{"id":510384,"date":"2022-06-21T19:08:16","date_gmt":"2022-06-21T22:08:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510384"},"modified":"2022-06-27T19:15:34","modified_gmt":"2022-06-27T22:15:34","slug":"will-smith-no-oscar-um-tapa-na-face-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/will-smith-no-oscar-um-tapa-na-face-do-amor\/","title":{"rendered":"Will Smith no Oscar: um tapa na face do amor"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Colin Wright<br \/>\nPsicanalista e membro e atual secret\u00e1rio da London Society of the New Lacanian School. Professor Associado de Teoria Cr\u00edtica no Departamento de Cultura, Cinema e M\u00eddia da Universidade de Nottingham, Reino Unido, onde cofundou o Centro de Teoria Cr\u00edtica.<br \/>\n<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-510377 alignnone\" src=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/boletim01_005-300x190.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"190\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/boletim01_005-300x190.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/boletim01_005.jpg 366w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hesito em escrever isto por medo de apenas aumentar o rugido ensurdecedor da fala\u00e7\u00e3o das m\u00eddias sociais sobre esse incidente. Mais uma opini\u00e3o sobre Will Smith esbofetear Chris Rock na premia\u00e7\u00e3o do Oscar? Justamente o que o mundo <em>n\u00e3o<\/em> precisa! Contudo, podemos atravessar todas as fofocas de celebridades e os sinais de virtude que proliferaram em volta desse epis\u00f3dio para perguntar, a n\u00f3s mesmos, o que isso pode nos ensinar sobre o espet\u00e1culo do amor hoje. As pr\u00f3prias palavras de Smith convidam a isso: na tentativa de explicar suas a\u00e7\u00f5es, ele declarou que \u201co amor faz voc\u00ea fazer coisas malucas!\u201d. De fato, faz, Will. Mas que tipo de amor foi esse, e qual loucura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na recente edi\u00e7\u00e3o de <em>La Cause du D\u00e9sir<\/em>, Fabi\u00e1n Fajnwaks nos lembra que, em seus \u00faltimos ensinamentos, Lacan desenvolveu uma teoria do amor bastante diferente daquela associada ao per\u00edodo da primazia do simb\u00f3lico<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Do amor como uma tentativa de troca de faltas pela media\u00e7\u00e3o do falo e, assim como o <em>manque-\u00e0-\u00eatre<\/em>, essencialmente narcisista tentativa de receber do Outro um ser compensat\u00f3rio, Fajnwaks mostra que, especialmente com a cl\u00ednica borromeana, Lacan caminhou para o amor como uma topologia de <em>connexit\u00e9<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> entre dois saberes no n\u00edvel do inconsciente <em>real<\/em>, e ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de liga\u00e7\u00e3o feita a partir do fracasso do inconsciente simb\u00f3lico para escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual. Utilizando essas coordenadas \u00fateis, onde podemos localizar o amor que parece ter inspirado Will Smith a cometer de forma bastante p\u00fablica o suic\u00eddio da sua carreira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, a famosa defini\u00e7\u00e3o de amor de Lacan como \u201cdar o que voc\u00ea n\u00e3o tem para algu\u00e9m que n\u00e3o o quer\u201d parece manter alguma aquisi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Esse aforismo inicial, claramente, gira em torno da dial\u00e9tica entre \u201cser e ter\u201d o falo e, emergindo da logifica\u00e7\u00e3o do Complexo de \u00c9dipo por Lacan, implica uma distribui\u00e7\u00e3o bastante tradicional de pap\u00e9is de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, podemos perceber que a grosseira (e nada engra\u00e7ada) piada feita por Rock \u00e0s custas de Jada Pinkett Smith tocou no fracasso do que Joan Rivi\u00e8re chamou de \u201cmascarada feminina\u201d, na medida em que ele visou a aus\u00eancia desse tra\u00e7o fetichizado da feminilidade: o cabelo. Brincando com seu p\u00fablico de cin\u00e9filos, a piada de Rock referenciava o filme <em>GI Jane<\/em>, de 1997, assim como o corte raspado militar que a atriz Demi Moore adotou para retratar a primeira mulher a completar o treinamento de opera\u00e7\u00f5es especiais do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos. Ent\u00e3o, ele comparou Pinkett Smith a uma mulher que, despojada da mascarada que \u00e9 a feminilidade, parece um homem e compete dessa maneira com os homens no terreno deles. Ainda mais, com sucesso (lembrando que Rivi\u00e8re estava interessada no uso da mascarada por mulheres cada vez mais empoderadas, como estrat\u00e9gia diante da ang\u00fastia masculina). Nesse sentido, Rock estava instigando o que Judith Butler celebremente chamou de quest\u00e3o de g\u00eanero. Sentindo isso, \u00e9 poss\u00edvel que Will Smith tenha detectado uma alus\u00e3o na piada de Rock sobre a quest\u00e3o de \u201cquem veste as cal\u00e7as\u201d em um casamento cujas dificuldades, incluindo o caso de Pinkett, foram mostradas publicamente em seu famoso programa <em>Red Table Talk Show<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo o gracejo de Rock, existiu um momento revelador de hesita\u00e7\u00e3o reminiscente do escrito sobre o Tempo L\u00f3gico de Lacan, em que um momento similar revela a estrutura da combinat\u00f3ria em que os prisioneiros se encontram<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Colaborando com o que se tornou uma conven\u00e7\u00e3o no Oscar \u2013 a que persevera em uma zombaria maliciosa nas m\u00e3os do anfitri\u00e3o, algo que teve como pioneiro o comediante