{"id":510503,"date":"2022-09-02T07:55:15","date_gmt":"2022-09-02T10:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510503"},"modified":"2022-09-02T07:55:15","modified_gmt":"2022-09-02T10:55:15","slug":"nur-du-quando-pina-bausch-danca-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/nur-du-quando-pina-bausch-danca-o-amor\/","title":{"rendered":"NUR DU, QUANDO PINA BAUSCH DAN\u00c7A O AMOR"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\">Daphn\u00e9 Leimann<\/h6>\n<div id=\"attachment_510504\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-510504\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-510504 size-medium\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-300x225.jpg\" alt=\"Imagem: Pixabay\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-300x225.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-768x576.jpg 768w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/erosditos003_enxame_cultural-1920x1440.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-510504\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Pixabay<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de <em>Only you<\/em> \u2013 t\u00edtulo da famosa can\u00e7\u00e3o dos Platters \u2013, <em>Nur du<\/em> \u00e9 o t\u00edtulo dado ao espet\u00e1culo da core\u00f3grafa alem\u00e3 Pina Bausch em 1997. Declara\u00e7\u00e3o de amor. Afirma\u00e7\u00e3o de uma vers\u00e3o do amor antigo herdeira do mito de Arist\u00f3fanes em <em>O banquete<\/em>, de Plat\u00e3o, o amor consistiria na busca de sua metade perdida e teria sua verdade em uma rela\u00e7\u00e3o de harmonia ou de \u201cfus\u00e3o que do dois se faz um\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, nas palavras de Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fracasso do encontro amoroso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, portanto, os espet\u00e1culos de Pina Bausch n\u00e3o param de declinar o fracasso do encontro amoroso. Cada uma de suas coreografias, atrav\u00e9s do enla\u00e7amento do tr\u00e1gico e do c\u00f4mico, encarna um imposs\u00edvel no amor. Tentemos apreender algumas tonalidades dessa vers\u00e3o do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, a vers\u00e3o tr\u00e1gica. Entre suas primeiras pe\u00e7as, \u00e9 not\u00e1vel que Pina Bausch desejou dar uma vers\u00e3o coreografada da \u00d3pera de Gluck, <em>Orfeu e Eur\u00eddice<\/em>. Tendo se tornado cl\u00e1ssica e entrado no repert\u00f3rio da \u00d3pera de Paris em 2005, a pe\u00e7a encarnou a modernidade da core\u00f3grafa em 1975. Tr\u00eas dan\u00e7arinos, acompanhados de seus duplos vocais, interpretam Orfeu, Eur\u00eddice e Amor, em uma composi\u00e7\u00e3o em quatro quadros: luto, viol\u00eancia, paz e morte. O amor se aproxima, ent\u00e3o, da morte. A pe\u00e7a tenta dizer algo do imposs\u00edvel do encontro entre os amantes. A ef\u00edgie da esposa \u00e0 esquerda da cena, no primeiro ato, \u00e9 inesquec\u00edvel. Essa noiva em vestido branco de tamanho gigante, com um buqu\u00ea de rosas vermelhas sobre os joelhos, \u00e9 a testemunha petrificada dos movimentos do amor que se desenvolvem na cena. Dessa figura imponente, jorra um brilho singular. Essa noiva desmedida convoca, em cada um, um insuport\u00e1vel, talvez o do encontro com A mulher, cujo enigma \u00e9 nomeado pela famosa f\u00f3rmula lacaniana \u201c<em>A<\/em> mulher n\u00e3o existe\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. O \u00faltimo quadro, o da segunda morte, \u00e9 memor\u00e1vel tamb\u00e9m. Orfeu est\u00e1 revestido com uma meia cor de pele, Eur\u00eddice veste agora um vestido escarlate. Alternam-se duos e solos, os dan\u00e7arinos d\u00e3o vida \u00e0 palpita\u00e7\u00e3o do desejo. E ressoando com este olhar da noiva petrificada da cena das n\u00fapcias, na beleza do quadro, \u00e9 a voz que reordena as imagens, pois, ap\u00f3s a troca de olhares, Orfeu \u00e9 separado n\u00e3o apenas de sua amada, mas de sua pr\u00f3pria voz neste achado de encena\u00e7\u00e3o, dando a cada dan\u00e7arino um duplo vocal. Quando o c\u00e9lebre ar vocal \u201cEu perdi minha Eur\u00eddice\u201d se eleva, o dan\u00e7arino torna-se quase invis\u00edvel, escondido contra a parede do fundo da decora\u00e7\u00e3o, seu corpo desaparecendo sob a dor do segundo luto. De Orfeu, resta apenas a voz, cujo brilho jorra sobre a cantora da \u00f3pera, duplo vocal inclinado sobre Eur\u00eddice, que \u00e9, ela, reduzida a um corpo ca\u00eddo sem voz. Imposs\u00edvel encontro do outro, resta em cena apenas o Um. O final re\u00fane, no entanto, sem reunir todos os dan\u00e7arinos do coral em prociss\u00e3o f\u00fanebre. A celebra\u00e7\u00e3o do amor finaliza-se em um desfile em que os dan\u00e7arinos se separam um a um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, vem o tempo das cria\u00e7\u00f5es. A\u00ed, as inven\u00e7\u00f5es do discurso amoroso pr\u00f3prio a Pina Bausch ainda ser\u00e3o preciosas. Assim, do <em>Caf\u00e9 M\u00fcller<\/em>, criado em 1978, ser\u00e3o memor\u00e1veis os solos de Pina Bausch dan\u00e7ando de olhos fechados \u00e0 m\u00fasica de Purcell. Uma mulher se d\u00e1, ent\u00e3o, a ver com os tra\u00e7os de desorienta\u00e7\u00e3o e de solid\u00e3o. Mas o encontro com o outro sexo toma a apar\u00eancia de burlesco. Um