{"id":510322,"date":"2022-06-08T11:22:53","date_gmt":"2022-06-08T14:22:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510322"},"modified":"2022-07-29T11:37:23","modified_gmt":"2022-07-29T14:37:23","slug":"o-novo-no-amor-e-o-de-sempre1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-novo-no-amor-e-o-de-sempre1\/","title":{"rendered":"O novo no amor e o de sempre1"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Christian R\u00edos y Silvia Elena Tendlarz (relatores)<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Participam: Mauricio Beltr\u00e1n, Mirta Berkoff, Nicol\u00e1s Bouso\u00f1o, Gabriela Camaly, Mariana G\u00f3mez, Marcela Mas, Kuky Mildiner, Irene Greiser, Marta Pagano, Sohar Ruiz, Luis Salamone, Daniel Sillitti, Dami\u00e1n P\u00e9rez, Agust\u00edn Barandiar\u00e1n, Rosana Salvatori.<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor sempre d\u00e1 o que falar. Mudam os significantes amos com os que se inscreve o discurso amoroso e com eles as modalidades com as que se expressa o amor, mas permanece o real que produz que se sofra e se seja feliz por amor. O contempor\u00e2neo se torna um schifter do entrela\u00e7amento do amor, do desejo e do gozo. No entanto, o que h\u00e1 de novo na express\u00e3o do amor no s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe uma teoria do amor tanto em Freud quanto em Lacan, como assim tamb\u00e9m dos avatares que encerra: paix\u00f5es loucas, ci\u00fames, infidelidades, sintomas e estragos, arroubos e outros tormentos. Amar torna felizes os amantes, mas n\u00e3o \u00e9 sem ang\u00fastia e sem temor, de fato, nunca somos t\u00e3o desventurados do que quando perdemos nosso objeto de amor, diz Freud. Independentemente da posi\u00e7\u00e3o sexuada, o parceiro se torna um sintoma, at\u00e9 mesmo um estrago, diz Lacan, posto que diante do vazio da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual o la\u00e7o amoroso \u00e9 sempre sintom\u00e1tico. Trata-se de dar um jeito com o imposs\u00edvel de nomear do gozo e com a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. A partir desta perspectiva examinamos alguns tormentos de sempre e outros de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O novo no amor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fil\u00f3sofo coreano Byung Chul-Han prop\u00f5e em <em>Agonia do Eros<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/em> que o problema do amor na atualidade \u00e9 a eros\u00e3o do Outro. O direito ao gozo de cada um vale mais do que o de qualquer outro. O eros reduzido ao real do gozo n\u00e3o s\u00f3 perfura a poesia pr\u00f3pria do amor cort\u00eas, mas produz uma deserotiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Han, a experi\u00eancia er\u00f3tica se constitui a partir da negatividade da alteridade e nesse sentido, n\u00e3o se pode amar o outro despojado de sua alteridade. A sociedade de consumo tende a fazer desaparecer a negatividade, tudo se aplana e se transforma em superf\u00edcie, dali que o Outro perde profundidade e se torna um objeto de consumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta perspectiva, o amor se torna a sede de sensa\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis, por\u00e9m se perde a dimens\u00e3o da paix\u00e3o. Dali que Han proclama com frequ\u00eancia o final do amor diante das possibilidades ilimitadas e da busca de um ideal inalcan\u00e7\u00e1vel. No inferno do igual o outro n\u00e3o tem lugar. A libido se volta para a pr\u00f3pria subjetividade e o mundo se parece a si mesmo, com um declive do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A soci\u00f3loga Eva Illouz<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> analisa, a partir de uma nota publicada no jornal <em>The Independent<\/em>, o trip\u00e9 capitalismo, consumo e autenticidade. Ali se relatam os preparativos de um homem e de uma mulher antes do primeiro encontro que esperam que culmine em um encontro sexual. Analisam seus comportamentos, o tempo, o dinheiro que suas decis\u00f5es lhes consomem e como