{"id":510558,"date":"2022-09-28T09:37:44","date_gmt":"2022-09-28T12:37:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510558"},"modified":"2022-11-07T06:35:44","modified_gmt":"2022-11-07T09:35:44","slug":"amor-e-devastacao-sofrencias1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/amor-e-devastacao-sofrencias1\/","title":{"rendered":"AMOR E DEVASTA\u00c7\u00c3O (SOFR\u00caNCIAS)[1]"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-510559 size-large\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003.jpg 1024w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003-300x300.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003-150x150.jpg 150w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003-768x768.jpg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos004_003-200x200.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/h6>\n<h6>Marcus Andr\u00e9 Vieira &#8211; Psicanalista, AME, AE (2012-2015), membro da EBP e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<\/h6>\n<p>O analista, por ter seu of\u00edcio pautado pelo amor de transfer\u00eancia, talvez tenha algo a dizer sobre o amor. No entanto, s\u00f3 o apreende \u201cde dentro\u201d, sempre de algum lugar espec\u00edfico em que \u00e9 posto pelo analisante na transfer\u00eancia. Dessa forma, jamais tem dele uma vis\u00e3o panor\u00e2mica, de observador, que, sabemos, \u00e9 sempre uma posi\u00e7\u00e3o de pretenso dom\u00ednio, do mestre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, melhor descartar de sa\u00edda qualquer pretens\u00e3o de entender ou explicar esse fen\u00f4meno apaixonante que \u00e9 o do amor<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Ali\u00e1s, o amor \u00e9 assim mesmo: precariza qualquer mestre, j\u00e1 que ningu\u00e9m tem dele um ponto de vista geral nem defini\u00e7\u00e3o precisa, a n\u00e3o ser, de t\u00e3o distanciado, perdendo-se da experi\u00eancia amorosa.<\/p>\n<p>Melhor partir do mais simples: sabe-se, quando se ama, que se ama. Vale, aqui, o que diz Lacan sobre a certeza. Ela \u00e9 alguma coisa \u201cque se sabe, consigo\u201d, mas que basta \u201cprestar aten\u00e7\u00e3o para se perder dela\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A conjun\u00e7\u00e3o entre amor e uma certeza sem muita explica\u00e7\u00e3o desenha todo um universo vivo e apaixonante, mas, ao mesmo tempo, parece trazer para essa experi\u00eancia um espa\u00e7o em que amor e ang\u00fastia se encontram. Afinal, ali, nunca se sabe bem onde se pisa. H\u00e1 sempre o risco de que, de repente, tudo parece ruir, e a gente se encontre sem pai, nem m\u00e3e nem vizinho, em terra arrasada, sem saber como seguir.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um termo no ensino de Lacan que ensina sobre essa conjun\u00e7\u00e3o entre amor e desastre \u00e9 o de devasta\u00e7\u00e3o [ravage]. \u00c9 do que quero tratar.<\/p>\n<p>A certeza de que se ama vem junto com a da ang\u00fastia de amar. Dito de outro modo, n\u00e3o h\u00e1 amor sem sofr\u00eancia. Como se v\u00ea, at\u00e9 o sertanejo universit\u00e1rio sabe que o mito da cara-metade, do <em>true love<\/em>, \u00e9 um ideal e que a realidade do amor \u00e9 bem outra.<\/p>\n<p>Apesar de o amor ser todo um mundo, h\u00e1 modos distintos de estar no amor. Muitos. Chamemos de amor rom\u00e2ntico esse ideal de que dois possam \u201cfazer Um\u201d. Desde Arist\u00f3fanes, em <em>O banquete<\/em>, ele ganha a forma \u00e9pica de uma explica\u00e7\u00e3o para o fato de sermos t\u00e3o malfeitos: \u00e9 porque ser\u00edamos a metade de uma laranja original.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do analista, sempre lidando com o desencontro, esse modo de estar no amor parece del\u00edrio fadado ao fracasso. Nada indica que teria havido um \u00c9den em que ter\u00edamos sido plenos a n\u00e3o ser nosso desejo de que assim fosse. Esse ideal, por\u00e9m, vela justamente essa inexist\u00eancia. Assim, desde Freud, assumimos que n\u00e3o h\u00e1 como recuperar o gozo perdido simplesmente porque este \u00c9den nunca existiu. Essa parte de gozo perdida \u00e9 irrecuper\u00e1vel, n\u00e3o porque comemos um dia a ma\u00e7\u00e3, mas porque \u00e9 exatamente a parte de n\u00f3s mesmos perdida para nos tornarmos gente, seres da cultura que somos.