{"id":510510,"date":"2022-09-02T08:03:09","date_gmt":"2022-09-02T11:03:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510510"},"modified":"2022-09-02T08:12:42","modified_gmt":"2022-09-02T11:12:42","slug":"erotica-e-feminino1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/erotica-e-feminino1\/","title":{"rendered":"ER\u00d3TICA E FEMININO[1]"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6>Ana L\u00facia Lutterbach-Holck (AMP\/EBP)<\/h6>\n<blockquote><p>&#8220;<em>\u00c9 poss\u00edvel dizer que o erotismo<br \/>\n<\/em><em>\u00a0\u00e9 o consentimento da vida at\u00e9 a morte<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>A psican\u00e1lise, apesar de ter produzido uma importante mudan\u00e7a de perspectiva sobre o amor e a sexualidade, n\u00e3o foi mais longe na investiga\u00e7\u00e3o de uma er\u00f3tica e o sinal mais patente desta car\u00eancia seria o problema da feminilidade. Com essa observa\u00e7\u00e3o, Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> prop\u00f5e uma disjun\u00e7\u00e3o entre er\u00f3tica e sexualidade e situa a feminilidade como sinal dos limites de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a er\u00f3tica.<\/p>\n<p>Nos dicion\u00e1rios<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> consultados n\u00e3o se encontra o substantivo &#8220;er\u00f3tica&#8221;, apenas o adjetivo \u00aber\u00f3tico\u00bb, relativo ao amor f\u00edsico e \u00e0 sexualidade.<\/p>\n<p>A Er\u00f3tica na antiguidade definia, segundo Foucault<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, o que deveria ser a rela\u00e7\u00e3o de um homem com um rapaz, em refer\u00eancia a <em>Eros<\/em>, para atingir a mais bela e mais perfeita forma e determinar qual uso deveriam fazer de seus prazeres. A er\u00f3tica plat\u00f4nica era masculina e prevaleciam as rela\u00e7\u00f5es entre <em>Eros<\/em> e verdade. O sexo, apesar de secund\u00e1rio, devia ser praticado entre aqueles que se ocupavam da verdade, e o amor era a estrat\u00e9gia, a via para se alcan\u00e7ar este saber.<\/p>\n<p>Os gregos dispunham de um vocabul\u00e1rio para designar pr\u00e1ticas de prazer precisas mas n\u00e3o havia uma categoria geral que inclu\u00edsse todas as pr\u00e1ticas. N\u00e3o existia um substantivo que agrupasse em uma no\u00e7\u00e3o comum o que poderia haver de espec\u00edfico da sexualidade masculina e feminina, mas distinguiam-se claramente dois pap\u00e9is, o de sujeito e o de objeto, aquele que exerce a atividade e aquele sobre o qual ela se exerce.<\/p>\n<p>As mulheres ficavam \u00e0 parte, se ocupavam de outras pr\u00e1ticas, n\u00e3o temos as palavras veiculadas por elas ou entre elas, porque as palavras femininas n\u00e3o produziam conhecimento, n\u00e3o tiveram registro.<\/p>\n<p>Nos prim\u00f3rdios do cristianismo realizam-se modifica\u00e7\u00f5es fundamentais que, em muitos aspectos, regem a moral atual, mas o termo &#8216;sexualidade&#8217; s\u00f3 surgiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, como observa Foucault<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>At\u00e9 Freud, as necessidades sexuais estavam ancoradas na suposi\u00e7\u00e3o de um \u00abinstinto sexual\u00bb correlato ao instinto animal, cujo objeto para cada sexo seria o sexo oposto e o objetivo, a reprodu\u00e7\u00e3o. Ao propor o termo \u00abpuls\u00e3o sexual\u00bb, ele subverte essa ideia afirmando que n\u00e3o h\u00e1 nada pr\u00e9-escrito ou instintivo nas rela\u00e7\u00f5es entre a satisfa\u00e7\u00e3o, o objeto e os fins da sexualidade. Em &#8220;Os tr\u00eas ensaios sobre a sexualidade&#8221;<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, ele faz uma distin\u00e7\u00e3o entre o sexual, o genital e a reprodu\u00e7\u00e3o e inclui na vida sexual a fun\u00e7\u00e3o de obter prazer em todo o corpo, elaborando uma teoria da sexualidade in\u00e9dita, inteiramente calcada em sua experi\u00eancia cl\u00ednica.<\/p>\n<p>O interesse exclusivo de um sexo pelo sexo oposto n\u00e3o \u00e9 um fato evidente em si mesmo, tanto quanto a escolha pelo objeto do mesmo sexo. A escolha de objeto n\u00e3o \u00e9 natural, a puls\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 determinada pelos atrativos do objeto, nem tem como objetivo unicamente, a reprodu\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o sexual. Algumas pr\u00e1ticas preliminares<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> que se situam no caminho da c\u00f3pula, como tocar e olhar, s\u00e3o reconhecidas como objetivos sexuais.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da vida er\u00f3tica da antiguidade, como observa Freud<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, onde se glorificava a puls\u00e3o e o objeto ocupava um lugar secund\u00e1rio, h\u00e1 entre n\u00f3s uma valoriza\u00e7\u00e3o do objeto e a atividade pulsional \u00e9 desprezada. No entanto, a origem da puls\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 determinada pelos atrativos do objeto, estes t\u00eam uma import\u00e2ncia secund\u00e1ria, o primordial e constante na puls\u00e3o \u00e9 o vaiv\u00e9m em que ela se estrutura, como observa Lacan no Semin\u00e1rio 11<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Na obra freudiana, apesar do amplo desenvolvimento de uma teoria da sexualidade e do termo \u00aber\u00f3tica\u00bb ser mencionado in\u00fameras vezes, este s\u00f3 aparece como qualidade ou car\u00e1ter de um estado. N\u00e3o h\u00e1 uma conceitua\u00e7\u00e3o da er\u00f3tica enquanto tal. Em Lacan n\u00e3o h\u00e1 nenhum artigo ou semin\u00e1rio dedicado ao assunto e s\u00f3 em algumas passagens ele faz refer\u00eancia \u00e0 er\u00f3tica, uma delas \u00e9 a quest\u00e3o mencionada acima.