{"id":510640,"date":"2022-11-03T09:45:31","date_gmt":"2022-11-03T12:45:31","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510640"},"modified":"2022-11-03T09:45:31","modified_gmt":"2022-11-03T12:45:31","slug":"joyce-e-nora-a-parceria-como-artificio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/joyce-e-nora-a-parceria-como-artificio\/","title":{"rendered":"Joyce e Nora: a parceria como artif\u00edcio"},"content":{"rendered":"<h6><em>Marcelo Magnelli<\/em><\/h6>\n<p>Foi em \u201cum dia de ver\u00e3o de 1904&#8243; que se deu <em>O encontro<\/em>. <em>J<\/em><em>ames Augustine Aloysius Joyce<\/em>, 22 anos, flanava por Dublin quando percebeu uma jovem com caminhar elegante. Com seu olho m\u00edope, &#8220;p\u00e1ra suas orelhas&#8221; em Nora Barnacle a partir do <em>grande desembara<\/em><em>\u00e7o<\/em> como ela o respondeu, permitindo a continuidade da conversa.<\/p>\n<p>Algo nesse encontro toca o mais \u00edntimo de Joyce. Na conting\u00eancia, algo do Um do gozo, que <em>n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever<\/em>, no espa\u00e7o de um instante, <em>cessa de n\u00e3o se escrever<\/em>. A cessa\u00e7\u00e3o da n\u00e3o escritura da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual parece fazer inscrever \u2013 faz crer \u2013 que ela existe. A fantasm\u00e1tica neur\u00f3tica aponta para essa cren\u00e7a, apagando o efeito de acontecimento de corpo. Com isso, o neur\u00f3tico \u201cadormece&#8221; na hist\u00f3ria de amor, consumindo o pr\u00f3prio do amor. Esse &#8220;pr\u00f3prio&#8221; \u00e9 o <strong>ex\u00edlio<\/strong> do falasser: do imposs\u00edvel de fazer dois do Um. Por isso, cada amor \u00e9 sempre singular<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>O encontro de Joyce e Nora n\u00e3o foi do tipo neur\u00f3tico. Permaneceu o <em>enigma da enuncia\u00e7\u00e3o<\/em> que ele n\u00e3o conseguia elucidar. O ex\u00edlio permanece<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Entendo que Lacan aponta para esse ex\u00edlio quando nos diz que Nora &#8220;n\u00e3o serve [sert] para nada, salvo que o ajusta [serre]\u201d. Ou seja, ali onde o falo simb\u00f3lico n\u00e3o est\u00e1 em jogo, n\u00e3o se trata do valor de significa\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Por isso, parece-me que essa parceria n\u00e3o se tenha tornado da ordem da necessidade (<em>n\u00e3o cessa de se escrever<\/em>).<\/p>\n<p>Diante da <em>verwerfung<\/em> original, a car\u00eancia paterna em Joyce o convocou a tornar-se o <strong>art\u00edfice <\/strong>que dever\u00e1 forjar a <em>consci\u00eancia incriada de sua ra\u00e7a<\/em>. Ou seja, Joyce \u00e9 o artes\u00e3o que cria, sob medida, artif\u00edcios para estar no mundo, assim como Dedalus<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> criou as asas para ele e seu filho \u00cdcaro fugirem da ilha de Creta. A identifica\u00e7\u00e3o aos ideais jesu\u00edtas parece-me o artif\u00edcio inicial: estabilizador em sua inf\u00e2ncia, cai por terra com a irrup\u00e7\u00e3o do gozo corporal na adolesc\u00eancia. Joyce \u00e9 acusado de ser um herege, tal como Byron, na cena da surra, na Rua do Jones. Com a queda do <em>santo<\/em>, tenta erigir outro artif\u00edcio: um \u201cquebra-mar de ordem e eleg\u00e2ncia&#8221;, e o autocontrole corporal, mas a &#8220;mar\u00e9 s\u00f3rdida da vida&#8221; e seus \u201ctumultos org\u00edacos\u201d ultrapassam as barragens. Com isso, surgem desestabiliza\u00e7\u00f5es com ins\u00f4nia, desarticula\u00e7\u00e3o de ideias e palavras impostas. As caminhadas err\u00e1ticas pela cidade (como conheceu Nora) s\u00e3o tentativas de tratamento dessas desestabiliza\u00e7\u00f5es. As epifanias tamb\u00e9m