<\/p>\n<p>Toda a dor reside, ent\u00e3o, afirma Lacan, em que no amor o que se visa \u00e9 exatamente este al\u00e9m do que se \u00e9, al\u00e9m do ser \u2013 exatamente o que desaparece quando aparecemos no mundo.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e0s vezes o amor \u00e9 paix\u00e3o. A paix\u00e3o \u00e9 uma \u201ccarreira sem limites\u201d porque n\u00e3o se satisfaz, n\u00e3o se resolve com o que o objeto amado \u00e9, ou com o que ele teria para dar. Ela visa atingir, obter, dele, o que ele n\u00e3o tem, ou seja, o que (ao menos no campo do narcisismo) ele n\u00e3o \u00e9, nem tem como ser<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Descartado o amor rom\u00e2ntico, ficamos, ent\u00e3o, com o amor paix\u00e3o. Melhor assim, pois por visar o al\u00e9m-mundo \u00e9 que o amor pode mudar o mundo. \u00c9 pelo amor paix\u00e3o que tanto Freud quanto Lacan abordaram o amor. Chamaram-no desejo.<\/p>\n<p>O desejo, no sentido freudiano, \u00e9 o que visa o al\u00e9m da imagem, Outra coisa<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O ponto de vista do desejo destaca ainda como esse al\u00e9m do ser, obscuro objeto, se distribui em dois polos, masculino e feminino. O desejo vive da busca de uma imposs\u00edvel recupera\u00e7\u00e3o do gozo apoiado pela cren\u00e7a em uma complementaridade entre os g\u00eaneros que n\u00e3o h\u00e1. Dito de outra forma, \u00e9 tribut\u00e1rio \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, mas em seu pr\u00f3prio movimento nos leva a pensar que isso \u00e9 poss\u00edvel. Ao mesmo tempo, a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o o pereniza.<\/p>\n<p>Tudo estaria bem se a gente n\u00e3o gozasse. A ideia de que algum dia, se buscarmos com vontade, seremos felizes por encontrar nossa alma g\u00eamea se sustenta firme enquanto a parte perdida de n\u00f3s mesmos teimar em fugir, inalcan\u00e7\u00e1vel. Se s\u00f3 houvesse a busca de uma satisfa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel, estar\u00edamos para sempre amarrados aos caminhos identit\u00e1rios, sexuados, em que essa busca se estrutura para cada um segundo sua estrutura fantasm\u00e1tica. Acontece, por\u00e9m, que, de vez em quando, goza-se. \u00c9 o que torna o real da falta relativo. Por um instante, o imposs\u00edvel acontece.<\/p>\n<p>Nesse ponto do gozo, da falta da falta, chegamos perto da dissolu\u00e7\u00e3o de si, seres de desejo que somos. Esse \u00e9 o ponto em que Lacan localiza a ang\u00fastia. Ela n\u00e3o \u00e9 a falta, mas o que ocorre quando a falta vem a faltar.<\/p>\n<p>Esse ser\u00e1 o ponto por onde a devasta\u00e7\u00e3o entra na cena do amor. Retomo rapidamente algumas das balizas sobre o tema do gozo, quando falta a falta, em sua contraposi\u00e7\u00e3o ao desejo, quando a falta nos move, para chegar \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas na diferen\u00e7a entre seres, masculino ou feminino, montada em torno da falta e da castra\u00e7\u00e3o que Lacan vai situar e explorar o universo do amor e da ang\u00fastia. Ao contr\u00e1rio, especialmente a partir de seu Semin\u00e1rio 20, ele vai calc\u00e1-la na diferen\u00e7a entre gozos.<\/p>\n<p>No plano do gozo, prazer, ang\u00fastia e abismo podem se entrela\u00e7ar sem limita\u00e7\u00e3o. Se o gozo \u00e9 a vida que nos toma sem a falta para dar-lhe limita\u00e7\u00e3o, ele deveria ser o oposto ao que Lacan denomina gozo f\u00e1lico, o do prazer, porque este \u00faltimo \u00e9 uma perda de gozo. O prazer n\u00e3o ocorre sem aquele recuo, aquele ceder que leva a uma vida mais ou menos em paz. Sim, porque o prazer \u00e9 sempre um recuo diante do abismo. \u00c9 quando temos aquele sentimento moment\u00e2neo de que chegamos l\u00e1, chamado por Lacan de gozo sexual ou gozo f\u00e1lico, cujo exemplo mais preciso \u00e9 o que chamamos de orgasmo. O prazer sobrev\u00e9m, quando desistimos, quando trocamos o infinito do gozo pelo gostinho dele na boca.