dan\u00e7arino tenta operar uma aproxima\u00e7\u00e3o dos corpos entre um homem e uma mulher, tomados em uma mec\u00e2nica que n\u00e3o cessa de repetir a falha do seu encontro. Testemunha de uma \u00e9poca que quer varrer as ilus\u00f5es, fingir n\u00e3o ser mais tolo do amor e reivindicar a liberdade sexual, a core\u00f3grafa coloca em cena o que sobra dessa opera\u00e7\u00e3o de desconstru\u00e7\u00e3o dos semblantes do amor: o isolamento dos seres perdidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras pe\u00e7as, ainda, os elementos naturais transportados \u00e0 cena ser\u00e3o os \u00fanicos parceiros dos corpos solit\u00e1rios. Em <em>Vollmond<\/em>, por exemplo, mesmo quando a cena acolhe v\u00e1rios dan\u00e7arinos, cada um deles permanece preso em uma dan\u00e7a com a \u00e1gua. Em <em>Danz\u00f3n<\/em>, \u00e9 a terra que \u00e9 a \u00fanica parceira do doloroso solo de Dominique Mercy acompanhando a voz de Maria Callas. A esta vers\u00e3o tr\u00e1gica se mistura o c\u00f4mico do encontro amoroso. Disto, uma cena de <em>Vollmond<\/em> \u00e9 exemplar: uma mulher fatal mostra um largo sorriso enquanto ela coloca \u00e1gua no saco transparente onde um homem mergulhou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor de Pina Bausch<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o teatro dan\u00e7ado de Pina Bausch n\u00e3o acontece sem amor<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Numerosos s\u00e3o os momentos em que s\u00e3o inventados com o parceiro um modo de encontro sutil e incompar\u00e1vel a cada outro. \u00c9 o caso do \u00faltimo duo de <em>Orfeu e Eur\u00eddice<\/em>. O amor de Pina Bausch \u00e9 tamb\u00e9m o da core\u00f3grafa por cada dan\u00e7arino e por seu p\u00fablico, que ela vinha saudar a cada representa\u00e7\u00e3o por sua companhia. Amor sens\u00edvel em seu m\u00e9todo caracterizado por uma aten\u00e7\u00e3o ao que faz o mais singular de cada um. Durante a elabora\u00e7\u00e3o de suas cria\u00e7\u00f5es, Pina Bausch trabalha a partir das experi\u00eancias suscitadas em seus dan\u00e7arinos. Por exemplo, no document\u00e1rio <em>Un jour Pina m\u2019a demand\u00e9<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, um de seus dan\u00e7arinos testemunha: um dia, \u201cPina chegou ao ensaio e perguntou [a eles]: \u2018O que v\u00eam a voc\u00eas quando eu digo a palavra amor?\u2019\u201d. A esta quest\u00e3o, cada um respondeu de maneira singular: \u201co amor vem e vai; neste momento, ele se vai\u201d, respondeu um deles. Enquanto um outro se confiou: \u201cna maior parte do tempo, o amor \u00e9 um fracasso, mas eu tento de novo a cada vez\u201d. Uma terceira dizia: \u201cque o amor se diz A\u00ef(e) em japon\u00eas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse amor da core\u00f3grafa por seus dan\u00e7arinos pode ser identificado at\u00e9 seu \u00faltimo trabalho, restitu\u00eddo no filme <em>R\u00eaves dansants<\/em>, em que ela toma cuidado para evitar toda for\u00e7agem no encontro dos adolescentes para quem ela prepara uma nova vers\u00e3o de <em>Kontakthof<\/em>. Amor que os dan\u00e7arinos testemunham em retorno, como com o dan\u00e7arino estrelado St\u00e9phane Bullion. Homenageando sua experi\u00eancia subjetiva nascida de seu encontro com a coreografia de Pina Bausch, ele podia dizer: \u201cA gente n\u00e3o dan\u00e7a <em>O lago dos cisnes<\/em> h\u00e1 vinte anos como h\u00e1 trinta e cinco anos, porque, nesse meio tempo, a gente ter\u00e1 dan\u00e7ado <em>Orfeu e Eur\u00eddice<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Texto originalmente publicado em: LEIMANN, Daphn\u00e9. Pina Bausch danse l\u2019amour. In: LEBOVITS-QUENEHEN, Ana\u00eblle (Dir.). <em>Le Diable probablement amoureux<\/em>, Paris, Verdier, n. 10, p. 23-25, 2012. Agradecemos a gentil autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: <em>Juliane Casarin<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques.<em> O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973) 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1989. p. 90.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, Jacques.<em> O semin\u00e1rio<\/em>, livro 18: <em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. (1970-1971) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 133.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Conforme Jacques Lacan (1989,<em> op. cit<\/em>., p. 62), \u201cO que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 precisamente o amor\u201d.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> AKERMAN, Chantal.<em> Un jour Pina m\u2019a demande<\/em>. Document\u00e1rio, 57\u2019. Fran\u00e7a, 1983.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u201cPasseur d\u2019\u00e2me\u201d. Entrevista com Dominique Mercy et St\u00e9phane Bullion publicada em <em>En sc\u00e8ne<\/em>, jornal da \u00d3pera Nacional de Paris, fev.\/abr. 2012.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daphn\u00e9 Leimann Tradu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de Only you \u2013 t\u00edtulo da famosa can\u00e7\u00e3o dos Platters \u2013, Nur du \u00e9 o t\u00edtulo dado ao espet\u00e1culo da core\u00f3grafa alem\u00e3 Pina Bausch em 1997. Declara\u00e7\u00e3o de amor. 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