chegar\u00e3o ao objetivo final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Illouz afirma, que o capitalismo fez da racionalidade um tra\u00e7o quase onipresente da a\u00e7\u00e3o humana. As emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o produzidas pela complexa ind\u00fastria das imagens determinadas pela cultura de consumo. Em seus desejos de se tornarem sexualmente atraentes, os sujeitos recorrem a roteiros pr\u00e9-formatados, a modelos de masculinidade e feminilidade, inscritos no pr\u00f3prio processo de consumir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 mil e uma formas de tentar fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, a racionaliza\u00e7\u00e3o do amor, sua transforma\u00e7\u00e3o em objeto de consumo s\u00e3o algumas delas. Mas sempre permanece o indiz\u00edvel, na que o Sujeito de gozo autoer\u00f3tico deixa a s\u00f3s os amantes e o amor se torna o modo de fazer com que o Eros d\u00ea um passo para o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A declina\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico, a falta de proibi\u00e7\u00e3o encarnada no NP traz como consequ\u00eancia um desencanto, uma banaliza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social, com a contrapartida do empurr\u00e3o ao porn\u00f4 que d\u00e1 conta da aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Agora, isto traz tamb\u00e9m paix\u00f5es desbordadas que n\u00e3o t\u00eam como referentes ao significante amo<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>. Por acaso pode se pensar diante da defla\u00e7\u00e3o do amor em um auge do \u00f3dio?<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u201cum novo amor\u201d, como repete Rimbault, \u00e9 signo da mudan\u00e7a do discurso, diante do real, o amor sempre \u00e9 novo, cada vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O de sempre<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente de que os ci\u00fames, as infidelidades, os arroubos e o estrago, as inibi\u00e7\u00f5es e os sintomas, assim como os tormentos e as pen\u00farias que produzem a vida amorosa, tenham sido examinados por Freud e Lacan, devemos dizer que cada caso singular n\u00e3o deixa de nos interrogar. Por isso, apesar do de sempre do amor ser a teoria do amor, o que significa que o essencial se mant\u00e9m, \u00e9 um sempre n\u00e3o tudo, j\u00e1 que os significantes amos mudam seus semblantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan estuda estes temas, ao longo de seu ensinamento, entrela\u00e7ando na cl\u00ednica os significantes amos da \u00e9poca e, em nossa atualidade, a eleva\u00e7\u00e3o ao z\u00eanite do objeto <em>a<\/em> tornando-nos consumidores. Dentro das loucuras do amor, uma mulher mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o enlouquecida com seu \u201cmalvado favorito\u201d, o consumo de coca\u00edna se mistura com o consumo da rela\u00e7\u00e3o amorosa e isto a reenvia ao estrago com sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Outra mulher mistura o consumo de drogas com a marginaliza\u00e7\u00e3o. Enquanto sua rela\u00e7\u00e3o se torna um extravio sustenta sua fantasia de salvar seu parceiro do consumo. Sustenta assim sua posi\u00e7\u00e3o de ser a \u00fanica para esse homem consumido pelas drogas, enquanto ela mesma se identifica a uma posi\u00e7\u00e3o de dejeto. Um homem consome rela\u00e7\u00f5es com mulheres degradadas. N\u00e3o h\u00e1 fantasma de salva\u00e7\u00e3o neste caso, mas exerc\u00edcio do gozo com uma mulher objeto em seu fantasma que, \u00e0 maneira freudiana, escolhe por sua degrada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado do ci\u00fame, uma s\u00e9rie de casos mostra suas manifesta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Um jovem entra em um ataque de ci\u00fame \u2014depois de ela dizer que quando toma vira \u201cputinha\u201d\u2014 quando v\u00ea no Facebook a foto de sua namorada tomando algo com seus \u201camigues\u201d. Outro jovem recebe o ass\u00e9dio ciumento de sua namorada pelo que publica