<\/p>\n<p>O Outro gozo \u00e9 aquele \u201cperder-se de si\u201d que pode se insinuar na busca desencontrada do amor, como um empuxo sem dire\u00e7\u00e3o ou porto e que nos abre a um angustiante infinito sem lugar. \u00c9 quando se fica \u201cfora de si\u201d, \u201csem rima ou raz\u00e3o\u201d, para retomar o dizer de Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Foi com o lado dos que s\u00e3o sexuados pelo \u201cn\u00e3o\u201d (sem acesso direto ao gozo f\u00e1lico), com as mulheres de sua \u00e9poca, que Freud reconheceu os paradoxos desse gozo, que dizemos feminino ou opaco ou ainda gozo do Um. Naqueles cuja estrutura\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica \u00e9 a do \u201cn\u00e3o ter\u201d, abre-se o sentimento de que a sofr\u00eancia do amor n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o existe o gozo do casal, como um todo, mas porque o al\u00e9m desse gozo lhe ex-siste, como gozo n\u00e3otodo.<\/p>\n<p>Situam-se aqui fen\u00f4menos amorosos que v\u00e3o de par com a ang\u00fastia, mas sem a limita\u00e7\u00e3o que ela ainda guarda apesar de a m\u00ednima, a de um \u201csi mesmo\u201d. \u00c9 o amor como paix\u00e3o louca do fora de si, de uma carreira sem limites. Vejam o micropoema de Hilda Hilst:<\/p>\n<blockquote><p>Quem \u00e9s? Perguntei ao desejo.<br \/>\nRespondeu: lava. Depois p\u00f3. Depois nada.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Leio como um tocante retrato de uma devasta\u00e7\u00e3o, terra arrasada. Acontece, por\u00e9m, que devasta\u00e7\u00e3o ganhou em nossa comunidade <em>status<\/em> de conceito. \u00c9 um substantivo e n\u00e3o apenas uma fun\u00e7\u00e3o adjetiva. N\u00e3o se resume ao fen\u00f4meno, n\u00e3o \u00e9 apenas a experi\u00eancia de terra arrasada no amor. Ali\u00e1s, a terra arrasada nunca \u00e9 completamente devastada. Esse \u201clava, p\u00f3, nada\u201d da devasta\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser para n\u00f3s o fim do mundo, desterro absoluto, deserto do real, simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 nada no real em si, nem devasta\u00e7\u00e3o, nem mesmo deserto. Ningu\u00e9m vive no real.<\/p>\n<p>Assumimos, ent\u00e3o, que a devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00edndice de uma posi\u00e7\u00e3o, um modo de estar com rela\u00e7\u00e3o ao gozo do corpo. Dito de outro modo, a devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cn\u00e3o sem\u201d Outro. Mas qual o Outro da devasta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Lembro as duas passagens de Lacan sobre a devasta\u00e7\u00e3o. Ele situa em uma passagem o parceiro masculino como o Outro da devasta\u00e7\u00e3o e a m\u00e3e, em outra. Para uma mulher, algu\u00e9m n\u00e3o arrimado pelo gozo f\u00e1lico, o homem poderia levar \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o por se recusar a ser Outro, j\u00e1 que s\u00f3 capaz de pensar em objetos e fetiches. J\u00e1 a m\u00e3e, por sustentar uma imposs\u00edvel matriz identificat\u00f3ria, rivalit\u00e1ria que fosse, seria o parceiro-devasta\u00e7\u00e3o da filha por estar, ela tamb\u00e9m, \u00e0s voltas com o n\u00e3otodo<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 em comum entre as duas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seja apenas o fato da condi\u00e7\u00e3o feminina no teatro dos sexos, mas de uma posi\u00e7\u00e3o a partir dela?