ocorrem nesses passeios, efeito de interpenetra\u00e7\u00e3o entre Real e Simb\u00f3lico e s\u00e3o da ordem do necess\u00e1rio. O artista seguir\u00e1 por uma via <em>her\u00e9tica <\/em>e comportar\u00e1 uma Est\u00e9tica pr\u00f3pria para constituir o EGO como um artif\u00edcio, ao inv\u00e9s de um corpo<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Nora, para Joyce, parece-me mais um desses artif\u00edcios para tentar manter unidos Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio. Sua parceria extraordin\u00e1ria o mant\u00e9m ordinariamente estabilizado e \u00e9 compar\u00e1vel, em sua efetividade, apenas \u00e0 sua escrita.<\/p>\n<p>Lacan destaca que Nora \u00e9, para Joyce, &#8220;uma luva virada ao avesso. Com isso, demonstra o efeito de servir perfeitamente, ajustando o corpo de Joyce ao abra\u00e7o de Nora. Uma luva, destaquemos, pode ser utilizada em uma m\u00e3o e, se colocada ao avesso, na outra. Finalmente, na palavra luva, em ingl\u00eas, se intromete a palavra amor: (g)love.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Fabi\u00e1n Schejtman, em seu livro <em>Philip Dick con Jacques Lacan<\/em>, busca comparar <u>A<\/u> <strong>Noraluva-sinthome<\/strong> com <u>as<\/u> \u201cmulheres-alma\u201d de Philip Dick, destacando a diferen\u00e7a de enodamento em jogo, o que justificaria, inclusive, o fato de Nora ser \u00fanica para Joyce<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-510641\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/imagem_cartel-300x168.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/imagem_cartel-300x168.png 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/imagem_cartel.png 304w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O EGO n\u00e3o toca o real do imagin\u00e1rio corporal, mas apenas o Real em sua rela\u00e7\u00e3o com o Simb\u00f3lico. A proposta de <strong>Noraluva-sinthome <\/strong>de Schejtman se apresenta como um segundo enodamento <em>sinthom\u00e1tico <\/em>(porque repara no exato local do lapso do n\u00f3), <em>em rela\u00e7\u00e3o com o EGO<\/em>. Um n\u00f3 em formato de orelha que <strong>modela e ajusta<\/strong> o enodamento do EGO com o real do imagin\u00e1rio corporal. Nora \u00e9 insubstitu\u00edvel porque n\u00e3o h\u00e1 outra que se encaixe no sinthoma de Joyce como ela.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> NAVEAU, P. Encontro &#8211; do impossi\u0301vel ao contingente. In: NAVEAU, P. <em>O que do encontro se escreve<\/em>: estudos lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017. p. xx-xx.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> ARPIN, D. <em>Parejas c<\/em><em>\u00e9<\/em><em>lebres<\/em>: lazos inconscientes. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018. p. 138.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1<\/em><em>rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Stephen Dedalus \u00e9 o <em>alter ego<\/em> de Joyce em seu livro <em>Retrato do artista quando jovem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> JOYCE, J. <em>Retrato do artista quando jovem<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2001.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, 2011, p. 81 completar esta nota<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Schejtman, F. <em>Philip Dick con Jacques Lacan<\/em>: cl\u00ednica psicoanal\u00edtica como ciencia-ficci\u00f3n. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Magnelli Foi em \u201cum dia de ver\u00e3o de 1904&#8243; que se deu O encontro. James Augustine Aloysius Joyce, 22 anos, flanava por Dublin quando percebeu uma jovem com caminhar elegante. 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