<\/p>\n<p>Em outra passagem, dois anos depois, no semin\u00e1rio sobre a identifica\u00e7\u00e3o, ele afirma que s\u00f3 se concebe a psican\u00e1lise tendo como alvo os fins \u00faltimos de uma er\u00f3tica, mas n\u00e3o cabe \u00e0 psican\u00e1lise propagar uma nova er\u00f3tica. Cabe aos analistas se aterem a solu\u00e7\u00f5es singulares em cada caso, uma vez que mesmo nas pessoas mais normais \u00abisso n\u00e3o funciona\u00bb<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Tratando-se de psican\u00e1lise, sexualidade e er\u00f3tica n\u00e3o s\u00e3o coincidentes; a er\u00f3tica condiciona sua experi\u00eancia, mas n\u00e3o cabe \u00e0 psican\u00e1lise propag\u00e1-la e n\u00e3o seria poss\u00edvel estabelecer padr\u00f5es a serem alcan\u00e7ados. E, finalmente, \u00abisso n\u00e3o funciona\u00bb, isto \u00e9, n\u00e3o existem pr\u00e1ticas sexuais, que garantam um funcionamento regular de um sexo a outro, mas definem-se em cada ser falante atrav\u00e9s de condi\u00e7\u00f5es singulares de gozo.<\/p>\n<p>Em Freud, o prazer \u00e9 o funcionamento temperante do corpo e da alma, o n\u00edvel mais baixo de tens\u00e3o, sem nenhuma perturba\u00e7\u00e3o, um meio termo entre o excesso e a falta. Al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, ele detecta a puls\u00e3o de morte, uma satisfa\u00e7\u00e3o que excede ao prazer e, ao contr\u00e1rio da puls\u00e3o sexual, produz desconex\u00f5es.<\/p>\n<p>Para essa outra satisfa\u00e7\u00e3o, Lacan aborda um conceito que n\u00e3o faz parte da tradi\u00e7\u00e3o freudiana, o gozo, operando uma transforma\u00e7\u00e3o sobre o princ\u00edpio de prazer freudiano de tal maneira que lhe permite afirmar que a realidade \u00e9 abordada com os aparelhos de gozo<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>Apesar de o gozo estar na via aberta pela teoria da sexualidade, Miller<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>, cujo curso orienta nosso percurso aqui e ao longo deste livro, pontua duas importantes diferen\u00e7as entre o gozo e a sexualidade freudiana: a libido est\u00e1 orientada pela concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento e de etapas, enquanto o gozo \u00e9 uma libido sem desenvolvimento; a sexualidade seria uma rela\u00e7\u00e3o de um corpo sexuado a outro corpo sexuado, enquanto o gozo, ao contr\u00e1rio da libido freudiana que circula, investe e desinveste, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o, aborda o objeto sem se dirigir ao outro, \u00e9 autista.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 em Freud e Lacan uma defini\u00e7\u00e3o para &#8220;er\u00f3tica&#8221;, para o que se segue, deduzi uma formula\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria a partir do exposto acima, ou seja, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 nada pr\u00e9-escrito para as rela\u00e7\u00f5es entre a satisfa\u00e7\u00e3o, o objeto e os fins da sexualidade, chamarei er\u00f3ticas as diferentes estrat\u00e9gias de gozo na abordagem do objeto. A partir dessa formula\u00e7\u00e3o, procuro estabelecer tr\u00eas er\u00f3ticas a partir da doutrina dos gozos em Lacan, em dois momentos diferentes de seu ensino, e o enlace de cada uma delas com o feminino.<\/p>\n<p>As \u00aber\u00f3ticas lacanianas\u00bb s\u00e3o tamb\u00e9m uma maneira de pensar os la\u00e7os com o feminino na contemporaneidade diante dos impasses atuais decorrentes do decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna e da muta\u00e7\u00e3o dos lugares do feminino na cultura, uma vez que perdem efic\u00e1cia os ideais, que asseguravam um ponto de ancoragem para a identifica\u00e7\u00e3o da mulher, tais como &#8216;filha&#8217;, &#8216;esposa&#8217; ou &#8216;m\u00e3e&#8217;. O fracasso da fun\u00e7\u00e3o do ideal abre um outro espa\u00e7o criando formas de enlace do feminino que inauguram uma nova topologia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Er\u00f3ticas Lacanianas<\/strong><\/p>\n<p>Das modula\u00e7\u00f5es do conceito de gozo que acompanharam o progresso das elabora\u00e7\u00f5es lacanianas, Miller<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> estabelece seis paradigmas, como seis fotogramas simplificados, descritos como uma fita de filme em que o movimento se imprime atrav\u00e9s da velocidade, produzindo pelo efeito desta superposi\u00e7\u00e3o acelerada, uma recomposi\u00e7\u00e3o do movimento que anima a doutrina dos gozos.<\/p>\n<p>As er\u00f3ticas lacanianas foram elaboradas em torno de dois dos paradigmas de Miller.<\/p>\n<p>O gozo imposs\u00edvel situa-se no Semin\u00e1rio 7<em>.<\/em>\u00a0 O gozo est\u00e1 no campo da Coisa que se constitui como real no mesmo movimento que cria barreiras ao imagin\u00e1rio e ao simb\u00f3lico, como desenvolveremos adiante. Deste paradigma deduzem-se duas er\u00f3ticas, &#8220;do amor cort\u00eas&#8221; e &#8220;do espa\u00e7o tr\u00e1gico&#8221; e suas respectivas estrat\u00e9gias, sublima\u00e7\u00e3o e transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>O gozo da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, deduz-se a er\u00f3tica do <em>n\u00e3otodo<\/em>, referente \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es de Lacan no <em>Semin\u00e1rio 20: Mais ainda. <\/em>A f\u00f3rmula, \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>\u201d, implica um regime de gozo do corpo.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>Os gozos e suas estrat\u00e9gias<\/strong><\/p>\n<h4>O gozo imposs\u00edvel conectado ao horror tem um car\u00e1ter absoluto, est\u00e1 do lado da Coisa (<em>das Ding<\/em>) colocada num lugar abissal, um gozo maci\u00e7o, porque visa uma satisfa\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m fora da significa\u00e7\u00e3o e por isso imposs\u00edvel pois o encontro com a Coisa seria a morte.<\/h4>\n<p>Lacan retira o termo <em>das Ding<\/em> do <em>Projeto<\/em> freudiano, destacando sua import\u00e2ncia como um conceito necess\u00e1rio para o progresso de sua investiga\u00e7\u00e3o, e ao faz\u00ea-lo assume plena responsabilidade pelo seu uso.