<\/p>\n<p>Proponho endossar a tese de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse: a devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 efeito de uma posi\u00e7\u00e3o que consiste em esperar de algum objeto mais \u201csubst\u00e2ncia\u201d que do Outro e de seus nomes<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. N\u00e3o \u00e9 esperar do Pai essa subsist\u00eancia, como pensava Freud, mas de um objeto, que em nada se aproxima do fetiche, como no caso do gozo f\u00e1lico. N\u00e3o \u00e9 um objeto f\u00e1lico, como a beleza de um corpo ou seus dotes. \u00c9 um objeto que encarna uma abertura a um al\u00e9m do gozo (f\u00e1lico) e que, por isso, passa a valer mais que o Outro. \u00c9 o que ocorre no exemplo que ela d\u00e1 de sua analisante, para quem dormir sem o marido ao lado na cama era lan\u00e7ar-se em um vazio melanc\u00f3lico. Bastava o corpo a seu lado, nada mais, mas ao mesmo tempo esse corpo, mais que o Outro, \u00e9 seu Outro. Sem esse corpo \u00e0 noite, \u00e9 o corpo dela que fica sem forma.<\/p>\n<p>Que parceiro deveria ser o analista para separar em parte o analisante desse objeto total? Desse Outro da devasta\u00e7\u00e3o? Creio que a desestrutura\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radical que essa pergunta s\u00f3 pode come\u00e7ar a ser respondida se abordamos a alteridade em quest\u00e3o n\u00e3o tanto como a de um objeto, mas como a do sinthoma. O analista, aqui, \u00e9 objeto, tomado na transfer\u00eancia como objeto da fantasia do analisante, de acordo. Melhor, por\u00e9m, tamb\u00e9m tom\u00e1-lo como parceiro-sinthoma, ou seja, igualmente fazendo-se destinat\u00e1rio do gozo que n\u00e3o cabe na fantasia.<\/p>\n<p>Como aquela analisante que, depois de tudo perder com a perda de seu marido, que a trocara por outra mais jovem, ap\u00f3s toda uma vida juntos, perde-se na devasta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a abandona quando consegue deixar relativamente de lado aquele objeto absoluto, o marido, por permitir-se registrar uma sensa\u00e7\u00e3o corporal inusitada. Um simples banho de cachoeira passou a condensar um modo de erotismo \u201ct\u00e1til\u201d da pele como um todo, sem a passagem pelo olhar, que era condi\u00e7\u00e3o para seu gozo f\u00e1lico, e que a fixava ao olhar do marido perdido, assim como o olhar das outras mulheres, para quem s\u00f3 podia se sentir a velha encarquilhada e um dejeto.<\/p>\n<p>Suponho que esse novo erotismo \u201cde pele\u201d esteja mais no plano do gozo do sinthoma que da fantasia, plano que s\u00f3 se verificar\u00e1 como tal no fim da an\u00e1lise, mas que se apresenta aqui em um horizonte estabilizador com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, um \u00faltimo paradoxo: o sinthoma, absolutamente sem ch\u00e3o, \u00e9 que dar\u00e1 um ch\u00e3o? Como uma conclus\u00e3o em aberto, proponho uma imagem desse paradoxo em sua rela\u00e7\u00e3o com a devasta\u00e7\u00e3o. \u201cA mulher do fim do mundo\u201d, can\u00e7\u00e3o feita para Elza Soares.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso escutar a can\u00e7\u00e3o, se deixar levar por ela porque a letra diz apenas uma pequena parte do que a voz imensa de Elza Soares entoa. Escuta-se a intensidade absoluta de toda uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica que \u00e9 um pouco a do nosso povo negro, mas contida, ou melhor, encaminhada para a pr\u00f3pria experi\u00eancia de cantar como esse gozo que faz ch\u00e3o. E o nome do ch\u00e3o, aqui, n\u00e3o \u00e9 a casa, as ruas da cidade (t\u00e3o perigosas), mas a avenida. \u00c9 o lugar que a mulher do fim do mundo tudo deixou, tudo, mas ao mesmo tempo \u00e9 o lugar em que ela ficar\u00e1 at\u00e9 o fim dos tempos. Devastada ela? Sim e n\u00e3o? Ali, entre avenida e o gozo de cantar na avenida, encontrou uma maneira de estabelecer-se e afirmar-se sem precisar mais contar com sua hist\u00f3ria e identidade, muito mais com um fazer. O de cantar e cantar e cantar&#8230;<\/p>\n<blockquote><p>Na avenida deixei l\u00e1 \/ A pele preta e a minha voz \/ Na avenida deixei l\u00e1 \/ A minha fala, a minha opini\u00e3o \/ A minha casa, a minha solid\u00e3o \/ Joguei do alto do terceiro andar \/ Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida \/ Na avenida dura at\u00e9 o fim \/ Mulher do fim do mundo \/ Eu sou eu vou at\u00e9 o fim cantar \/ Mulher do fim do mundo \/ Eu sou eu vou at\u00e9 o fim cantar [&#8230;].