brit\u00e2nico Ricky Gervais \u2013, Will Smith <em>inicialmente<\/em> riu da piada de Rock. No entanto, no segundo momento l\u00f3gico de compreender, esse riso evaporou-se completamente quando ele viu o olhar no rosto de sua esposa. Subtraindo-se ele mesmo do contrato social, tal como Freud mostrou estar envolvido em piadas, Smith pareceu se sentir compelido a mostrar ao mundo, mas acima de tudo \u00e0 sua esposa, que ele \u00e9 mais dedicado ao Um supostamente formado pelo \u2018Dois\u2019 do casal, do que ao \u2018Terceiro\u2019 impl\u00edcito pelo p\u00fablico do Oscar do qual eles faziam parte. E, tamb\u00e9m, para mostrar que, naquele casal, ela pode ser o falo para ele, mas ele o <em>tem<\/em>. Como muitos tem observado (alguns com admira\u00e7\u00e3o), o momento de conclus\u00e3o de Smith, culminando em golpear outro homem menor, mais fraco, teve a apar\u00eancia de um cavalheirismo cru: ele estava sendo um \u201chomem de fato\u201d, por defender a honra de sua esposa, como se os c\u00f3digos sociais do amor cort\u00eas medieval permanecessem ou fossem corrente nos dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas permanecem? Retomando o excelente artigo de Fajnwaks, ele conclui da seguinte forma: \u201cEstamos em uma \u00e9poca que, mais do que nunca, parece informada sobre a inexist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o sexual que pudesse ser escrita, mas que busca preencher o buraco atrav\u00e9s do excesso de gozo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. O desejo f\u00e1lico, elevado a uma arte no amor cort\u00eas, era um <em>tratamento<\/em> e uma defesa contra o gozo, mas o que parece ter sido literalmente encenado<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> por esses atores \u00e9 apenas um semblante oco disso. Quanto mais dif\u00edcil e violentamente se tenta encarnar os c\u00f3digos antigos de cavalaria do passado, quando se acreditava que o Outro existia, mais uma atua\u00e7\u00e3o [<em>acting<\/em>(<em>out<\/em>)] aparece exagerada e pouco convincente. E como uma celebridade sendo claramente gozada pelo mercado mais do que ela goza, Pinkett Smith parece incapaz de renunciar ao gozo de uma intimidade mercantilizada, exposta para consumo p\u00fablico: adepta a esse uso da mascarada que envolve mostrar tudo, ela fez quest\u00e3o de dedicar o epis\u00f3dio seguinte de <em>Red Table Talk Show<\/em> para a \u201ccura profunda\u201d necess\u00e1ria para a fam\u00edlia Smith ap\u00f3s o incidente do Oscar. Isso levou a visualiza\u00e7\u00f5es que apenas rivalizaram com o epis\u00f3dio em que o casal discutiu seu caso. Uma confessional, \u201cquase-terap\u00eautica\u201d abordagem da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, torna-se o pr\u00f3prio estilo de uma tentativa de rela\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Smith estava por sua pr\u00f3pria conta motivado por <em>l\u2019amour<\/em>, o que ele golpeou n\u00e3o foi apenas o rosto de Rock, mas sem d\u00favida o <em>amuro<\/em>: a parede que oferece uma superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o sexual, mas que simultaneamente garante que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessar\u00e1 de <em>n\u00e3o<\/em> se escrever. Na era da ascens\u00e3o ao z\u00eanite do objeto <em>a<\/em> no mercado, \u00e9 claramente dif\u00edcil n\u00e3o continuar batendo a cabe\u00e7a contra a parede desse amor que n\u00e3o admite falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: <em>Camila Abreu<\/em> &amp; <em>J\u00falia Jones<\/em> (Associadas IPB)<br \/>\nRevis\u00e3o: <em>Marcela Antelo<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Texto originalmente publicado em:<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">WRIGHT, Collin. Will Smith at the Oscars: A Slap in the Face for Love. <em>Lacanian Review Online<\/em>, Nottingham, LRO, n. 339, 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.thelacanianreviews.com\/will-smith-at-the-oscars-a-slap-in-the-face-for-love\/\">https:\/\/www.thelacanianreviews.com\/will-smith-at-the-oscars-a-slap-in-the-face-for-love\/<\/a>.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Agradecemos ao autor sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FAJNWAKS, F. L\u2019amour apr\u00e8s l\u2019amour: un amour r\u00e9el? <em>La Cause du D\u00e9sir<\/em>, Paris, ECF, n. 110, p. 65-76, 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Este \u00e9 um termo topol\u00f3gico que, em ingl\u00eas, usualmente se refere a subespa\u00e7os conectados. O ponto-chave, mais claramente na teoria de conjuntos, \u00e9 que uma conex\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mesma \u2018que uma uni\u00e3o ou interse\u00e7\u00e3o que traria elementos para uma mesma vizinhan\u00e7a\u2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Isto foi colocado no Semin\u00e1rio 5, tendo sido mais desenvolvido no Semin\u00e1rio 8.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. O tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada. (1945) In: LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 197-213.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> FAJNWAKS, 2002, <em>op. cit.<\/em>, p. 76.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Encenado na medida em que pode ser mais preciso representar o tapa de Smith como um <em>acting-out<\/em>, encenado para um Outro, do que por uma passagem ao ato pela qual tentaria sair da cena.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colin Wright Psicanalista e membro e atual secret\u00e1rio da London Society of the New Lacanian School. 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