<\/p>\n<p><em>Das Ding<\/em> est\u00e1 no ponto origin\u00e1rio indistinto que antecede ao surgimento do ser falante, puls\u00f5es e est\u00edmulos exteriores fazem uma mistura ca\u00f3tica e gera um <em>estado de urg\u00eancia<\/em> que exige satisfa\u00e7\u00e3o ou fuga. Para Freud<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, o prazer \u00e9 o \u00edndice que ir\u00e1 permitir a diferencia\u00e7\u00e3o entre dentro e fora, o que d\u00e1 prazer est\u00e1 no interior e exige satisfa\u00e7\u00e3o, o que produz desprazer \u00e9 suposto exterior e poderia ser afastado.<\/p>\n<p>H\u00e1 fracasso da a\u00e7\u00e3o muscular para o al\u00edvio do desprazer produzido pelos est\u00edmulos internos, mas ao mesmo tempo a tentativa \u00e9 eficaz na medida em que exerce atra\u00e7\u00e3o sobre um outro, impelindo-o a responder. Esta <em>a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica<\/em>, s\u00f3 pode ser efetuada por meio de uma assist\u00eancia alheia, da m\u00e3e, ou de um outro que ocupe essa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da sensa\u00e7\u00e3o de desprazer \u00e0 tentativa de encontro com o objeto que originariamente teria produzido o prazer desejado, at\u00e9 a a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica realizada por um outro, Freud denominou <em>experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o<\/em>. Esta experi\u00eancia produz um trilhamento no aparelho de tal maneira que, a cada vez que se restabelece o estado de urg\u00eancia ou de desejo, a lembran\u00e7a da primeira satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 buscada na mem\u00f3ria, ativando a percep\u00e7\u00e3o. Na aus\u00eancia do objeto, este \u00e9 primeiramente alucinado, mas na medida em que h\u00e1 desapontamento, instaura-se novamente o estado de urg\u00eancia e a exig\u00eancia de uma a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p><em>Das Ding<\/em>, a Coisa, est\u00e1 situado neste ponto inicial, anterior a qualquer experi\u00eancia, vazio onde supostamente esteve o primeiro objeto de satisfa\u00e7\u00e3o, objeto perdido que preside a busca na experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, em torno do qual se organiza o aparato ps\u00edquico.<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab[&#8230;] para voc\u00eas verem a dificuldade de sua representa\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica. Pois esse das Ding est\u00e1 justamente no centro, no sentido de estar exclu\u00eddo. Quer dizer que, na realidade, ele deve ser estabelecido como exterior, esse das Ding, esse Outro pr\u00e9-hist\u00f3rico imposs\u00edvel de esquecer, do qual Freud afirma a necessidade da posi\u00e7\u00e3o primeira sob a forma de alguma coisa que \u00e9 entfremdet, alheia a mim, embora esteja no \u00e2mago desse eu, alguma coisa que no n\u00edvel do inconsciente, s\u00f3 uma representa\u00e7\u00e3o representa\u00bb.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Nos trilhamentos que se formam a partir da experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o e em suas associa\u00e7\u00f5es com os trilhamentos anteriores situa-se a cadeia significante, edificada a partir da fenda aberta pelo significante no real, uma topologia que se organiza em torno de <em>das Ding<\/em>: \u201c<em>esse<\/em> <em>aparato<\/em> <em>\u00e9 essencialmente uma topologia da subjetividade &#8211; da subjetividade uma vez que ela \u00e9 edificada e constru\u00edda na superf\u00edcie do organismo&#8221;<\/em><a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>De acordo o <em>Projeto<\/em>, a partir do momento em que a puls\u00e3o institui seu primeiro representante, instaura-se uma proximidade e uma dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a <em>das Ding.<\/em> \u00c9 em torno desse primeiro exterior, que o sujeito se orienta em rela\u00e7\u00e3o ao mundo dos desejos. No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel atingi-lo, trata-se do objeto que nunca houve, Outro absoluto, que s\u00f3 pode ser reencontrado<em> &#8220;no m\u00e1ximo, como saudade&#8221;.<\/em> \u00c9 em torno desse fracasso em reencontrar o objeto da primeira satisfa\u00e7\u00e3o, na depend\u00eancia dessa primeira alucina\u00e7\u00e3o, que o mundo da percep\u00e7\u00e3o se ordena. De acordo com a dist\u00e2ncia mantida desse objeto original realiza-se a primeira orienta\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Pensar o objeto como inapreens\u00edvel, leva Lacan a formular o desejo como a raz\u00e3o kantiana, isto \u00e9, um desejo independente da experi\u00eancia sens\u00edvel, vazio de interesses fenom\u00eanicos, em estado puro.<\/p>\n<p>Lacan demonstra, assim, que o passo dado por Freud, com a Coisa, foi dizer que n\u00e3o h\u00e1 o Bem supremo, o \u00fanico bem \u00e9 um bem proibido, a <em>Coisa.<\/em> Transgredir a lei e encontrar este objeto seria abolir o que estrutura mais profundamente o inconsciente do homem, um gozo imposs\u00edvel.<\/p>\n<h4>Existem no Semin\u00e1rio 7, duas estrat\u00e9gias subjetivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>das Ding<\/em>: a sublima\u00e7\u00e3o e a transgress\u00e3o. Na sublima\u00e7\u00e3o o objeto \u00e9 cingido, de onde se deduz uma er\u00f3tica do amor cort\u00eas; na transgress\u00e3o h\u00e1 uma tentativa de encontro com a Coisa e encontra-se a er\u00f3tica do espa\u00e7o tr\u00e1gico.<\/h4>\n<p>Sob esta perspectiva, a <em>sublima\u00e7\u00e3o<\/em> seria uma forma paradoxal de satisfa\u00e7\u00e3o, pois o gozo \u00e9 obtido pelas vias aparentemente contr\u00e1rias ao gozo, o alvo do gozo subsistiria e em certo sentido seria realizado sem recalque, sem apagamento, cingindo a Coisa e sua forma exemplar \u00e9 a er\u00f3tica do amor cort\u00eas, que se mant\u00e9m no princ\u00edpio de prazer.<\/p>\n<p>Na <em>transgress\u00e3o<\/em> o gozo estaria, ao contr\u00e1rio, no ultrapassamento das barreiras que fazem obst\u00e1culo ao objeto e h\u00e1 encontro com a Coisa. Um gozo al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, especificando uma er\u00f3tica do tr\u00e1gico em duas vertentes: de um lado, o gozo veiculado pelo personagem tr\u00e1gico ao realizar o desejo em sua pureza real; do outro, o gozo cat\u00e1rtico, o atravessamento do temor e da piedade experimentado pelo espectador diante do espet\u00e1culo tr\u00e1gico.