no Instagram. Isso produz um efeito inibit\u00f3rio que o paralisa e o extrai do la\u00e7o com os outros. Em um terceiro caso uma jovem termina com o namorado quando uma antiga amiga dele posta no Facebook uma foto abra\u00e7ando-o pelo anivers\u00e1rio dele. Em um ataque de ira bate em um vidro e corta a m\u00e3o. Ou ela se machucava ou o machucava. E literalmente corta. Em todos estes casos de ci\u00fame, n\u00e3o s\u00f3 os corpos est\u00e3o envolvidos, mas tamb\u00e9m as imagens virtuais nas redes. O ci\u00fame se produz perante imagens que podem levar a pressupor que o desejo est\u00e1 posto em outra dire\u00e7\u00e3o. Tornam-se ci\u00fames eletr\u00f4nicos onde a paix\u00e3o da imagem vem ao lugar do gozo do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poliamor \u00e9 um significante que circula em nossa \u00e9poca. Apesar de seus ideais feministas e de sua abertura ao poliamor, uma jovem n\u00e3o pode sustent\u00e1-lo quando seu namorado \u201cfica\u201d com sua melhor amiga. Surge ent\u00e3o uma catarata de chats em uma demanda de amor que n\u00e3o consegue satisfazer e cuja resposta eletr\u00f4nica vem ao lugar da espera da carta de amor. Outro jovem a favor do poliamor \u00e9 preso pelo ci\u00fame quando seu namorado vislumbra a possibilidade de uma rela\u00e7\u00e3o com um amigo. Descobre que a multiplica\u00e7\u00e3o de parceiros an\u00f4nimos por meio do <em>Tinder<\/em> n\u00e3o \u00e9 equivalente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o monog\u00e2mica com o homem que ama, distinguindo-se assim o gozo solit\u00e1rio com homens an\u00f4nimos e a dire\u00e7\u00e3o ao Outro que encerra a experi\u00eancia amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento do corpo fica tamb\u00e9m envolvido. Um jovem encontra em uma rela\u00e7\u00e3o amorosa um al\u00edvio pontual frente a sua desordem subjetiva que repercute no corpo: cortes, tatuagens, escoria\u00e7\u00f5es. Esse amor n\u00e3o foi, mas o amor de transfer\u00eancia do dispositivo anal\u00edtico possibilitou um esbo\u00e7o de sa\u00edda sublimat\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan indica que quando um homem escolhe como parceira a uma mulher de acordo com as suas condi\u00e7\u00f5es de gozo ela pode funcionar como seu sintoma. Mas a dissimetria faz com que para uma mulher um homem pode se tornar at\u00e9 mesmo um estrago<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>. Advertimos na cl\u00ednica que o estrago feminino tem diversas caras, como o temor a perder o amor, a ang\u00fastia pelo poss\u00edvel engano, ou por n\u00e3o ser vista ou desejada. O superego feminino empurra \u00e0s vezes a uma posi\u00e7\u00e3o de humilha\u00e7\u00e3o ou a se acomodar ao modo de gozo do parceiro<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>, inclusive \u00e0 demanda do signo de amor sem limite que se torna um tormento<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. Por isso, o estrago \u00e9 a outra cara do amor<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>. O estrago ressoa tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e para todo ser falante. Do lado feminino se acrescenta a espera de receber a subst\u00e2ncia feminina do lado da m\u00e3e, que nunca \u00e9 completa<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>. Na rela\u00e7\u00e3o com o parceiro pode-se propor um &#8220;consentimento subjetivo ao estrago&#8221;. Mas, de que consentimento se trata?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu depoimento, Mar\u00eda Cristina Giraldo<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a> coloca a posi\u00e7\u00e3o do sujeito com rela\u00e7\u00e3o ao estrago materno e \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do Outro operada via a an\u00e1lise. Em seu caso, o arroubo e o\u00a0\u00eaxtase\u00a0se apresentam como dois significantes que nomeiam o empurr\u00e3o ao ilimitado do gozo feminino. Arroubo e\u00a0\u00eaxtase\u00a0se escrevem do lado do n\u00e3o-todo falo. No entanto, enquanto o arroubo parece apresentar-se como um gozo mortificante que tende ao ilimitado, no caso do\u00a0\u00eaxtase,\u00a0apesar de se tratar da experi\u00eancia de um gozo n\u00e3o-todo, o falo faz de limite.