{"id":510638,"date":"2022-11-03T09:42:50","date_gmt":"2022-11-03T12:42:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510638"},"modified":"2022-11-03T09:42:50","modified_gmt":"2022-11-03T12:42:50","slug":"a-que-serve-nora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/a-que-serve-nora\/","title":{"rendered":"A que serve Nora?"},"content":{"rendered":"<h6>Nelson Matheus Silva<\/h6>\n<p>Comecei me questionando se seria Nora um sinthoma para Joyce. Em caso de negativa, qual seria ent\u00e3o sua fun\u00e7\u00e3o para ele. Que sua presen\u00e7a f\u00edsica tinha um efeito sobre ele, acredito que n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre esse ponto. Assim, inicio.<\/p>\n<p>Escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 uma ilus\u00e3o, uma miragem, que pode se dar no instante de um encontro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Uma ilus\u00e3o uma vez que a conting\u00eancia flui, de imediato, para a necessidade, afastando aquilo que podemos chamar de amor do encontro que o fez nascer. N\u00e3o \u00e9 disso, por\u00e9m, o que se trata na parceria de Joyce e Nora.<\/p>\n<p>Na aula em que Lacan se interroga se Joyce era louco, ele vai tamb\u00e9m levantar algumas quest\u00f5es sobre a parceria deste \u00faltimo com Nora, sua esposa. &#8220;Direi, [que essa parceria \u00e9] coisa singular, que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual, ainda que eu diga que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual bem esquisita.&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Bem. Se algo nos cai como uma luva, n\u00e3o podemos dispensar a ideia que tal express\u00e3o, t\u00e3o comum na vida cotidiana, aponta para o que se faz oportuno, justo ali. Ent\u00e3o, dizer, portanto, que Nora \u00e9 para Joyce como uma luva, como Lacan o disse, uma luva virada ao avesso, isto \u00e9, que lhe cai bem tanto no direito como no esquerdo, nos orienta a supor o lugar de consist\u00eancia que era Nora para ele, ao mesmo tempo em que marca um certo escamotear da diferen\u00e7a sexual<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Nesse ponto, vale ressaltar que mais do que cair como uma luva, o importante mesmo \u00e9 que Nora se ajusta, se assujeita a ele, d\u00e1 seu contorno.<\/p>\n<p>Afirmar isso, por\u00e9m, \u00e9 afirmar que teria sido Nora um sinthoma para Joyce? &#8220;Voc\u00ea se tornou uma parte de mim, uma s\u00f3 carne&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, diz Joyce \u00e0 sua esposa. &#8220;Barnacle&#8221;, sobrenome de Nora, tem um duplo sentido, e evoca tamb\u00e9m um gancho, ponto esse que n\u00e3o passou despercebido para o pai de Joyce, que diz ao filho que essa nunca o abandonar\u00e1.<\/p>\n<p>Para que uma mulher seja um sintoma para um homem, \u00e9 preciso que ela seja uma-dentre-outras. Tal condi\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por meio de um polo de tens\u00e3o pelo qual essa mulher pertence de alguma forma a um outro homem. Nora era o \u00fanico modelo para Joyce, s\u00f3 havia ela para ele. Num momento em que Nora se ausenta, Joyce se desestabiliza. Ele delira e a acusa de infidelidade, escreve-lhe cartas ofensivas e s\u00f3 se acalma quando um antigo amigo afirma para ele que um tal ponto relacionado \u00e0 infidelidade de Nora era uma &#8220;enorme mentira&#8221;. Nora \u00e9 parte, tem participa\u00e7\u00e3o, naquilo que Joyce estava inventando: sua escrita.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, pensei em algum momento em que Nora pode ser equiparada, em sua fun\u00e7\u00e3o, a um analista como parceiro-sinthoma, que se instala na transfer\u00eancia como &#8220;complemento&#8221; do sintoma de algu\u00e9m. No Semin\u00e1rio 23, quando interrogam Lacan perguntando se a psican\u00e1lise seria um sinthoma, ele n\u00e3o vacila em responder: &#8220;n\u00e3o \u00e9 a psican\u00e1lise que \u00e9 o sinthoma, mas o psicanalista&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nora, como parceira-sinthoma de Joyce, adv\u00e9m como &#8220;complemento&#8221; de seu sintoma, seu ego, Joyce. Ela possibilita que as partes dispersas de seu corpo tenham um contorno, um enganche, como possibilita tamb\u00e9m que haja uma localiza\u00e7\u00e3o de seu gozo. N\u00e3o servir para nada n\u00e3o quer dizer que Nora seja dispens\u00e1vel para ele, ao contr\u00e1rio, \u00e9 em sua fun\u00e7\u00e3o de sujei\u00e7\u00e3o, de se moldar absolutamente ao gozo de Joyce, contendo seus excessos, que ela se faz fundamental.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> NAVEAU, Pierre. <em>O encontro &#8211; Do Impossi\u0301vel ao contingente<\/em>. In: NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve: estudos lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017. p. 260.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 81.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> ARPIN, Dalila. <em>Parejas c\u00e9lebres<\/em>: lazos inconscientes. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Ibidem, p. 128.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> LACAN, 2007\/1975-1976, <em>op. cit<\/em>., p. 131.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Matheus Silva Comecei me questionando se seria Nora um sinthoma para Joyce. Em caso de negativa, qual seria ent\u00e3o sua fun\u00e7\u00e3o para ele. 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