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Er\u00f3tica do amor cort\u00eas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na sublima\u00e7\u00e3o trata-se de uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica do Outro absoluto, da mulher impenetr\u00e1vel ou, por tr\u00e1s desta, a figura da morte, como podemos ler no final do <em>Semin\u00e1rio A Rela\u00e7\u00e3o de objeto<\/em><a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a><em>.<\/em> \u00c9 na perspectiva da sublima\u00e7\u00e3o que cinge a Coisa, que Lacan toma o amor cort\u00eas do come\u00e7o do s\u00e9culo XII situando a\u00ed uma modifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de <em>Eros<\/em>, forma de uma er\u00f3tica masculina e princ\u00edpio de uma moral na cultura ocidental.<\/p>\n<p>O trovador cria <em>ex-nihilo<\/em> o poema ou canto, n\u00e3o h\u00e1 nada preexistente, e coloca neste nada uma mulher particularizada em seu corpo e sua beleza. Uma maneira de n\u00e3o fugir da Mulher, n\u00e3o fugir desse vazio cruel e enlouquecedor girando em torno desse objeto, cercando-o atrav\u00e9s da arte de dizer e de cantar. Essa arte do enlace n\u00e3o \u00e9 uma ascese moral, mas uma cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica a servi\u00e7o de uma er\u00f3tica.<\/p>\n<p>Assim, o amor cort\u00eas \u00e9 um exerc\u00edcio po\u00e9tico no qual o objeto feminino \u00e9 esvaziado de toda subst\u00e2ncia real e introduz-se pela priva\u00e7\u00e3o, pela inacessibilidade. A Mulher ou a Dama \u00e9 isolada por uma barreira que a circunda, protegendo o sujeito do encontro com o inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>No entanto, apesar de a ideologia do amor cort\u00eas visar expressamente o lado de exalta\u00e7\u00e3o ideal, ele desempenha um outro papel, o de limite, pois sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 precisamente contornar o objeto tornando-o inacess\u00edvel, uma vez que o encontro com a Coisa acarretaria um gozo insuport\u00e1vel, al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer. O amor cort\u00eas seria, assim, \u00abuma maneira refinada de suprir a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, fingindo que somos n\u00f3s que lhe impomos obst\u00e1culo\u00bb<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a> .<\/p>\n<p>Entra em jogo aqui a fun\u00e7\u00e3o \u00e9tica do erotismo aludida continuamente por Freud mas nunca formulada. As t\u00e9cnicas em quest\u00e3o no amor cort\u00eas articulam-se, por exemplo, com os prazeres preliminares dos <em>Tr\u00eas Ensaios,<\/em> certas maneiras intermedi\u00e1rias de se relacionar com o objeto que antecedem o coito e s\u00e3o prazerosas em si mesmas. O ato de cortejar engendra a beleza, esteio do desejo, a regra do obst\u00e1culo necess\u00e1rio, da interdi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 recalcamento do desejo mas, ao contr\u00e1rio, o possibilita.<\/p>\n<p>A regra do amor cort\u00eas imp\u00f5e uma demora, \u00e9 preciso o tempo do bem-dizer, o nascimento do desejo para que o ato sexual n\u00e3o seja viol\u00eancia<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<p>Segundo Julien, alguns historiadores interpretam a cortesia trovadoresca como uma recusa do ato sexual, ao confundir a castidade cort\u00eas com a contin\u00eancia sexual. Os prazeres preliminares sem o ato sexual, permitiram uma interpreta\u00e7\u00e3o de que o ato n\u00e3o deveria ocorrer ou que era da ordem do segredo. Semelhante ao lugar da amizade (<em>philia<\/em>) na Gr\u00e9cia antiga, situada nos arredores do ato sexual, sua fun\u00e7\u00e3o era preparar, separar, cercar e restringir o instante atroz do coito. Mas a <em>philia<\/em> ia at\u00e9 aonde come\u00e7ava o coito<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, interpretado pela via da sublima\u00e7\u00e3o, a interdi\u00e7\u00e3o torna-se a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica sexual, pois a interdi\u00e7\u00e3o desperta o desejo ao &#8220;purificar&#8221; o ato da\u00a0 brutalidade ou da rotina. A sublima\u00e7\u00e3o perde seu car\u00e1ter freudiano de dessexualiza\u00e7\u00e3o e associado aos prazeres preliminares permite um jogo de sedu\u00e7\u00e3o pr\u00e9vio, uma prepara\u00e7\u00e3o de onde nasce com a fantasia o suporte do desejo. O gozo \u00e9 domesticado pela beleza que o recobre com seu brilho.<\/p>\n<p>Ao explicar o fen\u00f4meno do amor cort\u00eas como uma obra de sublima\u00e7\u00e3o, Lacan pretende explicar como um objeto, a Dama, toma valor de representa\u00e7\u00e3o da Coisa. Ao situar a mulher neste ponto de para-al\u00e9m, o amor cort\u00eas colocou-a no lugar do ser, o que n\u00e3o lhe concerne enquanto mulher mas enquanto objeto de desejo. Portanto, essa po\u00e9tica n\u00e3o fala da mulher e para a mulher, mas do destino que pode ser dado ao feminino, como um ideal inabord\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong><em>Er\u00f3tica do espa\u00e7o tr\u00e1gico<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 raz\u00e3o pura kantiana, o desejo no <em>Semin\u00e1rio 7<\/em> \u00e9 desinteressado, incondicionado pela sensibilidade, pelos fen\u00f4menos, um desejo sem condi\u00e7\u00e3o, absoluto, sem finalidade. Este movimento produz um deslizamento, do desejo produzido por um objeto da experi\u00eancia ao desejo puro, cujo objeto vazio \u00e9 real. No tr\u00e1gico n\u00e3o se trata de circundar a Coisa mas transgredir as barreiras em dire\u00e7\u00e3o ao encontro com o real da Coisa.<\/p>\n<p>As coordenadas do espa\u00e7o tr\u00e1gico ser\u00e3o dispostas por Lacan a partir da pe\u00e7a de S\u00f3focles, <em>Ant\u00edgona<\/em>, como veremos adiante. Por hora, importa destacar como a\u00a0 a\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica se desenrola sem qualquer pretens\u00e3o ben\u00e9fica, paradigma do desejo purificado do bem e do belo.