\u00a0Pode-se localizar no arroubo ao sujeito envolvido em um gozo\u00a0estragante, quer dizer, o sujeito mesmo encarnando o sem limite do estrago articulado \u00e0 loucura materna.\u00a0A an\u00e1lise lhe faz poss\u00edvel separar-se desse gozo e contar com uma satisfa\u00e7\u00e3o que para ela tem o tra\u00e7o do\u00a0\u00eaxtase em uma rela\u00e7\u00e3o com um homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos tamb\u00e9m a refer\u00eancia a alguns casos de adolescentes mulheres que se representam em uma identifica\u00e7\u00e3o ao discurso feminista atual e se amparam em seus pressupostos ideol\u00f3gicos, mas na hora de enfrentar o encontro com o outro sexo, respondem com as manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da estrutura (inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia) e se desvela que, inclusive certas\u00a0experi\u00eancias\u00a0homossexuais, s\u00e3o uma defesa diante do que envolve o encontro efetivo com o Outro sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o do corpo surge a partir do estatuto das redes na \u00e9poca atual e a pregn\u00e2ncia do peso das imagens enquanto os corpos permanecem sem se encontrar. Mas existe uma diferen\u00e7a entre a dimens\u00e3o especular do corpo \u2013imagin\u00e1rio especular com o que se arma o corpo do sujeito em sua constitui\u00e7\u00e3o subjetiva<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>\u2014, e o imagin\u00e1rio n\u00e3o\u00a0especulariz\u00e1vel\u00a0que concerne ao corpo afetado por um gozo que n\u00e3o se reflete na imagem especular e que n\u00e3o faz la\u00e7o.\u00a0Este gozo \u00e9 apresentado por Lacan como a \u201csubst\u00e2ncia gozante\u201d que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se reflete no espelho do Outro, mas que al\u00e9m disso tamb\u00e9m n\u00e3o responde \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> nas bordas er\u00f3genas do corpo.<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan situa atrav\u00e9s do arroubo\/arrebatamento em Lol V. Stein, na novela de Duras, as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com seu corpo<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a>. Laurent o coloca como um n\u00f3 l\u00f3gico no qual h\u00e1 uma expuls\u00e3o do sujeito de seu corpo<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a>. Ao mesmo tempo, em um duplo movimento, quem assiste a essa expuls\u00e3o fica contaminado. Assim \u00e9 como Lacan situa na homenagem a Duras que os arrebatados s\u00e3o o casal em uma dan\u00e7a que os solda, \u00e9 Lol e somos n\u00f3s mesmos ao sermos arrebatados por Duras com seu relato. Nesse arroubo se franqueia a fronteira do belo, a harmonia da imagem. Miller o vincula ao fato de ter um corpo, o qual pode ser subtra\u00eddo. \u00c9 um acontecimento em que se \u00e9 despojado do corpo e o ser de a tr\u00eas o amarra.<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Consentir e ceder<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que d\u00e1 testemunho a viol\u00eancia contra as mulheres e o feminic\u00eddio? A viol\u00eancia contra as mulheres e o feminic\u00eddio p\u00f5e em cena um tratamento do feminino que vai da modalidade de amores violentos at\u00e9 o assassinato. A mulher como objeto <em>a<\/em> no ponto z\u00eanite d\u00e1 conta de amores j\u00e1 n\u00e3o abordados atrav\u00e9s da poesia do amor cort\u00eas, em que se evitava o encontro com o corpo da Dama. Ao contr\u00e1rio, no feminic\u00eddio essa evita\u00e7\u00e3o toma a forma do homic\u00eddio, verificando que para um homem, pode n\u00e3o haver maior inc\u00f4modo do que o corpo de uma mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem bate em sua mulher. Ela o expulsa e depois o perdoa e volta a busc\u00e1-lo. Os ju\u00edzes que puseram uma medida de distanciamento n\u00e3o entendem estas controv\u00e9rsias. Ela \u00e9 convocada a se fazer