<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto \u00e9 constitu\u00eddo por alguns fragmentos de uma apresenta\u00e7\u00e3o na Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP, a ser publicada na \u00edntegra em Arquivos da Biblioteca (agrade\u00e7o \u00e0 Ana Beatriz Freyre pelo convite e \u00e0 Maria Cristina Jeronimo pela revis\u00e3o e notas).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para \u201cO amor \u00e9 apaixonante\u201d, cf. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non-dupes errent<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 12 de mar\u00e7o de 1974. (in\u00e9dito) <em>apud<\/em> VIEIRA, M. A. Sobre o amor e a puls\u00e3o. In: RIBEIRO, M. A. C.; BARROS DA MOTTA, M. (Orgs.). <em>Os destinos da puls\u00e3o<\/em>: sintoma e sublima\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: EBP-Rio; ContraCapa, 1997. p. 130.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. (1977) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 567.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Como afirma Lacan: \u201c[&#8230;] amar \u00e9 amar um ser para al\u00e9m do que ele parece ser.\u201d Cf. LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. p. 315.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u00c9 pelo desejo que Freud trata o amor, n\u00e3o como um estado ideal da alma (Liebe), mas como fascina\u00e7\u00e3o, captura, movimento (Verliebtheit) (cf. VIEIRA, 1997, <em>op. cit<\/em>.).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MILLER, J.-A. <em>L\u2019orientation lacanienne. L\u2019Un tout seul<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 6 de abril de 2011. (in\u00e9dito)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> HILST, H. <em>Do desejo<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Globo, 2004. p. 15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan empregou o termo devasta\u00e7\u00e3o em dois momentos de seu ensino para se referir 1) \u00e0 rela\u00e7\u00e3o da filha com sua m\u00e3e em \u201cO aturdito\u201d: \u201cPor essa raz\u00e3o, a elucubra\u00e7\u00e3o freudiana do complexo de \u00c9dipo, que<\/h6>\n<h6>faz da mulher peixe na \u00e1gua, pela castra\u00e7\u00e3o ser nela ponto de partida (<em>Freud dixit<\/em>), contrasta dolorosamente com a realidade de devasta\u00e7\u00e3o que constitui, na mulher, em sua maioria, a reIa\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, de quem, como mulher, eIa realmente parece esperar mais subst\u00e2ncia que do pai \u2013 o que n\u00e3o combina com ele ser segundo, nessa devasta\u00e7\u00e3o.\u201d (LACAN, J. O aturdito. (1973) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 465); 2) \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de uma mulher com um homem, em seu Semin\u00e1rio 23, <em>O sinthoma<\/em> \u2013 \u201c[&#8230;] este que \u00e9 para ela uma afli\u00e7\u00e3o pior que um sintoma, a saber, uma devasta\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 98.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cf. BROUSSE, M.-H. <em>Mulheres e discursos<\/em>. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2019. p. 15.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f686ce9e7f\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Amor-e-Devastacao-Marcus-Andre-Vieira.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] Marcus Andr\u00e9 Vieira &#8211; Psicanalista, AME, AE (2012-2015), membro da EBP e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise O analista, por ter seu of\u00edcio pautado pelo amor de transfer\u00eancia, talvez tenha algo a dizer&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510558"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=510558"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510558\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510677,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510558\/revisions\/510677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=510558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=510558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=510558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}