<\/p>\n<p>Ant\u00edgona situa-se no espa\u00e7o entre-duas-mortes, como se expressa Lacan inspirado no texto sadeano<em>: \u00abo assassinato s\u00f3 retira a primeira vida ao indiv\u00edduo que abatemos\u00a0; seria preciso poder arrancar-lhe a segunda, para ser ainda mais \u00fatil \u00e0 natureza\u00a0; pois ela quer o aniquilamento: est\u00e1 fora de nosso alcance dar a nossos assassinatos a extens\u00e3o que ela deseja<\/em>\u00a0\u00bb<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. A primeira morte \u00e9 o desenlace da vida, acidental ou na velhice; a segunda morte \u00e9 relativa \u00e0 puls\u00e3o de morte e define-se sob a f\u00f3rmula paradoxal de que o homem aspira a aniquilar-se para eternizar-se, inscrever-se em outros termos do ser, como ocorre no espa\u00e7o da trag\u00e9dia antiga. A segunda morte articula-se ao sujeito enquanto barrado pelo significante, numa rela\u00e7\u00e3o com a linguagem que o obriga como falante a dar conta do que ele \u00e9 e n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Na trag\u00e9dia o desejo do Outro se apresenta em duas faces, fundador de toda a estrutura simb\u00f3lica e a face de um desejo da ordem do real, criminoso, sem nenhuma media\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser seu car\u00e1ter radicalmente destruidor. Ant\u00edgona reivindica, n\u00e3o os significantes do desejo do Outro simb\u00f3lico, os significantes de seu destino, da ordem das leis, mas algo que diz respeito \u00e0 face real do Outro, relativo \u00e0 Lei da <em>Coisa<\/em>, desenvolvida fora da cadeia. O significante que a determina est\u00e1 para al\u00e9m da linguagem, puro significante isolado da cadeia.<\/p>\n<p>A topologia do espa\u00e7o tr\u00e1gico est\u00e1 limitada por duas barreiras, o bem e o belo, e a aproxima\u00e7\u00e3o e o atravessamento de cada uma delas est\u00e1 indicado pelo temor, culpa ou \u00f3dio.<\/p>\n<p>Quando se atravessa um limite, do bem ou do belo, o sujeito penetra no entre-dois do desejo e se ele retrocede, recua ou renuncia, a tradu\u00e7\u00e3o subjetiva dessa ren\u00fancia \u00e9 a culpa. Por isso, Lacan conclui que \u00aba \u00fanica coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva anal\u00edtica, \u00e9 de ter cedido de seu desejo\u00bb.<\/p>\n<p>A barreira do bem \u00e9 pr\u00f3pria da conserva\u00e7\u00e3o da vida, do princ\u00edpio de prazer, relativa aos objetos que imaginariamente realizariam o desejo. Esses objetos surgem para o sujeito em diversas formas, na religi\u00e3o como promessa de um deus redentor, ou no mercado nos objetos de consumo, e em todas as coisas que possam alimentar a ideia de um objeto ben\u00e9fico para garantir a conserva\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>A segunda barreira \u00e9 a do belo. A fun\u00e7\u00e3o do belo \u00e9 precisamente a de indicar o lugar da rela\u00e7\u00e3o do homem com sua pr\u00f3pria morte, e de faz\u00ea-lo somente numa fulgura\u00e7\u00e3o, num brilho e esplendor. O belo nessa concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o ideal.<\/p>\n<p>Na primeira parte do &#8220;Semin\u00e1rio 7&#8221;, o Arist\u00f3teles da &#8220;\u00c9tica a Nic\u00f4maco&#8221; \u00e9 uma refer\u00eancia essencial para pensar uma \u00e9tica do ideal, mas no coment\u00e1rio sobre Ant\u00edgona, na busca do sentido da a\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica a refer\u00eancia ser\u00e1 o Arist\u00f3teles da &#8220;Po\u00e9tica&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA trag\u00e9dia \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o (mimhsiz) de uma a\u00e7\u00e3o nobre levada at\u00e9 seu termo, e tendo uma certa extens\u00e3o, por meio de uma linguagem condimentada de esp\u00e9cies variadas, utilizadas separadamente segundo as partes da obra. A representa\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada em a\u00e7\u00e3o pelos personagens do drama e n\u00e3o h\u00e1 recurso \u00e0 narrativa; e representando o temor e a piedade, realiza uma purifica\u00e7\u00e3o dessas emo\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><strong>[23]<\/strong><\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Num desenvolvimento dessa passagem em &#8220;Aristote et la trag\u00e9die&#8221;, Yves Depelsenaire esclarece que o termo mimhsiz \u2018<em>mimesis\u2019<\/em> no sentido tr\u00e1gico \u00e9 o isolamento de um tra\u00e7o, um signo e n\u00e3o a reprodu\u00e7\u00e3o de um paradigma ideal.<\/p>\n<p>O texto de Depelsenaire \u00e9 particularmente esclarecedor neste aspecto, ao comentar o termo grego caqarsz, purifica\u00e7\u00e3o ou catarse. A originalidade de Arist\u00f3teles \u00e9 destacar este termo da tradi\u00e7\u00e3o do teatro, e trat\u00e1-lo n\u00e3o no sentido de exorcismo, pois n\u00e3o se trata de purga\u00e7\u00e3o, o que espectador deve realizar \u00e9 uma substitui\u00e7\u00e3o do temor e da piedade. A trag\u00e9dia teria, assim, a fun\u00e7\u00e3o de suscitar, atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o, um prazer leg\u00edtimo que substitui o desprazer.<\/p>\n<p>Para Arist\u00f3teles, ainda segundo Yves Depelsenaire, a trag\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 para provocar medo, surpresa ou efeitos de horror crescentes, o ponto essencial \u00e9 o prazer que o espectador apreende no espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Temor e piedade n\u00e3o est\u00e3o na trag\u00e9dia para exprimir as emo\u00e7\u00f5es ou para coloc\u00e1-las em cena, no sentido de imitar, mas emo\u00e7\u00f5es que devem ser atravessadas, mediadas pela representa\u00e7\u00e3o, pelo agenciamento dos fatos representados, pela pr\u00f3pria atividade representativa. A emo\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica n\u00e3o \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o bruta ou sensa\u00e7\u00e3o imediata, \u00e9 precisamente a emo\u00e7\u00e3o purificada.