respons\u00e1vel de seu desacato \u00e0 lei e o juiz indica um tratamento de casal, mas a analista que os recebe indica um tratamento para cada uno. O encontro com um analista faz com que ela se separe deste homem, e a permite a ele vincular os golpes em sua mulher com sua posi\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o materna. As posi\u00e7\u00f5es de gozo n\u00e3o podem ser explicadas pela lei. A rejei\u00e7\u00e3o do feminino insiste nos feminic\u00eddios nos que homens batem nesse gozo que fica por fora do falo. E por que algumas mulheres consentem os golpes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vanessa Springora, em <em>O consentimento<\/em> (2020)<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>, relata uma hist\u00f3ria testemunhal centralizada na rela\u00e7\u00e3o com Gabriel Matzneff, um famoso escritor franc\u00eas 33 anos mais velho do que ela, a quem conheceu a seus 13 anos. Com ele se inicia sexualmente. Um dia G vai para a Su\u00ed\u00e7a para fazer uma cura de rejuvenescimento e V decide ler os \u201clivros proibidos\u201d. G escreve que \u201csai para buscar bundas frescas\u201d, crian\u00e7as de 11 ou 12 anos em Manila, Filipinas. Surge ent\u00e3o a ang\u00fastia ao perceber que n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Nossa paix\u00e3o, diz V, teria sido sublime se G tivesse transgredido a lei por amor. V descobre que n\u00e3o era uma hist\u00f3ria de amor, mas seu desejo por ela fazia parte de seu v\u00edcio pelo gozo incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 25 anos se nomeia como \u201cv\u00edtima\u201d, significante que lhe permite separar-se desse gozo devastador e ficar do lado da vida. Mas, por que esta menina cede ao gozo ped\u00f3filo de G?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clotilde Leguil diferencia consentir de ceder<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>. Pregunta-se em nome de que o sujeito consente isso que n\u00e3o deseja, por que se deixa fazer, embora tenha que pagar o pre\u00e7o de uma imensa culpabilidade de existir. O livro de Camille Kouchner <em>La Familia Grande<\/em>, que denuncia o abuso de seu irm\u00e3o g\u00eameo de 13 anos pelo padrasto, nos conduz \u00e0s ra\u00edzes da experi\u00eancia enigm\u00e1tica do consentimento. Consentir n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fato de sujeito livre, antes toca o mais \u00edntimo de um sujeito que, para existir, tem necessidade de confiar em algu\u00e9m. Nesse sentido, quem trai um consentimento, manipula a confian\u00e7a e a f\u00e9 na palavra. Aos 13 anos, ter confian\u00e7a \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para existir, \u00e9 acreditar no Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V consente ao n\u00e3o escolhido e isso retorna como pergunta que culpabiliza: por que me deixei usar assim? A car\u00eancia de amor e cuidado por parte dos pais encontra um substituto em G: seu \u201ciniciador\u201d, cedendo diante da exig\u00eancia de sexualidade que ela l\u00ea como amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A demanda de amor est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia amorosa, consentir ao fantasma do outro para se fazer amar, ceder a seu gozo, inclusive a sua viol\u00eancia, faz parte das manifesta\u00e7\u00f5es manchadas por um gozo n\u00e3o dialetiz\u00e1vel. De que modo um sujeito encontra sua sa\u00edda? A experi\u00eancia anal\u00edtica, tamb\u00e9m um novo amor, poder\u00e1 dizer algo sobre isso.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Trabalho apresentado no X ENAPOL \u2013 O novo no amor \u2013 modalidades contempor\u00e2neas dos la\u00e7os sociais (8 a 10 de outubro de 2021), revisado pelos autores aos \u00a0que agradecemos a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[i] Han, Byung- Chul, <em>La agon\u00eda del Eros<\/em>, Herder, Buenos Aires, 2018.