ao saber inconsciente, sempre mais al\u00e9m do que pode ser dito.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o que o saber em jogo no <em>instante<\/em> do encontro amoroso coaduna uma imagem um tanto gen\u00e9rica que, todavia, remete \u00e0 opacidade pr\u00f3pria de um saber sobre al\u00edngua, sendo esta o <em>en-carne<\/em>, no parceiro, dos afetos, sintomas e da marca do ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Nesse sentido, o saber do encontro \u00e9 aquilo que se articula n\u00e3o como cadeia de significantes, mas por aquilo que, sendo efeito de al\u00edngua, o significante \u00e9 convocado a fazer signo<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. A paix\u00e3o adquire sua \u201cfulgur\u00e2ncia\u201d pelo encontro do que aquilo, no outro, lhe pontua como S<sub>1<\/sub>, como tra\u00e7o, e que lhe faz sujeito.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 190.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 188.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> VIEIRA, 2010, p. 1. <em>Paix\u00f5es em an\u00e1lise<\/em>. In: <em>amor e ignor\u00e2ncia<\/em>. Curso livre do ICP-RJ, ministrado na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Rio, 29 de julho de 2010. Transcri\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o inicial e pesquisa de refer\u00eancias por Anna Luiza Almeida e Silva.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, 2010 <em>apud<\/em> ARPIN, Dalila. <em>Parejas c\u00e9lebres<\/em>: lazos inconscientes. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018. p. 82.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> VIEIRA, 2010, <em>op. cit<\/em>., p. 2.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> ARPIN, 2018, <em>op. cit<\/em>., p. 83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, 2010 <em>apud<\/em> ARPIN, 2018, <em>op. cit<\/em>., p. 83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, 1985, <em>op. cit<\/em>., p. 190.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 198.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 195.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saulo Machado Cunha Parto da provoca\u00e7\u00e3o de Lacan acerca do encontro amoroso, a saber, a de que, um dia, ao acaso, os enamorados n\u00e3o desejaram n\u00e3o saber demais. 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