<\/p>\n<p>A imagem de Ant\u00edgona oferece um prazer decorrente de um apaziguamento do desejo, cumprindo uma fun\u00e7\u00e3o de deten\u00e7\u00e3o do desejo e um efeito de entusiasmo. Ao mesmo tempo, o brilho de Ant\u00edgona tem a fun\u00e7\u00e3o de indicar algo irredut\u00edvel no desejo que a leva em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Coisa. Ao ultrapassar os limites da lei, ela presentifica uma exig\u00eancia absoluta, um desejo incompar\u00e1vel, que objetiva Outra coisa, para al\u00e9m do apaziguamento do registro do princ\u00edpio de prazer, o gozo da transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva, Ram Mandil<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a> afirma que a hip\u00f3tese lacaniana sobre a beleza de Ant\u00edgona deve ser tomada como um efeito da opera\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o articulada pela trag\u00e9dia como fun\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica exercida pelo poder de atra\u00e7\u00e3o e fasc\u00ednio advindos da preval\u00eancia da imagem da hero\u00edna sobre todas as imagens. A imagem de Ant\u00edgona permite a purifica\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que \u00e9 da ordem do imagin\u00e1rio, fazendo desaparecer a prolifera\u00e7\u00e3o de imagens, o que \u00e9 atingido s\u00e3o as emo\u00e7\u00f5es que poderiam estar associadas a essas imagens: \u201c<em>somos purgados [da s\u00e9rie imagin\u00e1ria] por interm\u00e9dio de uma imagem entre outras<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<\/p>\n<p>A er\u00f3tica tr\u00e1gica estaria ent\u00e3o, por um lado, na <em>transgress\u00e3o<\/em> das barreiras realizada pela hero\u00edna tr\u00e1gica, e o encontro com esse objeto absoluto, <em>das Ding<\/em>. Por outro, por parte do espectador, no <em>atravessamento<\/em> do temor e da piedade, cujo efeito \u00e9 a purifica\u00e7\u00e3o de todo <em>pathos<\/em> produzido pela representa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, cujo resultado \u00e9 o entusiasmo. Do lado da hero\u00edna \u00e9 a passagem ao ato, a transgress\u00e3o das barreiras do bem e do belo e o encontro com a Coisa como pura puls\u00e3o de morte. Do lado do espectador \u00e9 a experi\u00eancia do atravessamento do temor e da piedade, uma purifica\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio que permite um atravessamento sem o encontro com a Coisa, sem identifica\u00e7\u00e3o e sem passagem ao ato.<\/p>\n<p><strong><em>Er\u00f3tica do n\u00e3otodo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No paradigma do gozo imposs\u00edvel, bordas e limites definem espa\u00e7os diferentes num mesmo plano e o que est\u00e1 em jogo s\u00e3o os desvios, transgress\u00f5es e ultrapassagens para se alcan\u00e7ar ou evitar o objeto. Com o objeto vazio, no cerne e na mais radical exterioridade, e o infinito entre-duas-mortes, Lacan tra\u00e7a o esbo\u00e7o de uma topologia, no entanto, este desenho ainda est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de uma cartografia, ele est\u00e1 apenas delineando o que far\u00e1 alguns anos mais tarde servindo-se da l\u00f3gica, da matem\u00e1tica e da topologia.<\/p>\n<p>O gozo imposs\u00edvel, atrav\u00e9s da sublima\u00e7\u00e3o ou transgress\u00e3o, \u00e9 o gozo sem o corpo. O desejo puro \u00e9 puro porque \u00e9 sem o corpo. No &#8220;Semin\u00e1rio 20: mais ainda&#8221; o \u00abisso n\u00e3o funciona\u00bb do Semin\u00e1rio 9 \u00e9 substitu\u00eddo pelo aforismo: \u00abn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 a maneira de Lacan abordar os impasses contempor\u00e2neos quando a sexualidade n\u00e3o est\u00e1 inteiramente regida pela lei do pai e as formas tradicionais de rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o mais suficientes para dizer o que ocorre no campo do sexo. Ele retoma \u00e0 \u00e9tica e a quest\u00e3o freudiana \u2013 <em>O que quer uma mulher?<\/em> &#8211; para elaborar as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o e o gozo feminino. Perspectiva em que a l\u00f3gica \u00e9 adotada como operador, o desejo perde sua pureza e <em>das Ding<\/em> d\u00e1 lugar ao objeto <em>a<\/em>, estabelecendo uma topologia onde o real n\u00e3o est\u00e1 mais al\u00e9m, mas ex-siste ao simb\u00f3lico. Na<em> n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o<\/em> a satisfa\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob a perspectiva do gozo. Neste semin\u00e1rio, fica demonstrado porque n\u00e3o h\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o sexual, como as mulheres n\u00e3o fazem Um e uma rela\u00e7\u00e3o ao infinito espec\u00edfica para cada sexo, cuja topologia define os lugares em termos de limite, converg\u00eancia e infinito: \u00ab<em>Neste espa\u00e7o de gozo, tomar algo limitado, fechado, \u00e9 um lugar, e falar disso \u00e9 uma topologia<\/em>\u00bb<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>.<\/p>\n<p>No paradigma do gozo da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, a expectativa de Lacan \u00e9 fazer aparecer algo de novo <em>do<\/em> <em>lado das damas<\/em> e seu verdadeiro tema \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o do <em>n\u00e3otodo<\/em> (<em>pastout<\/em>) <a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>, uma estrutura correlativa \u00e0 face real do Outro, do Outro que n\u00e3o existe. Retorna a\u00ed a quest\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais freudiana e se escreve algo novo sobre a feminilidade ao elaborar-se o <em>n\u00e3otodo<\/em>.