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Illouz, Eva, <em>Capitalismo, consumo y autenticidad. Las emociones como mercanc\u00eda<\/em>, katz Editores, Buenos Aires, 2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Brodsky, Graciela, <em>Pasiones Lacanianas<\/em>, Grama Ediciones, Buenos Aires, 2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Miller, Jacques Alain, \u201cRacismo\u201d, en <em>Extimidad, Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques Alain Miller,<\/em> Paid\u00f3s, Buenos Aires, pp. 43- 58.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Lacan, J., (1976-77), El Seminario, Libro 23: El sinthome, Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p. 99.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Lacan, J., (1972), \u201cTelevisi\u00f3n\u201d, en <em>Otros Escritos<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2012, p. 566.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Lacan, J., <em>El seminario, Libro 20: Aun<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2006, p. 100.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Miller, Jacques Alain, <em>El partenaire s\u00edntoma<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2008, p. 276.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Lacan, J., \u201cEl atolondradicho\u201d, en <em>Otros Escritos<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2012, p. 118.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> Giraldo, Mar\u00eda Cristina, La voz opaca, en <em>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/em> (22), Grama, Buenos Aires, 2017, pp. 50- 51.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> Lacan, Jacques, \u201cEl estadio del espejo como formador de la funci\u00f3n del yo (je) tal como se nos revela en la experiencia psicoanal\u00edtica\u201d, en <em>Escritos 1<\/em>, Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, pp. 86- 93.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> Lacan, Jacques, <em>El seminario, Libro 20: Aun<\/em>, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2006, p. 197.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> Lacan, Jacques, \u201cHomenaje a Marguerite Duras, por el arrobamiento de Lol V. Stein\u201d, en Otros Escritos, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2012, pp. 209- 216.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> Laurent, Eric, El psicoan\u00e1lisis y la elecci\u00f3n de las mujeres, Tres Haches, Buenos Aires.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> Miller, Jacques Alain, El lugar y el lazo, Paid\u00f3s, Buenos Aires, 2004.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Springora, Vanesa, <em>El consentimiento<\/em>, Editorial Lumen, Espa\u00f1a, 2020.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> Leguil, Clotilde, \u201cEl consentimiento en nombre de La familia grande\u201d, en <em>Lacan Cotidiano<\/em> (910), disponible en <a href=\"http:\/\/www.eol.org.ar\/biblioteca\/lacancotidiano\/LCcero910.pdf?fbclid=IwAR0pFs8nCyyIK8CT0X_aQtlVpdLVR1d8jZ46y_0-19nhynFnpCsaDLY\">http:\/\/www.eol.org.ar\/biblioteca\/lacancotidiano\/LCcero910.pdf?fbclid=IwAR0pFs8nCyyIK8CT0X_aQtlVpdLVR1d8jZ46y_0-19nhynFnpCsaDLY<\/a><\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f79333676f\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/O-novo-no-amor-e-o-de-sempre1-Tendlarz-Rios.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] Christian R\u00edos y Silvia Elena Tendlarz (relatores) Participam: Mauricio Beltr\u00e1n, Mirta Berkoff, Nicol\u00e1s Bouso\u00f1o, Gabriela Camaly, Mariana G\u00f3mez, Marcela Mas, Kuky Mildiner, Irene Greiser, Marta Pagano, Sohar Ruiz, Luis Salamone, Daniel Sillitti, Dami\u00e1n&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510322"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=510322"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510479,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510322\/revisions\/510479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=510322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=510322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=510322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}