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica masculina \u00e9 a l\u00f3gica da totaliza\u00e7\u00e3o que se constitui pela exce\u00e7\u00e3o como termo que a nega integralmente. Ou seja, para se fazer o todo, sejam quais forem os elementos, \u00e9 necess\u00e1rio sempre um a mais, que esteja fora. A categoria lacaniana de ex-sist\u00eancia, designa esse elemento que fica fora, indicando que sempre faltar\u00e1 um significante para que haja universo de discurso. A f\u00f3rmula, \u00abpara todo sujeito funciona a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, ou, todo homem est\u00e1 submetido \u00e0 castra\u00e7\u00e3o\u00bb, indica que \u00e9 pela fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que o homem como todo se inscreve, exceto que essa fun\u00e7\u00e3o encontra seu limite na exist\u00eancia de um ponto fora pelo qual a fun\u00e7\u00e3o \u00e9 negada.<\/p>\n<p>Do lado feminino, o modo de se submeter \u00e0 lei do falo, \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 postulando a universalidade da lei, como <em>n\u00e3otoda<\/em> a mulher pode se colocar do lado do falo ou n\u00e3o. Na f\u00f3rmula, \u00abn\u00e3o h\u00e1 nenhuma mulher que n\u00e3o esteja submetida \u00e0 castra\u00e7\u00e3o\u00bb, n\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00e3o, nenhuma est\u00e1 fora da castra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe a figura fundadora de um conjunto de mulheres, logo, n\u00e3o h\u00e1 \u00abnem uma\u00bb que n\u00e3o esteja submetida \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o existe a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que se estabele\u00e7a o universal, o todo n\u00e3o se constitui, logo, a mulher \u00e9 <em>n\u00e3otoda<\/em> submetida \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. As f\u00f3rmulas do lado feminino indicam que a mulher n\u00e3o se inscreve da mesma maneira que o homem, mas ao mesmo tempo, n\u00e3o prescinde da lei do falo. Ela n\u00e3o est\u00e1 fora, mas tamb\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 inteiramente submetida \u00e0 lei simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A incompletude do ser feminino em Freud, \u00e9 tomada em Lacan como inconsist\u00eancia que designa uma estrutura l\u00f3gica positiva, o espa\u00e7o <em>n\u00e3otodo<\/em>, um conjunto aberto definido pela impossibilidade de circunscrever uma totalidade.<\/p>\n<p>O falo e a identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica designam um regime da libido, simbolizada, limitada. Na l\u00f3gica do <em>n\u00e3otodo<\/em>, o que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a falta, o <em>n\u00e3otodo<\/em> n\u00e3o indica o que descompleta o Outro mas a s\u00e9rie ilimitada que n\u00e3o \u00e9 universaliz\u00e1vel mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 incompleta nem flu\u00edda. O gozo feminino infinito, dito <em>n\u00e3otodo,<\/em> designa algo mais frouxo que flu\u00eddo, um ata e desata, que nunca se deixa amarrar inteiramente. Adiante, trataremos do tema mais detidamente.<\/p>\n<p>A \u00e9poca de Freud, segundo Miller<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a>, corresponderia ao reino do Nome-do-Pai, cuja estrutura est\u00e1 esbo\u00e7ada em <em>Totem e tabu<\/em>, a universaliza\u00e7\u00e3o que se funda com o pai como exce\u00e7\u00e3o. A \u00e9poca lacaniana da psican\u00e1lise \u00e9 a \u00e9poca da inexist\u00eancia do Outro, do <em>n\u00e3otodo<\/em> generalizado, onde o Nome-do-Pai \u00e9 pulverizado e a subjetividade passa a ser caracterizada pela fuga do sentido, pelo paradoxo da fus\u00e3o dos gozos, pela segrega\u00e7\u00e3o e isolamento. A estrutura que responde ao Outro que n\u00e3o existe, n\u00e3o se inscreve na universaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o <em>n\u00e3otodo<\/em> (<em>pastout<\/em>) generalizado, n\u00e3o no sentido do para todos, mas por toda parte (<em>partout<\/em>).<\/p>\n<p>O Outro que n\u00e3o existe pode ser situado em dois n\u00edveis: primeiro, n\u00e3o h\u00e1 universal, n\u00e3o se pode formar o espa\u00e7o fechado do \u00abpara todo x\u00bb; em segundo lugar, n\u00e3o h\u00e1 a ex-sist\u00eancia do Um, o Um inexiste. Essa estrutura do \u00ab<em>n\u00e3otodo<\/em> por toda parte\u00bb, \u00e9 o que Miller coloca como o fundamento do gozo no individualismo moderno.<\/p>\n<p>Na er\u00f3tica do <em>n\u00e3otodo, <\/em>o gozo est\u00e1 sustentado pela ess\u00eancia do significante, gozo Um sem o Outro, o gozo ganha corpo. A sublima\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sem o corpo, a linguagem \u00e9 gozo e perde a utilidade, n\u00e3o visa o sentido. A sublima\u00e7\u00e3o passa a ser o gozo na pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o da escrita. A transgress\u00e3o \u00e9 a que a linguagem realiza no corpo, subvertendo seu uso e suas qualidades, criando ilhas de gozo.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos apresentamos Ant\u00edgona para dar corpo \u00e0 er\u00f3tica tr\u00e1gica e o<em> Arrebatamento<\/em>, exemplar da er\u00f3tica do <em>n\u00e3otodo. <\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto \u00e9 o segundo cap\u00edtulo do livro <em>Patu. Uma mulher abismada<\/em>. Lutterbach-Holck, AL. Ed. Scriptum, 2011 2ed. Agradecemos a autora pela gentil autoriza\u00e7\u00e3o da sua publica\u00e7\u00e3o no Boletim Erosditos.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> BATAILLE,G. <em>L&#8217;\u00c9rotisme<\/em>. Paris: Les \u00c9ditions de minuit, 1957, p. 17<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u00ab<em>Por que a an\u00e1lise, que forneceu uma mudan\u00e7a de perspectiva t\u00e3o importante sobre o amor, colocando-o no centro da experi\u00eancia \u00e9tica, que forneceu uma denota\u00e7\u00e3o original, certamente distinta do modo pelo qual o amor at\u00e9 ent\u00e3o fora situado pelos moralistas e pelos fil\u00f3sofos na economia da rela\u00e7\u00e3o inter-humana, por que a an\u00e1lise n\u00e3o foi mais longe no sentido da investiga\u00e7\u00e3o daquilo que devemos chamar, propriamente falando, de uma er\u00f3tica? Isto \u00e9 coisa que merece reflex\u00e3o.<\/em><\/h6>\n<h6><em>A esse respeito, o que sei ter sido colocado na ordem do dia do nosso pr\u00f3ximo congresso, a sexualidade feminina, \u00e9 um dos sinais dos mais patentes, na evolu\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise, da car\u00eancia que designo no sentido de uma tal elabora\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb (LACAN,J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 7. A \u00c9tica da psican\u00e1lise<\/em>. [1959-1960] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1988. p.18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> BUARQUE DE HOLANDA,A. Novo Dicion\u00e1rio eletr\u00f4nico da l\u00edngua portuguesa Aur\u00e9lio S\u00e9culo XXI. Vers\u00e3o 3.0. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. ROBERT,P. Dictionnaire alphab\u00e9tique et analogique de la langue fran\u00e7aise. Montr\u00e9al: Ed. Robert, 1989; LALANDE,A. Vocabulaire technique et critique de la philosophie Quadrige\/PUF,Paris,1992.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> FOUCAULT,M. <em>O uso dos prazeres<\/em>. Rio de Janeiro: Graal,1984, p. 179<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>idem<\/em>, p. 35<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>FREUD,S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas. [1905] <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<\/em>. Vol. VII. Rio de Janeiro: IMAGO,1969.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem, p.150<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p.150)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN,J<em>. O Semin\u00e1rio.<\/em><em> Livro 11. Os Quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/em>[1964] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1985<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN,J. L&#8217;identification. Li\u00e7\u00e3o de14\/03\/1962. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER,J-A. <em>O que fazer com o gozo?<\/em> In <em>O Desejo \u00e9 o diabo<\/em> org. Stella Jimenez e Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Contracapa, 1999, p.163.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> MILLER,J-A. Curso <em>La Fuite du sens<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 07\/02\/1996. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>MILLER,J-A. Curso La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica. [1998-1999]: Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2003, p.221.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>FREUD,S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas. [1895] <em>Projeto para uma psicologia cient\u00edfica.<\/em> Vol. I Rio de Janeiro: IMAGO, 1969, p.421<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> LACAN,J. O Semin\u00e1rio 7. <em>A \u00c9tica da Psican\u00e1lise<\/em>. [1959-1960] Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1988, p. 91<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> idem, p.55<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> &#8220;<em>Trata-se a\u00ed de uma certa tomada de posi\u00e7\u00e3o do sujeito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 problem\u00e1tica do Outro absoluto, ou bem, por tr\u00e1s desta, a figura da morte, que \u00e9 o \u00faltimo Outro absoluto. A maneira pela qual uma certa experi\u00eancia comp\u00f5e com este termo \u00faltimo da rela\u00e7\u00e3o humana, a maneira como ela reintroduz no interior disso toda a vida das trocas imagin\u00e1rias, a maneira como desloca a rela\u00e7\u00e3o radical e \u00faltima at\u00e9 uma alteridade essencial para faz\u00ea-la habitar por uma rela\u00e7\u00e3o de miragem, \u00e9 a isso que se chama sublima\u00e7\u00e3o<\/em>&#8221; (Lacan, J. O <em>Semin\u00e1rio. Livro 4. A Rela\u00e7\u00e3o de Objeto<\/em> (1956-1957) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1995, p.446.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> LACAN,J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 20. Mais ainda.<\/em> [1972-1973] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> JULIEN,P. <em>O Estranho Gozo do pr\u00f3ximo. \u00c9tica e psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1996 p.117<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> MILNER,J-C.<em> Le triple du plaisir. <\/em><em>Fran\u00e7a: Verdier,<\/em>1997 p.38<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> O Semin\u00e1rio 7. <em>A \u00c9tica da Psican\u00e1lise<\/em>. [1959-1960] Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1988, p. 258.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> ARIST\u00d3TELES, s\u00e9c. IV ac. <em>Po\u00e9tica.<\/em> Cole\u00e7\u00e3o: Os Pensadores. Vol. IV S\u00e3o Paulo: Abril Cultural,1973, p.447<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> MANDIL,R. <em>Entre \u00e9tica e est\u00e9tica freudianas: a fun\u00e7\u00e3o do belo e do sublime na \u2018\u00c9tica da psican\u00e1lise\u2019 de Lacan<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o apresentada no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFMG. 1993. In\u00e9dita.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> O Semin\u00e1rio 7. <em>A \u00c9tica da Psican\u00e1lise<\/em>. [1959-1960] Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1988, p.301, apud Ram Mandil Op. cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> LACAN,J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 20. Mais ainda.<\/em> [1972-1973] Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p.17.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> idem, p.78).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> MILLER,J-A. Curso <em>La Fuite du sens<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 04\/12\/1996. In\u00e9dito.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f795414f70\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Ana-Lucia-Lutterbach-Holck-Erotica-e-feminino.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] Ana L\u00facia Lutterbach-Holck (AMP\/EBP) &#8220;\u00c9 poss\u00edvel dizer que o erotismo \u00a0\u00e9 o consentimento da vida at\u00e9 a morte&#8220;[2]. 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